Arquivo mensal: Abril 2024

Vários (Old Rope String Band, Delyth Evans com Peter Stacey, Jean-Pierre Rasle, John Kirkpatrick e John Gresham, Blind Boys of Alabama, Maria João com Mário Laginha e Carlos Bica) – “Folk Na Rua Augusta”

cultura >> segunda-feira, 12.07.1993


Folk Na Rua Augusta

COM INÍCIO hoje e até ao próximo sábado decorrerá em Lisboa, na Rua Augusta, a 3ª edição do Folk Tejo, que este ano pela primeira vez não integra o programa das Festas da Cidade de Lisboa. Os concertos, com alinhamento flexível, começam a partir do meio-dia, prolongando-se até cerca das 19h.
Do programa fazem parte a Old Rope String Band, Delyth Evans com Peter Stacey, Jean-Pierre Rasle, John Kirkpatrick e John Gresham. Os Blind Boys of Alabama e Maria João, com Mário Laginha e Carlos Bica encerram o festival no sábado 17, com um concerto no Mosteiro dos Jerónimos.
Os Old Rope String Band são um trio de “entertainers” de Newcastle, cujo material vai da tradição celta a polkas mexicanas ou canções de amor espanholas, acompanhados por números de acrobacia e prestidigitação.
Delyth Evans, do País de Gales, em harpa céltica, e Peter Stacey, saxofone, flautas, teclados e gaitas-de-foles, integraram as bandas Cromlech e Aberjaber.
Jean-Pierre Rasle, francês, e John Kirkpatrick, inglês, passaram ambos pela Albion Band, autêntica escola da folk rock britânica. O primeiro, especialista da “cornemuse”, gaita-de-foles francesa, tocou igualmente na banda Cock and Bull (que alguns conhecerão do álbum “Concrete Routes, Sacred Cows”). O segundo é “apenas” um dos nomes mais importantes da cena folk inglesa das últimas décadas e um dos grandes execuntantes da concertina e do “melodeon” (parente do acordeão). Tocou com Martin Carthy, Richard Thompson e Roy Bailey, entre outros e gravou álbuns fundamentais como “The Compleat Dancing Master”, um tratado sobre a evolução das danças tradicionais em Inglaterra, com Ashley Hutchings, “Stolen Ground”, com a sua mulher Sue Harris e, a solo, “Plain Capers”, antologia sobre uma variante regional das danças “morris” inglesas.
John Gresham, antigo presidente da Musical Box Society da Grã-Bretanha e destacado representante da chamada “música mecânica”, animará a rua Aug com o som do seu realejo “traficado”.
Os espectáculos são gratuitos, á excepção do concerto nos Jerónmos, com bilhetes a mil escudos.

Hedningarna, Oskorri, Ivo Papasov, House Band – “V Encontros Musicais Da Tradição Europeia Partem Para Évora E Coimbra – Os Demónios Que Vieram Do Frio”

cultura >> domingo, 11.07.1993


IV Encontros Musicais Da Tradição Europeia Partem Para Évora E Coimbra
Os Demónios Que Vieram Do Frio


Os IV Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram em beleza no jardim do Palácio Anjos em Algés. Os Hedningarna corresponderam ao que deles se esperava e fizeram deflagrar a sua música como uma bomba. Lições de bom-gosto e tecnicismo, deram-nas respectivamente os Oskorri e Ivo Papasov. Os House Band – foi pena – limitaram-se a assinar o ponto. Hoje, os Encontros prosseguem em Évora e amanhã em Coimbra.



