Arquivo mensal: Junho 2020

Vários – “Folk Tejo, Em Junho, Nas Festas Da Cidade – Povos Que Cantam No Rio” (festival / concertos)

Cultura >> Quarta-Feira, 13.05.1992


Folk Tejo, Em Junho, Nas Festas Da Cidade
Povos Que Cantam No Rio


A música folk volta a animar a cidade de Lisboa. É o Folk Tejo na sua segunda edição, que terá lugar nos próximos dias 5 e 6 de Junho no Teatro de São Luiz. Este ano, ao contrário do ano passado, haverá actividades paralelas e uma sala com condições acústicas à altura do acontecimento.



O cenário está montado: bom som, recinto confortável, um programa sem cedências e a presença tutelar, ao fundo, do rio Tejo conjugam-se para que este ano não haja razões de queixa. Como se tudo começasse a sério neste Verão.
No primeiro dia do Folk Tejo actua um grupo de música coral alentejana, Abed Azrié e Bem Zimet, estes últimos acompanhados pelas respectivas bandas. No dia seguinte será a vez dos Romanças, Chris Wood com Andy Cutting e o grupo de Happy & Artie Traum.
Músico sírio radicado em Paris, Abed Azrié junta, na sua música, elementos árabes ao Ocidente dos computadores e sintetizadores. Azrié canta o amor livre de Al Hallaj, o misticismo sufi de Rabiah Al Adawiyyah ou o combate palestiniano inscrito a fogo nos versos de Mahmoud Darwich. Há quem chame “Leo Ferré oriental” a este cantor de “blues” das mil e uma noites. Acompanham-no Habib Yamine e Adel Shamin, nas percussões, Mohamed Moutalattif, no alaúde, Abdulkader Chouran, no “kanoun”, Jean-Raymond Gelis, teclados, e Michele Claude, bateria.
Bem Zimet, como Azrié, escolheu Paris para segunda pátria. Judeu de origem polaca, Zimet tem longas barbas que lhe dão a apar~encia de um profeta do Velho Testamento, desmentida pela maneira diferente como toca violino e canta as canções yiddish, em registo de cabaré. Foi director artístico do primeiro festival de cultura yiddish, em 1979, no centro Pompidou, e criou o espectáculo “Yiddish Cabaret” apresentado em 1988 no Festival de Avgnon. De novo os blues surgem como referência. Juntamente com o jazz, Elvis Presley, a música cigana e os espirituais negros. Zimet defende os direitos das minorias. Dos “fracos contra os fortes” onde quer que eles se encontrem. Sente-se à vontade para falar de todos, porque a história do seu povo “não se baseia numa terra nem num tempo particulares”. “Yiddish down-the-drain-blues”, uma canção sobre “alienação social e petrodólares”, é um bom exemplo da “escolha que se oferece aos imigrantes” como ele: “a integração ou o desaparecimento puro e simples”. Acompanham-no Eddy Shaff, acordeão e piano, Teddy Lasry (tocou na formação original dos Magma), clarinete e percussão, Pierre Mortarelli, contrabaixo, e Maurice Delaistier, violino e guitarra.

