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Bob Dylan – “Dylan Imparável” (reedições)

Pop-Rock 06.03.1991 – REEDIÇÕES


DYLAN IMPARÁVEL
LUÍS MAIO

(introdução)



No próximo dia 21 de Maio, Bob Dylan cumpre 50 anos de vida e completa também 30 anos de carreira discográfica na Columbia. Para comemorar o duplo aniversário, Dylan iniciou no mês passado uma pequena digressão europeia, que se admite vir a passar por Lisboa. As celebrações incluem a reedição completa da discografia, mas o seu ponto mais alto deverá ser a edição de uma colecção de títulos inéditos de nome: “The Bootleg Series, volumes 1-3”, subintitulada “Rare And Unreleased 1961-1991”.
Esta em princípio agendada para meados do próximo mês e em vinil inclui cinco LP, enquanto são três volumes em cassete ou em compacto, em qualquer dos casos incluindo um libreto de 58 páginas anotado pelo próprio Dylan e exibindo fotos inéditas do artista. As caixas serão antecedidas, em Março, do single “Series Of Dreams”, tema agora recuperado das sessões de gravação do álbum “Oh Mercy”, onde não chegou a ser incluído.
O single é simultaneamente o tema que encerra a compilação deste Dylan “desconhecido”, que corre ao longo de 230 minutos. O material incluído divide-se em quatro gavetas: meia dúzia de faixas gravadas ao vivo, quatro maquetas gravadas em casa, um par de versões acústicas de temas que, originalmente, eram electroacústicos e mais de 40 gravações alternativas de canções que constam da discografia conhecida. Registe-se ainda a curiosidade da NASA ter planeado uma edição promocional de três mil exemplares para as “Bootleg Series”, num novo material para caixas de CD chamado Nextel, edição essa que inclui mais um disco com cinco temas e libreto alternativo.
Tudo isto não é tão evidente, quando este mês se procede à completa reedição da discografia de Dylan, e a caixa, tanto quanto se percebe, é principalmente constituída pelas mesmas canções que esse lote. Mas também não é normal começar a comemorar um cinquentenário na estrada três meses antes ou o que quer que seja, pelo que o artista continua a ser notícia. Mas vamos por partes, a começar pela parcela da discografia que já chegou até nós.

A REEDIÇÃO ATÉ AQUI
FERNANDO MAGALHÃES

(daqui para baixo)

“Self-portrait”, duplo, 1970
Discos de retorno ao naturalismo, da fase “pura” do compositor. Clássicos, como “Days of 49” e “Like a Rolling Stone”, e versões de temas de Paul Simon, Gordon Lightfoot e Everly Brothers. Uma lista infinita de convidados, que incluía os amigos The Band e Al Kooper. Na época, os críticos falaram em “desperdício de talento” e argumentaram que o duplo álbum nunca deveria ter passado de simples, mas nem por isso ele deixou de alcançar o primeiro lugar nos tops ingleses. Dylan considerou-o o seu próprio disco-pirata, numa altura em que os “bootlegs” das suas actuações mais inflamadas se vendiam a preço de ouro no mercado alternativo.

“New Morning”, 1970
Considerado um ensaio de regresso à grande forma, uns magros seis meses depois do decepcionante “auto-retrato”. Era uma primeira fase de reconhecimento e de novas honrarias, de breve reconciliação com a crítica. Recapitulação de todos os géneros que previamente ajudaram a fazer a sua música: a “country” (“Winterlude”), os “blues” (“If Dogs Run Free”), os espirituais negros (“Signo n the Window”), os “rhythm’n’blues” (“One more Weekend”), o “gospel” (“Three Angels”). Iluminações que ficaram para a história como as eloquentes do seu período de recato.

“Pat Garrett And Billy The Kid”, banda sonora, 1973
Terceira incursão no mundo do cinema, após o documentário “Don’t Look Back” que registava a sua digressão inglesa, com Joan Baez e “Eat the Document”, telefime que viria a ser rejeitado pela cadeia americana ABC. Não apenas como actor secundário, num papel especialmente criado para ele, mas como autor da banda sonora do “western” de Sam Peckinpah. Dele faz parte o hino “Knockin’ on Heaven’s Door”, entoado por toda uma geração nostálgica de anteriores vivências “on the road”. Convidados especiais: Roger McGuinn, dos Byrds, e Booker T.

