Arquivo mensal: Outubro 2025

Del Amitri – “Twisted”

pop rock >> quarta-feira >> 29.03.1995


Del Amitri
Twisted
A&M, DISTRI. POLYGRAM



Não faz mal, de vez em quando e sem abusos, saborear música tão simples como a dos Del Amitri. Canções pop, por vezes forte, iguais a tantas outras de há muitos anos atrás, com as velhas guitarras, um baixo, uma bateria e uns rapazes a cantarem sobre as coisas da vida. Basta arranjar “Food for songs”, como eles dizem logo no tema de abertura. Há quem compare os Del Amitri aos Faces, de Rod Stewart, e a comparação até faz algum sentido quando se escuta uma faixa como “Here and now”.
Claroq eu outros menos complacentes exclamarão que discos deste tipo são atrasos de vida e temas como “One thing left to do” têm como função exclusiva servir de pano de fundo a manobras amorosas de adolescentes, ou que “It’s never too late to be alone” e “Driving with the brakes on” não passam de vulgar “MOR” (“middle of the road”, música ligeira sem pretensões). Em contrapartida “Roll to me” poderia ser arrancado às memórias de Joe Jackson, “Tell her this” soa como se fosse nossa conhecida desde que nascemos, e “Being somebody else” ou “Never enough”, após repetidas audições, ameaçam colar-se aos ouvidos e aí permanecerem durante mais tempo do que desejaríamos. Tudo somado faz de “Twisted”, por acaso produzido por Al Clay, um homem que já trabalhou com Frank Black e os Pere Ubu, um daqueles discos que se ouvem com um sorriso nos lábios. Afinal não foi também para isto que se inventou a música pop? (5)

Vários – “‘INDIES’ CONTRA A PULVERIZAÇÃO” (feira de editoras Seixal – presente)

pop rock >> quarta-feira >> 22.03.1995


“INDIES” CONTRA A PULVERIZAÇÃO



PELO MENOS 14 SELOS INDEPENDENTES JÁ SE INSCREVERAM no Indies Forum, primeiro encontro nacional de editoras discográficas independentes, que decorrerá no fim-de-semana de 24 a 26 deste mês, no Seixal, uma iniciativa integrada no Festival da Juventude, de genérico Março Jovem, deste concelho, com organização da Antena Portuguesa do Printemps de Bourges, Ama Romanta, Farol, El Tatu, Música Alternativa, Dark Records, Drunk Records, Margem Esquerda, MTM, Projecto Gloobal, Morgana Records, Symbiose, MoneyLand, Johnny Blue e In-Édita vão deste modo estar representadas “pessoalmente, através dos seus editores”, ao mesmo tempo que têm garantido “um espaço de exposição, onde vão estar os discos para serem vendidos”, diz Tim, o vovalista dos Xutos & Pontapés, proprietário do selo El Tatu e um dos organizadores do encontro.
“Juntar as pessoas e tentar encontrar caminhos comuns” para as editoras independentes é o principal objectivo deste certame, que, entre concertos e debates abrirá, na sexta-feira, com uma actuação do pianista Mário Laginha. Será também a oportunidade para “a divulgação das editoras e dos seus projectos musicais”. Segundo Tim, “já houve avanços de propostas” a apresentar à mesa, onde serão discutidos temas como a colocação, distribuição e venda de discos, em Portugal e no estrangeiro, neste caso em “feiras e mostras que estão à espera de uma apresentação de catálogos nacionais”. Algo que, “isoladamente, é impossível de atingir”.
A criação de uma estrutura associativa para os selos independentes é, em concordância com estes objectivos, outra das ideias que serão lançadas e debatidas neste fórum, uma vez que Tim gostaria que se fizesse a discussão sobre “se vale a pena utilizar as estruturas já existentes” ou se, pelo contrário, é desejável “fazer uma associação à parte, em concorrência”. “A tendência para a pulverização chegou a um limite”, diz Tim, se bem que recuse a solução simples de “importar os modelos completos, americanos ou ingleses”, em que as independentes são nalguns casos subsidiárias das grandes companhias. “Aqui em Portugal, o que aconteceu sempre que as multinacionais tentaram distribuir editoras independentes foi que as coisas correram mal para estas últimas. Os volumes de vendas nunca foram significativos. Embora agora se comece a ver a coisa por outro lado, em que não é só a venda que precisa de ser incentivada, mas também um outro tipo de trabalho.”
“Vamos entrar num degrau da escada que talvez faltasse ou estivesse um pouco subvertido. Por isso mesmo é que todas estas pequenas editoras têm de tomar conhecimento do que vai acontecer”, explica o músico, atento aos problemas que quase sempre envolvem a gravação dos primeiros discos de bandas novas. Preocupação esta que, aliás, está na base da criação da El Tatu, responsável pelo lançamento, entre outros nomes, dos Ex-Votos, Ena Pá 2000, Lulu Blind, Censurados e Tomás Pimentel.
O Indies Forum inclui, no sábado à noite, na Sociedade Filarmónica Operária Amorense, um espectáculo com a designação “Interferências”, em que irão tocar os Bizarra Locomotiva, Corrosão Caótica e More República Masónica (ver notícia nas primeiras páginas). No domingo, ao longo de todo o dia, será a vez de bandas menos conhecidas mostrarem o que valem, num palco de rua, e incluindo-se numa maratona que contará com a colaboração do Johnny Guitar.

