Arquivo mensal: Outubro 2016

Música Folk / World – Artigo de Opinião – “Estado de Fusão Ou As Virtudes Do Martelo”

Pop Rock

31 de Janeiro de 1996

Estado de fusão ou as virtudes do martelo

“Se houve alguma tendência este ano que me irritou, foi a de transformar os mais diversos estilos de música étnica num papa doce e sintética. Um número infindável de patetices cheias de ‘samples’ ‘étnicos’, textos balofos e autoconvencidos, ‘muzak’ vegetariano, abafadas por caixas de ritmo. Acreditem nas minhas palavras, em cada minuto que passa, pinga um compacto no capacho de entrada com o rótulo ‘Celtic tribal trance’. Garanto-vos que vou pegar num martelo muito grande e desfazer cada um desses objectos degenerados em fragmentos pequeninos…”
Ian Anderson, director da revista “Folkroots”, no seu editorial de Dezembro do ano passado.


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O editorial de Ian Anderson, uma das figuras mais prestigiadas da cena folk internacional, do qual transcrevemos a parte final, saiu no mesmo número que um artigo intitulado “Celtic muzak”, assinado por Colin Irwin, outra das lendas da escrita folk, desde os anos 70 quando ainda integrava a equipa do “Melody Maker”. Colin Irwin tomou como ponto de partida a edição recente do álbum “Riverdance”, de Bill Whelan, já recenseado nestas páginas. Um dos bons exemplos de fusão sobre elementos “célticos”, representativo de uma das tendências actuais mais fortes, no mercado deste género de música. “Riverdance” foi apresentado no Festival da Eurovisão de 1981, na Irlanda, com pompa e circunstância, constituindo a prova real das potencialidades, enquanto objecto rendível, deste tipo de música na balança das exportações.
Enquanto obra de arte, “Riverdance” tem as suas virtudes e os seus defeitos, sendo que a principal das primeiras se traduz sinteticamente na velha, mas sempre actual, questão, já por nós várias vezes abordada, de, seja qual for o trabalho cirúrgico levado a cabo, não perder de vista as origens.
O problema que levou Ian Anderson a pegar no martelo só se colocou a partir do momento em que a folk saiu do gueto onde esteve confinada durante anos, para ganhar peso na indústria discográfica. Se a revolução dos anos 70, personificda por grupos como os Bothy Band, Planxty ou De Danann, foi em primeiro lugar de ordem artística, arrancando a folk do regionalismo de grupos como os Dubliners ou os primeiros Chieftains, para o estatuto de fenómeno urbano, de características universais com repercussões não só nas Ilhas Britânicas como no resto da Europa, a revolução encetada ao longo da presente década deve ser lida a outro nível.
Começa por ser uma evolução natural. Se “da Irlanda para a Europa” era o mote dos anos 70, nos anos 90 é “da Europa para o mundo”. Ao longo deste processo, as questões de produção e de distribuição ganharam preponderância sobre as estéticas.
Sabe-se como estas coisas funcionam. É difícil, à indústria, controlar uma música que desconhece e que, ainda por cima, na origem, corresponde a manifestações de minorias, étnicas, culturais e políticas. A estratégia está então em submetê-la ao crivo da mediatização, vesti-la, adaptá-la a esquemas e fórmulas de produção massificantes e, desta forma, passíveis de ser controladas por fora. Normalizar, adaptar, em última análise, vulgarizar. Dois tipos de músicos vão na onda. Os que não fazem a mínima ideia dos materiais de base com que trabalham e apenas pretendem apanhar o comboio, e os que, com conhecimento de causa e responsabilidades, decidiram entregar a alma ao diabo.
É sob esta luz que se deve avaliar a vaga actual de “fusões”, que começam na embalagem e no “marketing” e terminam, regra geral, na descaracterização e no esvaziamento prematuro até serem devoradas pela vaga seguinte.
A questão do purismo contra o modernismo é uma falsa questão. O Grupo de Cantares do Manhouce não é melhor nem pior do que os Gaiteiros de Lisboa. As Irmãs Goadec não são melhores nem piores do que os Hedningarna. A pureza absoluta de uns não se opõe ao radicalismo formal dos outros. Estão do mesmo lado da barricada. É que, também já o escrevemos, tudo parte do mesmo. Perdida a essência, perde-se a bússola. Encontrado o norte, é permitida a heresia que força as portas do futuro.
Alguém capaz de compreender onde está o nó do problema perceberá de imediato o que distingue um bom disco de fusão dos Hedningarna ou dos Barabàn de um mau disco de fusão dos Deep Forest ou dos Enigma.
É aqui que entra o “celtismo” e todos os crimes que em seu nome têm sido cometidos – com o mercado a saltar de contente com as façanhas dos seus acólitos mais queridos e a indiferença e alguma revolta dos que recusam ceder. A Europa, ávida de avós que dêem sentido ao seu vazio, agarrou-se com unhas e dentes à “inocência” dos sons étnicos. Os oportunistas, caridosos, dão-lhe o placebo em pastilhas coloridas. Quando regressarem os sintomas, já o comboio andará por outras estações. Felizmente, o martelo de Ian Anderson estará sempre disponível.
Nestas páginas traçamos a divisória, no actual estado de coisas (estado de sítio), entre fusões e confusões, em vários territórios da Europa onde a folk fervilha.