“Dylan (A Fool Such As I)”, 1973
Colecção de misturas alternativas e versões rejeitadas de “self-portrait”. Um expediente para satisfazer uma procura que Dylan uma vez mais frustrava, passando desta feita os primeiros anos da década de 70 num silêncio só interrompido pela chamada de George Harrison ao concerto para o Bangladesh, em 1971.

“Blood On The Tracks”, 1974
Amores falhados, divórcio, confusão, parece que tiveram um efeito benéfico sobre Dylan, que investiu ainda em maior profundidade nas palavras, como forma de exorcizar fantasmas. Há quem compare a qualidade destes poemas a “Blonde On Blonde” e “John Wesley Harding”. Álbum de ambientes folk, concedendo o espaço que é preciso à guitarra acústica e à respiração pausada dos poemas. Dylan canta aqui o amor e as cicatrizes que este deixa quando seca. Também um adeus como vido aos dias dourados dos “sixties”, quando havia “música, à noite, nos cafés, e revolução no ar” e o espanto diante daqueles que estão para vir.

“Saved”, 1980
Convertido ao cristianismo depois do álbum do ano anterior, “Slow Train Coming”, Dylan não deve ter convencido ninguém com esta sua (auto-)salvação. O segundo disco do “novo cristão” não vendeu – foi, aliás, o maior fracasso comercial da sua carreira. Três anos mais tarde, em espectacular golpe de rins religioso, reconsiderou e regressou às antigas crenças de judeu convicto. Na época de “Saved”, porém, Dylan chegou ao ponto de recusar tocar ao vivo canções do período “pré-cristão”. Na capa interior cita-se Jeremias, capítulo 31. Os putos queriam era rock.

“Real Live”, 1984
Gravado ao vivo. Pouco importante quando comparado a “Live At The Budokan” ou “Before The Flood”. Versões de “Highway 61 Revisited”, “Tangled Up In Blue” e “Masters of War”. Guitarristas ilustres: Mick Taylor, dos Rolling Stones, e Carlos Santana (em “Tombstone Blues”). Dylan tinha já entrado no sistema da digressão permanente, alternando as velhas glórias com as novas insignificâncias.

“Empire Burlesque”, 1985
Rendição à modernidade. Depois de Mark Knopfler e antes de Dave Stewart e Daniel Lanois, a produção foi aqui confiada a Arthur Baker. Ainda a presença dos “sabidões” Sly Dunbar e Robbie Shakespeare e de membros da banda de Tom Petty, os Heartbreakers. Dylan procura, desde os finais dos anos 70, ser ele mesmo, inspirando-se na luz de sumidades posteriores. E com Baker as coisas funcionaram ao ponto de este álbum ter sido o seu maior sucesso comercial da década de 80. Não obstou, porém, a que se multiplicassem as histórias que desancavam o mito. O que também não impede que Dylan continue a gravar e tocar ao vivo. Vive num universo fechado e de difícil acesso. É um eremita em digressão permanente pelos estádios do mundo, esse género de paradoxo.

Robert Fripp and tje League of Crafty Guitarists – “Concerto da ‘Liga Dos Guitarristas Habilidosos’ – Robert Fripp Actua Em Lisboa”

