Arquivo mensal: Novembro 2018

Altan – “Altan No Festival Intercéltico Do Porto” (concertos / festivais)

(público >> cultura >> world >> concertos / festivais)
sexta-feira,14 Março 2003


Altan no Festival Intercéltico do Porto

Certame realiza-se de 3 a 5 de Abril no Coliseu



Porto sem Festival Intercéltico é menos Porto. Depois dos problemas logísticos que, há dois anos, ameaçaram a continuidade do festival, a edição deste ano destaca-se pelo regresso em força às programações de qualidade. Serão três dias da melhor música de raiz céltica, condimentados por um ambiente único de convívio e de festa no Coliseu portuense.
Com início a 3 de Abril, o programa abre com os escoceses Shantalla, promovidos à primeira divisão dos grupos britânicos, assinalando-se deste modo a reentrada no Porto pela porta grande, após uma anterior e inesquecível passagem pelo festival como banda de animação. Na primeira parte, a banda portuguesa Brigada Victor Jara fará a apresentação do seu novo álbum.
Dois outros regressos estão marcados para o dia 4: o dos Gaiteiros de Lisboa, com a música sem fronteiras do novo álbum “Macaréu”, e o dos irlandeses Four Men & A Dog, os tais do gordo, bonacheirão e “virtuose” do “bodhran” Gino Lupari, elemento determinante na “performance” musical e visual do grupo cuja música, em álbuns como “Barking Mad” ou o novo “Maybe Tonight”, apela sem apelo nem agravo à dança.
A fechar, dia 5, a cantora galega Mercedes Péon fará o teste ao vivo da veia inovadora que caracteriza o álbum “Isué”, antecedendo o regresso apoteótico ao Intercéltico dos irlandeses Altan, hoje em dia um dos grupos clássicos da folk europeia, tendo na primeira linha a voz e presença fabulosas da cantora Mairéad Ní Mhaonaigh. O álbum mais recente tem por título “The Blue Idol”.
A novidade do festival deste ano é que as “noites intercélticas” se vão estender a outras localidades do país. Assim, os Altan e os Four Men & A Dog tocam no dia 3, numa Grande Noite Celta, em Lisboa e, a 4 e 5, em Montemor-o-Novo, enquanto a Brigada Victor Jara e os Shantalla se apresentam, dias 4 e 5, em Arcos de Valdevez.



Robert Wyatt – “Robert Wyatt E O Regresso Dos Reis” (artigo de opinião)

(público >> y >> pop/rock >> artigo de opinião)
26 Dezembro 2003


Robert Wyatt e o regresso dos reis



Robert Wyatt, Ricky Lee Jones, John Cale, Lou Reed, June Tabor, Nick Cave, Richard Thompson. Os clássicos. Todos eles lançaram excelentes álbuns ao longo do ano. Têm em comum, além de pertencerem a uma geração (ou gerações, Rickie e Nick são um pouco mais novos, ela tem 49, ele 46) que percorreu três décadas (alguns, quatro…) de música popular, algo que se pode definir como “classe”. “Classe” que se caracteriza pela intransigência no que respeita à cedência aos imperativos comerciais da indústria discográfica. De todos eles se pode falar com propriedade de uma “obra” coerente, fiel a princípios regidos exclusivamente pelos respetivos percursos existenciais. Nos anos 70 dos múltiplos absurdos e exageros, nos 80 espartanos e infernais, nos 90 das tecnologias-que-tudo-fazem mantiveram intacta a integridade artística sem deixarem de incorporar nos seus trabalhos, ajustando-os às necessidades próprias, essa panóplia de adereços e muletas que a modernidade (que é sempre hoje…) colocou à sua disposição.
É isso que os distingue dos novatos, por mais espampanantes que os discos destes últimos aparentem ser. Uma visão pessoal e intransmissível, por vezes incómoda para os espíritos e ouvidos condicionados pelos sons massificantes que o mercado ciclicamente atira para a trituradora, que os anos vão depurando, pulindo ou aguçando, consoante as curvas e os precalços da vida.
Wyatt, o baterista de “free jazz” que transitou para o psicadelismo de Canterbury dos Soft Machine, e desceu aos infernos para se descobrir e redimir numa solidão de criança com a lucidez de um velho mago. Cale, o minimalista emperdenido, discípulo do guru Lamonte Young, violista raivoso dos Velvet, o classicista perverso que condensou a raiva de forma tão violenta como ataca as notas do seu piano. Lou Reed, seu companheiro de armas nos Velvets, o monstro absoluto que reduziu a música ao ruído e eletricidade puros em “Metal Machine Music”, colheu as flores do mal e cheirou os aramas da morte, para finalmente escalpelizar o sofrimento e o “mal de vivre” sob o manto de ópio, álcool e traças de Edgar Allan Poe. Cave, o pregador dos evangelhos da decadência, do vício e do naufrágio, disseminados nos Birthday Party e transformados em espiritualiadde negra nos Bad Seeds. Thompson, o pessimista dos amores e do desespero sem cura que aprimorou numa guitarra que jamais cortou as ligações que a prendem à terra desde os tempos dos Fairport Convention. Tabor, a voz mais profunda da folk britânica que, álbum após álbum, vem redefinindo a palavra “tradição”. Ricky Lee Jones, uma das vozes e escritas mais consistentes do “songwriting” americano, sempre em busca desse equilíbrio, por natureza percário, entre pop, jazz, experimentação e o registo de vivências interiores (curiosamente, busca paralela à de Wyatt, com a diferença de que este tombou desamparado no fundo e teve que se reconstruir a partir da dor absoluta, sentado numa cadeira de rodas banhada por Deus e pela loucura, em “Rock Bottom”).
Qualquer deles percorre um longo caminho, deixando-nos as etapas, os triunfos, as perdas, até mesmo passos em falso. Tiveram e têm o tempo como aliado. Único a permitir que nele se construa a intemporalidade. Lançaram preces e maldições. Construíram cidades, jardins e templos. Auto-estradas onde a emoção toma o freio nos dentes e becos onde o silêncio parece ser a única resposta. Mundos que devem ser lidos e ouvidos de fio e pavio para a história ser comprendida como um todo. Servem ou deveriam servir de exemplo aos mais novos. Os “melhores do ano” são, afinal de contas, os “melhores de sempre”

