Arquivo mensal: Dezembro 2024

Dolores Keane e Kathryn Tickell – “Dolores Keane E Kathryn Tickell – 7 de Maio, Coliseu dos Recreios, Lisboa”

pop rock >> quarta-feira >> 04.05.1994


A Dama E A Vagabunda

Dolores Keane (na foto) E Kathryn Tickell
7 de Maio, Coliseu dos Recreios, Lisboa



Dolores Keane e Kathryn Tickell. Uma voz da Irlanda, uma gaita-de-foles de Northumberland, Inglaterra. Duas gerações da melhor música tradicional britânica em confronto. Veterana e caloira arriscam outros passos, fora da tradição.

Marcado inicialmente para 8 de Maio na Aula Magna, o concerto de Dolores Keane e Kathryn Tickell foi antecipado um dia, 7 de Maio, no Coliseu dos Recreios. A organização deste espectáculo, integrado na actividades de Lisboa-94, justificou a alteração da data e do local com a necessidade de arranjar um recinto com maior lotação. “A Aula Magna era um local com lotação limitada para a importância do espectáculo”, disse um porta-voz da organização. Mas então não viram isso logo de início?
Subordinado ao tema “A mulher na música popular”, de resto o mesmo da última edição do Festival Intercéltico do Porto, o concerto promete muito, imenso mesmo, se não acontecerem os imponderáveis que mancharam anteriores iniciativas no campo da música folk promovidas com o apoio da edilidade lisboeta. Para já, o programa oficial de Lisboa-94 relativo aos meses de Abril e Maio incorre, no âmbito limitado deste concerto, num equívoco grave, para não dizer na desinformação. Assim Kathryn Tickell é apresentada como sendo apenas uma violinista da escola de Shetland (“fiddle”, que é o seu segundo instrumento) sem se fazer qualquer referência à “Northumbran pipes”, modalidade de gaita-de-foles característica da região de Northumberland (a mais “céltica” de Inglaterra, nas palavras da artista), situada no Norte do país, na qual Tickell se notabilizou como solista. Kathryn Tickell vem a Portugal acompanhada da sua nova banda, da qual fazem parte a acordeonista Karen Tweed, o baixista Geoff Lincoln e o guitarrista Ian Carr (não, não é o trompetista dos Nucleus com o mesmo nome…). Bastante jovem (25 anos) e bonita, vagabunda na estética e nos gostos – Prince, XTC, Talking Heads, Ornette Coleman, Ian Dury, Sharon Shannon, já para não falar num tema do seu reportório que utiliza um “riff” de baixo dos Hot Chocolate -, Kathryn Tickell possui o carisma e o talento que a poderão levar ao estrelato. Para já tem sabido rodear-se de boas companhias, tendo colaborado com Sting no álbum “Soul Cages” e, na área da folk, com os doutores Chieftains, em “The Bells of Dublin”. A propósito deste álbum merece a pena vê-la, num dos momentos de maior magia do vídeo de longa duração feito sobre o disco, a manter um diálogo descomplexado com o grande-mestre das “Uillean pipes” Paddy Moloney. O velhinho e o borracho em completa sintonia. De discos em nome próprio de Kathryn Tickell é que estamos mal servidos. Nem 2Common Ground” nem o recente “Signs” chegaram até agora a Portugal. Talvez na altura do concerto…
Dolores Keane, ao contrário da mocinha da gaita, é uma veterana. Uma grande dama, como se costuma dizer, do canto tradicional da Irlanda. Nascida no seio de uma família de músicos (a mãe é outra senhora cantora, como se viu, a ela e à filha, no documentário “Bringing It All Back Home”, e o irmão mais novo, coitado, mais modesto, acabou de lançar um álbum apenas engraçado, “All Heart No Roses”), Dolores cantou com os Reel Union, datando de 1978, com esta formação, o seu primeiro e esplendoroso álbum a solo, intitulado “There Was A Maid”. Fez parte de uma das bandas emblemáticas do “British folk revival” dos anos 70, os De Danann, com os quais gravou em 1975 o álbum de estreia “De Danann”, regressando dez anos mais tarde, em “Anthem”, de 1985, e “Ballroom”, de 1987 na companhia de outras duas notáveis cantoras, Mary Black e Maura O’Connell. Os Chieftains acolheram-na no único dos seus álbuns onde está presente uma voz feminina, “Bonaparte’s Retreat” (correspondente ao volume VI da discografia do grupo). Mas foi em parceria com o seu marido e guitarrista John Faulkner que a voz de Dolores encontrou o contexto mais fértil para a explanação de todas as suas potencialidades. Nos álbuns “Farewell to Eirinn”, “Sail Óg Rua” e “Broken Hearted I’ll Wander”, três jóias não só do canto feminino como da música tradicional irlandesa em geral.
Infelizmente, nos últimos anos, Dolores Keane tem dado mostras de se render ao apelo de um certo comercialismo, enveredando por um caminho semeado de cedências e encostos à pop, o que, se por um lado mostra que permanecem intactas, se possível até ainda mais requintadas, todas as suas capacidades vocais, por outro deixa a impressão desagradável de uma voz acomodada a facilidades que pouco ou nada adiantam ao prestígio da cantora.
“Dolores Keane”, “Lion in the Cage” e “Solid Ground” são por isso pára nós os álbuns menos conseguidos. Talvez tenha faltado até agora a Dolores Keane (como também a Maddy Prior…) o que não faltou a June Tabor – uma intuição e apropriação correctas da contemporaneidade capazes de transformar uma grande cantora tradicional numa grande cantora. Sem outros adjectivos.