COM FUSOS E FUNDOS

Portugal

Não estamos mal. Ou estamos melhor. Né Ladeiras, Brigada Victor Jara e Gaiteiros de Lisboa, mesmo os Romanças, mostraram nos últimos tempos como se funde sem derreter o coração. “Traz os Montes”, “Danças e Folias” e “Invasões Bárbaras” aprenderam a lição antiga dada pela Banda do Casaco. Do lado da chacha, temos ou tivemos os Navegante, Maio Moço, coisas assim.

Espanha

Principalmente a Galiza, aqui mesmo ao lado. Já andou desnorteada, entre o que poderia ter sido, mas não foi, a música dos Armeguin (perdida na “new age”), Matto Congrio (perdida no “reggae”), Brath (perdida numa bateria rock) e Emilio Cão (perdida em fungadelas e numa produção mais berrante que uma gravata). Uxia, surpresa ou não, acendeu uma lanterna e “esta vivindo no ceo”. Os Na Lua ficaram para trás. Perto do Mediterrâneo, não há quem bata os Radio Tarifa.

Ilhas Britânicas

Têm gente para tudo e ainda sobra. Na Irlanda, Shaun Davey ameaça regularmente com as suas sinfonias. Na Escócia, a William Jackson, na mesma moeda, falta sobretudo pulmão. Heréticos de há muito são, em Inglaterra, Ashley Hutchings e a Albion Band. Ou Andrew Cronshaw. Hoje o primeiro continua a dar cartas. Arriscaram muito os Blowzabella. Aos irlandeses (e aqui, cuidado, há que distinguir entre “fusão” e releituras actualizadas da tradição, que é o que fazem ou fizeram os maiores: Planxty, Bothy Band, De Danann, Déanta ou Dervish…), perde-se-lhes a conta. “Fundem” bem Bill Whelan, Four Men & A Dog e Sharon Shannon. “Fundem” mal os Nightnoise (dos manos Ní Dhomnaill, quem diria?), numa “new age” com flores, os Orion, Rare Air (não são bem irlandeses), Celtic Thunder, os actuais Capercaillie, os actuais Clannad, a actual (choque!) Dolores Keane e o Davy Spillane de sempre, a não ser quando tocou música búlgara com Andy Irvine, em “East Wind”. Na Escócia, palmas para Savourna Stevenson e para os House Band. Menos para os Ceolbeg. Na Inglaterra, assobios de vergonha para os actuais fantasmas, Fairport Convention, Pentangle e Steeleye Span, a catarem no caixote dos restos.

