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Uxia – “Verdes São Os Campos Do Céu” (entrevista)

pop rock >> quarta-feira >> 31.01.1996

VERDES SÃO OS CAMPOS DO CÉU

Uxia andou anos a cantar nos Na Lua. Agora subiu da lua para o céu. “Estou Vivindo no Ceo”, o seu novo álbum, é um bálsamo para o ouvido e para o espírito. Na sua Galiza a tradição diz-se também com a poesia de Luís de Camões e Eugénio de Andrade ou a música de José Afonso. A produção é de Júlio Pereira. A distribuição em Portugal está para breve.



a cantora Uxia, presença assídua no nosso país, explicou ao PÚBLICO a felicidade que invade o seu novo trabalho. O sentimento de partilha e o desejo de furar o bloqueio cultural do resto da Espanha dão-lhe alento para continuar a busca de uma via pessoal. Por onde passa a tradição. Galega e portuguesa. Universal.
PÚBLICO – Sentia-se assim tão feliz quando gravou o álbum?
UXIA – O disco corresponde a uma etapa serena da minha vida, depois de quatro anos de silêncio a preparar este trabalho. Tivemos tempo de experimentar ao vivo todas as novas canções, incluindo os arranjos. É daí que vem essa tranquilidade. Mas havia uma tensão, quando entrei no estúdio. Vinha de dirigir um espectáculo de mulheres, num festival em Vigo, onde participaram a Filipa Pais, Minela, Maria João e Maria Del Mar Bonet. Comecei a gravar logo no dia seguinte.
P. – Por que razão escolheu Júlio Pereira para produtor?
R. – Tinha uma ideia muito clara de como poderia funcionar um disco comigo. E porque ele tem um conceito de produção diferente, baseado mais na pré-produção do que na produção em estúdio. É uma questão de mentalização, de dar segurança e autoconfiança, mais do que os aspectos técnicos. Fez-me sentir que estava a cantar melhor do que nunca.
P. – Na lista de músicos convidados, além de um velho amigo, Natcho Munoz, nos teclados, e Quico Comesana, dos Fia na Roca, na harpa, conta com uma estrela, Kepa Junkera, na “trikitixa” (acordeão)…
R. – Somos amigos. É um músico inquieto, sempre receptivo a participar em todo o tipo de experiências, que se adapta facilmente a qualquer cultura. Costuma actuar muitas vezes na Galiza. Foi só telefonar, para contar com a sua “trikitixa” e a sua energia contagiante.
P. – E a cantora Gema Corredera?
R. – É uma magnífica cantora cubana que faz parte do duo Gema y Povel e habita há quatro anos na Galiza. Esteve recentemente em Cannes, no Midem. Ensinou-me muito em aspectos ligados ao canto. Além disso, já tinha colaborado num disco produzido por eles, uma homenagem a outra cantora de Cuba, Maria Teresa Vera.
P. – Percebe-se em “Estou Vivindo no Ceo” uma ligação mais forte do que nunca a Portugal. Camões, Eugénio de Andrade, José Afonso, um tradicional da Beira Baixa…
R. – É a consequência de uma relação cada vez mais estreita. O meu interesse pela música e pelos músicos portugueses não é de agora. Só que desta vez fui mais explícita. Voltei a incidir no Eugénio de Andrade, agora com um arranjo para piano e voz. Quanto a “Verdes são os campos”, de José Afonso, com texto de Camões, foi um repto para mim. Pode ser perigoso, mexer na figura do Zeca, mas fi-lo de uma forma bastante sentida, com um ambiente muito galego. Tão pouco se deve sacralizar a obra de um artista.
P. – Comparando com outros discos seus, onde era acompanhada apenas por homens, há neste uma percentagem grande de mulheres. É um disco feminista?
R. – Sim, é positivo que o canto das mulheres esteja a retomar a sua força. Uma força que sempre existiu. Os cantos tradicionais, aqui, pertenciam basicamente às mulheres, sem esquecer as pandeiretas que sempre animaram os serões, as reuniões populares. As Leilia [responsáveis pela recolha de “A laranxa”, um dos temas de “Estou Vivindo no Ceo”] recuperaram um pouco esses cantos e essa força das mulheres, que agora se unem para oferecer as suas recriações da tradição. Vou trabalhar com elas num espectáculo que se chama “O Cantar das Galegas”. Será mais uma resposta ao mundo da música, um mundo machista.
P. – Em que ponto se encontra o seu percurso pessoal e, em paralelo, o da música galega actual, enquanto instrumento estético e político?
R. – Tenho feito um trabalho de selecção e investigação dos cancioneiros ou do contacto com pessoas que fazem recolhas. Mas deixando sempre bem claro que não quero interferir nesse campo. O meu processo passa pela recriação desses temas, mas, à medida que os estudo cada vez mais, mais dúvidas vou tendo. Quanto ao que se passa hoje na Galiza, digamos que o poder não tem (passe a redundância) o poder de domesticar a nossa música. Actualmente há um movimento impressionante de músicos, muitos deles ligados a escolas de música tradicional, com imensos gaiteiros e pandeireteiras, a aparecer. Poderia citar dúzias e dúzias de novos grupos. Agora, sejamos sinceros, tudo isto praticamente não chega ao resto de Espanha. Porque não há um interesse político para que isso aconteça. A responsabilidade passa um pouco pelo nosso esforço e pelas nossas “ganas”, por fórmulas que, em muitos casos, escapam ao individualismo. Temos que ter consciência de que estamos todos no mesmo barco. No meu caso, quero e tenho confiança em que este disco ultrapasse as fronteiras.