El Cabrero e Paco El Gastor – “O Cantador De Flamenco El Cabrero, Abre Capital Ibero-Americana Da Cultura – As Sílabas Do Fogo”

cultura >> sábado >> 01.05.1994


O Cantador De Flamenco El Cabrero, Abre Capital Ibero-Americana Da Cultura
As Sílabas Do Fogo



SUBLIME. Não há outra palavra para definir a arte de José Dominguez, El Cabrero, e do seu companheiro, na guitarra e na vida, Paco El Gastor. Sexta-feira À noite, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, no espectáculo de abertura do ciclo “Lisboa, Capital Ibero-Americana da Cultura”, que prosseguirá até 12 de Maio, o público lisboeta assistiu à verdade do flamenco. Não o “flamenco” dos cifrões e das modas, dos Ketama, Jaleo, Pata Negra e quejandos, com que “nuestros hermanos” partiram à conquista dos mercados discográficos, mas a pureza religiosa do verdadeiro “canto hondo”, fogueira do Sul cujas chamas consomem a alma guerreira do povo cigano. Quem faltou à chamada tem oportunidade de remediar o facto uma vez que El Cabrero regressa a Portugal já no próximo dia 21, em concerto integrado na programação do festival “Cantigas do Maio”, cuja quinta edição decorrerá, como o ano passado, no Seixal.
El Cabrero canta e guarda cabras. O seu templo é a serra. As fontes e os rios. A liberdade das grandes altitudes. Em palco, vestido de negro, chapéu curvado sobre os olhos, lenço ao pescoço, a voz irrompe-lhe directamente do fundo. Nas malaguenhas, soléas, fandangos, bulerias e outras modalidades do flamenco que oferta ao público como uma dádiva de Deus. Enquanto canta, possuído pelo “duende”, as mãos de El Cabrero unem-se em oração, apontam, aprumam, esmagam, desenham os contornos dos corpos interiores e ilustram a voz do fogo. A arte do flamenco é a arte de dominar o fogo, de silabar, pôr ordem no movimento impreciso da labareda – no grito, na corrente, na síncope, no intervalo de silêncio. Por isso a água, a água da serra e da lua, está sempre presente nas metáforas – “as metáforas resiste ao calor”, disse um dia El Cabrero -, refrigério de uma música que consome e seca. Água que se confunde nas volutas e condutas do Inconsciente dos povos árabes do Mediterrâneo. No oásis de um lago. Nas sombras do mítico pátio andaluz. Que é o coração senão um pátio onde a luz brilha de dia e se acendem fogueiras nas noites de lua-nova?