França

Na Bretanha gostam muito de “jazz”. Que o digam os Bleizi Ruz, Dédale, Obsession, Ti Jaz ou Une Anche Passe. Os Gwendal também gostavam, mas a partir de “Glen River” foram trucidados por uma caixa-de-ritmos. Erik Marchand faz maravilhas com a música indiana, os Barzaz com a “new age” e os Kemia com um piano romântico. Mais para sul, continuam inclassificáveis os Verd e Blu. Gabriel Yacoub, recuperado do monumental espalhanço “Elemental Level of Faith”, voltou a erguer-se no belíssimo “Bel” e num “Quattre” esotérico. Levam com o martelo Deep Forest, le Gop, Groupe sans Gain, e, com toda a força possível, Alan Stivell e Dan Ar Brás, os dois maiores vendidos à “música gorda”, mais o seu filhote legítimo, o recente “supergrupo” Kadwaladyr, de “The Last Hero”.

Itália

Bons ventos, soprados pelos Ciapa Rusa, Barabàn, Elenna Ledda (Sardenha) e Riccardo Tesi. Não se conhecem maus exemplos. Eros Ramazzoti?

Hungria e Bulgária

No passado, Kolinda e Vizönto. Hoje, Zsaratnók e Vasmalom. Uma grande senhora, a mais tradicional (com os Ökros Ensemble) e a mais moderna, no electrónico “Apocrypha”. Sem contar que esteve no meio dos Towering Inferno, na ópera de pesadelo “Kaddish”. Um grande senhor, búlgaro: Ivo papasov, mestre dos sopros e do “swing” em 13/8. Há uns detestáveis Slobo Horo. Às vozes que falam com Deus e a todos os pecados cometidos em seu nome, vamos perdoar-lhes.

Escandinávia

Podem fazer tudo, que tudo lhes sai bem. Compensam o frio acendendo fogueiras que queimam até à ponta do continente. O filão dos filões. Hedningarna, Garmarna, Hoven Droven, Ottopasuuna, Filarfolket, Den Fule, Värttina, Mari Boine Persen, Mari Kalaniemi, Lena Willemark.



Värttinä – Entrevista – “Mulheres à beira de um ataque de júbilo”

Pop Rock

27 de Março de 1996

Mulheres à beira de um ataque de júbilo

No programa do Intercéltico deste ano destaca-se o nome das finlandesas Värttinä. Três álbuns, “Oi Dai”, “Seleniko” e “Aitara”, e concertos onde as tradições mais antigas se casam com a ousadia e uma presença jubilante em palco fizeram delas um dos grupos com maior aceitação no circuito “folk” actual. Como os Hedningarna, há dois anos, em Algés, vão fazer furor. O PÚBLICO entrevistou Sari Kaasinen, uma das quatro cantoras.