Ficções – “FICÇÕES TELEPÁTICAS”

pop rock >> quarta-feira >> 15.03.1995


FICÇÕES TELEPÁTICAS



“DANÇA DA LUA” É O TÍTULO DO SEGUNDO álbum do grupo Ficções, com lançamento previsto para finais da Primavera e selo Polygram. Ao contrário do disco de estreia, em que participou cerca de uma dezena de convidados, o novo registo tira maior partido das possibilidades interpretativas e de diálogo entre os três principais músicos da banda, Rui Luís Pereira (Dudas), na guitarra e kalimba, Yuri Daniel, baixo eléctrico, e Alexandre Frazão, bateria e percussões, aos quais se juntaram, nas gravações, o teclista Alexandre Manaia e o saxofonista-soprano Jorge Reis. “Há temas muito mais improvisados”, diz Dudas, destacando neste novo álbum “uma maior liberdade” e “uma sonoridade mais crua”. “Porque é que a gente há-de tocar todos ao molho e fé em Deus?”, pergunta Dudas, aludindo aos temas baseados no trio guitarra, baixo e bateria. Alexandre Frazão refere mesmo uma “empatia telepática” existente entre os músicos, fruto de um conhecimento mútuo que foi crescendo ao longo dos sete anos que os Ficções já levam de exist~encia. “Não é preciso dizer o que o outro vai fazer. As coisas simplesmente acontecem.”
De um disco para outro transitou a apetência dos Ficções pelos sons de tradições musicais não ocidentais, nomeadamente do Brasil, África e Oriente. “Dança da Lua” inclui um “Choro espreguiçado”, de influência brasileira, uma “Dança crioula” e outros temas, como “Tao”, “Kwela p’ró Mandela” e “Zambra”, que remetem para ficções sonoras em que se cruzam linhas de força musicais de proveniências diversas. Há mesmo a interpretação de um tema do alaudista árabe Rabih Abou Khalil, “Nadim”, e a presença de um tocador de kora guineense, Sadjo Djolo Koiaté, em “Kalimba II”, continuação de um tema do mesmo nome presente no primeiro disco da banda. “É uma filosofia que a gente tem, o que nos define, estarmos virados para o Atlântico. Há a procura musical e até filosófica, de fundir vários elementos que têm a ver connosco. Na nossa música está patente a diáspora da cultura portuguesa”, explica Dudas, enquanto o baterista diz que se trata apenas de “sintetizar” tudo aquilo de que o grupo gosta.
Em “Danças da Lua”, obra inteiramente instrumental, as sonoridades étnicas do kora ou da kalimba entram em diálogo com as novas tecnologias, como a nova guitarra Midi que Dudas adquiriu recentemente em França. “Procuramos sempre referências étnicas. O facto de se usar um sintetizador permite trabalhar esses timbres. Uma das componentes da nossa composição é a pesquisa tímbrica. A mistura dos timbres electróncios com os acústicos.”
Pouco divulgada em Portugal, em parte “por culpa dos ‘media’, que nunca deram muito apoio”, mas também devido à dificuldade extra de ser instrumental, é no estrangeiro que a música dos Ficções tem sido mais bem recebida, sendo colocada ao lado de experiências de fusão do mesmo tipo e comparada a nomes como Vicente Mendonza, Carlos Benavente ou Jorge Pardo. Em França, por exemplo, houve quem definisse o som do grupo como “nova música mediterrânica”. Mesmo assim, o primeiro disco teve, segundo dizem, “um sucesso razoável”, traduzido em vendas na ordem dos 1300 exemplares. “É o primeiro grupo instrumental que chega ao segundo disco”, afirma, com orgulho, Alexandre Frazão. “Somos teimosos, queremos que as pessoas prestem mais atenção ao que fazemos.”