Vencedores E Professores

Sábado abre com os portugueses Romanças, agora em fase de reestruturação, consumada a saída de José Barros que decidiu seguir as pisadas de Vítor Rua e levar consigo a “patente” do nome do grupo. Uma história por contar. Veremos se Pedro D’Orey (nos Trovadores de Sintra já tange a harpa que trouxe da Irlanda) e Fernando Pereira conseguem manter-se no alto do “Monte da Lua”.
Chris Wood & Andy Cutting actuam a seguir. O primeiro é canadiano, violinista e integrou os “allstars” do “papa” John Kirkpatrick. O segundo é inglês, toca concertina e fez parte dos extintos Blowzabella, de Nigel Eaton, com quem, de resto, continua a tocar, agora nos Scarp. A revista “Folkroots” incluiu-os este ano no lote dos melhores instrumentistas e elegeu-os “os melhores recém-chegados” à cena folk britânica. Até Dave Swarbrick, antigo violinista dos Fairport Convention, se espanta: “Gostava de ter tocado assim tão bem quando tinha a idade deles.”
Professores de música, mestres do banjo, da guitarra e da arte de contar uma boa anedota, Happy e Artie Traum encerram o programa oficial do Folk Tejo. Lenda viva da folk americana, sobreviventes dos anos 60, assimilaram influências de Brownie McGhee, Pete Seeger, Doc Watson, John Coltrane e Jim Hall. Aliam a “country music”, o estilo “fingerpicking”, os “blues” e o bom-humor. Vêm a Portugal dispostos a tocar com toda agente. Trazem consigo Robbie Dupree, harmónica e voz, Cindy Cashdollar, dobro e voz, e Frank Campbell, baixo. Todos os concertos realizam-se às 21h30.

Iniciação À Folk

As actividades paralelas estão presentes em força. Entre 1 e 30 de Junho estará patente ao público, no Museu de Etnologia, em Belém, uma mostra de instrumentos de percussão e no “foyer” do São Luiz, nos dias de concerto, os bandolins da colecção particular de Júlio Pereira.
Anthony Seeger, filho de Pete Seeger e membro da “Smithsonian Institution”, dará uma conferência dia 3 de Junho, no Auditório do Museu de Etnologia, sob o tema “Dando voz aos silenciados: Folkway records 1947-1982”. No anfiteatro da Faculdade de Letras, dia 2, José Duarte contará a sua “experiência de dois anos de ‘Outras Músicas’”. Finalmente o doutor Chritopher Norris, da Universidade de Gales, falará (e esperemos que alguém o entenda) do “coro Folk Cor Cochion Gaerdydd, de Cardiff”. Previstos estão ainda os “workshops” “O estilo fingerpicking”, “Hot licks for guitar” e “Harmónica de boca nos blues e folk”, dirigidos respectivamente por Happy, Artie Traum e Robbie Dupree. João Nuno Represas fará uma demonstração, no Museu de Etnologia, dos “instrumentos musicais populares de percussão”. Vídeos de temática folk projectados na discoteca Plateau, entre 8 e 14 de Junho, animação de rua pelos Andarilho, e bancas de discos, no Museu e no São Luiz, completam um programa de actividades capaz de iniciar muita gente no mundo das músicas tradicionais.

James Taylor – “James Taylor Recordou Êxitos Antigos No Casino Estoril – O Triunfo De Pavlov” (concerto)

Cultura >> Domingo, 10.05.1992

James Taylor Recordou Êxitos Antigos No Casino Estoril
O Triunfo De Pavlov

Regresso ao passado, no salão “Preto e Prata”, foi a palavra de ordem. O Casino do Estoril transformou-se numa máquina do tempo de sentido único: para trás, em força e com música dos anos 60 ou 70, capaz de satisfazer os sonhos retroactivos dos veteranos abandonados. Foi o concerto de James Taylor, sexta-feira à noite.