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Värttinä significa fuso. Sons que rodopiam, capazes tanto de pôr o corpo a girar como de espicaçar a imaginação. É impossível, diz-se, ficar indiferente às vozes destas quatro senhoras. Um concerto delas (e dos seus acompanhantes instrumentais, homens) dá garantias de festa.
PÚBLICO – Nos últimos anos tem-se assistido a uma vaga de grupos da Escandinávia. Hedningarna, Hoven Droven, Den Fule, Garmarna… As Värttinä sentem-se parte desse movimento?
SARI KAASINEN – Pode dizer-se que fomos um dos primeiros. Na mesma altura em que outros, tanto na Suécia, como os Hedningarna, como da Finlândia, se tornaram muito populares. Não se trata somente de um fenómeno comercial, pelo menos no nosso caso. Tenho feito música ao longo de toda a minha vida. É a minha vida. O meu estilo de vida. Algo que radica nas minhas origens. Hoje, é claro, o grupo também tem que pensar em termos comerciais, se quiser fazer digressões e gravar álbuns.
P. – O que fazia antes de pertencer às Värttinä?
R. – Estive sempre nas Värttinä! O grupo começou com a minha família. Eu, a minha irmã e a minha mãe. Quanto ao nome actual, surgiu em 1983.
P. – Na Finlândia, é por vezes ténue a diferença que separa um grupo rock de um grupo folk…
R. – Os grupos rock e folk começaram a absorver a influência folk só nos últimos dois ou três anos. Antes disso, ninguém queria tocar música folk. No nosso caso, alguns elementos tinham estado ligados a diferentes estilos de música, rock, pop, jazz… Tocamos um estilo que é o nosso, embora façamos algumas misturas.
P. – Com música irlandesa, por exemplo?
R. – O nosso violinista tocou muita música irlandesa.
P. – Costuma ouvir?
R. – Por vezes, sim. Gosto dos Four Men & A Dog, grupos desse género.
P. – Sei que toca kantele, embora no grupo se limite a cantar…
R. – Dou aulas de kantele. Continuo a tocar este instrumento, mas unicamente para meu prazer pessoal. Talvez volte a tocá-lo nas Värttinä um dia destes!…
P. – Numa entrevista que deu há quatro anos para a revista “Folk Roots” dizia que o grupo cantava “de uma perspectiva de poder”. Quer pormenorizar um pouco mais este aspecto?
R. – Referia-me às letras das nossas canções, que são muito fortes. Usamos um estilo de letras e de métrica muito, muito antigas. Mas também escrevemos as nossas próprias letras. É importante manter o contacto com esse lado mais antigo, saber o que estamos a cantar, quando cantamos sobre as nossas próprias vidas.
P. – Quando estão a cantar em dialectos antigos, para uma audiência estrangeira, não se importam que essa parte se perca?
R. – Mas as pessoas dizem que compreendem o que queremos dizer! Que temos uma linguagem corporal! A verdade é que não é muito importante que percebam as letras. Queremos sobretudo que as pessoas prestem atenção à totalidade do som.
P. – Não existe um ponto de vista feminista no tipo de letras que cantam?
R. – O tal estilo antigo em que cantamos certas canções chama-se “rontylska”. Ninguém sabe muito bem quando apareceu. A última vez que alguém ouviu cantar nesse estio, antes de nós, foi no princípio deste século. Escutámos velhas gravações antes de trazermos as canções “rontylska” para o nosso reportório. A região do país onde vivo, no Norte da Carélia, é precisamente um dos locais onde esse estilo apareceu. O que acontecia nestas canções é que, quando eram os homens a cantar, os assuntos giravam à volta de grandes caçadas, esse tipo de coisas, enquanto as mulheres cantavam sobre os seus próprios sentimentos. Era a única maneira que tinham, as canções para poderem dizer que estavam tristes ou apaixonadas. Talvez haja aqui, de facto, uma perspectiva feminista. Não havia nenhuma interferência do homem. Existem dezenas de milhares de canções com esse tipo de letras, reunidas em velhos livros. Foi daí que tirámos muitas ideias para contar as nossas próprias histórias.
P. – O último álbum do grupo, “Aitara”, tem uma vertente pop bastante mais acentuada que os anteriores.
R. – É verdade. O que acontece é que sempre que trabalhamos com novo material vamos para estúdio apenas com as canções de base e as letras. No caso de “Aitara”, não existiu qualquer ideia predeterminada para fazer um álbum pop, nem sequer falámos disso. Aconteceu os arranjos surgirem assim.
P. – Alguns ritmos são tão metronómicos que quase parecem ter sido feitos por uma caixa-de-ritmos…
R. – Não, foi tudo tocado por nós. Mas já não estou cem por cento certa disso, porque já mais do que uma pessoa me colocou essa questão… Deve ser porque o baterista toca tão bem que parece uma dessas tais caixas.
P. – Fale-nos um pouco da actividade da sua editora, Mipu Music.
R. – Somos uma companhia pequena. Editamos música das etnias “fino-úgricas”, ou grupos como as Angelin Tytöt, de quem produzi o primeiro álbum. Elas fazem com a música “sammi” o mesmo que nós com a música da Carélia. Respeitam a tradição delas e querem desenvolver um estilo pessoal.
P. – Prepararam algum espectáculo especial para o Intercéltico?
R. – Gostaria que as pessoas não criassem falsas expectativas. Não esperem nada de mais nem de menos. Talvez apresentemos algumas canções novas, ainda não sei. Quando cantamos, pretendemos acima de tudo criar uma relação com a audiência. Não se trata só de cantar e de tocar, mas de algo mais global, mais completo. Se o público se entusiasmar, pode ter a certeza de que também nos vamos entusiasmar. Tenho a certeza de que no Porto vai ser divertido.