Värttinä – Entrevista – “Mulheres à beira de um ataque de júbilo”

Pop Rock

27 de Março de 1996

Mulheres à beira de um ataque de júbilo

No programa do Intercéltico deste ano destaca-se o nome das finlandesas Värttinä. Três álbuns, “Oi Dai”, “Seleniko” e “Aitara”, e concertos onde as tradições mais antigas se casam com a ousadia e uma presença jubilante em palco fizeram delas um dos grupos com maior aceitação no circuito “folk” actual. Como os Hedningarna, há dois anos, em Algés, vão fazer furor. O PÚBLICO entrevistou Sari Kaasinen, uma das quatro cantoras.


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Värttinä significa fuso. Sons que rodopiam, capazes tanto de pôr o corpo a girar como de espicaçar a imaginação. É impossível, diz-se, ficar indiferente às vozes destas quatro senhoras. Um concerto delas (e dos seus acompanhantes instrumentais, homens) dá garantias de festa.
PÚBLICO – Nos últimos anos tem-se assistido a uma vaga de grupos da Escandinávia. Hedningarna, Hoven Droven, Den Fule, Garmarna… As Värttinä sentem-se parte desse movimento?
SARI KAASINEN – Pode dizer-se que fomos um dos primeiros. Na mesma altura em que outros, tanto na Suécia, como os Hedningarna, como da Finlândia, se tornaram muito populares. Não se trata somente de um fenómeno comercial, pelo menos no nosso caso. Tenho feito música ao longo de toda a minha vida. É a minha vida. O meu estilo de vida. Algo que radica nas minhas origens. Hoje, é claro, o grupo também tem que pensar em termos comerciais, se quiser fazer digressões e gravar álbuns.
P. – O que fazia antes de pertencer às Värttinä?
R. – Estive sempre nas Värttinä! O grupo começou com a minha família. Eu, a minha irmã e a minha mãe. Quanto ao nome actual, surgiu em 1983.
P. – Na Finlândia, é por vezes ténue a diferença que separa um grupo rock de um grupo folk…
R. – Os grupos rock e folk começaram a absorver a influência folk só nos últimos dois ou três anos. Antes disso, ninguém queria tocar música folk. No nosso caso, alguns elementos tinham estado ligados a diferentes estilos de música, rock, pop, jazz… Tocamos um estilo que é o nosso, embora façamos algumas misturas.
P. – Com música irlandesa, por exemplo?
R. – O nosso violinista tocou muita música irlandesa.
P. – Costuma ouvir?
R. – Por vezes, sim. Gosto dos Four Men & A Dog, grupos desse género.
P. – Sei que toca kantele, embora no grupo se limite a cantar…
R. – Dou aulas de kantele. Continuo a tocar este instrumento, mas unicamente para meu prazer pessoal. Talvez volte a tocá-lo nas Värttinä um dia destes!…
P. – Numa entrevista que deu há quatro anos para a revista “Folk Roots” dizia que o grupo cantava “de uma perspectiva de poder”. Quer pormenorizar um pouco mais este aspecto?
R. – Referia-me às letras das nossas canções, que são muito fortes. Usamos um estilo de letras e de métrica muito, muito antigas. Mas também escrevemos as nossas próprias letras. É importante manter o contacto com esse lado mais antigo, saber o que estamos a cantar, quando cantamos sobre as nossas próprias vidas.
P. – Quando estão a cantar em dialectos antigos, para uma audiência estrangeira, não se importam que essa parte se perca?
