Arquivo mensal: Dezembro 2020

John Renbourn – “Sir John Alot” + John Renbourn – “The Lady And The Unicorn” + The John Renbourn Group – “A Maid In Bedlam”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 25.11.1992

O ESCUDEIRO DA TÁVOLA REDONDA


JOHN RENBOURN
Sir John Alot (5)
The Lady And The Unicorn (6)
THE JOHN RENBOURN GROUP
A Maid In Bedlam (7)
CD’s, Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção



No início dos anos 70, os Pentangle eram um dos grupos de ponta do movimento de revivalismo folk britânico. John Renbourn, guitarrista do grupo (que também incluía a vocalista Jacqui McShee, o contrabaixista Danny Thompson, outro guitarrista, Bert Jansch, e o percussionista Terry Cox), cedo deu mostras de se interessar pela música antiga. “Sir John Alot” foi o primeiro disco em que concretizou esse interesse, posteriormente disseminado por obras, além das outras aqui criticadas, como “The Hermit”, “The Black Baloon” e “Enchanted
Garden”. O interesse maior deste exerc´cicio prévio reside no contraste e na passagem do estilo “bluesy” e das técnicas de “fingerpicking” a uma abordagemmedieval da guitarra, utilizada como se fosse um alaúde. O disco soa hoje bastante datado, revelando uma visão superficial da música antiga, por parte de Renbourn, então pouco mais que um aprendiz
compenetrado.
“The Lady and the Unicorn” aprofunda as ideias do álbum anterior, abandonando em definitivo a linguagem dos “blues”. Com um acompanhamentoinstrumental mais “encorpado”, o álbum tem como principais focos de interesse os solos de Terry Cox, no“glockenspiel” (um carrilhão em miniatura) e a verificação de quão pouco à vontade um violinista como Dave Swarbrick se movimenta no reportório antigo. Apesar de títulos como “Lamento de Tristan”, “Veri Floris” e “Melancholy Galliard”, não seria poraqui que John Renbourn se aproximaria dos calcanhares de um Hopkinson-Smith. Com a entrada em cena de Sue Draheim (ex-Albion Band), no violino, Keshave Sathe, nas percussões indianas, Tony Roberts, flautas e oboé, e sobretudo da vocalista Jacqui McShee, recrutada dos Pentangle (grupo, aliás, do qual ainda faz parte), a música deu um salto qualitativo, natural, já que em “A Maid in Bedlam” Renbourn inflectiu na música tradicional, preocupando-se menos com a Idade Média e mais com uma caracterização exótica de “clássicos” como “Black waterside”, “Johyn Barlycorn”, “Reynardine”, “My Johnny was a shoemake” e “Death and the lady”. Excelentes, ao longo de todo o disco, as vocalizações de Jacqui McShee e o “quator” vocal do tema final “Talk about suffering”. Bem complementados por instrumentais onde a Idade Média se estende da Távola Redonda a Katmandu.

Jan Garbarek & Ustad Fateh Ali Kahn – “Ragas & Sagas”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 25.11.1992


JAN GARBAREK & USTAD FATEH ALI KAHN
Ragas & Sagas
CD ECM, distri. Dargil



O capítulo mais recente na demanda de Jan Garbarek de uma linguagem universal, “Ragas & Sagas” desvenda algumas pistas da viagem. Neste compositor e saxofonista norueguês, o rótulo “world music” reveste-se de um significado muito particular. Garbarek procura, sem dúvida, sínteses e pontes entre Ocidente e Oriente. Mas mais importante do que a junção e a proximidade são o diálogo, a relação, a descoberta de jogos possíveis. Em “Rosensfole” (abordagem à música antiga da Noruega centrada na voz de Agnes Buen Garnas, retomada em menor escala no álbum seguinte, “I Took up the Runes”, desta feita com a colaboração vocal de Marie Boine Persen numa versão de “Gula Gula”) como nests ragas e sagas assinadas de parceria com o cantor paquistanês Ustad Fateh Ali Khan (não confundir com Nusrat Fateh Ali Khan, também cantor., membro da seita “sufi”, de origem árabe, que participou no mostruário “Passion”), o discurso do saxofone permanece singular, resistindo ao apelo da fusão com os universos estéticos sucessivamente convocados para estúdio.
Seja nos dois discos mencionados (a que poderemos acrescentar a inda “Legendo f the Seven Stones”) ou em anteriores colaborações do músico com o compositor grego Eleni Karaindrou, o tunisiano Anouar Brahem ou o indiano Shankar, é imediatamente reconhecível o timbre, uma lógica e um tempo melódicos específicos do seu sopro. Procure-se então nestes exercícios de panculturalismo musical uma outra direcção, detectável a partir da óbvia estimulação mútua entre os participantes em causa. A partir daqui assume especial relevo a questão da referida linguagem universal que Garbarek parece tatear sem contudo ousar por ora a dissolução no todo. Não por acaso, Garbarek estudou latim e grego antigo, passando depois parao árabe e, por fim, o sânscrito, o mais antigo código linguístico, com vestígios escritos, conhecido. Eis-nos chegados ao domínio da palavra – vibração primordial, o Verbo criador de todas as músicas. O ponto de partida foi, em “Rosensfole”, a Noruega, em cuja música Garbarek reconheceu elementos extra-europeus, mais concretamente conexões com a Índia, Balcãs e Ásia Menor. Ele próprio define as ornamentações vocais de Buen Garnas como próximas do estilo turco / árabe. “Ragas and Sagas” surge assim como o passo seguinte e coerente desta deslocação para Oriente. Nele são exploradas técnicas vocais indianas, como o “dhrupad” e o “khyal”, este último oferecendo vastas possibilidades de improvisação, as quais facultam a Garbarek terreno propício à explanação da sua especificidade estilística nos saxofones soprano e tenor. O diálogo destas semi-improvisações decorre sobre um contexto harmónico inconfundivelmente indiano, criado pela tabla e sarangi. Quatro ragas compostas por Ali Khan e uma “saga” escrita pelo norueguês abrem a porta ao imprevisto, jogando alternadamente na semelhança e na diferença. Pelo caminho, Jan Garbarek vai traçando as linhas e edificando os alicerces de um novo mapa e de uma obra ímpar na arte musical deste século. (8)