Havia sempre muita gente no jardim, ao longo dos quatro dias de concertos dos Encontros Musicais da Tradição Europeia, que decorreram em Algés, nos arredores de Lisboa. Gente conhecedora do que ouvia, ao contrário do que se passou nas edições anteriores, onde foi grande a percentagem dos curiosos e dos “perturbadores”.
Quarta-feira foi dia-rei do festival. Abriram os Oskorri, banda lendária do País Basco. Sete músicos em palco, coesão absoluta e reportório criteriosamente escolhido proporcionaram uma actuação sem mácula. Avessos à mensagem panfletária os Oskorri afirmaram a seu modo, pela música, uma cultura e uma identidade próprias.
A banda “euskadi” alternou os ritmos de dança com baladas às quais a voz de Natxo de Felipe – uma das melhores que passaram pelos Encontros, ao lado das de Erik Marchand e Maryika Karafezieva – emprestou inflexões e tonalidades inusitadas. Natxo, além de excelente vocalista, revelou-se igualmente um óptimo percussionista, nos tambores e na pandeireta, alcançando ainda um desempenho positivo no acordeão, num pequeno saltério e na guitarra acústica. Flautas, uma trompa de corno, BOMBARDA, GUITARRAS E UM BAIXO, QUE NUNCA ENCHERAM DE ELECTRICIDADE O SOM, ILUSTRARAM AQUELA QUE É UMA DAS MÚSICAS TRADICIONAIS DA Europa menos conhecidas entre nós.
A seguir: Bum! Os Hedningarna subiram ao palco e foi o fim. Instrumentos amplificados até ao limite (a sanfona e o alaúde pareciam poder rebentar a cada momento), fumos e encenação corporal criaram de imediato uma atmosfera e uma sonoridade que terão chocado os que até à data desconhecem “Kaksi”, o álbum da banda sueca de que se fala.
Anders Stake, Totte Mattsson, Bjorn Tollin e as duas cantoras finlandesas, Sanna Kurki-Suonio e Tellu Paulasto, os cinco vestidos de negro, fizeram jus ao nome que ostentam – os pagãos – na invocação dos demónios do gelo das regiões polares. A música, essa, foi abrasiva. Anders, “o louco”, fabricou os sons saídos da sua imaginação em estranhos instrumentos inventados por si: um híbrido de flauta de Pan com “didjeridu”, uma cítara mutante, um “sarangi” transformado.
As duas meninas fizeram de bruxas e de fadas, no canto “a capella” ou rodeadas pelo apocalipse tecido pelas percussões infernais de Bjorn Tollin, os gritos do alaúde de Toote Mattsson e as monstruosidades tímbricas de Anders Satke.
Num dos temas mais fortes de “Kaksi”, com dedicatória a Jimi Hendrix, Anders colocou na cabeça uma peruca estilo esfregona, fazendo à gaita-de-foles o mesmo que Hendrix fazia à guitarra, massacrando-a, arrancando-lhe guinchos de dor até o fole ficar vazio como um trapo, enquanto Totte Mattsson seguia idêntico processo no alaúde. Uma carnificina. O público, estarrecido, não queria acreditar. A partir de agora o “heavy metal” deixou de ter o exclusivo das descargas de artilharia. Fez-se história nos Encontros.

Mudanças De Velocidade

Quinta-Feira começou com os House Band, não se pode dizer que da melhor maneira. O trio formado por Ged Foley, antigo elemento dos Battlefield Band, Chris Parkinson e John Skelton, pareceu cansado e sem chama, não atingindo o alto nível de álbuns como “Word of Mouth” e “Stonetown”. Disseram “obrigado”, “Benfica”, “Jorge de Brito” e “crise”, insistindo várias vezes num “merry Christmas” sem que se percebesse muito bem qual a intenção.
Vocalizações apagadas, falta de entusiasmo e de noção de espectáculo não mostraram o que, em melhores dias, os House Band são capazes de fazer. Uma actuação monótona que nem o talento de John Skelton nas flautas e na bombarda, ou uma passagem interessante pelos ritmos dos Balcãs, conseguiram salvar. Despediram-se sem glória, com duas danças da África do Sul, onde deram a entender que o que lhes apatecia era ir o mais depressa possível dormir para o hotel. Fica para a próxima.
Enstusiasmo é o que não faltou à “banda de casamentos” do búlgaro Ivo Papasov. O quinteto, formado por tecnicistas ao mais alto grau, com Papasov a cometer verdadeiros prodígios no clarinete, não deu descanso à audiência, enredando-a numa sucessão vertiginosa de compassos que terão soado “contra-natura” a ouvidos (mal) habituados ao conforto do quatro por quatro.
Maryika Karafezieva, trajada a preceito, levou o vibrato da voz aos estremeções de um terramoto, passeando com um à vontade desconcertante entre as constantes trocas de mudança, quase sempre de velocidade, metidas pelos outros músicos.
Do jazz ao “reggae”, com retorno às danças tradicionais, foi um torvelinho que no final deixou a assistência de rastos. Uma palavra final para o som, a cargo da Audição, que esteve impecável em todos os concertos.
Os concertos prosseguem hoje, em Évora, na praça do Giraldo, com os Zaiti e House Band, as mesmas bandas que encerram o ciclo dos Encontros amanhã, na praça velha de Coimbra.

