Arquivo mensal: Setembro 2023

Annie Lennox – “Um Rosto Por Detrás Da Máscara”

rádio e televisão >> segunda-feira, 25.01.1993

DESTAQUE


Um Rosto Por Detrás Da Máscara



ELA É dona de uma voz espantosa e de uma presença em palco avassaladora. É, além disso, a imagem plástica vídeo por excelência. Ela é Annie Lennox, diva – num disco, o primeiro que gravou a solo, e num teledisco do mesmo nome. “Diva” é também o título do espectáculo que a RTP apresenta hoje à noite em Últimas Notas, filmado em Veneza, com a realização de Sophie Muller.
Nele são exploradas as mil e uma mutações visuais da cantora que, ao longo de dezenas de telediscos, mudou outras tantas vezes de pele e de personalidade, desempenhando um sem-número de personagens, de anjo a dona-de-casa em fúria, de andrógino a mulher fatal.
O local das filmagens não poderia ser mais apropriado. Cidade também ela de mil rostos e matizes. Veneza, feminina e aquática, cobre-se todos os anos pelo Carnaval, de disfarces e maquilhagem, transformando-se no baile de máscaras mais faustoso do mundo.
Em “Diva”, o filme, Annie Lennox – divorciada em termos conjugais e artísticos do seu ex-companheiro nos Eurythmics, Dave Stewart – encena a transfiguração de si própria e a composição da máscara. Parte-se de um rosto e de um corpo em carne e osso de uma mulher que nos últimos tempos tem sido fustigada pela adversidade, para se assistir à mudança progressiva dos traços, na construção da “outra”. Imagem de alta definição, plasticina de sonhos, veículo de transmissão de uma realidade simulada – “Sweet dreams are made of this”.
Neste aspecto Annie Lennox é verdadeiramente, a par de Madonna, a diva da pop, enquanto assume e incarna o carácter fugaz e a sucessão de imagens e artifícios que se autodevoram e constituem a própria essência daquele tipo de linguagem. Madonna expõe-se, comercializa-se, em fotos e teatralizações do escândalo, e gere o tempo por fases, que planeia com antecedência, avançando cada nova ousadia apenas na altura exacta em que esta se revelar rentável. Lennox disfarça-se, joga na ambiguidade e usa um tempo mais rápido, subliminar. A autora de “Sex” agita o próprio e os fantasmas e fantasias seus derivados, em palco. A cantora de “Sexcrime” brinca com lugares-comuns e subverte arquétipos. De forma talvez mais inteligente, sem dúvida menos perversa. Ambas gozam e perturbam. Annie Lennox çeva vantagem pelo menos numa coisa: é mais bonita.
É esta mulher-manequim, de pose gelada e voz tórrida, a mesma que um dia se deixou emocionar e filmar sem máscara na companhia de Aretha Franklin, para, sem subterfúgios, cantarem juntas “Sisters (are doin’ it for themselves)” e que, noutra ocasião, gravou um álbum intitulado “Be Yourself Tonight”. Veremos de falava ou não verdade.
Canal 2, às 01h00

Elvis Costello & The Brodsky Quartet – “The Juliet Letters”

pop rock >> quarta-feira, 20.01.1993

FORA DE SÉRIE


Cartas Com Cordas

Elvis Costello & The Brodsky Quartet
The Juliet Letters
LP / CD Warner Bros., distri. Warner Music



