Arquivo mensal: Junho 2020

James Taylor – “Um ‘Entertainer’ De Emoções”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


UM “ENTERTAINER” DE EMOÇÕES

“Sweet Baby James” é a canção por que todos o recordam. É pouco, para quem, como James Taylor, anda pelo mundo há mais de uma década às voltas com as canções. Arriba a Portugal na sexta-feira, ao Casino Estoril, e repete no dia seguinte, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Com as baladas que o tornaram célebre e das quais diz que “o mais fácil é começa-las, o pior é o resto”.



Para este cantor, nascido em Boston e hoje com 44 anos de idade, pouco mudou entre o álbum de estreia “James Taylor” (de 1968, inclui duas canções conhecidas, “Carolina in my mind” e “Something in the way she moves”) e “New Moon Shine”, do ano passado: as mesmas baladas doces e um modo suave de introspecção adequado à época dourada dos anos 60 e 70, que lhe permitiu ombrear com outros “singers / songwriters” da época, como Carole King, Melanie e Joni Mitchell. Pelo caminho foram ficando melodias agradáveis como “Fire and rain”, “You’ve got a friend” (esta tornada mais popular na voz de Carole King) e “How sweet it is”.
Também é costume as pessoas referirem-se a James Taylor por ter sido casado com Carly Simon, a mulher dos lábios mais carnudos à face da Terra, mas isso é outra história, se calhar mais interessante que a da sua biografia.
Coisa curiosa: os seus discos venderam-se sempre bem, tendo atingido o “top” de vendas nos Estados Unidos uma quantidade de vezes e sido “discos de ouro” outras tantas. “Sweet Baby James” (o tal disco, a tal canção), de 1970, e “Mud Slide Slim and the Blue Horizon”, do ano seguinte, alcançaram ambos o terceiro lugar. “One Man Dog”, de 1972, atingiu o 4º posto, “Walking Man” (1974) foi 13º, “Gorilla”, de 1975, o 6º, “JT”, de 1977, conseguiu o 4º, “Flag” (1979) e “Dad Loves His Work” chegaram a 10º. O mais recente, “New Moon Shine”, vendeu a velocidades supersónicas.
James Taylor, por este lado, não tem razões de queixa, até porque para ele, embora seja importante “estar nos tops”, esse não passa de “um objectivo muito pobre quando se é músico”. Da mulher, Carly Simon, a tal dos lábios, com quem se casou em 1972, deve ter tido algumas, já que se divorciou dela dez anos depois.
E foi assim que tudo se conjugou para que James Taylor viesse aportar a este cantinho mimoso à beira mar plantado que é a nossa terra, o nosso Portugal. E logo ao Casino Estoril, ponto de encontro da nossa melhor sociedade. Por aqui se vê que Taylor é um artista de classe. A sério. E ecológico, ainda por cima: é amigo de Sting (de quem diz ser “uma pessoa completamente natural e imunizada à moda”), outro ecológico, e participou no megaconcerto “No Nukes”, contra o nuclear e as bombas antónias.
Nas fotos promocionais, James Taylor tem aparecido frequentemente com um aspecto bronzeado. Não por acaso, poiso cantor é um frequentador assíduo do festival “Rock in Rio”. Ou então é da qualidade das fotografias.
No Casino vai emocionar os corações da, repete-se, não vá aparecer alguém sem gravata, melhor sociedade lisboeta e proporcionar decerto mais um ritual de “aceno de lenços” tão do seu agrado. Nem poderia ser de outro modo, já que o próprio James Taylor se afirma um “’entertainer’ a quem dá muito gozo e emoção tocar ao vivo”.
Do lote de canções que James Taylor interpretará em Portugal, na maioria extraídas de “New Moon Shine”, fazem parte “Copper line”, “You can’t go home again”, “Down in the hole”, “I’ve got to stop thinking about that”, “Shed a little light” e “Frozen man”, que fala de “um marinheiro britânico do séc. XIX que se perde no mar, junto ao Ártico, e que, uma vez descongelado, descobre que o seu mundo acabara há cem anos atrás”, uma das preferidas do autor, inspirada num su antepassado, também ele “perdido para sempre no mar”. James Taylor – um homem do mar que em Portugal procurará não meter água.

Recoil – “Bloodlines”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Recoil
Bloodlines
LP / CD, Mute, distri. Edisom



Electrónicos da treta há muitos. Discípulos diplomados dos Kraftwerk contam-se pelos dedos. Os Recoil, “alter ego” de Alan Wilder, incluíam-se até há bem pouco tempo na categoria dos que entenderam o essencial da mensagem veiculada pelos magos de Düsseldorf: o manifesto da arte matemática e da pop gelada gerada nos laboratórios Kling Klang e endereçada à nova sensibilidade cibernética do pós-“menos que zero”. “1+2” e “Hydrology” eram exercícios brilhantes de contenção, de poesia digital, de programação de sinais eléctricos segundo o rigor minimal e a sedução tonal e tímbrica permitida pelo uso imaginativo do computador e do “sampler”. “Bloodlines” é o oposto de tudo isto e um enorme passo à retaguarda. A totalidade dos temas é cantada, o que desde logo distingue o disco dos seus antecessores. Vozes escolhidas de acordo com as necessidades (poucas) de cada tema, com destaque para as de Douglas McCarthy, dos Nitzer Ebb, e Toni Halliday, dos Curve, que se encarregam de os transformar em pouco mais que banalidades. Os Recoil apontam agora às pistas de dança (“Curse” inflecte nos domínios do “rap” e do “hip-hop”, como se só agora Wilder tivesse começado a ler o catálogo) e ao som pop “made in ‘Factory’” em que a electrónica passou de protagonista principal a mero adereço manufacturado a metro. (4)

Michelle Shocked – “Arkansas Traveler”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Michelle Shocked
Arkansas Traveler
LP / CD, Polygram, distri. Polygram



Como o título do álbum dá a entender, trata-se de um álbum de viagens. Pelo Texas, pelas recordações e pela memória de alguns heróis. Para Michelle Shocked, “Arkansas Traveler” representa a assunção das origens, aqui sagradas na música “country”, no “ragtime”, nos “blues” rurais e na homenagem a nomes como Doc Watson, Taj Mahal, The Hothouse Flowers, Norman and Nancy Blake, Levon Helm e Garth Wilson. “Arkansas Traveler” é, em simultâneo, a conclusão de uma trilogia iniciada com “Short Sharp Shocked” e prosseguida com “Captain Swing”. Predominantemente acústico, o álbum peca por não arriscar um milímetro, refugiando-se nas regras aceites da “country” ou dos géneros atrás apontados, com ocasionais escapadelas até à música irlandesa (um dos locais de gravação foi Dublin, os outros foram Chicago, Memphis, Sidney e LA), presente na euforia de um tin whistle, em “Over the waterfall” ou na introdução de “Weaving way”. O resto, que são as restantes 13 canções, decorre ao ritmo morno das baladas, das acelerações momentâneas do violino, de uma ou outra aproximação – decerto involuntária e devida à particular utilização do bandolim – aos Fairport Convention, e das constantes piscadelas ao Sul e às suas mitologias. (6)