Arquivo mensal: Junho 2022

Jerry Harrison – “Casual Gods Walk On Water”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 JULHO 1990 >> Videodiscos >>Pop

OS DEUSES PODEM ESPERAR


JERRY HARRISON: CASUAL GODS WALK ON WATER
LP, MC e CD: Fontana, distri. Polygram



O maior problema com que se defrontam grande parte dos músicos que integram grupos conhecidos é como mostrar ao mundo, e em separado, as suas capacidades individuais. São génios aprisionados nas respetivas bandas. O pior é que as tentativas solitárias quase sempre fracassam. Ou seja, as partes raramente valem tanto como o todo. Exceção feita àquelas que funcionam como cérebro, centro nevrálgico das atividades do coletivo. É o caso dos Talking Heads, cuja cabeça principal é incontestavelmente a de David Byrne. Os seus discos a solo impõem-se como objetos autónomos, qualitativamente à altura dos melhores da banda. Tina Weymouth diverte-se de vez em quando no seu Tom Tom Club. Chris Frantz deixa-se ficar quietinho no seu canto. Só o teclista Jerry Harrison tem outras ambições. Fundou os seus próprios “Casual Gods”, à espera de milagres. Depois de uma promissora estreia com o álbum do mesmo nome, insistiu, agora pretendendo mesmo caminhar sobre as águas. Em relação ao disco estreia, “Walk on Water” aponta para pistas que, se por um lado são reveladoras da capacidade de Harrison em recriar o som e a temática Talking Heads, por outro lado não conseguem ocultar que o músico está, para já, preso a esses parâmetros. Todo o segundo lado do disco funciona como se fosse um novo dos Talking Heads, ao nível dos arranjos, da complexidade rítmica e até, por vezes, como em “I don’t Mind”, das próprias inflexões vocais de Harrison, em tudo semelhantes às de Byrne. Em contrapartida, nos temas mais afastados da veia T.H., torna-se notória a indefinição estética. Mesmo assim, quando contraposto ao seu antecessor, o novo “Walk on Water” fica a ganhar; no alargamento do leque de referências e num maior apuro instrumental. Para o efeito convocou-se um lote precioso de músicos de estúdio, em que pontificam Chris Spedding e Adrian Belew, dois guitarristas de créditos firmados e o teclista Bernie Worrell. Acrescente-se um punhado de boas canções e estão reunidos os ingredientes para a feitura de um álbum pelo menos razoável que, se não faz esquecer os Talking Heads dos grandes momentos, também não os envergonha. O começo não podia ser pior: “Flying Under Radar”, o inevitável tema de abertura dirigido aos tops, uma mixórdia rock com todos os truques de produção necessários para o impor ao consumo das massas. Passado o equívoco inicial a música vai aos poucos entrando nos eixos. Depois de “Cowboy’s got to go”, que dir-se-ia roubado aos Dire Straits, Jerry Harrison perde o medo, aventurando-se por caminhos desconhecidos, sem nunca perder, no entanto, o fio condutor. “I don’t Mind” tem a cadência balanceada das boas baladas de Byrne. “Sleep Angel” levanta voo nas asas do dito. Em temas como “Kick Start” ou “Confess”, há uma aproximação nítida ao “drive” swingado, característico dos “The The”, que chega ao ponto da própria voz de Harrison se parecer com a de Matt Johnson. “Never let it Sleep” é a típica canção de contornos vagamente “country”, habitual nos Talking Heads.
Harrison, nota-se a cada espira, não é amador nem principiante. Sabe compor boas canções e arranjá-las a preceito. Não terá o génio de Byrne, mas nem só de genialidade se fazem os bons discos. “Walk on Water” deixará satisfeitos os incondicionais fãs dos Heads, agradando certamente a todos aqueles que de rock apenas exigem que seja, pelo menos, agradável. Que não se peçam, pois, a estes “deuses casuais”, grandes milagres.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #12 – “Sun Ra”

#12 – “Sun Ra”

Fernando Magalhães
18.09.2001 180613

Como se tem falado por aqui da música deste lunático iluminado (para alguns, para outros, sobretudo alguns puristas do jazz mais fundamentalistas, o homem não passa de uma fraude…), recomendo a audição de dois álbuns brilhantes que, infelizmente, julgo não estarem disponíveis em CD: “It’s After the End of the World” (ed. MPS) e “Nuits de la Fondation Maeght, Vol.2” (ao vivo, ed. Shandar).
Em ambos descobre-se a costela mais “cósmica” e electrónica de Sun Ra. Uma das faixas de “Nuits…”, que ocupa todo o lado do disco, é uma longa improvisação solo no sintetizador Moog. Electrónica no seu estado mais convulsivo, astral e esotérico.

FM

PS-Não acho grande piada ao tema “Space is the place”, cântico freak/free que julgo correponder ao “pior” de Sun Ra, um certo folclore pseudo-místico que, aliás, o próprio músico faz questão de exibir segundo uma espécie de auto-paródia…

Roger Waters – “Entre Dois Muros” (concerto | berlim | televisão | antevisão | artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 JULHO 1990 >> Videodiscos >> Na Capa

ENTRE DOIS MUROS

Passada uma década sobre a edificação de “The Wall”, Roger Water, dissidente dos Pink Floyd, regressa nos papéis de arquiteto e carpinteiro. O muro volta a ser erguido. Em Berlim, claro, sobre os escombros do outro e com honras de transmissão televisiva em todo o mundo.



