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Simon Jeffes / Penguin Café Orchestra – “Simon Jeffes, Dos Penguin Café Orchestra, Apresenta Concerto De Amanhã, Em Lisboa – Pinguins À Mesa Com Pitágoras”

cultura >> terça-feira >> 05.03.1996


Simon Jeffes, Dos Penguin Café Orchestra, Apresenta Concerto De Amanhã, Em Lisboa
Pinguins À Mesa Com Pitágoras


Temos pinguins. Temos bica. Temos Gulbenkian. Não temos é uma orquestra de um café de pinguins. Por isso é de aproveitar a segunda vinda a Portugal da banda do “maestro” Simon Jeffes, a Penguin Café Orchestra. No Coliseu dos Recreios, a prometer sabe-se lá o quê. Música mais ou menos clássica, “world” mais ou menos étnica. Os pinguins de fraque também sonham. Um divertimento sério.



É a segunda vez que Simon Jeffes e a sua Penguin Café Orchestra vêm tocar a Portugal. Amanhã, às 22h, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. De 1993, data da sua primeira visita, para cá, nada de significativo mudou na atitude e na estética do grupo. Simon Jeffes, com quem o PÚBLICO falou em Londres, continua a defender as mesmas ideias e uma música que teima em não ter número de catálogo. São as intuições. É o prazer, cada vez mais intenso, de tocar em concerto. Razão por que gravaram recentemente um duplo compacto ao vivo, “Concert Program”. Só que, como bons perfeccionistas e excêntricos que são, por via das dúvidas, dispensaram a assistência. Doidos.
PÚBLICO – O que é que podemos esperar de novo nesta segunda visita do grupo a Portugal?
SIMON JEFFES – Fizemos uma derradeira digressão antes de parar para um período de introspecção. Estou a mudar-me de Londres para um lugar bastante mais afastado, Somerset, no Oeste, onde poderei idealizar novas peças para o grupo. Nos últimos tempos não parámos de viajar por todo o mundo. Descobri, nesses espectáculos, uma serenidade na nossa música. Uma serenidade que nasce da própria experiência de tocar. “Concert Program” é isso. Uma gravação ao vivo, embora sem público. Fizemos tudo o que é suposto fazer-se num álbum ao vivo, com uma garrafa de “Jack Daniels” e cervejas à disposição. Mudámos de roupa e tudo. Até ficámos nervosos. Fomos para o auditório do estúdio e demos um concerto.
P. – Quiseram provar alguma coisa?
R. – Bem, quando se ouve um disco de estúdio, há uma compreensão inconsciente da situação com que se lida. Quando gravo uma peça de estúdio, repito a gravação umas dez vezes num só dia. E posso tocar sozinho os instrumentos todos. O que pretendo captar, agora, é a interactividade dos músicos ao vivo, a cada instante. Captar a sensibilidade destes dez músicos a tocarem juntos. Para mim, representa uma obra-de-arte. Uma experiência física, emocional, mental e espiritual.
P. – Essa experiência vai afectar a próxima gravação de estúdio?
R. – Sim. Para já, foi como tocar sem amplificação. Houve muitas lições para aprender. Vai ser como começar tudo de novo, no estúdio, agora que já me interconectei com o mundo. Os meus sonhos encontraram-se com as minhas experiências.
P. – Que espécie de sonhos?
R. – Sonhos sobre o que os Penguin Café representam na sua essência. A vida vivida de uma forma espontânea. Sem planeamentos excessivos.
P. – Dos primeiros álbuns para os mais recentes, algum sentido de humor ficou pelo caminho, não acha?
R. – Talvez. Bem vê, estou com 47 anos. Tinha 24 nessa altura…
P. – Já não aprecia uma boa piada?
R. – Pode crer que sim! Mas já não me preocupo se a música é bem humorada ou não. Faço aquilo que faço e é tudo. Há pessoas com os pontos de vista mais extraordinários sobre a nossa música. Existe, claro, uma ironia…
P. – Mesmo nos aspectos formais da música do grupo, não é verdade?
R. – O truque é ser sério sem ser sério. Sou apaixonadamente sério sobre a minha música mas não gosto de música que seja demasiado séria. Mas também adoro música séria…
P. – Tantos paradoxos. Era essa a atitude, quando gravou o seu álbum com música para bailado?
R. – Bem… Isso foi relativamente sério. Não de uma seriedade absoluta. Não é um disco muito bom. A versão em vídeo não é má… Não é fácil para uma orquestra sinfónica tocar este género de música. São precisos muitos ensaios, numa orquestra com estas dimensões.