Talking Heads “Once in a Lifetime” (3xCD+DVD)

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
19 Dezembro 2003


Modern Talking


É a colectânea definitiva. Não apenas mais canções sobre edifícios e comida; é um objeto que não cabe na estante da pop de consumo. Quer dar uma prenda inteligente e obscena?

TALKING HEADS
Once in a Lifetime
3xCD+DVD; EMI. distri. EMI-VC
10|10



Por uma vez na vida, saiu a antologia perfeita. “Once in a Lifetime”, dos Talking Heads, traça o roteiro e tira o retrato a uma das bandas americanas que, nos anos 70, tirou o rock do lodo do punk e inventou a “new wave” cerebral.
Os Pere Ubu tinham (e têm…) a esquizofrenia, a imagem certa do seu líder gordo e a essência do rock de garagem injectada nas veias. Os Devo eram os palhaços cibernéticos que lançaram a pop electrónica para um micro-ondas. Os Suicide rasparam o fundo e recolheram as crostas. Os Television passeavam a elegância e a dose certa de electricidade. Os Tuxedomoon apaixonaramse pela Europa e pelas suas valsas enquanto os Residentes se “limitaram” a inventar um universo próprio, original e apocalíptico que até hoje continua a esburacar a alma da música popular.
Foram estes os pilares que, nos EUA, suportaram a passagem entre duas décadas – dos 70 coloridos para o cinzentismo dos 80 – e ajudaram quem mal sabia afi nar a guitarra a tornar-se músico a sério. Houve, é certo, outros, mas cuja infl uência para o desenrolar do futuro não se fez tanto sentir: The Feelies, Ramones, Wall of Voodoo…
Os Talking Heads tinham tudo isso – a loucura, o circo, a dor, a elegância e o dilúvio – mais uma cabeça descomunal e o olhar acutilante que usaram para escalpelizar o “american way of life”, através de música e de imagens que recuperaram para o rock o conceito “arty” sem lhe tirar um pingo de adrenalina nem tirar o tapete debaixo dos pés.

