Arquivo mensal: Fevereiro 2025

Sarband – “Llibre Vermell De Monserrat”

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


ORAÇÃO EM VERMELHO

Sarband
Llibre Vermell De Monserrat (8)
Jaro, distri. Megamúsica



Na essência, a emoção provocada pela audição de música antiga não difere da causada pela música tradicional. Por este motivo, cada vez são em maior número os apreciadores de um e outro género que procuram alimento espiritual do outro lado. Não sendo, de modo algum, especialista no campo das músicas medieval e da Renascença, há, no entanto, discos da chamada música antiga que tocam de maneira especial. Os leitores que, ao longo dos meses ou dos anos, têm acompanhado esta aventura pelas músicas do mundo, em particular as europeias, saberão decerto retirar da audição deste, como dos restantes discos recenseados nesta página, o mesmo prazer e compreender a intimidade existente entre estes sons e a música de nomes como os Ciapa Rusa, Perlinpinpin Folc, Lo Jai, Melusine, Malicorne, Milladoiro ou Noirin Ni Riain, entre tantos outros.
Os Sarband nem sequer são puristas. Vladimir Ivanhoff, líder da formação, é o mesmo que já havia inventado o conceito de música electrónica medieval, nos Vox, e introduzido a nota de diferença num disco de vozes búlgaras pelo Bulgarian Female State Choir.
Em “Llibre Vermell de Monserrat” – documento litúrgico que inclui dez peças musicais anotadas entre 1396 e 1399, descoberto na biblioteca do mosteiro beneditino de Monserrat, na Catalunha, dedicado ao culto da Virgem Maria e, desde o século XIII, tornado, juntamente com Santiago de Compostela, um dos principais locais de peregrinação em Espanha -, subintitulado “Cants del Romeus”, terceiro trabalho dos Sarband depois de “Cantico” e “Music of the Emperors”, não há, bem entendido, “samplers” nem sintetizadores. Enquanto, nos Vox Ivanhoff, procurava no artifício e nas técnicas de estúdio a nota extra de espiritualidade, nos Sarband terá compreendido que a voz do espírito necessita apenas, para se materializar, de vozes humanas afinadas com o Divino.
É o que acontece no “Llibre Vermell de Monserrat”, onde o canto de elevação dos peregrinos (neste caso, de quatro peregrinas do século XX) não impede, de forma alguma, antes se completa no elemento profano que se manifesta na instrumentação tipicamente medieval: “vielle” (violino arcaico, não confundir com am “vielle a roue”, sanfona em francês), sanfona, “shawm” (antepassado da bombarda), saltério, percussões europeias e árabes da época, “cornetto”, alaúde, gaita-de-foles e órgão, no fundo, alguns dos timbres característicos da música tradicional.
Se os Sarband se revelam proficientes no capítulo das danças instrumentais, é, porem, pela subtileza do canto, potenciado pela reverberação natural da catedral Osnabrük, na Alemanha, que o colectivo de Vladimir Ivanhoff se distingue, levando a regiões de pura beatitude o mesmo género de reverberações vocais que os “tradicionalistas” já conhecem de Noirin Ni Riain ou dos Anúna. Uma oração em vermelho.

Nick Cave + The Cruel Sea – “O Poeta Carrasco” (concerto – perspectiva)

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


O POETA CARRASCO

O “cabaret” tem agora sessões regulares, mas a experiência continua a ser única. Deixe-se entrar o amor ou o que quer que seja que queima. E dói. Nick Cave e os Bad Seeds vêm de novo atormentar Portugal.