Bruire – “L’âme de L’ Object” + Jean Derome et les Dangereux Zhoms – “Navré” + Joane Hétu – “Castor et Compagnie” + Diane Labrosse – “Face Cachée des Choses” + Justine – “Langages Fantastiques”

Pop Rock

4 dezembro 1996
poprock

MAGNETISMO NA RÁDIO FANTÁSTICA

Ambiances Magnétiques, com distribuição portuguesa pela Audeo, é uma editora independente canadiana, com sede em Montreal, criada em 1983 pelos músicos Michel F. Côté, Jean Derome, André Duchesne, Joane Hétu, Diane Labrosse, Robert Marcel-LePage, René Lussier e Danielle Roger – facto que, desde logo, coloca as preocupações artísticas acima dos interesses mercantilistas.
Alguns destes músicos são já do conhecimento dos incondicionais da Recommended, através de uma pequena importação de discos em vinilo, chegada há alguns anos ao nosso país, que incluía, entre outros, trabalhos de André Duschesnes, Michel F. Côté com o seu grupo Bruire, René Lussier, Robert Marcel-LePage, Wondeur Brass e Les Poules, estes dois últimos grupos formados por Joane Hétu, Diane Labrosse e Danielle Roger.
O jazz, do tradicional ao “free”, a música de câmara europeia, a folk do Quebeque, a música de variedades e o cabaré, o ambiental e o “bruitismo” são algumas das linhas de força que se cruzam para formar a estética (Ambiances Magnétiques) AM.
“As músicas de Ambiances Magnétiques fazem uma utilização nova de tudo o que constitui a música comercial”, lê-se no manifesto da editora, para a qual, “quer sejam sons eléctricos, ritmos, solos ou a arquitectura geral de uma peça, é feita constantemente referência a algo que já se ouviu antes”. Isto porque “os seus compositores pertencem a uma geração que experimentou e ouviu todos os géneros de música”. A AM funciona como uma espécie de inverso da rádio, ou uma rádio fantástica, na medida em que opera a transfiguração desta, enquanto acumuladora e difusora de cultura, da vertente mais intelectual ao “kitsch”. O humor, a ironia e a paródia fazem parte das palavras de ordem da AM. Alguém pronunciou o nome de Frank Zappa?
Além dos títulos que, a seguir, recenseamos, não queremos deixar de chamar a atenção para outros que reputamos de qualidade. Estão neste caso “Maudite Mémoire”, de Michel Faubert, derivação pouco ortodoxa da tradição do Quebeque, com sabor contemporâneo, que agradará aos apreciadores de um grupo como os La Bottine Souriante, “Des Pas et des Mois”, de Martin Tétreaul, construção cortante de “samples”, ruídos, “scratch” e literatura, e “Adieu Léonardo”, homenagem, em tons neoclássicos, a Leonardo da Vinci, de Robert Marcel-LePage, segundo coordenadas menos habituais neste intérprete de clarinete e saxofones, amante do “erro musical” e da electrónica analógica. Outros nomes também a partir de agora disponíveis incluem os Évidence, André Duschesnes, Jerry Snell, Genevieve Letarte, René Lussier (reedição do fenomenal “Fin du Travail”) e Les Granules.

Bruire
L’âme de L’ Object (8)


bruire

Depois de “Le Barman a Tort de Sourire” e “Les Fleurs de Léo”, “L’Âme de l’Object” é a desconstrução da linearidade narrativa, o surrealismo sonoro atravessado pelos fantasmas de Fellini, de “La Strada” e a “chanson” etilizada dos cabarés de Paris do pós-guerra. Viagem pela inquietação, pelas ruínas do jazz, da pop desolada e da algazarra concretista, recusa panfletária da melodia de compêndio, o objecto pode ser o olho cortado pela lâmina, de Buñuel. A bateria e as “live electronics” de Côté juntam-se aos saxofones, flautas e “pequenos instrumentos” de Jean Derome e aos discos riscados de Martin Tétreault. “Swing” dos danados, enquanto Miles e Ornette dormem. Para desarranjar os ouvidos e o espírito.

