Arquivo mensal: Junho 2022

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #17 – “Revelação do ano + Residents”

#17 – “Revelação do ano + Residents”

Fernando Magalhães
25.09.2001 121236

Uma maravilha, o álbum de estreia do duo inglês FORT LAUDERDALE, “Time is of the Essence” (ed. Symbiose).
Crítica já no próximo “Y”.
Mas imaginem um cruzamento de dança/electrónica orquestral/psicadelismo/lounge…perfeitamente integrados num todo original. Stereolab + Angelo Badalamenti + Olivia Tremor Control + Strauss + …
Para ouvir e reouvir muitas vezes!

“Icky Flix” dos Residents é o regresso à grande forma dos Residents. Um álbum épico e perturbante, que recupera a grandiosidade de “Not Available”.
A versão em DVD inclui ainda mais música e uma quantidade de vídeos do grupo. Pela amostra das imagens do livrete interior, deve ser qualquer coisa de majestoso, perigoso e tripante.

FM

PS-Inqualificavelmente mau, o concerto de David Sylvian, ontem, no Coliseu. Ao fim de 45 min. desisti e fui-me embora.
Segundo já me disseram (inclusive admiradores do músico) até ao final foi sempre a piorar!

Roger Waters – “200 Mil Ao Vivo E Milhões Pela TV Assistiram Ao Megaconcerto De Berlim – O Muro Espetáculo” (concerto)

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 23 JULHO 1990 >> Cultura


200 mil ao vivo e milhões pela TV assistiram ao megaconcerto de Berlim

O muro espetáculo


Inacreditável era a expressão mais ouvida na Praça de Potsdamer, em Berlim, para qualificar a monumental encenação de “The Wall”, levada a cabo por Roger Waters, Leonard Cheshire e uma companhia de estrelas empenhada em fazer do dia 21 de julho uma data inolvidável.

Se nem tudo foi perfeito, também não desmereceu da proverbial capacidade organizativa germânica. A Imprensa não se pode queixar. Foi estragada com mimos. No hotel três bonitas alemãs informavam sobre tudo, davam papéis e ainda por cima sorriam. Já no local do espetáculo, uma tenda gigantesca montada atrás do palco, fazia estendal de iguarias e bebidas à disposição dos esfaimados e sedentos jornalistas. Não se pense naquelas barracas “à portuguesa”, do estilo “coratos, febras e tintol”. Os alemães são um pouco diferentes e, quando querem, primam pelo requinte. Que, no caso, chegou ao ponto de arranjos florais dispostos sobre as mesas e o serviço de valquírias solícitas e peito “prateleira-tapa-a-visão”.
Frente ao palco a multidão. Cerca de 200 000 pessoas estendiam-se pelo imenso recinto até perder de vista, algumas afastadas centenas de metros do palco. A festa começou logo de tarde. Primeiro só com o público, feliz apenas por estar ali, perplexo diante de um muro de 170 x 25 m, quilómetros e toneladas de cabos, torres, andaimes, ecrãs e holofotes. Cenário grandioso pronto para um dos maiores espetáculos alguma vez realizados no planeta.

à espera da noite
espanto

O ambiente geral era o de um novo Woodstock. Pacifismo, cor, bolas de sabão, corpos despidos e muita ideologia à mistura. Não se sabe se houve algum parto. Celebrava-se (obviamente) a queda do muro mas também algo mais, difusamente sentido como liberdade ainda mal saboreada. Berlim, após décadas de isolamento exorcizava-se e sublimava velhos medos e ânsias dissimuladas. Como a personagem criada por Roger Waters, condenada, após o julgamento, a enfrentar o outro lado. Crime e castigo. Como em Nuremberga. No futuro, como será?
Os Frumpy, The Hooters, The Band e The Chieftains encheram a tarde e a paciência dos poucos que se dignaram dar-lhes atenção. Os “The Band”, pelo passado ilustre, mereciam mais respeito. Ninguém lhes ligou nenhuma. Quanto aos The Chieftains, a sua música tradicional da Irlanda provou que é diferente tocar num pub para 50 pessoas de copo de whisky na mão e para 200 000 à torreira do sol. A harpa e a gaita-de-foles celebraram como puderam o sol que se escondia. Mas do que toda a gente estava à espera era que a noite do espanto chegasse. Por fim, desceu a escuridão e fez-se luz. Com meia-hora de atraso em relação ao previsto, fogo-de-artifício, explosões e a queda de minúsculos para-quedistas. A partir deste momento o mundo inteiro viu pela televisão.
A mobilidade da câmara televisiva permitiu a milhões de espectadores ver muito mais que os milhares reunidos na Potsdamer Platz. Pormenores como “close-ups” sobre os músicos ou do que se passava por detrás do muro, escaparam ao olho nu dos presentes no local. O concerto começou mal, com falta de som de retorno, levando mesmo a que Ute Lemper se recusasse a cantar o tema que lhe era destinado. Mas tudo bem: afinal o que todos queriam era ver a desmesura do espetáculo, os fumos, as luzes e os helicópteros – a construção da ilusão.