“As Imagens Distraem-me”

P. – Há um vídeo do grupo bastante interessante, com pessoas disfarçadas de pinguins…
R. – … Mas o elemento visual desvia as atenções da música. Gosto de ouvir música na rádio mas nunca, nunca mesmo, ouço música na televisão. Não consigo. As imagens distraem-me. Talvez faça sentido, com um “single”… Claro que se alguém viesse ter connosco, propor algo mais experimental, um documentário, por exemplo, aceitaria. Mas como isso custa imenso dinheiro, não posso ter veleidades de pôr em prática esse tipo de experimentalismo.
P. – Vai buscar para a música do grupo muitos elementos da música étnica, sobretudo ritmos…
R. – Costumava ouvir muito esse tipo de música, nos anos 70. Aprendi algumas coisas com ela. Hoje, já não. O que aprendemos já não é tanto sobre culturas mas sobre a própria música. Gosto de pensar em termos rítmicos da mesma maneira que em termos de harmonia. Simples números e justaposições são bastante eficazes. Como um compasso de 3 por 2, que uso bastante.
P. – Quer dizer que aplica a matemática à música?
R. – Num certo sentido, sim. Pode chamar-lhe uma ligação mística e mítica a Pitágoras. Pitágoras via a música, o som, a consonância e a dissonância, em termos de simples proporções numéricas. Algo que descobri ser verdade.
P. – … Sem deixar espaço à intuição?
R. – É intuitivo! O que se pode fazer é chamar a atenção, fazer com que a intuição venha até nós. Se se acredita que a tal proporção do 3 por 2 quer dizer realmente qualquer coisa, isso ajuda a descobrir algo de novo.
P. – Os Penguin Café Orchestra, quer queira quer não, fazem hoje parte do imaginário de muitas bandas folk. “Music for a found harmonium”, do álbum “Broadcasting”, é cada vez mais um “standard” do género…
R. – Já o disse algumas vezes. Quando compus esse tema, em Kioto, no Japão, encontrei o tal “harmonium” abandonado… Hoje o tema foi absorvido pelos músicos irlandeses, escoceses e de outros países, como uma espécie de canção “folk” que serve todos os propósitos. É de facto estranho. Sem querer parecer pretensioso, sinto que, de algum modo, quando escrevi essa peça, me encontrava como que vazio, no meio do ambiente espiritual que me rodeava. Tem uma qualidade universal. Algo que encontrei. Ou que me encontrou… Algo em que sempre acreditei, que toda a minha música provém dessa espécie de … de fonte.
P. – O silêncio?
R. – Certamente o silêncio. E aquilo que nasce do silêncio. Um silêncio fecundo [“a pregnant silence”, perde com a tradução]. [em voz solene e misteriosa]: “a child born from a pregnant silence!”. Terrível!
P. – Depois de muitos álbuns editados na E.G., “Concert Program” saiu no vosso selo particular, Zopf…
R. – A E.G. acabou. Vendeu todo o catálogo à Virgin. Abandonaram o barco. Gostaria de ter permanecido na E.G. para sempre. Era uma boa editora, com gente simpática. Também tínhamos boas relações com a Virgin, mas a Virgin foi, por sua vez, vendida à EMI… Pus-me a imaginar quem é que iria comprara a EMI… [risos].
P. – “Zopf” é o título de uma canção do primeiro álbum, “Music from the Penguin Café”. O que significa?
R. – É uma palavra em alemão engraçada. Significa “cauda de porco”. Parece não querer dizer absolutamente nada. O que é fantástico!

