Arquivo mensal: Abril 2023

Yello – “Baby”

Pop-Rock Quarta-Feira, 31.07.1991


A MÁQUINA DO PRAZER

YELLO
Baby
LP / CD, Mercury, distri. Polygram



Entre os passatempos preferidos de Dieter Meier, vocalista de olho azul e ar alucinado do suo suíço Yello, contam-se o circuito regular pelos casinos da Europa e a narração de feitos de um antepassado gorila.
Curiosidades que ajudam a explicar um pouco o carácter lúdico e o humor “nonsense” da música e filosofia do grupo. “Baby” é, até à data, o exemplo mais acessível, mas também mais previsível dos seus métodos e estratégias de sabotagem.
Os primeiros exercícios “Solid Pleasure” e “Claro Que Si” não escondem o fascínio dessa época pela lógica do absurdo e pelas desfocagens estruturais, ao mesmo tempo que revelavam já uma das facetas posteriormente exploradas até à exaustão – a colagem de estilos, a mestria absoluta da electrónica, a construção de cada canção como uma curta-metragem experimental, a tendência para o calor e coloridos latinos (Dieter Meier e Boris Blank cedo deixaram crescer o bigode, o último adoptando a pose de “matador” de olhar “macho” e cabelo empastado em brilhantina).
“You Gotta Say Yes to Another Excess”, tribal até ao absurdo, heterodoxo até à loucura e, ainda por cima, dançável, atinge o apogeu eufórico na arte de conjugação dos extremos, bem expresso na imagem do gorila, “pai do excesso”, que desce da floresta amazónica até ao empedrado de Montmatre. Faltava envernizar o produto e apresenta-lo envolto em roupagens “à la page”, destinado ao consumo nas discotecas. “One Second”, “Flag” e este “Baby” limitam-se a polir as arestas mais cortantes e a exagerar a sedução do cabaré intergaláctico entretanto tornado imagem de marca. Em “Baby” são ainda e sempre o apelo fantasmagórico de Carmen Miranda, o calor dos trópicos, o “filme negro” e a “dolce vitta”, segundo as regras do acaso falseado e os ensinamentos rítmicos dos Kraftwerk. Abandonado o obscurantismo experimental da fase inicial, os Yello transformaram-se numa espécie de máquina de prazer que neste disco continua a trabalhar em pleno, ainda que os mecanismos do seu funcionamento já não sejam segredo para ninguém.
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Joe Cocker – “Com Uma Pequena Ajuda Dos Amigos” (concerto | antevisão)

Pop-Rock Quarta-Feira, 31.07.1991


Com Uma Pequena Ajuda Dos Amigos

Joe Cocker deve agradecer à voz que tem (ou tinha, pois os anos e os excessos não perdoam) e aos Beatles por lhe terem permitido cantar a canção que lhe trouxe a fama e pela qual continua a ser conhecido: “With a little help from my friends”.



Fora isso, não há muito mais suficientemente digno de realce. É um caso típico de uma boa voz desaproveitada e perdida num repertório medíocre. O cantor bem tinha razão quando implorava uma ajudazinha dos amigos. Para a posteridade ficou a veemência do pedido na jornada gloriosa de Woodstock. Mas quando faltam as outras coisas, como por exemplo o talento de compositor, não há santos nem amigos que possam valer.

Companhia De Gás

Ora, como o homem foi contratado para vir cá hoje cantar ao estádio, vamos lá fazer um esforço e reconhecer-lhe a importância que não tem nem nunca teve. É verdade, costuma também referir-se que é “o branco com a voz mais negra” do rock, designação que em geral se aplica aos cantores de pele clara cuja voz tende para a rouquidão.
Joe “With a little help from my friends” Cocker nasceu em Sheffield, o que é importante para se compreender o seu timbre vocal. Ainda muito novo, começa por tocar bateria, o que é importante para se compreender a sua maneira de cantar, numa banda de “skiffle”, The Cavaliers, da qual faz parte o seu irmão, o que é importante para se compreender que não é filho único, e lhe garante a característica única da sua maneira de cantar. Nos intervalos das baitdas trabalha na Comanhia de Gás, pelo que os Cavaliers mudam de nome, passando a chamar-se Vance Arnold and the Avengers, sem dúvida mais apropriado para o seu estilo musical. Troca a bateria pela voz e decide-se por uma carreira a solo, sem a ajuda de nunguém. Arrisca e deixa a Companhia de Gás.
Grava o seu primeiro single, “I’ll Cry Instead”, que, a julgar pela reacção da editora, não terá sido muito bem sucedido: é despedido. Humilhado, pede desculpa ao antigo patrão da companhia onde trabalhou e ele aceita-o de volta, afagando-lhe o cabelo e aconselhando-o a abandonar de uma vez por todas a carreira de músico. O complexo da “companhoa” nunca mais o abandonará. Será nessa altura que Joe “with a little help” toma a decisão de nunca mais tentar nada sem a companhia de alguém para o ajudar.
Entre 1964 e 1967 divide o seu tempo entre a Companhia de Gás e uns biscates na Grease Band, do teclista Chris Stainton. Com esta banda, ou seja, com a ajuda de amigos, consegue atingir o top britânico, com novo single, “Marjorie”. No ano seguinte, John Lennon e Paul McCartney dão-lhe autorização para cantar “With a little help from my friends”. Joe não se faz rogado e canta-a mesmo. O single atinge o 1º lugar nas listas de vendas e a canção ficou imortalizada na inspirada interpretação de Woodstock. A história de Joe Cocker termina aqui. (?!)