Com certeza que não vão aparecer o Pedro, nem a Madalena, alguns dos amigos brasileiros de São Paulo, mas vão estar o compincha de Berlim, Blixa Bargeld, das demolições Neubauten, e Mick Harvey, representante dos Crime & City Solution. Senhoras e senhores amantes dos divertimentos decrépitos, aí está de regresso Nick Cave, o “entertainer” decadente, o diabo atrás da porta, o exemplo do que não queremos que sejam os nossos filhos.
Sim, Nick Cave vem de novo espalhar as suas sementes do mal a Portugal. Dois anos depois dos coliseus de Lisboa e do Porto, o “cabaret” da infâmia volta a abrir portas a este anjo do bizarro que ainda há pouco lançou no mercado nacional um novo álbum de canções, “Let Love In”. Que são “de amor”, diz ele.
Assegura quem já o viu actuar nos últimos tempos que cada espectáculo actual de Nick Cave é uma fotocópia do anterior. Segundo parece, o circo de aberrações tornou-se uma mistura inteligente de simulação e profissionalismo. Os alinhamentos, as poses, as provocações, reproduzem com minúcia um plano previamente delineado. Mas que importa, se o resultado continua a compensar o investimento emocional e a encenação da festa do horror funciona ainda como moeda de troca para mil fúrias e revoltas contidas.
Concedamos, Nick Cave também já não é o mesmo que era nos anos de fogo dos Birthday Party. O australiano intelectualizou-se, como se costuma dizer. Andou a ver bons filmes, de preferência de Wim Wenders, que até lhe arranjou trabalho, a ler bons livros, e chegou mesmo a escrever um, “And the Ass Saw the Angel”, que é como quem diz, na tradução portuguesa, “E o Burro viu o Anjo”. O carrasco virou poeta.
Depois, Cave viajou muito. Descobriu outros cenários desolados. Outros desertos além dos da Austrália e dos seus próprios interiores. Dos lugares por onde passou, Nick Cave reteve sobretudo Berlim. A sua tradição do “cabaret”, as suas ruínas e memórias de destruição, o seu passado cortado ao meio e finalmente reunificado num mutante monstruoso e sedento de Ocidente. Em São Paulo, encontrou Cave uma espécie de paz podre, a sintonia tropical com as forças da Natureza, a sensualidade hedonista sem culpa nem pecado, à flor da pele.
Nick Cave forjou então novas máscaras e envergou trajes elegantes. Tornou-se evangelista e pregador, um moralista em que não custa muito não acreditar. O sussurro abraçou o grito. Para trás, não tanto como possa parecer à primeira vista, ficaram as labaredas do inferno dos Birthday Party, substituídas por uma nova consciência e maneira de cantar as coisas. Nascia o “crooner”, o contador de histórias cheias de ambiguidade, o existencialista pós-moderno que cultiva com requinte a autodestruição, mas apenas no papel. Antes a vida doía a Nick Cave. Agora compete-lhe descrever com toda a arte que for possível os princípios metafísicos da dor.
Não que isso seja o mais importante. Nick Cave pode até transformar-se, o que decerto não é o caso, no rei dos hipócritas que tal não anula que “Let Love In” seja um álbum magnífico, talvez um dos seus melhores de sempre. Digamos antes que, pese embora a queimadura imediata provocada pelo metal em brasa de algumas faixas do novo álbum, a idade ensinou a este fabricante de sonhos empestados ema forma mais melíflua e insinuante de fazer passar o niilismo da mensagem.
O diabo, já tivemos oportunidade de o dizer várias vezes, é inteligente e sabe adaptar-se com rapidez à alteração das situações. Essa é de resto uma das suas maiores aptidões. Nada melhor então do que acenar com uma carta de amor na mão ou soltar um lancinante “perdoa-me!” para nos convencer de que o demónio se transfigurou num anjo. Mas que ninguém se iluda. Ontem como hoje, ouve-se Nick Cave por própria conta e risco.



NICK CAVE + THE CRUEL SEA
10 de Junho, Coliseu dos Recreios, Lisboa
11 de Junho, Coliseu do Porto

La Reverdie – “O Tu Chara Sciença – Musique de la Pensée Médiévale”

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


La Reverdie
O Tu Chara Sciença – Musique de la Pensée Médiévale
Arcana, distri. Megamúsica



“O Tu Chara Sciença” é um manifesto sublime da chamada “Ars Musica”, da Idade Média. Tudo começou muito antes de serem construídas as catedrais da Europa, quando um grego chamado Pitágoras ensinou que a essência de todas as coisas era o número. Uma matemática não exclusivamente conceptual e abstracta, embora obviamente lidando com relações e equilíbrios, logo, com harmonias. A ideia de harmonia era muito importante na Idade Média. A música (movimento, vibração), por via de Pitágoras e, mais tarde, de Platão, era considerada (e muito bem, como diria o compositor contemporâneo Xenakis), a expressão das relações matemáticas entre os sons. A “Ars musica”, expressão latina da escolástica medieval, aplicável a uma série de conhecimentos matemáticos em geral, estudava e procurava pôr em prática estas relações. Havia três modalidades: a “musica mundana” ou “musica celestis”, que estudava as relações e a música produzida pelos corpos celestes (Holst partiu desta ideia para compor a sua célebre composição “Os planetas”), a “musica humana”, que estudava as relações entre o corpo e a alma e as proporções entre ambos que regulavam a personalidade humana, e, finalmente, a “musica terrestres” ou “instrumentalis” – referindo-se o termo “instrumento” tanto aos artefactos sonoros artificiais como à voz humana -, que buscava o entendimento das relações possíveis entre os sons que podiam ser produzidos neste mundo. Em “O Tu Chara Sciença”, a voz (quatro vozes femininas e uma masculina) ocupa o lugar de maior proeminência, em cânones e floreados intricados em conjunto com onomatopeias, gritos e interjeições que procuravam reproduzir cenas ou acontecimentos bucólicos como um cantar de um pássaro, cenas de caça e de pesca, ou uma rapariga colhendo uma flor. “A poste mese” e “Or sus, vous dormez trop” demonstram até que ponto certas técnicas vocais de Meredith Monk são devedoras desta música. Os restantes instrumentos – alaúde, symphonia (sanfona medieval), flautas de bisel, “vielle”, rabeca, “cornetto” e harpa – funcionam como contraponto ou pano de fundo ambientais. Há uma complexidade formal que estabelece o contraste entre este disco e uma segunda obra dos La Reverdie, também disponível em Portugal, “Speculum Amoris – Lyrique de l’Amour Médiéval du Mysticisme à l’Érotisme”, na qual a depuração e a meditação contemplativa estabelecem outros paradigmas da arte medieval, enquanto o disco agora em análise recria formas como o “virelai” o “conductus” e o madrigal, culminando, em termos da tal complexidade, no motete, estrutura harmónica coincidente com o grau máximo da polifonia na “ars musica”. Dividida em três partes – “Musica terrestres”, “Ars musica” e “Laudatio Dei” -, “O Tu Chara Sciença” inclui composições de autores franceses e italianos do século XIV e proporciona o vislumbre, sobre um céu azul sem nuvens, da beleza no seu estado mais elevado. Fechemos os olhos e percamo-nos neste labirinto de harmonias que conduzem ao paraíso. Sem fazer contas. (8)