Danças Ocultas – “Danças Ocultas Estreiam AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM”

pop rock >> quarta-feira >> 21.02.1996
pop rock >> portugueses


Danças Ocultas Estreiam
AS CONCERTINAS TAMBÉM CHORAM


Um disco instrumental, ainda por cima só de concertinas, é uma operação arriscada, por mais calculado que seja o risco. Foi isso que fizeram os Danças Ocultas, um grupo de Águeda que, no seu álbum de estreia, decidiu elevar aquele instrumento de fole à categoria de música de câmara.



“danças Ocultas” rejuvenesce um instrumento considerado durante muito tempo parente pobre, remetido para a animação de romarias ou para o peditório do cego. Se Júlio Pereira tirou o cavaquinho e a braguesa do gueto, e Tentúgal e Fernando Meireles fizeram o mesmo com a sanfona, o quarteto de Águeda devolveu a concertina à sua condição de nobre que é capaz de chorar a melancolia de Satie. Artur Fernandes, mentor do projecto, num intervalo das filmagens do vídeo promocional, explicou ao PÚBLICO os segredos do instrumento.
PÚBLICO – Como decorreu a gravação?
ARTUR FERNANDES – No início trazíamos uma forma de execução, um tipo de reportório e uma determinada afinação das concertinas, a tradicional, com as palhetas mais vibrantes. A pedido do Tó Pinheiro da Silva [engenheiro de som e responsável pela sonoplastia], estudámos a possibilidade de ter o som mais afinado, com as palhetas mais próximas. Foi o que fizemos. Não podemos igualmente negar a influência, no modo de trabalhar, do produtor Gabriel Gomes, determinante na feitura dos arranjos. Nos três dias que antecederam a gravação, alterámos alguns aspectos dos temas.
P. – Gravaram ao vivo no estúdio?
R. – Como temos vindo a tocar sempre os quatro desde há seis anos, criou-se entre nós um balanço próprio. O Tó Pinheiro entendeu que isso devia ser aproveitado, essa envolvência, gravando não por pistas mas todos juntos. Claro que deu mais trabalho, sempre que alguém se enganava tínhamos de gravar outro “take”.
P. – A relação com a tecnologia deu-se sem atritos?
R. – Tenho essa relação, mas a outro nível. Estou neste momento a fazer estágio no curso superior de Composição, mantendo uma relação com a música electro-acústica, com sistemas digitais e analógicos. Este trabalho com as concertinas funciona, no entanto, a outro nível.
P. – O tema inicial, “Folia”, constitui uma experiência radical na utilização da concertina…
R. – No acordeão e na concertina existe um botão do ar que liberta o fole sem ser necessário tocar nos botões. No acordeão, este botão serve essencialmente para, no fima da música, fechar o fole. Na concertina ele tem outra função, que é, durante a música, compensar a necessidade de maior ou menor tempo a abrir e a fechar o fole. Havendo esta funcionalidade do movimento do fole, optámos por explorá-lo isoladamente, de maneira a produzir uma sensação de respiração humana.
P. – As pessoas costumam ver na concertina um instrumento folião, extrovertido, mas “Danças Ocultas” é um disco bastante melancólico, poderíamos mesmo dizer de música de câmara…
