Arquivo mensal: Setembro 2022

Vários – “Natal Dos Hospitais – Quem Canta Os Males Espanta” (televisão)

PÚBLICO SÁBADO, 22 DEZEMBRO 1990 >> Cultura


Natal dos Hospitais

Quem canta os males espanta


DEZEMBRO, mês da fraternidade universal e do Natal dos Hospitais, iniciativa há trinta anos organizada pelo “Diário de Notícias” – imponente montra do “music hall” luso, estendal da mediocridade bem intencionada (com as inevitáveis exceções), solta a coberto do pretexto da solidariedade. A intenção é minorar o mal alheio. Todos os anos por esta época, contudo, terminada a festa, há quem nunca mais se restabeleça das maleitas. Mas todos juntos, sãos e doentes, fazem por divertir-se e a maioria sobrevive.
Em diferido do Porto, Madeira e Açores, vieram nomes grandes do nosso cançonetismo, como José Alberto Reis (o Júlio Iglésias português), ou os Salsinhas da Balada (que dominam a língua inglesa, fazendo rimar “December twenty four” com “can’t wait no more”). As notas de erotismo foram dadas por Ágata e Lilian Kramer (esta com o seu “brinquedo”, como frisou a voz “off” desse grande comunicador que dá pelo nome de Luís Pereira de Sousa), sensualonas, de negro (des)pidas, capazes de liquidar logo ali meia centena de cardíacos. No meio de tanto esplendor, os GNR passaram quase despercebidos com a sua “Morte ao Sol”.

Brilhantismo psicadélico

Já em direto do Hospital S. Francisco Xavier, a dupla Ana Zannatti-Eládio Clímaco apresentou Rui Veloso que preparou os presentes para o brilhantismo psicadélico de Gabriel Cardoso e os ardores castelhanos da emigrante Maria Mendes.
Quando Clemente subiu ao palco para cantar “Baila Cigana”, o país inteiro calou, comovido com as desditas daquela cuja “alma ninguém compreende porque é livre como as estrelas”.
Delírio, histeria – Roberto Leal surge todo de branco, envolto em luminoso halo, procurando vencer a lei da gravidade, elevando-se, de braços erguidos, em direção ao céu! O palco voltou a iluminar-se, pela voz e rosto verdadeiramente bonitos de Rita Guerra. Qualidade que se manteve no virtuosismo violinístico do jovem Pedro Teixeira da Silva. Simone de Oliveira, cada vez mais Weilliana, na pose e na interpretação, e Lena d’Água, que continua possuída pelo fantasma de António Variações, não destoaram, antes do exotismo dos cantores e danças indianos dos Baguini.
Depois de beijar extasiado alguns pequerruchos, Marco Paulo cantou “ai ai ai meu amor” fazendo saltar de mão o microfone pelo menos oito vezes. Para fim de festa, Herman “Estebes” José pôs a cambada às gargalhadas. Ao todo, cinco horas divertidas em que a apalavra “sofrimento” esteve ausente. Só por isso valeu a pena. Uma vez por ano, fica bem à televisão vestir-se de Pai Natal.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #82 – “mahavishnu orchestra p_FM (rat-tat-tat)”

#82 – “mahavishnu orchestra p_FM (rat-tat-tat)”

Fernando Magalhães
28.02.2002 150305
Da MAHAVISHNU ORCHESTRA, os dois melhores álbuns são sem dúvida o “The Inner Mounting Flame” e “Birds of Fire”.
Sobre a banda, já houve quem desse as dicas necessárias.

Acrescento que, muito antes do “Miami Vice” (blargh), o JAN HAMMER se estreou a solo, ainda nos anos 70, com um álbum muito bom, “The First Seven Days”, sobre os sete dias da criação.

Ainda da Mahavishnu: Foi editado recentemente aquele que seria o disco seguinte a “Birds of Fire” e que na altura acabou por não sair, devido a desinteligências entre o grupo. Refiro-me a “The Lost Trident Sessions” (título, obviamente, diferente do original…). Muito boa música, num álbum, para todos os efeitos, acabado e pronto a ser lançado no mercado.

Todos estes CDs, mais “Apocalypse” (c/ orquestra) e “Visions of the Emerald Beyond” estão disponíveis em edições remasterizadas a “nice price”, na FNAC, VC, etc…

“O vendedor” tem lá o “The Inner Mounting Flame”, mas na versão mais antiga, não remasterizada.

Finalmente, aconselho um extraordinário álbum de fusão, assinado pelo então baterista da Mahavishnu Orchestra: “Crosswinds”, de BILLY COBHAM. Existe em versão digipak na série Atlantic Masters.
O anterior, “Spectrum”, também vale a pena.

