Arquivo mensal: Dezembro 2020

Herman José – “A Fera Amansada” (televisão)

Rádio e Televisão >> Sábado, 21.11.1992


A Fera Amansada



Um humorista é diferente de um contador de piadas. Um humorista faz humor e faz pensar. Um piadista com maior ou menor talento, conta anedotas e distrai. O humorista põe inteligência no humor que faz. Sabe que o cérebro também ri e dá gargalhadas. O piadista apela ao lado mais primário da natureza humana. O riso, quando vem, quase sempre é do baixo-ventre.
John Cleese, Woody Allen, Groucho Marx são, ou foram, grandes cómicos humoristas. José Viana e Benny Hill são, ou foram, contadores de piadas. Herman José era, e queremos acreditar que continua a ser, um humorista. Programas da sua responsabilidade, como O Tal Canal, Hermanias ou um inesquecível Especial Fim-de-Ano, tornaram-se clássicos do humor – não diremos português porque neste a piada brejeira, na qual Herman, diga-se de passagem, também é mestre, reina sem rival – que deixa marcas, que apetece revisitar e fruir até à parcela mais subliminar.
Entre o humor e a piada fácil com que despacha as noites televisivas de sábado, a dar parabéns e a ganhar forças para fazer andar a “Roda”, tem balançado o coração de Herman José. O que equivale a dizer, entre a integridade e o mercantilismo, entre dar-se de corpo e alma (e nem para tanto é preciso despir-se…) a nós e entregar-se à chuva imparável de divisas – “dez para mim, dez para ti” – caídas de um hipermercado nos arredores de Lisboa. Entre o estado de graça e o “tudo à venda” afixado à frente de cada piada.
Nem é o concurso em si que é criticável – há uma arte do vazio e artistas da sua apresentação, como Carlos Cruz -, mas o despudor com que Herman desbarata algo que também era nosso.
Com Parabéns, Herman José vendeu-se e saiu derrotado. A RTP pode cantar vitória, desforrando-se da graça incómoda de uma “Rainha Santa” que foi a sua perdição. O humorista transformou-se no protagonista de um filme cujo título bem poderia ser “A Fera Amansada”.
André Breton escreveu, um dia, que o humor ou era negro ou não era. O de Herman José tornou-se cor-de-rosa. Com laçarotes.
Canal 1, às 22h05