Sentir a História

Por outro lado, era importante participar, “sentir” a História, através da encenação da história de Pink (alter-ego de Waters em “The Wall”), inserida num novo contexto. O muro tornou-se plural, símbolo fácil da coerção da liberdade. A réplica reduzida a escombros certifica a queda do original. O ritual da encenação confirma o facto histórico. Paradoxo: a ilusão certifica o real.
Na primeira parte, foram momentos altos o aparecimento do boneco insuflável representando “o professor”, durante a prestação de Cindy Lauper em “Another Brick in the Wall” e a sentida interpretação de Joni Mitchell em “Goodbye Blue Sky”. Bryan Adams cumpriu a sua parte e Jerry Hall fez de “groupie” enquanto Waters/Pink deitava o televisor pela janela em “One of my Turns”, uma das melhores canções do disco.

“Fomos nós que o derrubámos”

No intervalo publicitaram-se a justa causa do “Memorial Fund for Disaster Relief” e a British Airways. Imagens projetadas sobre o paredão, de dor e sofrimento de pessoas concretas, e de figurantes anónimos formando a imagem de uma marca. O muro normalizou, nivelando o horror e a banalidade. Impensável e dispensável.
A ambulância e a seringa descomunal de “Comfortably Numb” foram os adereços que conduziram ao clímax de “Bring the Boys Back Home”, com orquestra, coro e uma banda militar soviética tocando em crescendo enquanto no muro se projetavam imagens e nomes alusivos às vítimas da guerra. Em “Run like Hell” e “Waiting for the Worms” reinou o porco insuflável de olhos vermelhos e a ameaça do totalitarismo tresloucado.
No julgamento destacaram-se Marianne Faithfull, no papel de mãe e a figura de Thomas Dolby em contorções de pesadelo. No apoteótico derrubar final de “The Wall”, a multidão rejubila. “Fomos nós que o derrubámos” – parecem gritar milhares de gargantas alemãs, exultantes na recuperação da identidade perdida.
O espetáculo encerrou com um “Do They Know it’s Christmas” de ocasião, as personagens “más” arrependidas, cantando em coro as virtudes da paz reencontrada e jurando que a maré mudou. Resta saber para que lado.
Tudo acabou como começou – com fogo-de-artifício e focos de holofotes varrendo o céu de Berlim.

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #16 – “Felt”

#16 – “Felt”

pohzumano
25.09.2001 170555

A conversa do outro dia sobre a banda do sr. Lawrence despertou-me a veia revivalista e hoje vim com uma pilha dedicada a eles.

Para além de todos os elogios e louvores que nunca lhes recusei, uma pedra tem vivido no sapato da minha feltofilia: o lawrence imita um bocado o Bob (woops) Dylan a cantar, não imita? Parece uma espécie de Robert Dylan suave. Será assumido? Ele alguma vez terá falado sobre isso?

now playing: the stagnant pool (gosto muito das canções longas dos tipos)

Fernando Magalhães
24.09.2001 170521

Felt
Por essas e por outras é que o meu disco favorito dos FELT é um de capa amarela, só com letras a negro por cima, (não me lembro do título) de instrumentais.
O 1º lado, então, é uma delícia de vibrafones jazzy ambientais. Suspeito que os DYLAN GROUP (ninguém, além de mim, fala neles, porquê?) foram lá beber inspiração.

FM

Rui C
26.09.2001 111157

Re: Felt

Há um tempinho eu falei aqui no último disco do DYLAN GROUP – “Ur-Klang Search”.
É muito jazzy com o toque diferente dos vibrafones, marimbas e demais percussão.
O problema são os temas arrastarem-se demasiado sem que os temas sejam resolvidos.
Um disco longo, a precisar de tesoura. De resto o som agradou-me.
As afinidades com os Felt é que não vislumbro.
Inspiração muito difusa, talvez.

Fernando Magalhães
26.09.2001 130115

Devias ler as mensagens anteriores. 
As semelhanças são APENAS com um disco inteiramente instrumental dos FELT, “Train Above the City” (sem Lawrence!) que não tem nada a ver com a restante discografia do grupo.
Se ouvires este disco hás-de concordar que o som é muito semelhante ao dos The Dylan Group, na tal utilização intensiva de vibrafones e marimbas.

Eu não gosto por aí além de FELT, mas “Train above the City” é a excepção. Um disco belíssimo, jazzy, ambiental.

saudações

FM