R. – Exacto. Comecei na música tradicional, a tocar concertina nos grupos folclóricos. Depois fui para o Conservatório e iniciei experiências com a concertina, precisamente na área da música erudita. Verifiquei que o instrumento afinal não era tão limitado assim. O que era necessário era explorar as suas potencialidades. Fui descobrindo então o tipo de trabalho que se faz na música de câmara, com distribuição das vozes pelos instrumentos, o tipo de envolvência, ou a necessidade de tocar com o máximo de conforto. Anatomicamente, há a necessidade de tocarmos sentados, para obtermos um máximo de rendimento em termos de expressão.
P. – O “No8c) turno das 7” traz-nos ecos de uma “gnossienne” de Erik Satie…
R. – Não posso negar. Sobretudo no acompanhamento harmónico e no tipo de ritmo. Mas há no disco todas as influências da música que ouço e estudo, Piazzola (em “Quartetra”), de quem sou grande fã, músicas tradicionais da Europa, menos Stravinsky, Messiaen e Webern, este último pelo culto da forma. Um pouco o que eu tento disciplinar neste projecto e que aprendi com a análise de Webern. Na “moda assim ao lado”, não poso negar a inspiração de um Riccardo Tesi ou de um Kepa Junkera. Mas o nosso som resulta pessoal, em parte devido à afinação diferente que procurámos. Em Portugal, a concertina tem um som estridente. Em Itália ou nos países celtas, trabalha-se um som que os afinadores chamam mais “ligado”. Nós ainda fomos a um extremo maior. Tentámos, nos vários arranjos, explorar a diferença de timbres, nas mãos esquerda e direita, além dos tais movimentos do fole.
P. – Já pensou na possibilidade de desenvolver o instrumento, liga-lo à electrónica, como faz, por exemplo, Valentin Clastrier com a sanfona?
R. – Para já não penso nisso, gosto imenso do som acústico. Sinto mais vibração no corpo assim do que com os sons electrónicos ou electrificados.
P. – Está consciente do risco que é editar em Portugal um disco instrumental, para mais centrado num único instrumento?
R. – O projecto, quando começou, partiu precisamente da tal influência da música de câmara. Sei que, por vezes, as pessoas precisam de seguir, ouvir uma letra, mas, talvez por estudar música, consigo dispensar a voz. Neste aspecto tenho como modelo o “Quinteto do novo Tango”, do Piazzola, onde os instrumentos têm como função imitar as vozes humanas. É um pouco pedagógico tentar ensinar as pessoas a ouvir música e a aperceber-se de que não interessa se uma música é comercial ou não.
P. – Para eventuais interessados, quanto custa uma concertina?
R. – Há concertinas a três e duas vozes. Quer dizer, cada botão dispara três ou quatro palhetas. Com três palhetas, o som é mais potente. A de três vozes é mais cara, custará agora à volta de 200 contos. As italianas, que são as melhores, custam ainda mais.
NOTA: Os Danças Ocultas apresentam o seu disco de estreia num espectáculo a realizar a 16 de Março, no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Por agora, estão a gravar um vídeo de promoção com realização de Tó Forte, um jovem de 27 anos cujo currículo inclui já trabalhos com os Kussondulola, Diva, Sacred Sin, Sérgio Godinho, Mário Laginha e Janita Salomé, além da assinatura em programas para a televisão como o extinto Pop-Off ou, actualmente, o de moda, “86-80-86”.