R. – Mas as pessoas dizem que compreendem o que queremos dizer! Que temos uma linguagem corporal! A verdade é que não é muito importante que percebam as letras. Queremos sobretudo que as pessoas prestem atenção à totalidade do som.
P. – Não existe um ponto de vista feminista no tipo de letras que cantam?
R. – O tal estilo antigo em que cantamos certas canções chama-se “rontylska”. Ninguém sabe muito bem quando apareceu. A última vez que alguém ouviu cantar nesse estio, antes de nós, foi no princípio deste século. Escutámos velhas gravações antes de trazermos as canções “rontylska” para o nosso reportório. A região do país onde vivo, no Norte da Carélia, é precisamente um dos locais onde esse estilo apareceu. O que acontecia nestas canções é que, quando eram os homens a cantar, os assuntos giravam à volta de grandes caçadas, esse tipo de coisas, enquanto as mulheres cantavam sobre os seus próprios sentimentos. Era a única maneira que tinham, as canções para poderem dizer que estavam tristes ou apaixonadas. Talvez haja aqui, de facto, uma perspectiva feminista. Não havia nenhuma interferência do homem. Existem dezenas de milhares de canções com esse tipo de letras, reunidas em velhos livros. Foi daí que tirámos muitas ideias para contar as nossas próprias histórias.
P. – O último álbum do grupo, “Aitara”, tem uma vertente pop bastante mais acentuada que os anteriores.
R. – É verdade. O que acontece é que sempre que trabalhamos com novo material vamos para estúdio apenas com as canções de base e as letras. No caso de “Aitara”, não existiu qualquer ideia predeterminada para fazer um álbum pop, nem sequer falámos disso. Aconteceu os arranjos surgirem assim.
P. – Alguns ritmos são tão metronómicos que quase parecem ter sido feitos por uma caixa-de-ritmos…
R. – Não, foi tudo tocado por nós. Mas já não estou cem por cento certa disso, porque já mais do que uma pessoa me colocou essa questão… Deve ser porque o baterista toca tão bem que parece uma dessas tais caixas.
P. – Fale-nos um pouco da actividade da sua editora, Mipu Music.
R. – Somos uma companhia pequena. Editamos música das etnias “fino-úgricas”, ou grupos como as Angelin Tytöt, de quem produzi o primeiro álbum. Elas fazem com a música “sammi” o mesmo que nós com a música da Carélia. Respeitam a tradição delas e querem desenvolver um estilo pessoal.
P. – Prepararam algum espectáculo especial para o Intercéltico?
R. – Gostaria que as pessoas não criassem falsas expectativas. Não esperem nada de mais nem de menos. Talvez apresentemos algumas canções novas, ainda não sei. Quando cantamos, pretendemos acima de tudo criar uma relação com a audiência. Não se trata só de cantar e de tocar, mas de algo mais global, mais completo. Se o público se entusiasmar, pode ter a certeza de que também nos vamos entusiasmar. Tenho a certeza de que no Porto vai ser divertido.



Entrevista – Lisa Germano: “É A Criança Que Tenho Na Cabeça”

Pop Rock

16 de Outubro de 1996

“É a criança que tenho na cabeça”

“Excerpts from a Love Circus” é uma iniciação ao desencanto. Um álbum onde Lisa Germano fala de relações estragadas e experiências traumatizantes e onde deixou “Miamo-Tutti”, o “macho-cat”, a miar. Lisa, desiludida, mas não Lisa, a submissa. É a criança que existe em si, a ronronar. Num disco sobre coisas “tristes, trágicas e absurdas”.