No Casino, a cada gala, jantar ou ritual de exposição social, a música desempenha um lugar só aparentemente secundário e complementar da exibição que, a outro nível, se desenrola fora do palco. Assim aconteceu mais uma vez durante a actuação de James Taylor, autor e intérprete nascido em termos artísticos no rescaldo dos anos 60 que transportou para a década seguinte o lado menos doloroso (chamem-lhe pacifista) dessa época.
O cantor escolheu a dedo um reportório que não pretendia mais do que refrescar a memória dos presentes – a parte boa, confortável, isenta de pecado, dessa memória, entenda-se. O chamado reportório de Pavlov, que conhece e desencadeia os estímulos necessários, o procedimento indicado para – com a canção exacta disparada no momento certo – fazer salivar os corações e pôr os bracinhos a dar ao guardanapo.
James Taylor, como Rocio Jurado, os Mamas and Papas ou tantos outros espectros desenterrados do passado que já passaram pelo salão “Preto e Prata” do Casino do Estoril, mais do que um simples cantor foi um terapeuta e um técnico de limpeza, desempenhando com brio a função de limpa-vidros do espelho retrovisor que permite ver com alguma nitidez o lado da estrada que ficou para trás.
“Sweet Baby James” abriu o espectáculo da forma previsível, James Taylor, óculos, colete, calças e careca largas, surgiu acompanhado apenas por uma guitarra acústica, uma voz que não perdeu qualidades, e pela avidez e sonhos de uma plateia que não lhe regateou aplausos. Era, logo de início, o triunfo de Pavlov. A banda entrou a seguir: Clifford Carter, teclados, Buzz Feiten, guitarra, Don Grolnick, piano, Jimmy Johnson, baixo e Carlos Veja, bateria. Mais um rapaz de cabelos compridos e duas raparigas, uma destapada por cima, outra por baixo, encarregados dos coros e de algum entretenimento visual que, descontando os pinotes de James Taylor (os artistas já com alguma veterania, vide Mick Jagger, vide Tina Turner, vide Roberto Leal, dão sempre muitos pinotes em palco para provarem que a idade não lhes retirou vitalidade), não houve.
Das canções e do concerto em si pouco há a dizer: foram as esperadas e mais conhecidas, com picos de emotividade nos “flashbacks” de “Fire and rain” e “You’ve got a friend”, este já um dos três “encores” previstos, entoados em coro pela assistência, nesta altura já completamente saciada na sua ânsia de usufruir até à mais ínfima migalha cada conto de reis gasto na gala.
Em síntese, James Taylor cumpriu o que dele se esperava, desempenhando com rigor e profissionalismo o papel de “entertainer” simpático, de voz agradável, que lhe assenta como uma luva. Do outro lado e de outro modo, também se cumpriu o esperado: o desfile de “toilettes” femininas no limite da vertigem, os guardanapos agitados como bandeiras de um estatuto social que uma vez por outra gosta de se entregar a esta coisa das “artes”. Enfim, a feira das vaidades em todo o seu esplendor e artificialidade. No Casino do Estoril a máquina do tempo está sempre pronta a funcionar.

Buffy St.-Marie – “Buffy St.-Marie, Que Esteve Em Portugal A Promover O Seu Álbum Mais Recente, Ao PÚBLICO – ‘Que Havemos De Fazer Com A Verdade?'” (entrevista)

Cultura >> Quarta-Feira, 06.05.1992


Buffy St.-Marie, Que Esteve Em Portugal A Promover O Seu Álbum Mais Recente, Ao PÚBLICO
“Que Havemos De Fazer Com A Verdade?”


Nos anos 60 lutava-se por ideais e defendiam-se as minorias. Buffy St.-Marie, 51 anos de idade, índia de nascimento, da tribo dos Cree, esteve sempre nas fileiras da frente. Hoje, como nos tempos de “Soldier Blue” e “Universal Soldier” continua a lutar por soluções concretas para problemas actuais. Os índios, diz, são a consciência viva do planeta. E os “hippies” uma geração nutrida a café. Durante 15 anos não gravou qualquer disco, para se dedicar à educação de um filho. “Coincidence and Other Likely Stories” assinala o seu regresso.