Passou pelo vendaval punk, mas cedo fez questão de se demarcar da tirania dos três acordes básicos e litros de suor que caracterizavam os seus colegas da época. Elvis Costello sempre foi em primeiro lugar um escritor de canções. Os anos e vários álbuns de reconhecida qualidade tornaram-no numa espécie de clássico. Há cerca de 250 versões de canções suas, por artistas como Chet Baker, Johnny Cash, June Tabor, Roy Orbinson e Roger McGuinn, entre outros.
Terá sido essa ascensão em direcção ao estrelato que o levou a cometer esta loucura. Em “The Juliet Letters” Elvis pretendeu ir mais longe e testar a sua veia criativa quando inserida num suporte instrumental diferente do habitual. Para o efeito, escolheu o Brodsjy Quartet, quarteto de cordas clássico, do tipo agora muito em voga, músicos jovens, ousados, cheios de genica, às vezes de génio, que entram nos auditórios de “jeans” e tocam solos de Jimi Hendrix. Se bem que, as verdades devem ser ditas, os Brodsky – nome modernaço hem? – sejam considerados intérpretes de excepção de Haydn, Schubert, Beethoven e Bartok.
Depois foi preciso escolher um tema. Cait, mulher de Costello, encontrou um com piada. Leu num jornal um artigo sobre umas cartas que, durante anos, foram dirigidas a uma tal Juliet Capulet (sim, a Julieta que amava Romeu e vice-vera), que afinal nunca usara saias (pelo menos em público) e era um respeitável professor universitário de Verona. Elvis leu as cartas, sugou-lhes o tutano e escreveu canções a condizer. O conteúdo das missivas dava para tudo: bilhetinhos de amor, comentários cínicos, anúncios de suicídio, testemunhos “post-mortem”, enfim, tudo o que veio à pena dos signatários, de teor mais ou menos desvairado.
Trabalhou-se então em conjunto, Elvis e o quarteto da corda, música e textos, num frenesim criativo de fazer faísca. Um escrevia, outro riscava, um terceiro anotava. No fim todos deram uma ajuda na composição e o resultado acabou por ser aquilo a que poucos resistem e menos ainda o conseguem fazer com sucesso: o exercício de estilo. Com “The Juliet Letters” Elvis Costello quis mostrar que as suas canções resistem a tudo. Claro, no folheto do disco, ocupa várias páginas com um manifesto de intenções, qual delas a mais conceptual e artística, que explica algumas coisas e confunde outras: “Estávamos ansiosos para evitar o depósito de lixo a que se chama ‘crossover’. Isto não nenhum golpe meu para tentar ser ‘clássico’ nem o primeiro álbum de rock dos Brodsky Quartet. Pelo contrário, foi algo que serviu para desordenar as estruturas detectáveis nas nossas respectivas disciplinas e indisciplinas.” Ou então: “O processo de composição e dos arranjos foi variado e é misterioso de contemplar.” Pelo meio adianta que já vai conseguindo escrevinhar umas notas na pauta. Eis a genuína atitude de rebeldia aprendida nas origens humildes da “new wave”!
Claro que, aqui chegados, já toda a gente adivinhou a que é que soam estas cartas musicadas, como aqueles postais de Natal que tocam “Boas festas”. São 20 arranjos compostos (no sentido de compostura) com cuidado, tudo no sítio, harmonias trabalhadas ao pormenor, virtuosismo a rodos e, qual jóia da coroa, do alto do pedestal, a voz inconfundível do mestre. Está bem feito. É pá, a ideia é do caraças. Tocam bem que se fartam. Elvis é o rei. Só é pena o disco ser chato. Deram-lhe corda… (5)

Steve Roach & Kevin Braheny – “Western Spaces” + Steve Roach, Kevin Braheny & Michael Stearns – “Desert Solitaire” + Steve Roach – “World’s Edge”

pop rock >> quarta-feira, 20.01.1993

FORA DE SÉRIE


Steve Roach & Kevin Braheny
Western Spaces (8)
CD, Fortuna
Steve Roach, Kevin Braheny & Michael Stearns
Desert Solitaire (7)
CD, Fortuna
Steve Roach
World’s Edge (8)
2xCD, Fortuna
Todos import. Ananana



Em “Western Spaces” e “Desert Solitaire”, primeira e segunda partes de uma obra conceptual, os compositores procuraram “captar a essência” do deserto. Em concreto, das regiões áridas do Sudoeste da América do Norte, da Califórnia e das vastidões do Mojave, cujas areias serviram de inspiração a estas paisagens impressionistas.
Steve Roach e Kevin Braheny fazem parte da cena electrónica da “West Coast” americana, de tendência sintesista. Nesta aventura a dois, cujo segundo tomo conta com a colaboração de Michael Stearns, proveniente da mesma área musical, procederam de forma idêntica ao projecto paralelo de Steve Roach com Robert Rich, que tão bons resultados proporcionou até agora, em “Strata” e “Soma”: electrónica mais sonoridades étnicas, reais e sampladas. No fundo, um entre vários ramos da árvore, cada vez frondosa, que Jon Hassell plantou em “Possible Musics”. Música de movimentos e reverberações tão amplas como as do deserto, de flutuações e alterações subtis, repetindo a sucessão imperceptível de contornos das dunas do deserto.
“Desert Solitaire” tem como defeito pouco adiantar em relação ao disco anterior. Diz as mesmas coisas da mesma maneira, sem apresentar inovações. Temas há que parecem repetições de “Western Spaces”. Cai por momentos na monotonia e na “new age” bem comportada. Mas será talvez a monotonia aparente do próprio deserto que exige a disponibilidade e a atenção dos máxima dos sentidos.
O disco a solo de Steve Roach não se afasta muito, em termos formais, dos outros dois álbuns. Nele o compositor parte da metáfora a “chegada à beira do abismo” e do impulso de “saltar no vazio, ganhando asas antes da queda”. Voo e gravidade, expressos num maior contraste dos timbres (não falta o inevitável “didgeridoo”) e na utilização sistemática de percussões – das profundezas das “frame drumas” ao retinir de sino rituais tibetanos e aos ecos de cerâmica do “dumbek”. A excepção é o tema com cerca de uma hora que ocupa a totalidade do segundo disco, “To the threshold of silence”, longa progressão ondulatória, tão silenciosa como “Thursday afternoon”, de Brian Eno, ou “Waiting for Cousteau” (que ninguém se espante, é diferente de tudo o que este autor fez até à data), de Jean-Michel Jarre, aquele que mais se aproxima do sentido xamânico que Roach procura imprimir à sua música.