Os muros separam e protegem. Escondem e dividem. Existem duas espécies distintas: ou de cimento ou qualquer outro material sólido e aqueles mais subtis, invisíveis, construídos metodicamente só do lado de dentro. Os primeiros podem ser destruídos, deitados abaixo com maior ou menor dificuldade. Os segundos utilizam materiais indestrutíveis e flexíveis que resistem às pressões exteriores e às pancadas. Moldam-se a elas. Adaptam-se. Os seus construtores são fabulosos arquitetos, peritos na minúcia com que delineiam mirabolantes fantasias. Fantasmas criados com todo o cuidado, mantidos vivos e atuantes graças a um constante apelo ao medo, memória e imagens de monstros infantis.

Ascensão e Queda

Em finais de 1979, Roger Waters, músico e letrista dos Pink Floyd, banda emblemática do psicadelismo, constrói um muro descomunal gravado para a posteridade num disco chamado simplesmente “The Wall”. “O Muro” pertence ao grupo das construções mentais inabaláveis e impenetráveis. Decorridos dez anos a História confirma a regra atrás enunciada. Uma das mais sólidas paredes jamais erguidas por mãos humanas revelar-se-ia, finalmente, apenas um amontoado de tijolos. A 9 de novembro de 1989, cai o muro de Berlim, sinónimo de terror e divisão, vergado às rajadas do vento dos novos tempos.
No próximo dia 21 de julho, o muro volta a ser erguido. Desta vez como simulação e símbolo. No próprio local onde se abriu passagem entre as duas metades de um todo nacional, Roger Waters constrói de novo a sua monstruosa fantasia, sublimada em espetáculo gigantesco. O fingimento substitui o horror, o “rock”, orgia mediática, multiplicando as referências e paradoxalmente funcionando como veículo normalizador de uma realidade complexa, unificada numa estratégia de massificação simplificadora. Exorcismo simbólico e coletivo sintetizado num único conceito – o muro.

Catástrofes

A multidão que se concentrará nessa ocasião na Praça Potsdam, em frente à Porta de Brandenburgo, em plena “terra de ninguém” situada entre as duas antigas fronteiras, participará inconscientemente num acontecimento único, mas não ao nível do que será universalmente alardeado e difundido. Oficialmente, o concerto organizado por Waters e Leonard Cheshire, veterano aviador na Segunda Grande Guerra, tem como objetivo angariar fundos para uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de catástrofes e acidentes, o Memorial Fund for Disaster Relief, funcionando por acréscimo como evocação e homenagem às vítimas dos dois conflitos mundiais e das não menos mortíferas sequelas da Coreia ou do Vietname. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Floyd, também aviador, morreu num acidente da Guerra de 1914-18 e que a sua ausência é precisamente um dos fantasmas que assombram “The Wall”, o disco, abrindo caminho para a emergência do oposto matriarcal, personificado na mãe zeladora e castradora.

O Eterno Retorno

Depois de amanhã, num superespetáculo que, para além de Waters, contará com Joni Mitchell, The Band, Marianne Faithfull, Cindy Lauper, Sinead O’Connor, a Orquestra e Coro do Exército Vermelho e bandas militares, milhares de pessoas serão de novo emparedadas e embaladas nos braços quentes e protetores dos seus próprios fantasmas, na tal “no man’s land”, estrato indefinido e uterino, terra de novo fértil e semeada onde voltarão a crescer os frutos envenenados de renovados e pujantes nacionalismos. A mãe-pátria recupera a sua vocação telúrica, capaz de gerar filhos solares ou monstros disformes (como aqueles que flutuarão ameaçadores sobre a multidão durante o concerto), consoante for fecundada pelo macho do poder, em amor ou em paixão. A História nunca se repete? Ou vivemos todos adormecidos no seio de novos espectros totalitários? Não é a própria desmesura do espetáculo anunciado, em que cada espectador se quedará subjugado por um excesso de imagens e sons à escala não humana (como as figuras e o estádio monstruoso no interior da capa de “The Wall”), reduzido à condição de simples número manipulado como um fantoche, manifestação evidente de subtil totalitarismo? O indivíduo perdido na multidão e no gigantismo massificador obedece cegamente aos estímulos sonoros e visuais. Moderno ritual de obediência a ídolos que em vez do facho imperial empunham guitarras elétricas. E canções do “top” substituem hinos guerreiros. Há sempre um “Führer” disposto a gritar “slogans”. O “rock” está à inteira disposição de candidatos.
O que se pretende da celebração e festa encobre afinal mais sinistras formas. As boas intenções cumprem-se no prolongamento contemporâneo de mal enterrados horrores. Evocam-se antigos fantasmas para os exorcizar ou para os venerar? Convocam-se os mortos para celebrar a vida, esquecendo que morte e vida formam a dupla face de um mesmo rosto. O super-homem nietzschiano, como a criança, é inocente e despreza ambas com soberana alegria. Quem preside afinal à reunião, Apolo ou Dyonisius? O sol ou o solo? Berlim volta a ser centro do mundo. Destruído o muro que dividia alguns e protegia outros, o espetáculo “The Wall” volta a suscitar eternas dúvidas e recônditos receios. O novo fantasma chama-se Europa.