Arquivo mensal: Maio 2022

Mler Ife Dada – “Música do Homem que Anda (Walkman Music)”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


MLER IFE DADA
Música do Homem que Anda (Walkman Music)
Máxi, edição Polygram



Sofia rendeu Anabela. Sofia Amendoeira aprendeu bem e rapidamente a matéria dada. Os quatro temas que integram este 45 rotações, para além de “Walkman”, ainda “Erro de Cálculo”, “Choro do Vento e das Nuvens” e “À Chuva”, fazem parte do recente álbum, “Espírito Invisível”, mas agora com novas misturas destinadas a servir a voz grave e descontraída da nova vocalista, em vez das piruetas nervosas e do exotismo garrido da Anabela Duarte. É ainda demasiado cedo para se emitir qualquer juízo sobre eventuais ganhos ou perdas suscitados pela troca. Se por um lado o timbre e colocação da novata parecem adequar-se mais harmoniosa e naturalmente às complexidades da música de Nuno Rebelo, por outro perde-se (pelo menos por enquanto) um certo diálogo (por vezes difícil e amiúde pouco pacífico) entre a voz e o suporte instrumental que era um dos polos de atração do estilo da banda, determinado pelo modo de cantar de Anabela. Enquanto não surge novo álbum, este disco fica como uma apresentação de Sofia, lembrando-nos que os Mler Ife Dada são, até à data, uma das formações mais originais e interessantes da música que por cá se vai fazendo.

Madredeus – “Existir”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


ALMA, TRADIÇÃO E FADO

MADREDEUS
Existir
LP, EMI – edição Valentim de Carvalho


Sociologia, Semiótica, Psicopatologia, Otorrinolaringologia e por vezes até Música, são algumas das ciências tratadas, com mais ou menos profundidade, a propósito da nova música portuguesa. Não querendo competir com as sumidades em cada uma destas disciplinas, gostaria entretanto de contribuir com algumas achegas para o debate alargado que se vai desenrolando em volta de tão apaixonante matéria. Então é assim: a nova música portuguesa não é nova e muito menos portuguesa. Não é nova porque não inova, não arrisca e se compraz numa mediocridade satisfeita com o “para português não está mal”, sinal de menoridade mental e cultural que parece afetar grande parte da nossa “inteligenzia” que, no caso lusitano, se trata mais de uma “estupidenzia”, para sermos rigorosos. Não é portuguesa porque se limita, na maioria das vezes, a decalcar, melhor ou pior, modelos estrangeiros. Há exceções. Felizmente. Músicos por acaso nascidos e apertados contra a falta de visão e mercantilismo imperantes nesta quase ruína cultural em que vivemos, orgulho da casta vendida e saloia que finge governar-nos, lutando ingloriamente contra os Adamastores de gravata que, pululando nos templos ministeriais de acrópoles a “negrecer”, vão metodicamente redigindo os decretos de morte das nossas vidas, dos nossos sonhos maiores que todos os impérios.
Os Madredeus são uma das exceções. São novos porque são eternos. São novos e eternos como a Alma, a Tradição, o Fado, a visão que vê o centro, fundo e ao longe, a Paixão e a loucura que transportam todos os tempos pelo futuro adentro. “Existir” é verbo difuso e rigoroso que exprime na perfeição o modo de ser verdadeiramente português – estar, ir sendo, não existir concretamente como coisa definitiva e dura, antes como rio que vai fluindo pelos infinitos leitos do Amor.
Rodrigo Leão, Pedro Ayres, Francisco Ribeiro, Gabriel Gomes e Teresa Salgueiro foram ainda mais longe que nos seus dias de “antanho”. Nos seus sons e versos escutamos a voz dorida do Infante Portugal. Música una e única, singela por vezes, solar, sombria, elitista e popular. Catedral de luz, refúgio de olhares ardentes e silentes orações. Religião significa religação. “Existir” religa-nos ao gosto de ouvir música genuinamente portuguesa e, porque portuguesa, genuinamente universal. Liturgia iniciada com as vozes de Teresa e Francisco, no cântico luminoso e ascético de “Matinal” e culminando no ato de fé final de “Vontade de Mudar”, passando pela extroversão de “O Ladrão” (um dos temas que todos irão trautear nos próximos tempos), o instrumental etéreo e saudoso de “As Ilhas dos Açores” ou “O Menino Jesus”, Espada, Taça e Vitral da Nau em que eternamente partem os filhos diletos da nação. Ao todo, doze temas, doze arquétipos da real arte de ser português.