Paolo Conte – “900”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992

LA VERA MUSICA


PAOLO CONTE
900
CD, CGD, distri. Warner Music



Quem, sem perder um estilo pessoal, consegue cruzar referências que abarcam um leque tão vasto como Frank Sinatra, Carla Bley, a orquestra de swing de Benny Goodman, Nino Rotta, os “novos” Bryan Ferry, Kevin Ayers e Tom Waits, os “blues”, o tango, a rumba e a xunga? Resposta: Paolo Conte, o único, inconfundível, decadente, magnífico Paolo Conte, “crooner” cuja alma vacila entre um pátio italiano, a Broadway, uma praia do Pacífico ao crepúsculo e todos os lugares “kitsch” da nossa imaginação.
“900” assinala o retorno em grande forma do velhote de voz profundamente etilizada que, em “Aguaplano”, se fora um pouco abaixo por culpa de excessivas cedências no capítulo dos arranjos, demasiado dependente dos sintetizadores, numa tentativa de “modernização” que acabou por não se revelar eficaz. Conte repensou a sua música, lembrou-se de feitos passados, em álbuns como “Appunti di Viaggio”, “Paris Milonga” ou “Un gelato al Limon” (cujas peças dispersas se juntam no duplo-colectânea “Il Primi Tempi” – obra, a todos os títulos, genial), voltou a pegar nos cordelinhos (letras, música, orquestração e direcção artística são da sua autoria) e a mergulhar de corpo e alma no seu universo de sonhos filtrados pelo álcool, de mulheres fugidias em ruelas suspeitas, de fumos e vícios, danças e guerras travadas entre lençóis. Paolo Conte canta em “900” melhor que nunca, do barítono esgotado à hora de fechar do cabaré, ao tom declamatório e às incursões desdramatizantes filtradas pelo “nariz” de um “kazoo”. Depois, as cordas, os naipes de metais (do sax ardente a uma tuba dolente) e o pianoforte imprevisível constroem o resto da cidade imaginária.
Por “900” passam a evocação das luzes de casino e da obscuridade dos bordéis. Paolo Conte viaja por uma Nova Iorque sublimada, por uma Itália voltada de costas para o neo-realismo, por nebulosas de contornos difusos, que os licores tornam infinitas. As composições de Paolo Conte mudam quando menos se espera, com a inconstância de mil visões que se entrechocam. Agora um choro do passado. Logo a seguir um riso distante, uma ironia. Uma anedota e uma tragédia, no curto instante de acender um cigarro. Uma garrafa sem fundo.
Orquestrações de “big band”, vagas de emoção soletradas a sangue e tinto no piano, sussurros, imprecações. Do burlesco ao mais dorido. Do fim do mundo ao fim de um quarto, onde outrora houve “toute la gloire e toute l’histoire… / ça reste dehors… / dans cette chambre / il y a seulement um ours / qui fait ron ron…”, assim mesmo, em francês, depois em inglês, em Paris, no Soho, sabe-se lá… Há aqui clássicos, temas que ficarão, quase todos, imortais. Ou voltando a ouvir uma e outra vez o álbum, todos mesmo. Mas um feitiço especial deixa marcas cá dentro, no lento, lentíssimo, magestoso e patético “I gardini pensili hanno fatto il loro tempo”. “900” só ouvido, só imaginado, só furiosamente guardado por quem sabe sentir e sente saber. Como dizer: é um segredo escuro e luminoso, posto à nossa disposição com a evidência de um espanto. Cantemos com Paolo Conte, à luz velada: “Jura que nunca renegarás o deus do tango / da ‘habanera’ e do fandango (…) jura-me que nunca passarás para outras danças / como se passa de um para outro quarto / vai… as pessoas que te aplaudem estão à espera… / vai…” (de “Schiava del Politeama”). Assim, “la vera musica”. (10)

Filipe La Féria e João Paulo Soares + Vários: “As Maiores Vozes Do Teatro Português” (dossier / teatro / revista / compilação))

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.11.1992


AS MAIORES VOZES DO TEATRO PORTUGUÊS

Filipe La Féria e João Paulo Soares não têm falsas modéstias. Para eles, “Passa por mim no Rossio” é mesmo um marco do teatro português. E o disco acabado de ser lançado no mercado, uma “peça rara” que ficará para a eternidade. O êxito desta “banda sonora” do teatro das nossas nostalgias está, à partida, assegurado.



“Passa por Mim no Rossio” foi um dos grandes êxitos de sempre do teatro português. Quase dois anos em cena, filas de quilómetro, desde a madrugada, à porta do D. Maria, na esperança de arranjar bilhete, foram sinais de um fenómeno tornado raro em Portugal – o sucesso popular. A revista portuguesa revista e actualizada por Filipe La Féria jogou com as recordações de uma Lisboa mítica e ganhou. De “enfant terrible”, La Féria passou a “menino de ouro” do patriarcado de Santana Lopes. Agora segue-se o disco, um duplo-álbum composto, arranjado e organizado por João Paulo Soares e com textos escritos por La Féria. Simone de Oliveira e Luís Madureira são os principais cantores. A festa passa, assim, do palco para as colunas de uma aparelhagem. A magia não é a mesma, mas o efeito de Pavlov permanece, talvez até mais eficaz. Lá estão as vozes, bem simuladas, que aprendemos a venerar: Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Beatriz Costa, Ribeirinho, Vasco Santana, António Silva, Milu, Amália Rodrigues, Hermínia Silva, Laura Alves, Raul Solnado, José Viana e tantos outros que fizeram da revista portuguesa o espelho das ânsias e alegrias do zé-povinho. Passemos por eles. Sempre e em qualquer lugar.