Arte E Vida

Para este flamenquista e guardador de cabras de Aznacollar, localidade situada perto de Sevilha, arte e vida confundem-se. “A linha da arte é de tal maneira estreita que é preciso muito equilíbrio para nos aguentarmos sobre ela sem cair”. O mesmo se aplica à vida. Talvez por isso, talvez por dizer coisas como “as palavras da universidade parecem-me mesquinhas (…) os velhos do lugar são os meus livros”, há quem lhe chame iconoclasta e anarquista. No S. Luiz tornou-se evidente que El Cabrero não respeita outras regras senão as que lhe são impostas pelo corpo e ordenadas pelo espírito.
Paco El Gastor é outro assombro. Quais Vicente Amigo e, perdoe-se-me a heresia, Paco de Lucia. El Gastor alia uma técnica espantosa a uma intuição e sentimento não menos notáveis. O seu estilo difere da ortodoxia de outros guitarristas, no modo como o polegar direito e assume como chefe de orquestra de uma mão de mil dedos. Mago imbuído na sagrada missão para todo o alquimista de manter o fogo na altura certa. A sua música tem sal, sol e músculo. Sobre e com ela a voz ganha inteira liberdade para se expor, morrer e renascer À luz branca e excessiva do mar do centro. Onde a razão naufraga ou – havendo método e vontade – se coroa, e os sentidos mordem.
Rendeu-se, igualmente inflamada, a assistência. Gritos de incitamento aos músicos, lançados por portugueses e pelos muitos espanhóis presentes na sala: “Olé”, “Viva el cante hondo, vante grande de Espana”. “Bendita seja tu madre!” “Viva al-andalus!” Viva para sempre o caminho real do flamenco, onde El Cabrero prossegue a sua rota, “desde a raiz até à mais alta das folhas”.

Cocteau Twins – “Cocteau Twins No Coliseu De Lisboa – O Longo Gargarejo”

cultura >> quinta-feira >> 29.04.1994


Cocteau Twins No Coliseu De Lisboa
O Longo Gargarejo


NINGUÉM PERCEBEU nada. Mas toda a gente adorou. Lisa Fraser fez jus à fama que trazia e cantou sons que fizeram as vezes de palavras. A monotonia das canções contrastou com a teatralidade das luzes. Lotação esgotada, três encores, sete temas extras explicam como a passagem dos Cocteau Twins por Lisboa se saldou num sucesso estrondoso.
Sem dúvida, os milhares de pessoas que, na quarta-feira, enchiam por completo o Coliseu dos Recreios adoraram a música dos Cocteau Twins (que actuam hoje no Coliseu do Porto e amanhã no Teatro Circo, em Braga). Como antes odiaram a dos portugueses Cello que optaram, numa primeira parte não anunciada no programa, por imitarem os Cocteau Twins. Um desastre. O público assobiou desde o primeiro tema. Cristina Marques, a vocalista, desafinou e nunca conseguiu encaixar a voz no lugar certo, a música interrompeu-se várias vezes com os elementos da banda a gesticularem entre si. Um desatino triste de se ouvir e de ver.
Depois de um intervalo, que deu para reparar até que ponto as obras recentes ali efectuadas destruíram por completo a fisionomia e traça originais da velha sala das Portas de Santo Antão, os Cocteau Twins encheram o palco de luzes e o enorme salão com o famoso som-pastelão que, esse sim, nenhumas obras foram capazes de derrubar.
A música dos Cocteau Twins é assim uma espécie de resultado de uma má digestão. Lisa Fraser canta num registo algures entre o orgasmo, o gargarejo, o vómito e a sirene de alarme. Banhada num mar de luzes em que as “vari lites” reproduziram por diversas vezes as cores e o ambiente da capa de “Heaven or Las Vegas”, a rapariga de cabelo curto, vestido longo e voz sinusoidal cantou coisas que dificilmente se distinguiam entre si. Canções estranhas como “Loreai iulou niei”, “miuaiou gnool priost”, “Miam miam pst oyoyoy” e “katikatikopnwy bonga djummm” e, já no extenso período de “encores”, uma cantada em inglês, “Pur”, do último álbum “Four-Calendar Café”. Por trás da voz, três guitarras, um baixo, teclados, uma bateria e percussões conseguiram criar uma réplica razoavelmente fiel do som de estúdio dos Twins.
É verdade, mesmo não se percebendo patavina do que ela dizia, o público adorou, delirou, entrou em êxtase, exigindo sucessivos encores que a banda aproveitou para debitar nada mais nada menos do que sete canções. É assim: com bilhetes para cima dos 5000 escudos, o espectáculo (qualquer espectáculo) terá que ser forçosamente magnífico. Entre os dois e os cinco mil, é bom (muito bom se andar na casa dos 3500, 4000 escudos). Foi o caso, já que os bilhetes para a geral, em pé, custavam 3500. Abaixo dos dois contos já dá direito a ser mau e a assobiar a banda principal. Ainda mais abaixo, nos chamados espectáculos baratuchos, já se pode mesmo abandonar o recinto, atirar tomates aos artistas e fazer comentários do tipo “gastei eu mil paus para ouvir esta merda!”. Na música, como em tudo, é preciso seguir as tabelas.