Madonna – “A Parte De Baixo – Integra O Especial Madonna – Artista Integral, Em Que Jorge Dias Escreve ‘Da Cintura Para Cima’ E Luís Maio Escreve ‘O Umbigo'” (na capa)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 30 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Na Capa


A PARTE DE BAIXO
Integra o especial Madonna – Artista integral, em que Jorge Dias escreve “Da Cintura para Cima” e Luís Maio escreve “O Umbigo”


Nunca achei Louise Ciccone uma rapariga bonita. Muito menos “sexy”. Músculos a mais, loura demais, ar inequivocamente ordinário, as fotografias da “Playboy” nada de mais. Só até certo ponto compreendo as reações de patético delírio e salivar abundante, provocadas por esta estrelinha de segunda grandeza, nos cérebros anestesiados de grande parte da população planetária. Este artigo é uma espécie de investigação. Uma tentativa de penetrar nos mistérios neuronais dos mais afetados. O disco “I’m Breathless” é a pedra de toque deste humilde mas empenhado contributo para a explicação do mito.
Como decerto já todos notaram, Madonna foi seccionada, ou melhor dizendo, sexionada em três fatias. Coube-me a de baixo, em princípio a mais desejada, correspondente à zona fulcral da gygjwefa (tosse) e do tfgfcu (tosse) e por aí fora descendo pelas pernas e terminando nos pés. É fácil explicar o apelo da parte superior, onde geralmente se situam as duas kgfolihtgs (tosse) frontais. Em cada homem habita uma criança nostálgica, saudosa do néctar que a fez medrar. E como são cheias as kgfolihtgs (tosse) de Madonna. Mas deixo isso ao Jorge. Para um umbigo, parte menos melindrosa, mas mais desinteressante do ponto de vista da manutenção da espécie, é necessário recorrer à metafísica. Foi o que o Luís fez. Na parte que me coube (metaforicamente falando, claro) convém ter um certo cuidado na utilização (também metafórica) dos termos anatómicos.
Comecemos pelo mais fácil: os pés e – porque não? – as pernas. Com este novo disco, a loura aprendeu a andar com pés alheios. Logo de entrada (atrever-me-ia a chamar-lhe “pezinhos de coentrada”), os de Liza Minelli e o “glamour” decadente e, na voz de Louise, estapafúrdio, de “Cabaret” revisitado. Prossegue na veia dos velhos musicais da meca do cinema, sem tirar nem pôr. Depois, há algo estranho pelo meio, como a música dos desenhos animados dedicada ao herói de BD Dick Tracy (recorde-se que o álbum se subintitula “Music From And Inspired By The Film Dick Tracy”). Acrescente-se uma dose bem aviada de “vintage” Madonna e está encontrada a receita que não cura, antes perpetua a doença, variando os penteados, as cores do cabelo e os vestidos, mantendo intacto o vazio essencial, aspiradores das líbidos e dos dólares. O ato de sugação é assegurado (sem remédio que valha à maioria) pela exposição sabiamente administrada das citadas partes mais melindrosas e suscetíveis de manter a imaginação (e não só) bem oleada.
Louise Ciccone é a personificação de todas as perversões: as da indústria discográfica e as outras “que têm como pano de fundo o desvio fdiregfxual” (Sigmund Freud, in “Drei Abhandlungen Zur Fdiregfxual Theorie”). De facto… (tosse).