Secção Cultura Sexta-Feira, 01.03.1991


Concerto da “Liga Dos Guitarristas Habilidosos”
Robert Fripp Actua Em Lisboa


Robert Fripp actua em Lisboa no próximo dia 15 de Abril, em local ainda por confirmar, num espectáculo único organizado por Hernâni Miguel / Contraverso. Acompanham o antigo guitarrista dos King Crimson, a League of Crafty Guitarists, constituída por onze executantes do instrumento, seus discípulos e antigos alunos de seminário.
Fripp é unanimemente considerado, depois de Hendrix, um dos grandes inovadores da guitarra eléctrica e nomeadamente da técnica por si inventada a que chamou “Frippertronics” – um sistema de interface entre a guitarra e uma série de gravadores e controladores de som que permite a criação de ciclos repetitivos e estruturas tonais susceptíveis de múltiplas manipulações.
Fundador de uma das bandas mais importantes do denominado “rock progressivo” dos anos Setenta, os King Crimson, (actuação memorável, em Agosto de 1982, no estádio do Restelo, antes dos Roxy Music) com os quais assina obras capitais como “In The Wake Of Poseidon”, “Lizard” ou, em fases posteriores, “Larks’ Tongues In Aspic”, “Red” e “Discipline”, Robert Fripp gravaria posteriormente a solo uma trilogia em que profetizava mudanças radicais para a sociedade ocidental na década de Oitenta (“Exposure”, “God Save The Queen / Under Heavy Manners” e “Let The Power Fall”).
Associa-se a Brian Eno na feitura de dois discos experimentais e obscuros: “No Pussyfootin’” – primeiro em que utiliza as frippertronics – e “Evening Star”. Com Andy Summers, dos Police, grava “I Advance Masked” e “Bewitched”. Participa como músico convidado em discos de Peter Hammill, Peter Gabriel, David Bowie, Talking Heads, Blondie e Toyah Wilcox (com quem viria a casar).

Práticas Tântricas

A meio da década de 80 retira-se para um mosteiro em Inglaterra, dedicando-se a meditação e a práticas tântricas de autodisciplina inspiradas nas doutrinas de J. G. Bennett, discípulo de Gurdjieff. A partir de 1985 dá aulas de guitarra e realiza seminários sobre novas técnicas para o instrumento. Escolhe alguns dos seus melhores alunos e forma a League of Crafty Guitarists, grupo que a partir de então o tem regularmente acompanhado em actuações ao vivo. “Robert Fripp and the League of Crafty Guitarists”, de 1986, é até agora o único registo discográfico desta formação.
Desenvolvendo-se segundo combinações instrumentais que vão desde o simples dueto até complexas polirritmias e explorações tímbricas praticadas pela totalidade dos doze intérpretes, a música da “Liga dos guitarristas habilidosos” é o contraponto estético e estilístico da visão “brutista” e totalitária das orquestrações para guitarra eléctrica, de Glenn Branca. Abril, em Lisboa, as guitarras vão cantar.

Iggy Pop – “A Fera Amansada” (artigo de opinião)

Pop-Rock 27.02.1991


A Fera Amansada

“Sou o rapaz ignorado pelo mundo, aquele que só tenta destruir” – palavras de Iggy Pop, de seu verdadeiro nome James Newell Osterberg. Hoje já não será tanto assim, alargada a distância entre o homem e o mito. Sexta-feira, em Lisboa, sábado no Porto, o fundador dos Stooges regressa, passados dez anos, a Portugal, para duas actuações nos Coliseus (ditos de recreio), onde normalmente se exibem as feras.



Iggy Pop representa (ou representou) o lado mais niilista da música rock. Recusou sempre o supérfluo, as modas, a facilidade. A sua vida (que em parte se confunde com a obra) tem sido uma montanha-russa em que normalmente o carro se solta dos carris. Sobreviveu às sucessivas quedas. Eleito padrinho pelos punks, gostava de se autoflagelar e cortar com lâminas ou cacos de garrafa. Não seria da nossa conta se não o tivesse feito sobre o palco. Orgulha-se do corpo que tem e exibe-o sem vergonha, também sobre o palco. Mesmo sem querer, acaba sempre por dar espectáculo.