João Paulo Soares e Filpe La Féria são os autores, respectivamente da música e dos textos, de “Passa por Mim no Rossio”, o álbum duplo que ficará como testemunho sonoro da revista do mesmo nome. O PÚBLICO conversou com ambos, nos bastiadores do teatro Variedades, onde se ultimam os pormenores da “Grande Noite” encenada por La Féria, série sobre a revista portuguesa que a RTP apresentará a partir da noite de fim de ano. Antes ainda de “Maldita Cocaína”, ópera-rock que o autor vai levar à cena em 1993 no remodelado Politeama.
PÚBLICO – O ambiente do disco reproduz bastante bem o tom festivo da peça…
JOÃO PAULO SOARES – Foi gravado como se fosse um espectáculo ao vivo. Tem uma ambiência de “ao vivo”. Apesar de ser gravado em estúdio, não tem qualquer tipo de frieza. Houve a intenção de não perder o calor do espectáculo.
P. – Como se processou a composição das canções? Partiu de temas antigos como base?
J.P.S. – O espectáculo é uma viagem, uma história da revista que começa no final do século XIX. Houve uma recolha das canções já existentes e textos escritos propositadamente pelo Filipe La Féria. Eu compus à medida que as canções foram sendo englobadas numa determinada época. Digamos que compus ao estilo da época.
P. – Os textos foram trabalhados da mesma maneira?
FILIPE LA FÉRIA – Foram recolhidos e adaptados. Tivemos o cuidado de resumir e dar às pessoas que não viram o espectáculo uma visão global. Alguns textos foram encurtados e adaptados de maneira a formarem um todo.
P. – Até que ponto o a´lbum vale pela música e não como objecto-fetiche da peça?
F.L.F. – Acho que o disco vale por si só. É o registo de um espectáculo que se tornou histórico e numa referência, a partir de agora, de todo o teatro português. Houve milhares e milhares de pessoas que não viram o “Passa por Mim no Rossio”. A peça esteve um ano e meio no Nacional, como podia ter estado dois, três ou quatro, tal como acontece em Londres. Neste caso, provocou uma enorme polémica por estar a ocupar um espaço do Teatro Nacional que deveria ser para o teatro de reportório. Isso foi a razão principal de, precipitadamente, se tirar de cena um espectáculo que esgotava e esgotaria ainda as lotações. Mas pronto, em Portugal as coisas são muito originais – O Teatro Nacional tem agora vinte ou trinta espectadores por noite, está tudo muito contente e feliz.
P. – O álbum não deveria ter saído há mais tempo, enquanto a peça estava ainda em cena?
F.L.F. – Acho que este disco já podia ser de prata, de ouro, de platina, de cobre… Espero que na nossa próxima produção, “Maldita Cocaína”, no dia da estreia estejam o CD, o disco e a cassete à venda.
P. – Assim é mais uma recordação…
J.P.S. – O disco é um objecto completo que funciona por si próprio. Acho que não estou a ser imodesto se disser isto.
P. – O disco reproduziu a totalidade da música do espectáculo?
J.P.S. – Só metade. Ainda faltam bastantes coisas.
F.L.F. – Isso não é muito comercial dizer… Este disco, antes de ser lançado, já é uma peça rara porque, pela primeira vez, vai haver um registo das vozes dos maiores actores do teatro português. Como sabe, devido ao incêndio da Valentim de Carvalho no Chiado, perderam-se muitos dos registos históricos da revista: Vasco Santana, discos da Beatriz… todos os grandes nomes. Neste disco ficaram registadas as vozes já imoratais de Eunice Munoz, Ruy de Carvalho, Lurdes Norberto, Fernanda Borsatti, Varela Silva, São José Lapa, Maria Amélia Matta, Manuel Coelho, Henriqueta Maya, Simone de Oliveira, são tantos…
Daqui a 20 ou 30 anos, as pessoas vão dizer deles o mesmo que eu dizia quando ouvia a minha avó falar da Satanela e do Amarante. O melhor é comprarem o disco já porque vale dinheiro e é uma peça rara que vai ficar em casa!
P. – Qual o papel de Alexandre Soares na produção?