Qualquer dia envio para aqui uma lista : ) de álbuns de fusão recomendáveis…

FM

Annette Peacock – “Annette Peacock Hoje, Às 22h30, Na Aula Magna – Subtil Provocação” (concerto | antevisão | artigo de opinião)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 21 DEZEMBRO 1990 >> Cultura


Annette Peacock hoje, às 22h30, na Aula Magna

Subtil provocação


Annette Peacock promete um concerto inesquecível. Quem se habituou a escutar a sua voz e os seus discos, sabe que vai ser assim. Sensualidade e uma forma inteligente de provocação são alguns dos ingredientes capazes de transformar a noite de hoje em qualquer coisa de diferente.



Diz-se que os olhos são o espelho da alma. A voz também, da alma e do corpo. Com Annette Peacock, o corpo assume-se, claro e evidente, nas entoações sensuais do seu cantar. Mas é um corpo lúcido, inteligente, suficientemente próximo e distante para utilizar o sexo como discurso e a ironia como desmistificação do desejo que aquele inevitavelmente provoca – “as minhas mãos não fazem exigências/ (…)/ posso dizer que preciso de ti/ mas estaria a mentir/ posso te dizer que te amo/ mas não passa de uma invenção/ para perpetuar o convencionalismo (…)/ as minhas auto-carícias não provocam qualquer ‘stress’/ não é um mundo perfeito/mas não fui eu que o fiz/ se não há penetração/ tem de usar-se a imaginação/ sou feliz com a minha mão” (“Happy with my Hand” de “Abstract Contact”). Como se vê, não se trata propriamente de uma “Love Story” das que os filmes nos contam…


O fruto proibido

Os tabus constituem-se como matéria suscetível de infinitas manipulações. O incesto, a droga, as perversões políticas (sucedâneo das sexuais) canta-os Annette Peacock com a voz perturbantemente lânguida e pausada. Como ela própria afirma – “os temas mais agressivos ganham um impacto muito maior quando cantados de forma não-agressiva”. Estética assente na tensão de opostos, dialética. As massas, como seria de esperar, desviaram a vista e os ouvidos, fazendo como a avestruz. Annette não se importa, para ela o importante é a sinceridade. Fala desses e de outros temas porque eles fazem parte da vida. Não há dois mundos, um cor-de-rosa, outro sórdido e riscado a negro, mas duas faces de uma única realidade. David Lynch há-de fazer um filme com esta senhora, que já atuou em topless e se deixa fotografar com o rosto envolto num véu.
A sua história conta-se resumidamente: integrou os meios mais ou menos marginais da “Drug culture”, convivendo com Timothy “LSD” Leary, o poeta da “Beat generation” Allen Ginsberg ou as luminárias jazzísticas Charles Mingus e Albert Ayler. Não ligou muito, preferindo a macrobiótica (a sua mamã nunca a ensinou a cozinhar, “My mama never taught me how to cok”, de “X-Dreams”…) e espantar os peritos com impossíveis proezas realizadas, ao vivo e em discos como “Revenge” e “I’m the One”, num dos protótipos do sintetizador moog, que o próprio Dr. Robert fez questão de lhe ofertar.

Não à fama

Segue o caminho que escolheu, sem concessões nem compromissos de qualquer espécie. Recusa a fama – David Bowie acenou-lhe com um convite para tocar a seu lado, na época de “Alladin Sane”, mas ela não aceitou. Não queria ser tratada como um objeto” – diz – “que é o que geralmente acontece quando nos transformamos em estrelas…”. Brian Eno também não a convenceu. Queixa-se de que este queria separar a voz das palavras, cortar tudo aos bocadinhos, misturar, transformar e voltar a misturar, até o resultado se parecer com tudo menos com o original. “Era como se me cortassem a mim própria aos bocados”. Portanto, de novo, Annette disse “não”. Mostrou-lhes do que era capaz, sozinha, gravando a obra-prima “X-Dreams”.
Queria ainda maior liberdade. Fundou uma editora de discos só para si e chamou-lhe “Ironic records”. Com o seu piano e os seus sintetizadores espantou a parte do mundo mais atenta com os álbuns “Sky Skating”, “Been in the Streets too long”, “I have no feelings” e “Abstract Contact”. Na sua música o termo “jazz” ganha contornos inusitados, através de uma sensualidade estranha e quase obsessiva e de uma inteligência afiada como um bisturi.
Chega a Lisboa companhada dos seus sintetizadores e de três músicos: Michael Mondesir (baixo), Simon Price (percussão) e Amit Mukherjee (guitarra). Promete um espetáculo único, capaz de pôr a cabeça em água a toda a gente. Convém levá-la à letra.