Depeche Mode – “Depeche Mode – Liturgia Da Perversão”

destaque >> sábado, 10.07.1993


Depeche Mode
Liturgia Da Perversão


Começaram por ser meninos ladinos que brincavam com sintetizadores de plástico e percussões de metal. Dos “hits” que levaram a música industrial para as pistas de dança, os Depeche Mode passaram a manequins de estádio. Alvalade vai ser a catedral onde farão ouvir a sua “música para as massas” e as suas “canções de fé e devoção”, onde misturam sexo e religião.



É verdade, os Depeche Mode actuais vestiram os paramentos e são os celebrantes de um novo tipo de missa. Para Martin Gore, músico e mentor espiritual da banda, “a maior parte das pessoas deixou de ir à igreja e agora os templos são lugares semidesertos e as pessoas necessitam de um substituto para essa ausência”, como afirmou em entrevista exclusiva ao PÚBLICO [Pop Rock de 7 de Julho].
O estádio passou, então, a ser o local privilegiado de novas liturgias. O problema está em que Gore, no seu papel de apóstolo, não se preocupa tanto em transmitir uma mensagem com conteúdo específico, mas, ele próprio confessa, em “’flirtar’ com a imagética rea”, ou seja, “não ao nível da crença mas da iconografia” – o que significa a inversão do próprio termo “religião”. No fascínio exclusivo pelas formas, no deslumbramento pelas imagens, os Depeche Mode instauram o vazio. Mas não é, afinal, isso mesmoq eu eles t~em vindo a proclamar desde a ´poca em que gravaram “Black Celebration”, álbum negro onde dissecavam “a vida na denominada era espacial”?
Sabe-se, de resto, o efeito que a música, ou o discurso inflamado de um político, tem sobre o comportamento das massas. Frank Zappa sabia-o melhor do que ninguém quando, num concerto que realizou há anos, na Alemanha, conseguiu pôr a assistência inteira a fazer a saudação nazi. Nessa redução do indivíduo à massa amorfa, sabe quem sabe a maneira de aproveitar a energia que se liberta de milhares de corpos funcionando na cegueira de maquinismos em uníssono.
Se a noção de maquinismo permite compreender o desenrolar de um espectáculo de rock de estãio em geral, melhor ainda se aplica à música dos Depeche Mode em particular. Herdeiros assumidos dos papas da desumanização e da música tecnológica – os alemães Kraftwerk -, os Depeche Mode, desde a assunção do “techno pop” de tend~encia industrial até às inflexões “blues” e “gospel” que emergem no novo álbum “Songs of Love and Devotion”, têm vindo a cobrir de pele e carne o corpo frio de um manequim.
Forçados em parte pelas circunstâncias de um sucesso comercial que nunca parou de aumentar, sobretudo a partir de “Music for the Masses”, a assumirem-se como representantes da face humanizada da “techno”, o grupo viu-se impelido a moderar o discurso e a limar as arestas da música – de modo a tornar mais perfeita a ilusão e a não assustar em demasia o seu público, maioritariamente adolescente.
Daí também o modo como foi estruturado o novo espectáculo ao vivo, com as imagens de vídeo (assinadas pelo fotógrafo Anton Corbijn, colaborador habitual dos U2, David Bowie e Brian Eno) em movimento de mutação lenta, por oposição à estética de fractura que caracteriza os vulgares “videoclips”. De modo a levar, à semelhança do que fez Zappa na ocasião mencionada, as pessoas a chegarem ao ponto pretendido – de forma gradual e sem se darem conta. Como se a perversão fosse a coisa mais inocente do mundo. Até à heresia final, num dos temas que terminam a “devotional tour” dos Depeche Mode: “Personal Jesus”, acompanhado pelo “strip tease” de Dave Gahan, que ao mesmo tempo se auto-acaricia. E, a fechar, “Everything counts”, cantado em coro pela assistência, sem qualquer acompanhamento – a música das massas.