paraíso. “Once in a Lifetime” é diferente das habituais colectâneas, a começar pelo formato da embalagem: uma barra/livro de cartão com capa reforçada que, aberto, medirá à vontade um metro de comprimento o que lhe retira, desde logo, qualquer possibilidade de ser arrumada numa prateleira vulgar de CDs.
As imagens exteriores parecem, à primeira vista, as de um calendário que copiou o estilo de Gauguin. Na frente, um bebé rodeado de borboletas sorri para um casal de fi lhotes de lobo. Poderia ser a imagem idílica do paraíso perdido. Abre-se o “livro”, porém, e a inocência desaba. Uma mulher, em nu frontal com os detalhes à vista, salta no ar em pose de ginasta. Um negro em bermudas pratica boxe contra uma árvore. Um adolescente, também nu, sorri-se com expressão idiota, indiferente a que lhe tenha sido arrancado o sexo, com o sangue (o artista não poupou no vermelho) a escorrer por entre as pernas.
Há mais sangue na árvore, outro lobo (este de ar feroz) e, completamente desfasado de tudo o resto, um BMW negro. Tudo em cenário outonal, ouro, azul e mar. Adiante, num segundo tríptico (com falsas divisões em “trompe l’oeil”): homens e mulheres vestidos como vieram ao mundo, cujos pormenores anatómicos não poderiam ser mais realistas, convivem com uma leoa, ao fundo a mesma paisagem, mas agora em tons de Verão. A um canto, uma árvore tem gravado um enigmático “Valência 2001”. A fechar, na contracapa, cinco mulheres (nuas), divertem-se num banho de folhagem, uma delas alimentando um urso bebé sob o olhar de uma corça e uma leoa. Cada um interpretará como quiser. Assinam a dupla Vladimir Dubossarsky e Alexander Vinogradov.
Dissimulados sob as pinturas, escondem-se os quatro CDs, três áudio – magnaninamente remasterizados (incompreensivelmente não existe remasterização de nenhum álbum individual dos Talking Heads!) – e um DVD. O livro, de 80 páginas, oferece tudo o que o há para saber da história do grupo, da cronologia e pormenores de gravação de cada disco a diversos ensaios sobre a banda (inclusive pelos próprios elementos), passando por 127 fotos, com data e localização.
A música passa em revista toda a discografia, da estreia “Talking Heads’77” a “Naked” (1988). Convém começar mesmo pelo início, de maneira a soltar um “ahhhh!” de admiração perante os três temas anteriores ao primeiro álbum, o swing de mel de “Sugar on my tongue”, o single “Love – Building on fire”, com um extraordinário arranjo de metais a preparar o terreno para a orgia funky de “Remain in Light”, e “I wish you wouldn’t say that”.
No DVD alinham-se 13 clips (três inéditos), intercalados por pequenos monólogos de americanos anónimos, em alusões mais ou menos oblíquas ao conceito “Ao menos uma vez na vida”. Oportunidade para se ouvir uma idosa contar como descobriu tardiamente a sexualidade ou um adolescente congratulando-se por pequenos actos de vandalismo cometidos em festas particulares (ao mesmo tempo que dá conselhos de como se deve fazer). Os vídeos propriamente ditos incluem os clássicos “Wild wild life”, “Burning down the house”, “And she was”, “This must be the place (naive melody)”, “The lady don’t mind” e “Road to nowhere”, mostrando o que já se sabia, que os Talking Heads eram imbatíveis na arte de projectar uma imagem de modernismo desconstrutivista. Com um desconjuntado David Byrne a dançar como uma marioneta e referências constantes a edifícios e objectos domésticos do quotidiano, cruzamento de “ready-mades” e “cartoons” desenhados por um assassino psicopata. A tranfi guração (vários rostos para o mesmo corpo) funciona de forma invulgar em “Wild wild life”, contando com a participação, entre outros, do actor John Goodman, ou com a sobreposição de rostos e labaredas de “Burning down the house”.
“More Songs about Buildings and Food”, título do segundo album, explica muita coisa. Vêem-se os corpos dos próprios Talking Heads fragmentados num painel de centenas de polaroids, ao estilo David Hockney, e uma fotografi a aérea do território dos EUA. O segredo, como em Laurie Anderson, está nessa viagem-relâmpago entre a microscopia e a visão aérea. A primeira, como na orelha ampliada até ao absurdo de David Lynch, em “Blue Velvet”, desmonta as texturas, os tecidos, as células e os átomos de uma realidade feita de logros e aparências. “You may ask yourself why”, canta Byrne em “Once in a lifetime”, interrogando-se e interrogando-nos sobre a vacuidade da sociedade de consumo, como voltaria a fazer mais tarde no fi lme “True Stories”. A segunda, ver de cima, permite captar o quadro completo, cada uma e o conjunto de todas as acções levadas a cabo em simultâneo – a visão do poder.
No “clip” final, “Road to nowhere”, David Byrne repete a mesma dança desarticulada do início, “Once in a lifetime”, correndo como um cavalo sem freio por uma estrada deserta ao encontro do vazio. Pura ilusão. Está parado e é o caleidoscópio de luzes e sombras, dos prédios e dos automóveis, das lojas e dos sacos de compras, das “diet cokes” e dos “hamburgers”, dos “peep shows” e das estações de serviço, dos anúncios e das ideologias, dos assassínios sem motivo e da crueldade sistemática, tudo e nada, que gira em volta de cabeças demasiado despertas. Talking Heads. Elas falam. Agora, graças ao quadro geral de “Once in a Lifetime”, deixa de haver desculpa para não as ouvirmos.
Este Natal quer oferecer uma prenda brilhante, inteligente e obscena? Faça o seu ar mais inocente e arrisque “Once in a Lifetime”. Ao menos uma vez na vida.