Depois Da História

Há quem atribua uma certa importância ao álbum de 1970, “Mad Dogs and Englishman”, mais por incluir um tema de Leo Russell, “Delta lady”, dedicado a Rita Coolidge, que por outra coisa. “Luxury you can afford”, de 1978, é importante, segundo a promoção, por ter sido gravado na mesma editora onde gravaram Joni Mitchell e Linda Ronstadt. De acordo com este critério, Roberto Carlos seria tão importante como Bernstein ou Glenn Gould, visto terem os três gravado para a mesma editora.
“Sheffield Steel” é um regresso às origens e a tentativa de conseguir algum êxito através do recurso a interpretações de temas de Bob Dylan, Randy Newman, Jimmy Cliff e Steve Winwood. Junta-se a Jennifer Warnes (outra grande artista) e gravam o tema “Up where we belong”, incluído na banda sonora de “Oficial e Cavalheiro”.
“Joe Cocker Live!” é uma colectânea dos melhores (in)sucessos de Joe “with a little help from my friends” Cocker e, a propósito da sua gravação, conta o cantor: “Tínhamos pensado gravar o álbum ao longo de quatro actuações diferentes, mas parecia que tínhamos mau-olhado… Na primeira noite, eu não tinha voz, nas duas noites seguintes havia falhas a mais. Cheguei a pensar que não íamos conseguir, mas resolvemos tentar uma última vez.” Tentaram e Joe “with a little friend from my helps” cantou, como se fosse a primeira vez, “From a little help from my friends”.
Em Lisboa, tudo se prepara para ouvi-lo cantar “With a little from help my friends”. Não se sabe se Joe “with a little etc. etc. etc.” ainda trabalha na Companhia de Gás.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #174 – “‘Re.Kevin Ayers, David Bedford”

#174 – “‘Re.Kevin Ayers, David Bedford”

Re:Kevin Ayers/David Bedford
Fernando Magalhães
Tue May 22 14:49:56 2001

Vamos por partes.
O KEVIN AYERS é um nome incontornável da POP dos anos 70 (prosseguiu, mais fraco, pelos 80, e “ressuscitou” nos 90, com nova dose de criatividade…), na variante Canterbury mais excêntrica e personalizada.
Acho que vais adorar a sua música tanto, ou mais, que a do Syd Barrett… 
Duas obras primas, os dois primeiros álbuns a solo: “Joy of a Toy” e, sobretudo, “Shooting at the World”, de KEVIN AYERS & THE WHOLE WORLD, este um dos melhores álbuns dos anos 70!!!! Estão lá o David Bedford, o Mike Oldfield em período ácido alucinado (!!!! O sei solo de guitarra em “Lunatic’s lament” é qualquer coisa de psicótico e abrasivo), o Mike Ratledgge (dos Soft Machine…
Canções de um surrealismo total alternam com divagações experimentais de cortar a respiração, tirando partido, com as armas do psicadelismo, de todos os efeitos que o estúdio podia então oferecer. Depois, a voz tenor, semi alcoolizada, de Ayers, faz o resto. (10/10)

“Joy of a Toy” (9/10) é uma colecção de canções de uma excentricidade sem limites. Música havaiana + Lewis Carroll + rock infernal + paragens, mudanças, acelerações do cérebro e da estrutura rítmica e melódica, enfim, uma viagem por um parque de diversões com todas as atracções criadas sob o efeito de LSD.

Imprescindível é também “The Confessions of Dr. Dream” (8,5/10), sobretudo pelo 2º lado, uma longa suite de terror/humor com a participação, num duet vocal com Ayers, da cantora alemã NICO (sim, a mesma dos Velvet Underground, já falecida…).

“Whatevershebringswesing” e “Bananamour” (ambos 8/10) são mais “normais, com o Kevin Ayers já rendido ao sol do Sul de Espanha, ao champagne e a “dolce vita”…

Mas há mais…

Já agora, vale a pena escutar os dois primeiros álbuns – de pop psicadélica – dos SOFT MACHINE, ainda com kevin Ayers: “Soft Machine” (68) e “Volume 2” (69). O segundo outra obra-prima (10/10) – pop, jazz, electrónica sem sintetizadores, ideias em catadupa, enfim, um clássico!

Quanto ao DAVID BEDFORD, é preciso ter mais cuidado. Os álbuns que gravou não têm nada de comum entre si. “Star’s End” (para aí à venda a preço reduzido”) é música clássica quase pura. (6,5/10)

“Nurses’ Song with Elephants” é experimental de forma radical e no sentido mais estrito do termo. Faixas só com coros infantis, explorações tímbricas, formatos orquestrais bizarros… (7/10)

“The Odyssey” (6,5/10) – orquestral, electrónico e… muito new age.

“Instructions for Angels” (6/10) – Electrónica + música progressiva. Curioso mas demasiado “bonitinho”.

O melhor, na minha opinião, é mesmo “The Rime of the Ancient Mariner” (que consegui adquirir também em “nice price”, na extinta Virgin…) – viagem obscura, com um narrador, pelos sons (electrónica paisagística, coros grandiosos, episódios abstractos, piano de cristal, a guitarra de M. Oldfield fascinada pela estranheza dos ambientes…) que evoca, em termos literários, o “Arthur Gordom Pym” de Edgar Allan Poe. 8/10.

FM
Um bocado sintético demais, pois muito mais há para dizer sobre estes dois artistas… mas é que tenho já a seguir uma entrevista com o Jan St. Werner, dos Mouse on Mars…