Jean Derome et les Dangereux Zhoms
Navré (8)


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“Navré” é o segundo capítulo dos Dangereux Zhoms de Jean Derome, depois de “Carnets de Voyage”, reunindo de novo peças compostas durante digressões com os Keep the Dog, René Lussier, Les Granules ou os Looping Home Orchestra, de Lars Hollmer, a bordo de camiões, aviões ou em quartos de hotéis. Tem a vitalidade e a urgência de efémero e a força de uma respiração que se sustenta do jazz, com a grandeza de alma de uma “big band”. Os Henry Cow sorriem por detrás da cortina quando os sopros de Derome (figura de proa das novas músicas do mundo, é bom que se diga) chocam ou correm ao lado do trombone de Tom Walsh e da guitarra eléctrica de René Lussier, guitarrista – também ele, é urgente notá-lo, com a dimensão de um Robert Fripp.

Joane Hétu
Castor et Compagnie (8)


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Em “Castor et Compagnie”, de Joane Hétu, a palavra e o poema estão no centro das operaçoes, quer pelo seu valor fonético, quer pela capacidade em evocar imaginários poéticos postos ao dispor dos instrumentistas. São histórias de renda e bordado, de sangue coalhado, de mensagens cifradas a arder num diário, lançando flechas ou flores a quem se ama, ou desespera de amar. Jean Derome volta a estar presente, com os seus saxofones incandescentes, flautas, teclados, cassetes e tudo o mais que produza som. Joane Hétu toca igualmente saxofone (instrumento preferido para as bandas da AM…) e teclados, além de cantar. Uma voz que arrisca os extremos da inflexão, descarrilando por vezes, na declamação, ou semideclamação, a que o peso das palavras a obriga. Um desconforto do mesmo tipo que se sente ao ouvir outros franco-Recommended, como Ferdinand Richard, por exemplo, resultante de uma certa falta de elasticidade do francês, no contexto de músicas mais fragmentárias. Diane Labrosse, companheira de Hétu nas Wondeur Brass, Les Poules e Justine, no “sampler”, acordeão e voz, é outra das colaborações deste poema reescrito em cores secundárias, em filmes sobrepostos, em diálogos e monólogos traçados a tira-linhas pelo coração.

Diane Labrosse
Face Cachée des Choses (9)


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Diane Labrosse, fazendo jus ao seu nome de caçadora, não hesita em avançar tão longe quanto possível na experimentação e na sedução do som pelo som. “Face Cachée des Choses”, primeiro trabalho em solo absoluto da sua autoria, é uma armação sinfónica para “sampler” e gravações de fita, inventário de ruídos e músicas microscópicas, formas biológicas e mecânicas em evolução, etnomistificações, apontamentos de ornitologia, memórias traficadas pela informática. O sentido deste movimento em torno das sombras sonoras das coisas poderá ser o do acaso e da sua ordem sobrenatural. Música que cura a doença dos Biota, música da música, reveladora do quotidiano como colagem, fornecendo estímulos renovados a cada audição.

Justine
Langages Fantastiques (8)


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Todas estas “linguagens fantásticas” convergem no álbum do mesmo nome das Justine – Hétu, Labrosse, Danielle Roger e Marie Trudeau –, as quatro desestruturalistas do Apocalypso-bar, numa extensão lógica das Wondeur Brass. “Langages Fantastiques”, segundo álbum do grupo, depois de “(Suites)”, é o intercâmbio jubiloso de sensibilidades em sintonia na Rádio Fantástica. Sessão de frenético “vaudeville” agitado pelo choro lancinante do sax de Hétu. Captado ao vivo em estúdio na sequência de uma digressão pela Europa, “Langages Fantastiques” sumariza, de forma exemplar, a diversidade de premissas estéticas da Ambiances Magnétiques, uma editora em estado permanente de alerta.