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Em lugar de dissertar sobre música, Lisa Germano prefere expor os seus sentimentos. Num discurso que insiste na tónica dos amores não correspondidos e na necessidade de cortar com situações de impasse, capazes de arruinar, mais do que uma relação, uma vida inteira. “Sad Lisa”, a velha canção de Cat Stevens, define a sua maneira de reagir mas não a sua maneira de ser. “Love Circus” é uma arena de desenganos da qual é preciso escapar. Desabafou com o PÚBLICO as suas mágoas, as suas fraquezas, as suas convicções.
PÚBLICO – O que são as “relações disfuncionais” que vêm mencionadas nas notas de promoção de “Love Circus”?
LISA GERMANO – É o que fazemos quando não gostamos de nós próprios e procuramos pessoas para andarem à nossa volta mas que acabam por nos tratar mal. Algo que não funciona.
P. – As relações que teve foram todas desse tipo?
R. – Pelos menos todas sobre as quais escrevi…
P. – O problema é mais seu ou dos outros?
R. – Cheguei à conclusão que é mais meu. Pelas razões que me levaram a escolher determinadas pessoas para viver com elas, relações que não funcionaram. Poderia ter saído delas mas não o fiz… Deixei andar… Está tudo nas canções. Quem melhor as compreenderá são as pessoas que passaram pelo mesmo, pessoas que se foram abaixo.
P. – Continua à espera que um dia as coisas possam bater certo?
R. – Não sei… Penso que sim. Mas olho à minha volta e vejo uma quantidade de pessoas que vivem juntas e que não se amam. Algo deprimente de ver mas que existe.
P. – Ao ouvirmos os seus álbuns fica-se, por vezes, com a impressão de estarmos perante uma criança a debater-se com os seus medos?
R. – Sim, às vezes, quando ficamos demasiado confusos, voltamos para trás, até à infância. É a criança que temos na cabeça. E é essa criança que fica ferida e que precisa que as outras partes da cabeça tomem conta dela.
P. – Símbolos da infância são as bonecas que aparecem na capa de “Happiness” e “Geek the Girl”, ou a roda de crianças, em “Excerpts from a Love Circus”. Têm algum significado mais específico?
R. – Bom, o autor das capas deve ter sentido o mesmo, que é o meu lado de criança que escreve as canções. Acontece as pessoas virem ter comigo e acharem que estou bem, que não tenho nada o ar de estar lixada…
P. – O que tem a dizer sobre o facto de ter posto os seus gatos a miar nos discos, em particular Miamo-Tutti, que aparece em “Happiness” e neste novo álbum?
R. – Miamo-Tutti é o meu gato “mau”. Dorothy é a fêmea. Utilizei-os nos discos só por graça… Não, na verdade, fazem-me lembrar uma das minhas relações. Miamo-Tutti é o tipo de gato “macho” que anda fora durante dias deixando Dorothy sozinha, muito triste, à espera que ele regresse a casa, sem conseguir livrar-se dele. Converso muitas vezes com os meus gatos. Quando acabei de fazer o disco compreendi que eles faziam parte dele.
P. – Como é que fez as gravações?
R. – O meu co-produtor emprestou-me um gravador DAT que levava para casa, onde gravei grande parte das vocalizações do disco. Como tinha o microfone à mão…
P. – Já falou no seu lado infantil, mas há o outro, o perverso. Numa canção como “Forget it, It’s a mystery”, canta coisas como: “Odeio-te porque te amo, amo-te porque me odeio” e “Gostei de ti quando me magoavas”. Soa a masoquismo. Está a referir-se a amor ou a sexo?
R. – Pode soar dessa maneira, de facto, para quem não passou por essas situações. A questão é como é que se pode viver com alguém que nos magoa e nos trata mal? É porque devemos estar muito apaixonados. Não podemos estar sempre a deitar as culpas para cima dos outros, quando a verdade é que nunca aprendemos nada. Essa canção é uma espécie de confissão. De resto, não separo amor e sexo. Não se deveria fazer o segundo sem existir o primeiro, quero dizer, podemos fazê-lo, mas é cinco milhões de vezes mais comovente quando se ama alguém.