J.P.S. – Foi a pessoa que conseguiu reunir esforços, que deu o pontapé de saída nas negociações e serviu de intermediário com o David Ferreira. O Luís Madureira tomou mais conta da parte artística e da qualidade vocal em particular.
P. – Em que ponto se encontra a ópera-rock “Maldita Cocaína”?
F.L.F. – Estamos só à espera das obras do teatro Politeama. Há uns papéis do Tribunal de Contas que ainda não vieram e as obras ainda não se iniciaram. Por mim, é um projecto que acalento com mais emoção. Com “Passa por Mim no Rossio” e a próxima série de televisão, A Grande Noite, espero fechar o ciclo da revista.
P. – Nota-se em si a preocupação de estar em todos os aspectos ligados à produção de um espectáculo, desde a parte artística até à promoção…
F.L.F. – Acho que sim. Hoje em dia tudo tem que ter o seu “marketing”, não é? Ainda noutro dia fui escolhido por um grupo de alunas (isto é uma coisa anedótica) que estão a estudar “marketing” como a personalidade ideal para ilustrar a sua tese. Talvez seja um jeito natural em mim, porque nunca tirei nenhum curso de “marketing”.
P. – Afirmou uma vez que o apaixonavam as coisas efémeras…
F.L.F – Em Portugal temos uma visão muito viciada, muito “demodée”, da arte. A arte não tem nada que modificar totalmente as pessoas. Se criar uma pequenina mancha no seu cérebro já é muito bom. Ou se lhes der felicidade, ou alegria. É tão difícil, numa vida tão triste como nós temos, numa sociedade tão opressiva, numa cidade tão triste como Lisboa – que tem todos os vícios e defeitos das grandes cidades sem ter talvez as suas virtudes -, haver a festa, o lado festivo que temos obrigação de procurar na vida… Como se explica que o público esteja tão esfomeado que vá às quatro horas da manhã para uma bicha só para ver um espectáculo, como aconteceu com o “Passa por Mim no Rossio”? Como é possível que nós os intelectuais, os artistas, nos tenhamos fechado tanto em nós próprios, até ao extremo egoísmo de não olharmos para o nosso semelhante?
P. – Não receia que o público mais jovem não seja sensível ao disco?
F.L.F. – Você e eu ainda tivemos a felicidade de ouvir o Vasco Santana dizer: “Ó Evaristo, tens cá disto?” Isso foi tudo cortado. Há tempos, estava aqui a ensaiar uns jovens que queriam entrar na “Grande Noite” e tive que lhes ensinar as marchas de Lisboa! Veja a vergonha: liga-se a televisão e vê-se tudo a desfilar em Copacabana! Houve pessoas que convidei que não sabiam onde era o Parque Mayer! Embora seja preciso dizer que os jovens acorreram a ver “Passa por Mim no Rossio”.
P. – Não terão vindo atraídos pelo “kitsch”, agora muito na moda? Hoje os putos são capazes de achar piada ouvir a Simone…
J.P.S. – Eu não fui buscar o “kitsch” à Simone. De todo. Aproveitei antes o seu lado físico, visceral. A Simone é uma mulher com uma força brutal a cantar. Os números musicais dela são os mais difíceis e equilibrados de todo o disco.
P. – Simone de Oliveira será então uma presença aglutinadora no disco?
J.P.S. – A Simone de Oliveira funciona como Simone de Oliveira. O número principal do espectáculo, “Cabaré”, foi escrito de propósito para a Simone. Ele é a Simone.
P. – O álbum surge numa altura em que estão muito em voga os discos de versões de canções antigas. Por outro lado, não existe neste caso quelaquer espécie de reconversão. Os arranjos são o mais clássico possível.
F.L.F. – O João Paulo Soares teve o bom-gosto de não modernizar, no mau sentido, os temas. Deu-lhes sim um carácter de época, mas que passou pelo interior dele.
J.P.S. – Não gosto nada das pessoas que aparecem por aí com grandes orquestras e tudo em ritmo de 2disco” a cantar ”hits”. Acho uma coisa arrepiante. Por outro lado, acho que não seria útil, só por questões de fidelidade, trazer uma típica orquestra de revista do Parque Mayer que fosse má. É uma questão de bom-gosto.