Sente-se no discurso e na obra de Buffy St.-Marie o orgulho das origens índias e a vontade de pôr o dedo nas feridas da sociedade. De forma subtil, não-violenta, no álbum recente “Coincidence and Other Likely Stories”, ou não tivesse ela feito parte do movimento “flower-power” dos anos 60. É coerente no que diz e no que faz. Sofreu os efeitos da censura, por se ter recusado a alinhar nos esquemas da indústria musical. Hoje vive como quer, no Hawai, viaja pelo mundo e continua a defender a causa índia. De mini-saia justa e flor amarela no cabelo, parece ter vencido a derradeira batalha – contra o tempo.
PÚBLICO – “Soldier Blue” foi a canção que há 21 anos lançou a sua carreira em Portugal…
BUFFY ST.-MARIE – A sério? É a primeira pessoa em Portugal que menciona essa canção. Voltei a regrava-la há duias semanas.
P. – Para inclusão num novo álbum?
R. – Não sei. É provável que apareça no lado B de um single.
P. – À distância de todos estes anos “Soldier Blue” continua a ser pertinente?
R. – É uma boa canção para os dias de hoje. Quando a escrevi, as pessoas não faziam ideia do que se tratava. Não estavam conscientes dos problemas do meio ambiente. “Soldier Blue” dizia qualquer coisa como “este é o meu país”, não no sentido de “este é o meu estado público” ”as de “esta é a minha terra-mãe”. Hoje, volvidos 25 anos, as pessoas compreendem o conceito e a maneira de ver índia.
P. – Em que altura tomou consciência da situação concreta dos índios na América do Norte?
R. – Nasci no Canadá, no seio do povo Cree. Depois fui adoptada e cresci nos Estados Unidos. Na escola disseram-me que não havia índios, que tinham morrido todos e estavam em museus, ao lado dos dinossauros. A minha mãe, que era meia-índia explicou-me que não era assim e que o que se via nos filmes e lia nos livros não era verdadeiro. Nos últimos anos da minha adolescência voltei a juntar-me à minha família Cree no Canadá.
P. – Quais são os resultados palpáveis, concretos da sua luta. Encontraram-se algumas soluções?
R. – Houve coisas que melhoraram e outras que pioraram. Foi mau o facto de o movimento dos índios americanos ter sido “assassinado”. Mas houve coisas muito positivas. Por exemplo: o dinheiro ganho no início de carreira serviu para a criação de fundações escolares que permitiram ao povo índio a frequência de estudos superiores. Hoje há na América advogados, médicos, professores índios que atingiram o topo das respectivas profissões e que são muito bons no que fazem. Antes era difícil encontrar um índio com um curso superior, saído da reserva para a Universidade. Há quem trabalhe em planos de ordenamento do território ou na Cadillac sem que isso implique perder o contacto com a reserva. São pessoas verdadeiramente biculturais.
P. – Hoje fala-se dos curdos, dos palestinianos e dos croatas. Ninguém fala dos índios…
R. – No Canadá fala-se. Para mim é mais importante resolver um problema do que dar-lhe apenas publicidade. O povo branco, que tem nas mãos o poder industrial, está a tomar consciência da questão ambiental. Se os brancos não se consciencializarem deste problema o meio-ambiente morrerá. Aos índios não basta saber que o planeta está a morrer. Na América do Sul, se os brancos estiverem do nosso lado ainda há “chances”.

