Arquivo mensal: Junho 2020

Manu Katche – “It’s About Time”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Manu Katche
It’s About Time
LP / CD, Sacre, distri. BMG



Assim como há brancos com alma negra, assim também há negros com alma branca. Johnny Winter, Joe Cocker ou Dr. John estão no primeiro caso. Manu Katche está no segundo. Ainda bem que assim acontece, para baralhar as pistas e dar mais interesse a este negócio da música, ávido de catalogações. “It’s About Time” é um disco de pop europeu, servido por uma voz (a de Katche) de veludo, que amiúde remete para Green, dos Scritti Politti, e por melodias do tipo “serpente”, que a cada audição se vão insinuando e apertando o laço. Melodias que do caldeirão étnico recolhem apenas um pouco de cor, uma sugestão picante ou um leve perfume de exotismo. Daniel Lanois, Tom Robinson (co-autor de grande parte dos textos), Branford Marsalis, Peter Gabriel, Sting, Richard Galliano e John Paul Jones são alguns dos ilustres convidados que ajudam a tornar este desfile de suavidades uma boa sugestão para os dias de Verão que se aproximam. Já não era sem tempo. (7)

Jocelyn Robert – “Folie / Culture” + Straffe Fur Rebellion – “Lufthunger”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


LOUCURA, CULTURA E PRÉ-HISTÓRIA

JOCELYN ROBERT
Folie / Culture (6)
CD, ReR, import. Contraverso
STRAFFE FUR REBELLION
Lufthunger (7)
CD, Touch, import. Contraverso



“Folie” e “Lufthunger” têm de comum entre si serem discos conceptuais, no sentido de que ambos procuram ilustrar conceitos extramusicais. Além disso, ambos utilizam o ruído – e as diferentes metamorfoses que a sua manipulação permite -, como matéria principal dos respectivos discursos musicais. No primeiro, do canadiano Jocelyn Robert, os resultados desiludem, sobretudo se compararmos Folie / Culture ao seu anterior trabalho “Live-Stat-Moniteur” – um trabalho notável de colagem e efabulação sónica, que colocava o compositor ao lado de Steve Moore, Philip Perkins ou dos Biota, mestres construtores das novas catedrais de ruído, opostos na estética e nos métodos ao grupo dos “industriais” e quejandos.
“Folie / Culture” (nome de uma organização que “pela sua actividade, procura impor uma nova imagem de ‘loucura’ diferente da comummente aceite” e que “explora as relações entre a dinâmica emocional e a criação, ao mesmo tempo que questiona o lugar desempenhado pelas diferentes marginalidades”, etc., etc., etc.,) pretende ser uma “banda sonora imaginária”, composta para ser escutada a “baixos níveis de volume sonoro”, de maneira a permitir a “combinação entre a música e os sons ambiente”. Ou seja, um decalque da “Discreet Music” de Brian Eno. O que se ouve – ou melhor, em grande parte do disco, o que não se ouve – são irrupções ocasionais, e na aparência aleatórias, de gotas de água, vozes, zumbidos, caixas-de-música, enfim, o que estiver à mão, que vêm interromper o silêncio prevalecente e dar um simulacro de vida a algo que poderíamos alinhar ao lado de “A Quiet Gathering”, de Steve Moore, e da sua “música de câmara de sons ambientais”.
“Lufthunger”, ao invés das preocupações sociológicas, debruça-se mais sobre as questões históricas. Melhor dizendo, pré-históricas. Trata-se de novo de uma “banda sonora imaginária” que, desta feita, procura sonorizar os diferentes períodos de formação da Terra, desde o Câmbrico ao Pleistoceno. Nem poderia ser e outro modo, pois na altura o cinema encontrava-se ainda pouco desenvolvido. A música é primitiva, ritualística (característica comum à maioria dos projectos da Touch) e, sobretudo, ruidosa. Os Straf Fur Rebellion utilizam como instrumentos musicais “tubos de plástico girados por engenhos mecânicos”, “microfones a raspar em metal”, bisnagas de plástico, comboios de brinquedo, aviões a jacto ou “uma televisão atirada contra uma parede de cimento”, ao lado de outros mais prosaicos como o órgão de igreja, o piano, o violino, o xilofone ou a guitarra havaiana. Os sons ambientais – chuva, lobos a uivar, sinos, etc. – completam esta banda sonora dos primórdios do nosso planeta, que começa com o ladrar de um cão e termina com uma declaração de princípios do homem e da mulher do Neanderthal, uma declaração muito simples, apenas um “eu sou” gritado com toda a força e convicção dos verdadeiros originais. Simplicidade que se compreende, dada a fraca escolaridade dos ditos.
Onde “Folie / Culture” desvela o silêncio que deve ser ouvido “de janelas abertas”, “Lufthunger” prefere o escuro das cavernas e o grito gutural. São tão parecidos e complementares como a noite e o dia. E têm, pelo menos, a virtude de chamar a atenção para os sons que nos rodeiam e que não temos o hábito de escutar.

Diamanda Galas – “The Singer”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Diamanda Galas
The Singer
LP / CD, Mute, distri. Edisom



Depois dos espirituais e do gospel, Diamanda Galas volta a atacar, com os blues e a mesma maneira de cantar o lado negro da humanidade. De novo ao vivo, depois da missa celebrada numa catedral no duplo “Plague Mass”. Desta feita surge acompanhada apenas por um piano e um órgão, que lhe chegam perfeitamente para lançar os seus feitiços e imprecações. Na capa de “The Singer”, toda em azul, o azul dos blues, a cantora aparece com a seguinte inscrição gravada nos dedos: “somos todos HIV positivos”, o que quer dizer que “temos todos sida” ou ainda que “estamos todos lixados”. A paranoia do costume. E são os gritos lancinantes, os urros animalescos, a voz de diva demoníaca que envenena tudo o que toca, tal qual uma praga. Muito em sintonia com o fim dos tempos (já em curso), Galas dedica-se à prática da inversão, em particular da música religiosa, de modo a carrega-la com uma polaridade oposta à original. Quando Diamanda Galas canta “My love will never die” (de Willie Dixon) ou “Were you there when they crucified my Lord” (de Roy Acuff), onde se lê “lovw” e “lord” leia-se “ódio” e “diabo”. Diamanda Galas é muito mais sincera quando pede que se verifique o estado de limpeza da sua sepultura (“See that my grave is kept clean”), em “I put a spell on you”, de Screamin’ Jay Hawkins, ou no apocalipse final de “Judgement day”, único tema da sua autoria. “The Singer”, ainda aqui funcionando como o inverso do “álbum de clássicos” com que em regra os cantores pretendem afirmar as suas capacidades de intérpretes. O problema de Diamanda Galas é que já começa a fartar tanta gritaria, tanta maldição e, agora, também estes blues do inferno. Lá devem gostar todos imenso da sua música. (5)