Uxia – “Verdes São Os Campos Do Céu” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 31.01.1996

VERDES SÃO OS CAMPOS DO CÉU

Uxia andou anos a cantar nos Na Lua. Agora subiu da lua para o céu. “Estou Vivindo no Ceo”, o seu novo álbum, é um bálsamo para o ouvido e para o espírito. Na sua Galiza a tradição diz-se também com a poesia de Luís de Camões e Eugénio de Andrade ou a música de José Afonso. A produção é de Júlio Pereira. A distribuição em Portugal está para breve.



a cantora Uxia, presença assídua no nosso país, explicou ao PÚBLICO a felicidade que invade o seu novo trabalho. O sentimento de partilha e o desejo de furar o bloqueio cultural do resto da Espanha dão-lhe alento para continuar a busca de uma via pessoal. Por onde passa a tradição. Galega e portuguesa. Universal.
PÚBLICO – Sentia-se assim tão feliz quando gravou o álbum?
UXIA – O disco corresponde a uma etapa serena da minha vida, depois de quatro anos de silêncio a preparar este trabalho. Tivemos tempo de experimentar ao vivo todas as novas canções, incluindo os arranjos. É daí que vem essa tranquilidade. Mas havia uma tensão, quando entrei no estúdio. Vinha de dirigir um espectáculo de mulheres, num festival em Vigo, onde participaram a Filipa Pais, Minela, Maria João e Maria Del Mar Bonet. Comecei a gravar logo no dia seguinte.
P. – Por que razão escolheu Júlio Pereira para produtor?
R. – Tinha uma ideia muito clara de como poderia funcionar um disco comigo. E porque ele tem um conceito de produção diferente, baseado mais na pré-produção do que na produção em estúdio. É uma questão de mentalização, de dar segurança e autoconfiança, mais do que os aspectos técnicos. Fez-me sentir que estava a cantar melhor do que nunca.
P. – Na lista de músicos convidados, além de um velho amigo, Natcho Munoz, nos teclados, e Quico Comesana, dos Fia na Roca, na harpa, conta com uma estrela, Kepa Junkera, na “trikitixa” (acordeão)…
R. – Somos amigos. É um músico inquieto, sempre receptivo a participar em todo o tipo de experiências, que se adapta facilmente a qualquer cultura. Costuma actuar muitas vezes na Galiza. Foi só telefonar, para contar com a sua “trikitixa” e a sua energia contagiante.
P. – E a cantora Gema Corredera?
R. – É uma magnífica cantora cubana que faz parte do duo Gema y Povel e habita há quatro anos na Galiza. Esteve recentemente em Cannes, no Midem. Ensinou-me muito em aspectos ligados ao canto. Além disso, já tinha colaborado num disco produzido por eles, uma homenagem a outra cantora de Cuba, Maria Teresa Vera.
P. – Percebe-se em “Estou Vivindo no Ceo” uma ligação mais forte do que nunca a Portugal. Camões, Eugénio de Andrade, José Afonso, um tradicional da Beira Baixa…
R. – É a consequência de uma relação cada vez mais estreita. O meu interesse pela música e pelos músicos portugueses não é de agora. Só que desta vez fui mais explícita. Voltei a incidir no Eugénio de Andrade, agora com um arranjo para piano e voz. Quanto a “Verdes são os campos”, de José Afonso, com texto de Camões, foi um repto para mim. Pode ser perigoso, mexer na figura do Zeca, mas fi-lo de uma forma bastante sentida, com um ambiente muito galego. Tão pouco se deve sacralizar a obra de um artista.
P. – Comparando com outros discos seus, onde era acompanhada apenas por homens, há neste uma percentagem grande de mulheres. É um disco feminista?
R. – Sim, é positivo que o canto das mulheres esteja a retomar a sua força. Uma força que sempre existiu. Os cantos tradicionais, aqui, pertenciam basicamente às mulheres, sem esquecer as pandeiretas que sempre animaram os serões, as reuniões populares. As Leilia [responsáveis pela recolha de “A laranxa”, um dos temas de “Estou Vivindo no Ceo”] recuperaram um pouco esses cantos e essa força das mulheres, que agora se unem para oferecer as suas recriações da tradição. Vou trabalhar com elas num espectáculo que se chama “O Cantar das Galegas”. Será mais uma resposta ao mundo da música, um mundo machista.
P. – Em que ponto se encontra o seu percurso pessoal e, em paralelo, o da música galega actual, enquanto instrumento estético e político?
R. – Tenho feito um trabalho de selecção e investigação dos cancioneiros ou do contacto com pessoas que fazem recolhas. Mas deixando sempre bem claro que não quero interferir nesse campo. O meu processo passa pela recriação desses temas, mas, à medida que os estudo cada vez mais, mais dúvidas vou tendo. Quanto ao que se passa hoje na Galiza, digamos que o poder não tem (passe a redundância) o poder de domesticar a nossa música. Actualmente há um movimento impressionante de músicos, muitos deles ligados a escolas de música tradicional, com imensos gaiteiros e pandeireteiras, a aparecer. Poderia citar dúzias e dúzias de novos grupos. Agora, sejamos sinceros, tudo isto praticamente não chega ao resto de Espanha. Porque não há um interesse político para que isso aconteça. A responsabilidade passa um pouco pelo nosso esforço e pelas nossas “ganas”, por fórmulas que, em muitos casos, escapam ao individualismo. Temos que ter consciência de que estamos todos no mesmo barco. No meu caso, quero e tenho confiança em que este disco ultrapasse as fronteiras.