O Retorno A Si

Recentemente actuou em Inglaterra, na Brixton Academy em Londres e na Escócia, na Glasgow Barrowlands, ao lado dos That Petrol Emotion, em concertos que a crítica louvou e onde o público delirou. Aparentemente a pose mantém-se inalterável: o corte de cabelo de sempre, olhos desmesurados, o tronco nu e cicatrizado enfiado numas “jeans” rotas e desbotadas que teimam em querer escorregar pelas pernas abaixo.
E as canções, claro, as antigas e as novas, do recente “Brick By Brick”. Canções ternas e duras: “Raw Power”, “Loose”, “Dirt”, “No Fun”, “I Wanna Be Your Dog”, “Lust For Life”, “China Girl”.
“Brick By Brick”, gravado para a multinacional Virgin, quebra a tendência “clean” de “Blah Blah Blah”, funcionando como catarse autobiográfica do “anarquista rock” por excelência, como lhe chamou há anos Lester Bangs em artigo publicado na “Village Voice”. Apoiaram-no no empreendimento, entre outros, Slash e Duff McKagan, dos Gun ‘n’ Roses, Kenny Aronoff, da banda de John Cougar Mellencamp, John Hiatt e a vocalista dos B-52’s, Kate Piersen. Sobre a sua nova atitude perante a vida são esclarecedoras as declarações que então proferiu, relativas a “Something Wild”, uma das canções do disco: Trata-se da “história de um tipo que se sente tudo menos confortável sobre as suas responsabilidades como adulto. É o equivalente humano a um animal selvagem recém-domesticado que não quer ficar no quintal. Às vezes quer, outras não. Isto exprime bem como me sinto actualmente. Estou no quintal, mas não tenho a certeza de quanto tempo vou ficar. Provavelmente até fico, mas a luta é enorme”. Significativo.

Anjo Maldito

Iggy Pop nasceu em Detroit, filho de uma família típica da classe média americana. Fez parte de um grupo de escuteiros. Depois descarrilou. Com os Iguanas ganhou o epíteto que nunca mais o abandonaria. Quando “Fun House” e “Raw Power” rebentaram como bombas na cena pop anglo-americana (respectivamente em 1970 e 1973, em pleno período áureo dos “sinfonismos” progressivos), o rock ‘n’ rol nunca mais voltou a ser o mesmo. Seis anos antes de os punks ensaiarem os primeiros passos, já Iggy dominava o ruído, a velocidade e a distorção, aplicando-os à música e ao corpo por igual.
Era a época dos excessos, a todos os níveis – entre a dor e o prazer máximos -, do consumo desenfreado de ácool e heroína. Os Stooges não aguentaram o andamento e abandonaram. O que tinham a dizer, disseram-no em pouco tempo. Iggy Pop perdeu todos os contactos que o ligavam aos antigos companheiros, com os quais, afirma, nada tem hoje em comum, apelidando-os de “gordos, bêbedos incontinentes e dependentes da metadona”, o que aconteceu, de resto, a quase toda a gente com quem trabalhou. “Os velhos tempos morreram” – como gosta de dizer.
Talvez não o pudesse ter dito se não lhe tivesse aparecido um anjo da guarda na altura certa. Esse anjo apareceu e chamava-se David Bowie. Anjo, também ele com problemas de droga – no caso a cocaína. Só que Bowie tinha a capacidade de se inventar e libertar da própria pele, como se fosse ele afinal o verdadeiro iguana. Libertou-se e libertou o amigo, anjo como ele mas da casta dos malditos. Foi buscar Iggy ao hospital psiquiátrico onde apodrecia e, se calhar, tirando-o do inferno. Partiram juntos para Berlim e daí para França, onde, em 76, gravaram “The Idiot”, primeiro trabalho de Iggy Pop sem os Stooges. Depois seriam obras fundamentais como “Lust For Life” (77), “New Values” (78) e, dez anos mais tarde, “Instinct”, de 88. Pelo meio ficavam “Soldier” (80), “Party” (81), “Zombie Birdhouse” (82), “Blah Blah Blah” (86) e o “pirata” “Metallic K.O.” (74, registo ao vivo do derradeiro concerto dos Stooges, no Michigan Theatre de Detroit).
Muits histórias haveria ainda para contar, das mais sórdidas às sublimes. Enfrentando a década de 90 com o entusiasmo e a energia que sempre o caracterizaram, Iggy Pop parece finalmente ter aprendido a crescer, assumindo a paternidade de um filho nascido de uma relação antiga com uma “groupie” e recusando de vez os consumos ilegais. Refere-se à presente fase da sua carreira como “acessível”, “compreensiva” e “adaptável” e a si próprio como “homem casado que paga os seus impostos e faz o seu trabalho cuidadosamente”. Em todo o caso, talvez seja melhor desconfiar.