Arquivo mensal: Janeiro 2022

Júlio Pereira – “Cavaquinho”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993


Júlio Pereira
Cavaquinho
Companhia Nacional de Música, distri. MVM



Regressa com capa amputada o clássico da guitarra em miniatura que empurrou para debaixo dos projectores o nome de Júlio Pereira. “Cavaquinho”, entre outras virtudes, é o responsável pela recuperação, para a música popular contemporânea, do som e personalidade de um instrumento feito à dimensão dos portugueses, acrescentando-lhe uma linguagem inovadora e o tecnicismo aprendido e desenvolvido com os mestres minhotos (poderemos chamar-lhes, sem ofensa, cavaquistas?) Bernardo Silva e Domingos Machado. Isso foi bom e devemo-lo a Júlio Pereira.
Por outro lado, é igualmente o disco responsável por, a partir dele, todos os grupos de música de raiz tradicional portuguesa passarem a utilizar um cavaquinho, até por ser um instrumento maneirinho e, lá no juízo deles, fácil de tocar. O que teve como resultado já não haver paciência para ouvir um cavaquinho (o próprio Júlio o compreendeu, passando rapidamente para a braguesa…). Também, graças ao arranjo, aqui incluído, de um “Catar galego” (ouve-se sempre em todos os comícios e festas do PCP ou nas feiras de ecologia), nunca soara tão amaricado o som de uma gaita galega. Consequência de um estilo de produção asséptica, que fez escola, cá e na Galiza. Isso foi mau e devemo-lo a Júlio Pereira.
Mas devemos louvá-lo por nunca ter voltado as costas à experimentação – nem sempre, é certo, com os melhores resultados, como aconteceu nos discos recentes, que se diria terem sido feitos em laboratório – e reconhecê-lo como um dos maiores intérpretes de instrumentos de cordas do nosso país. Que, ainda por cima, se afdisposto a, ao que parece, num futuro próximo, dar rédea menos larga ao computador, no que a sua música só terá a ganhar.
“Cavaquinho”, se ignorarmos os temíveis entretantos, soa hoje tão fresco como em 1981 e recomenda-se como uma entrada convidativa e bem decorada para quantos ainda permanecem do lado de fora da música tradicional portuguesa e querem entrar. (6)

Jethro Tull – “Nightcap”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993


Jethro Tull
Nightcap
2xCD Chrysalis, distri. EMI-VC



Surpresa das surpresas: “Nightcap” não provoca qualquer tipo de alergia auditiva, ao contrário da maioria dos discos recentes da banda de Ian Anderson, conseguindo mesmo suportar ser ouvido com prazer na totalidade, de preferência com um intervalo pelo meio. Trata-se de mais um disco desenterrado dos arquivos, de “unreleased material”, neste caso de estúdio e de muito razoável qualidade. Temas que ficaram de fora da discografia oficial dos Tull ou por serem demasiado parecidos com alguns dos escolhidos (e a pecha principal) deste disco reside precisamente num excesso de previsibilidade de alguns deles), ou, pela razão oposta, demasiado diferentes, como é o caso do estranhíssimo “Law of the bungle, part II”. São canções dos Jethro Tull de primeira apanha, da época dos épicos “Thick as A Brick” e 2ª Passion Play”, com tudo o que fez a sua glória de então: a flauta encantada, as vocalizações de trovador alucinado e a pose de Ian Anderson, o “progressivismo” entendido como uma mistura de “nursery rhymes”, blues, rock e a tradição folk inglesa. Os lucros de venda do disco revertem para a Balnain House, Home of Highland Music, na Escócia, e The Animal Health Trust. A ouvir por partes, de preferência à hora do chá. (6)

Dina – “Gabar Dina”

pop rock >> quarta-feira, 08.12.1993


GABAR DINAbr/br/


Depois de, entre outros, os Pink Floyd terem lançado uma caixa contendo quilos da sua música tecno-espacial, postais ilustrados e uma enciclopédia, os Jethro Tull terem embalado as suas flautadas sobre uma perna só numa caixa de charutos e os Police terem disfarçado a caixa no livro de regulamentos da PSP, chegou a vez de Dina apresentar a sua caixa.
A úncia diferença entre os citados nomes e a K. D. Lang da nossa praça (a fotografia da capa mima na perfeição a figura e a pose da cantora americana) é que a portuguesa encaixotou apenas para a crítica, à semelhança, aliás, de “The Red Shoes” de Kate Bush, que chegou aos jornais enfiado numa caixa de sapatos. A caixa de Dina (ver foto) foi fabricada em pinho claro, numa alusão subtil ao facto de algumas das letras de “Guardado em Mim” (assim se chama o disco colectânea) serem assinados por António Pinho, o da Banda do Casaco. O aspecto geral é o de uma daquelas urnas miniatura que servem para conservar as cinzas dos defuntos, embora de tonalidade mais alegre. Mas também pode servir para guardar jóias, droga, dinheiro, multas por pagar, bombons, fotografias, colecções de cromos ou, em caso de falta de espaço, discos compactos previamente dobrados.
Dentro da caixa vem confortavelmente instalado o disco, acompanhado de um folhetopromocional, impresso em cor de folha de tabaco. Logo nas primeiras linhas explica-se que “chamar a atenção da gente nova deste país sem perder apreço dos mais velhos é um dos méritos da música de Dina”. Esse e outros, por exemplo o de todas as canções serem potenciais vencedoras do Festival da Canção, com francas hipóteses de alcançarem o 14º lugar no da Eurovisão. A fechar, aparece mesmo “Há sempre música entre nós”, com a qual Dina participou no célebre festival internacional de Slunchev Briag, na Bulgária, obra-chave da tradição festivaleira mundial. Guardado está o pedaço para ela. No âmago da caixa.