Protectores Da Terra

P. – Em duas canções do seu último álbum refere-se à extracção de urânio em território índio e aos seus efeitos nocivos. Pode pormenorizar?
R. – É o mesmo problema que o de há cem anos, com a corrida ao ouro”. Só que desta vez é o urânio. O problema está em que o urânio se encontra em terra índia – como então o ouro – e as companhias de Energia instalam-se perto destas terras, transformam o minério e atiram as sobras para o solo e para os rios. Os próprios brancos que vivem junto à foz desconhecem que as águas estão contaminadas. Mas nós índios somos testemunhas e sentimos a responsabilidade de avisar. As companhias procuram manter as pessoas desinformadas mas nós, nós sabemos. Nos últimos dois, três anos, tem sido importante o trabalho de gente como Sting a alertar sobre as florestas de chuva na Amazónia, ou Peter Gabriel, capaz de alertar a opinião pública. É necessário que se compreenda que os índios não são apenas personagens poéticas, engraçadas. Nós estamos de facto a proteger a Terra. Nos anos 60 os turistas tiravam-nos fotografias, diziam “não têm tanta graça?” e faziam “wuhwuhwuhwuh” com a boca. Éramos uma atracção turística.
P. – “The Priests of the Golden Bull” é quase um manifesto, composto de forma subtil, quase hipnótica…
R. – Há nele inocência. A canção poderia ter sido escrita de outra maneira, com raiva. Mas não era esse o meu estado de espírito quando sussurrei as palavras ao microfone do computador, em casa – o disco foitodo gravado em minha casa. Nesse momento sentia-me quase como uma secretária que nunca tivesse ouvido falar antes de todos estes problemas. Uma pessoa totalmente “naif”.
P. – Considera-se uma cantora de protesto, como Dylan ou Joan Baez, nos anos 60?
R. – Considero-me um escritora de canções. Joan Baez – que era uma cantora folk – e Dylan cantavam sobre condições desumanas. Foram um bom exemplo para mim. Ensinaram-me a ter a coragem de cantar e dizer as coisas exactamente como eu as via. As canções folk são canções de amor sobre pessoas que se apartam ou que se encontram. Permanecem durante centenas de anos. Mas continuam a ser relevantes as canções de protesto político, do estilo “os senhores da guerra estão a destruir as nossas vidas”.

“Hippies” De Cafeína

P. – Toda a sua postura – vejo-a à minha frente com uma flor no cabelo -, todo o seu discurso, recordam a geração “hippy”. Sente-se ainda parte dela?
R. – A flor é do Hawai [risos]. Penso que foi uma geração mal retratada…
P. – … o sonho acabou em pesadelo, com o concerto dos Stones em Altamont, com violência…
R. – Acabou antes. Isso é a história popular. Eu vi o que aconteceu.
P. – Conte-nos então o que se passou…
R. – Penso que não houve sequer uma geração “hippy” mas uma “geração dos cafés”. Tudo evoluiu a partir da diferença entre a cafeína, o álcool e as drogas duras. Uma diferença de drogas determinou todo o processo. O início dos anos 60, quando a música era realmente criativa, foi um verdadeiro movimento estudantil centrado em volta dos cafés. Com cafeína. De pessoas que falavam e sabiam ouvir as outras. Entretanto John e Robert Kennedy foram mortos, Malcolm X e Luther King foram mortos. Os cafés passaram de súbito a ser sobrecarregados com taxas e a terem de fechar. Quando reabriram tiveram de obter licença de venda de álcool se queriam sobreviver. A partir desse momento a cafeína foi substituída pelo álcool. O álcool anestesiou o movimento estudantil.
P. – De quem é a culpa, além do álcool?
R. – Da administração de Lyndon Johnson, que tinha terror de não conseguir controlar a mente dos estudantes.
P. – Durante o mandato do presidente Johnson chegou a ter problema com a censura.
R. – Os homens da rádio disseram-me que sim. Receberam cartas da Casa Branca a encorajá-los a suprimir a minha música nas suas estações. Nessa época não cheguei a ter conhecimento do facto. Houve quem, na rádio, me tivesse contado o episódio somente 10 anos depois…
P. – Entretanto as coisas mudaram para si? Ou continua a considerar-se uma “outsider” do sistema?
R. – Sim… mas não posso culpar Lyndon Johnson por isso [risos]. Fui ou era considerada uma “outsider” em primeiro lugar porque era mulher, em segundo porque não tinha um empresário influente e em terceiro porque não bebia. A maior parte dos contratos, nessa época, eram assinados nos bares, com um copo na mão. Sempre levei um estilo de vida diferente. Nunca pensei que conseguiria integrar-me no “show business”. Limitava-me a actuar em Nova Iorque e não passava semanas a vaguear pelas “parties” na casa de um e de outro. Preferi sempre gozar a vida à minha maneira. Se estava na Austrália, actuava em Sidney e depois ia tocar para os aborígenes. Na Escandinávia, a mesma coisa. Ia a Oslo ou Estocolmo e depois desaparecia para Norte, entre os “sammi”.
P. – Mas vive da indústria. É ela que lhe dá dinheiro…
R. – Sim, mas não tenho propriamente o mesmo estilo de vida de Madonna ou de Debbie Harry… Não quero com isto dizer que elas não são boas no que fazem, mas sim que não levam a mesma vida dupla que eu, que vivo no Hawai e no mundo do espectáculo ao mesmo tempo. Sou índia e nunca deixei de actuar nas reservas, mesmo durante os quinze anos que estive sem gravar, para me dedicar à educação do meu filho Paul, nascido em 76. Também nunca deixei de dar concertos em todo o mundo para a UNICEF, em Tóquio, Amesterdão, Paris, Roma, etc. Ao lado de pessoas como o Marlon Brando, o Peter Ustinov ou o Danny Kaye, e de “troupes” de dançarinos africanos, do Bali, de Burma… Estou entre o étnico e a pop. É assim que eu gosto.