Brian Eno – “The Shutov Assembly”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 25.11.1992

O PINTOR DA ETERNIDADE


BRIAN ENO
The Shutov Assembly
LP, CD Opal, distri. Warner Music




Espaço e tempo são as duas grandes coordenadas da realidade manifestada. A pintura recria, a duas dimensões, a tridimensionalidade do espaço. A música, num sentio unidirecional, reinventa o tempo. A pintura é uma unidade, síntese de formas / instantes que se condensam numa imagem. Os sentidos podem abarca-la na totalidade. Na música existe um drama. Sendo uma arte que vive do e sobre o tempo, torna-se impossível aos sentidos captar imediatamente a obra na sua completude. Ou seja, ao contrário da pintura, a música depende da duração. A imagem é esculpida. O som, uma escultura de silêncio.
Brian Eno tem consciência deste dilema. Toda a sua música dita ambiental procura inventar um método que, pelo menos parcialmente, consiga transcender esta situação. Não por acaso o autor procura pôr em paralelo a sua música com a pintura, através da criação de painéis sónicos de acontecimentos por onde o auditor possa “passear” sem se prender a nenhum em particular. A procura de uma simultaneidade (im)possível dos sons. A música igual a um quadro. “The Shutov Assembly”, passado o ataque de nervos de “Nerve Net”, é o capítulo mais recente nesta busca incessante de uma “música paisagística” – arquitectura de sons onde os sentidos, mais do que “aprenderem”, possam instalar-se, como num “lugar” – depois de “Discreet Music”, “Music For Films”, “Music For Airports”, “On Land”, “Apollo Atmospheres & Soundtracks” e “Thursday Afternoon”. É o próprio Eno que, no folheto promocional, diz o seguinte: “Penso nos sons em termos de qualidades como brilho, calor, aspereza, claridade, escuridão, iridiscência, angularidade, rugosidade, nebulosidade, nivelamento [tudo qualidades aferíveis à pintura]. Pretendo fazer música como se pintasse um quadro – criar um lugar [e sublinha o substantivo] possível e credível, pleno de vida – com concordâncias e tensões, com uma teia de pontos focais sem nenhuma hierarquia entre si.” Palavras de um pintor que procura dar a ver e a habitar a eternidade.
Composto por dez peças com títulos de nove letras e ressonências bizarras e italianizantes – “Triennale”, “Lanzarote”, “Francisco”, “Innocenti”, “Cavallino” – “The Shutov Assembly” reúne temas compostos desde 1985 para quadros do pintor russo Sergei Shutov, que Eno conheceu em Moscovo, retomando deste modo um convívio, nunca abandonado, com artistas plásticos, numa colaboração efectiva cujos resultados mais conhecidos se encontram na parceria com o malogrado Peter Schmidt, nas capas de “Another Green World” e “Evening Star” (com Robert Fripp” e na colecção de aguarelas que acompanhavam a edição original de “Before and After Science”.
Temas atemporais, sons de cristal, pulsares iluminando vagas de escuridão, fluem à deriva no silêncio, negro ou branco, consoante o fundo for visto como o espaço sideral (aquele onde o tempo conquista a sua dimensão de relatividade. Recorde-se, a propósito, o sentido e a importância capital de “Apollo Atmospheres” em que a imagem da imponderabilidade e do vazio funcionam como metáforas da vitória sobre a temporalidade) ou uma tela, virgem de formas e texturas. Em “The Shutov Assembly” reúne-se a assembleia de todos os possíveis, de sons / luzes / cores em interconexão sinestésica. Enquanto o fim dos tempos não vier revelar a simultaneidade e a cruz de passado, presente e futuro, num instante – o “aleph” vislumbrado por Jorge Luís Borges -, Brian Eno terá que se contentar com a solução intermédia, de compromisso, que é o vídeo, formato que tem sustentado os seus mais recentes trabalhos, simulacro da impossível e definitiva unidade em que num momento de instantânea contemplação se possa perceber o mundo e a obra de arte libertos do espartilho de Cronos. Quando formos capazes de olhar além do cérebro, esse artífice de ilusões. (8)