O PESO DO EFÉMERO
VÁRIOS
Passa Por Mim No Rossio
2xLP, MC, CD EMI-VC



Como encarar um objecto deste tipo? Como um “budget”, uma lembrança, um complemento da peça teatral? Ou, pelo contrário, como uma obra autónoma com vida própria, independente dos alicerces do teatro? “Passa por Mim no Rossio”, o disco, é um pouco as duas coisas. Agora que a peça saiu de cena, o disco, um duplo com a chancela de João Paulo Soares na composição, arranjso e orquestração, e do próprio Filipe La Féria, nos textos, funcionará para quem viu a revista como uma espécie de testemunho póstumo, um eco remanescente do acontecimento original.
Depois, para quem, ao longo de meses e meses não esteve para se levantar às cinco da manhã para conseguir um hipotético ingresso no D. Maria II, o disco pode ser um substituto, um prémio de consolação de mais cómodo acesso. Faltam as imagens, a presença física dos actores e dos cenários, mas afinal as vozes e as canções continuam a exercer todo o seu fascínio. Curiosamente, um dos aspectos de que “Passa por Mim no Rossio” se poderia ressentir – a falta de ambiente da representação ao vivo – acaba por não se notar, pese embora tratar-se de uma gravação de estúdio. Aplausos, aqui, para João Paulo Soares, cuja inspirada partitura conseguiu fazer esquecer o colorido e a excitação do espectáculo “in loco”. O compositor optou, e bem, por uma escrita ostensivamente “passadista”, fugindo à tentação de modernização que poderia comprometer todo o projecto. Os textos de La Féria acaompanham a música no mesmo processo.
“Passa por Mim no Rossio” alterna as canções com pequenos apontamentos de diálogos, temas popularuchos com momentos de forte carga dramática, estes últimos quase sempre invocados por Simone de Oliveira de quem João Paulo Soares soube aproveitar ao máximo as potencialidades. Onde outros poderiam ter cedido à facilidade de valorizar o “kitsch”, o compositor ignorou as modas, preferindo antes firmar-se na tradição. O recerso da medalha está em que o disco poderá passar ao lado das prioridades de escuta das gerações mais novas, a quem os nomes dos grandes actores da revista portuguesa das décadas douradas de 30, 40, 50 e 60 pouco ou nada dirão.
Trata-se então de um disco destinado a alimentar a nostalgia dos mais velhos? Em parte sim. Será essa, provavelmente, a faixa de consumidores mais alargada. Por outro lado tal facto poderá ser compensado por um certo efeito “perverso” decorrente da simples existência do disco, a cujos autores não poderão ser imputadas responsabilidades. É que, se como já se disse, a redução ao “kitsch” é cuidadosamente evitada, nem por isso certa fatia de público deixará de ver nele o artefacto por excelência do mau-gosto tornado objecto de luxo, ainda nates de qualquer audição. Poder-se-á inferir que os autores se estarão nas tintas para isso e que apenas lhe importará que o disco atinja índices de êxito, senão maiores, pelo menos semelhantes aos da peça teatral. Não é um problema do foro artístico propriamente dito mas dá que pensar.
Estamos afinal perante a ambiguidade total e há que reconhecer a João Paulo Soares e Filipe La Féria o terem sabido fazer, na altura certa e com o sentido de oportunidade, uma jogada de mestre. Mas não era, no fim de contas, já “Passa por Mim no Rossio”, enquanto encenação e reconstrução da memória, esse jogo de remet~encias para ambiguidades de vária ordem. Entre o assumir-se como uma revista “à antiga portuguesa” e, na prática, como uma estilização e redução a esboços e caricaturas de todos os ingredientes que no passado eram a essência dessa mesma revista? Eis o cerne da arte de La Féria, esta capacidade de trocar as voltas e os olhos a quem anda e olha para onde os seus sonhos apontam. Mesmo que ele, com a insustentável leveza do artista, se autoproclame apóstolo do efémero. (7)