Os Verdadeiros Culpados

P. – Porque motivo ofereceu uma canção “Up Where We Belong”, de enormes potencialidades comerciais, a Joe Cocker e Jennifer Warnes em vez de a cantar?
R. – Estou no “show business” apenas porque sou uma escritora de canções. Quando comecei a cantar não o fazia muito bem. Então só tinha as canções que achava que diziam alguma coisa e contentava-me que outros as cantassem. Não vim de LA ou de Nova Iorque, não era como a Judy Collins cujo pai era músico, ou a Joan Baez que era professora de liceu. O meu pai era mecânico. Eu vim de lado nenhum, não conhecia ninguém, nenhum músico. Não tinha quaisquer ligações com os colégios ou com o mundo da música. Era uma virgem especada num salão de baile, a tocar guitarra, à espera que alguém quisesse cantar as minhas canções. Acabei por ter sucesso. Foi só por alturas do meu quinto ou sexto álbum que comecei a cantar melhor e a ouvir-me a mim própria.
P. – O que a mantém acordada?
R. – O café [risos]. E as canções. Às vezes, quando alguma coisa me intriga, acordo a meio da noite, acendo a luz, ligo o gravador e desato a cantar. Isso acorda-me. Encontrar soluções mantém-me acordada.
P. – Como definiria na generalidade “Coincidence and Other Likely Stories”?
R. – É um disco com três tipos de canções: um primeiro grupo sobre estar-se apaixonado, como “Emma Lee”, um segundo grupo, de canções nativas, como “Starwalker”, triunfantes e jubilosas à maneira da cultura que retratam, e um terceiro, de canções que trazem informação nova, como “The Big Ones Get Away”, “Fallen Angels” ou “Desinformation” em que no fundo tento fazer o mesmo que nos anos 60 com “Soldier Blue” ou “The Universal Soldier” – sintetizar aquilo que toda a gente sente quando caminha pelas ruas, seja em que lugar for, mas ninguém se atreve a dizer. Em “The Universal Soldier” perguntava: “Quem é o responsável pela guerra?”. Vi no aeroporto soldados de uniforme regressarem feridos e as autoridades dizerem que não havia guerra nenhuma no Vietname. Dirigi-me aos soldados e fiz-lhes a mesma pergunta: “Quem é o responsável pela guerra”? Os soldados são os culpados? De certo modo, sim. Os generais que os comandam? Até certo ponto, sim. Mas quem é o verdadeiro culpado que põe alguém atrás ou à frente de uma espingarda? São os políticos. E quem é que vota nos políticos? Percebe o que quero dizer?… Tudo começa com a responsabilidade individual de cada um. Vivemos de novo um tempo em que se discute e se fala dos problemas. E a pergunta principal é: “Que havemos de fazer com a verdade, quando o sistema está corrupto”?