P. – É o oposto de Liz Phair, por exemplo, quando numa das suas canções fala das vantagens de determinadas posições, que permitem ter o acto sexual ao mesmo tempo que se vê televisão…
R. – Sim, ela é mais descarada, move-se noutros quadrantes. As minhas canções são mais sobre a pessoa cruel que dá cabo da via dos outros.
P. – A pureza e a experiência são incompatíveis?
R. – Uma boa pergunta! As experiências que vamos tendo tornam-nos mais cautelosos, põem-nos na defensiva, a não acreditar. Mas talvez que, a longo prazo, ela nos ensine a encontrar a pureza. Talvez a experiência sirva para nos extirpar do que está errado, fazendo-nos ver onde está o erro, para da próxima vez estarmos mais atentos.
P. – “Lovesick” fala de terror e de medo, de um psicopata que diz amá-la e você fica paralisada à espera que algo terrível aconteça. Há algum trauma de infância por trás?
R. – Aconteceu de facto uma situação de alguém que me perseguiu, não sei se era ou não um psicopata, mas foi algo assustador, alguém a entrar pela minha casa dentro. Basicamente, o tema de “Lovesick” é semelhante ao de “Forget it, it’s a mystery”: pensar que se encontrou a nossa alma gémea e essa alma gémea nem sequer gostar de nós. No fundo, a outra pessoa tem o mesmo problema, de não conseguir abandonar a relação. A vida a dois torna-se miserável. Um “amor” doentio.
P. – Continua a acreditar na existência dessa alma gémea?
R. – Não… Actualmente acredito que há uma quantidade de almas gémeas. E ilusões. Quando escrevi “tu não és a minha Yoko Ono”, referia-me a alguém que me dizia que eu não era forte, que não correspondia à ideia que fazia de mim. Eu tinha posto esse alguém num pedestal, sem sequer me aperceber disso.
P. – O facto de ser uma cantora de rock e levar um determinado estilo de vida torna as coisas mais difíceis?
R. – Nunca tive esse problema. Não sou nenhuma estrela. Penso que essa imagem não funcionaria comigo, não tenho esse tipo de personalidade. Limito-me a escrever sobre coisas genuínas, sobre sentimentos. Acontece, apenas, que por vezes me perco no meio deles…
P. – O título do álbum, “Love Circus”, sugere espectáculo, um jogo, alguém que perde a alguém que ganha… Uma questão de poder?
R. – Não… Este álbum é apenas sobre coisas que não fazem sentido, como num circo… O primeiro título que pensei dar-lhe foi “Guillotine” [guilhotina], sobre uma pessoa que é cortada. Depois fui-me apercebendo de que se tratava mais de um circo de relações forçadas entre as pessoas. E da necessidade de cortar a direito através delas, de ver o seu lado absurdo, caso se queira mudar alguma coisa. Este disco é sobre coisas tristes, trágicas e absurdas. Um disco realmente muito, mas mesmo muito triste.
P. – Lembra-se de uma canção antiga de Cat Stevens, Sad Lisa”?
R. – Sim, costumava ouvi-la quando era uma rapariguinha [risos].
P. – “Excerpts from a Love Circus” é um álbum de canções de ódio?
R. – Comecei realmente por sentir ódio, mas isso não me levava a lado nenhum. Não valia a pena estar constantemente a gritar: “Odeio-te! Odeio-te! Odeio-te!” Senti a necessidade de compreender as razões desse ódio e partir para outra, tentar aprender a lição. No fundo, a minha música é uma tentativa de encontrar soluções para os meus problemas. As pessoas dizem que ninguém consegue fazer isso através da música, mas penso que, no meu caso, o processo resulta. A música pode ser uma cura. No meu caso é uma catarse que me ajuda a ver as coisas numa perspectiva correcta.
P. – O que é que odeia e ama com mais intensidade?
R. – Odeio que as pessoas tenham tanto trabalho para gostarem de si próprias e acabem por se deixar cair em situações às quais ficam amarradas para o resto da vida. Isso lixa-me completamente. E amo a vida. O simples acto de viver.