Arquivo mensal: Maio 2022

Steven Brown – “La Grâce Du Tombeur” + Steven Brown & Delphine Seyrig – “De Doute Et De Grace”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


LABIRINTO E GRAÇA

STEVEN BROWN
La Grâce Du Tombeur
LP e CD Les Temps Modernes

STEVEN BROWN & DELPHINE SEYRIG
De Doute Et De Grace
LP e CD Made To Measure,

distri. Contraverso



Steven Brown representa o lado intelectual e sério dos americanos-que-gostariam-de-ter-nascido-europeus, Tuxedomoon. Blaine Reininger é o lúdico do bigode que toca violino, conta anedotas, veste casacos aos quadradinhos e, de vez em quando, se distrai e esquece de imitar David Bowie, produzindo álbuns dignos de registo. Peter Principle, o esquisito dos barulhos, ultimamente dado a ambientalismos suspeitos e obscuridades sonoras sempre bem acolhidas e gravadas “por medida” na editora belga, Made To Measure. Steven Brown marcha mais certinho. Dele não se conhecem passos em falso. Mantém invariavelmente um superior nível qualitativo, quer no campo das canções (“Searching For Contact”) quer no terreno mais ambíguo dos experimentalismos conceptuais (“Music For Solo Piano” ou as experiências partilhadas com Benjamin Lew, “Douzième Journée…” e “À Propos D’un Paysage”) e, ultimamente, também poéticos (o disco dedicado à poesia de John Keats).
“La Grâce Du Tombeur” inscreve-se simultaneamente nesta e numa terceira tendência, a de composição para filmes ou outras formas artísticas cúmplices da dos sons. Neste caso, um espetáculo teatral de Thierry Smits e Antoine Pickels, pretexto para Brown passar para o vinilo três longas peças instrumentais de extrema complexidade constituindo-se num todo de múltiplas leituras e no álbum mais experimental de toda a sua carreira: “The Labirynth”, “The Fall” e “The Flight”. Sequências de lógicas oblíquas sobrepostas, sonoridades sombrias e ocasionais cintilações, iluminando fugazmente a massa sonora angustiante que domina todo o álbum. Curiosamente, os maquinismos rítmicos obsessivos e monstruosos de “Labirynth” ou as vozes parasitárias e certas desfocagens estruturais de “Fall” lembram operações semelhantes às obradas pelos Nurse With Wound, em “Spiral Insana”. Do outro lado, “Flight” eleva-se num tom mais ligeiro, com a eletrónica predominante em todo o disco, servindo de pano de fundo aos arabescos do saxofone de Brown.
“De Doute Et De Grace”, composto para um filme da Wonder Products, com textos retirados do livro “Cité Du Sang”, de Carole Naggar, prossegue a via iniciada com o disco de Keats. Mais ainda do que neste, a música é a das próprias palavras, ditas por Delphine Seyrig, atriz no “Marienbad” de Resnais, presença e voz encantatórias dos fantasmas de Duras em “India Song”: Calcutta, o Ganges, Hotel Astor… Música e poesia confundidos num instante mágico, a memória reinventada em jogos literários e labirintos de sonhada nostalgia.

Energy Orchard – “Energy Orchard”

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 MAIO 1990 >> Videodiscos >> Pop


ENERGY ORCHARD
Energy Orchard
LP MCA, import. WEA


Energy Orchard é, desde já, candidato a um dos piores discos do ano, galardão sempre difícil de atribuir devido ao elevado número de candidatos. Tem todos os ingredientes, nas doses convenientes, dos maus discos: influências mal assimiladas (U2, Dylan), ausência total de originalidade, produção medíocre, músicos sofríveis, enfim, todo o género de maleitas de que deve enfermar um aspirante credível a lugar aconchegado no caixote de lixo (já pejado do dito) da música pop. Os Energy vieram da Irlanda, culpada da propagação na Europa dessa praga terrível que é a Power Pop, cujos arautos são as dúzias de grupelhos que há anos nos vêm rezingando aos ouvidos, como irritantes besouros, as suas infinitas variações do rock “politicamente empenhado” dos papás U2 ou as tontices açucaradas e “foleiradas” do denominado Rock Céltico. Por mim, se fosse irlandês, tinha vergonha. Mas enquanto as massas preferirem sucedâneos de quinta ordem aos originais e à verdade da tradição (que até pode e tem sido corretamente atualizada, mas por outras vias que não passam pela pop), grupos como este continuarão impunemente a dar má fama a uma música já de si atreita a toda a espécie de enxovalhos, crimes e – já agora – escapadelas.