Arquivo mensal: Outubro 2016

Rosa Zaragoza – “L’Esperit d’Al-Andalus”

Pop Rock

14 de Fevereiro de 1996
Álbuns world

Rosa Zaragoza
L’Esperit d’Al-Andalus
SAGA, DISTRI, MC-MUNDO DA CANÇÃO


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Continuação de um trabalho sistemático de estudo e divulgação das raízes judaica, muçulmana e cristã da cultura espanhola. “L’Esperit d’Al-Andalus”, gravado ao vivo em Albarracín, por ocasião dos II Encontros do Ciclo “La Cultura Hispano-Judia Y Segóvia”, aprofunda alguns dos tópicos anteriormente abordados em “Cancons de Noces del Jueus Catalans”, dispensando, no entanto, alguns aspectos mais “ligeiros” dos arranjos e da interpretação. O formato de canção dá lugar à vertente ascética das três religiões que na Antiguidade partilhavam pacificamente um mesmo espaço geográfico e psíquico, em Espanha, estabelecendo a desejável ligação entre Oriente e Ocidente. Rosa Zaragoza explora por esse motivo os registos “funcionais” da voz, enquanto instrumento iniciático. Em “Envio uns aludo” e “La hora de la siesta”, inspiradas no gnosticismo “sufi”, a repetição salmódica, por vozes masculinas, dos vários nomes de Deus enunciados no Alcorão, funciona como oração/técnica de transmutação da “tensão nervosa” em “atenção espiritual”, para atingir o estado de transe e de “activação dos centros de energia criadora”. Os mesmos a que a religião hindu chama “chakras”, accionados pelo eixo/via/espada de Kundalini. Os apreciadores de música antiga encontrarão um motivo adicional de interesse na interpretação da “Sibila”, onde a cantora catalã preferiu a versão de Maria del Mar Bonet ao arquétipo consagrado por Monserrat Figueras com os Hesperyon XX. (8)

Márta Sebestyen – “Kismet”

Pop Rock

14 de Fevereiro de 1996
Álbuns world

Márta Sebestyen
Kismet
HANNIBAL, DISTRI. MVM


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No passado Márta “My dear” Sebestyen habituou-nos a que a identificássemos com os Muzsikas, doutores que não gostam de brincar com as coisas antigas. Ou com os Ökros Ensemble, que ainda gostam menos. Mas a “voz “ da Hungria já nos tinha avisado de que a sua inquietação teria que levá-la inevitavelmente para outro tipo de paragens, menos condicionadas pelos dogmas. “Apocrypha”, conjunto de versões de temas tradicionais reinseridos num contexto de pop electrónica, e a participação no pesadelo industrial dos Towering Inferno constituíram dois avisos sérios. “Kismet”, sem chegar a tais extremos, fica-se por uma passagem dos olhos e do canto, por vezes algo estremunhados, pelas vizinhanças da Europa e pela Índia. Márta Sebestyen resolveu experimentar-se nas tradições irlandesa, grega, bósnia, indiana, búlgara e romena. Acolhemos de braços abertos uma Márta convincentemente irlandesa, em “Leaving Derry quaye”, e a maneira airosa como dessa canção, que lhe foi transmitida por Dolores Keane, saltou para um tradicional grego. Sente-se, porém, a ausência de terreno sólido. A ponte que permitiu a abolição das fronteiras revela-se frágil a uma percepção mais profunda, ou simplesmente atenta. “Kismet” dá, em grande parte dos temas, a sensação de um disco de variedades, onde a voz, por si só, não chega para disfarçar, pelo menos para já, uma abordagem superficial e não poucas vezes musicalmente pobre das diversas tradições nele perspectivadas. Embrulhado numa apresentação politicamente correcta e de inegável bom gosto, “Kismet” deverá trazer um grupo novo de adeptos para a cantora húngara, mesmo que o preço a pagar seja o de ser arrumado ao lado de senhoras como Talitha McKenzie, Loreena McKennit ou Sheila Sandra. (7)



Istanbul Oriental Ensemble – “Gypsy Run”

Pop Rock

17 de Janeiro de 1996
Álbuns world

Istanbul Oriental Ensemble
Gypsy Run
NETWORK, DISTRI. MEGAMÚSICA


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Olhamos hoje para a Europa com outros olhos. Postos no Oriente, ensombrados pela estranheza e com algum receio à mistura. Como se ainda tivéssemos dificuldade em integrar uma extensão psíquica que também é nossa e teima em escapar à racionalidade frígida com que nos ensinaram a deambular pela vida como abutres do Ser. Da Turquia, a invasão é a da música. Neste caso, dos ciganos dos séculos XVIII e XIX, de Istambul e da Trácia, segundo uma tradição que remonta ao século X, formada na intersecção das culturas cigana, grega e judaica. É sobre esta tradição que incide e se desenvolve a música do Intanbul Oriental Ensemble, com a tradicional instrumentação darbouka/ qanun (saltério) / ud (alaúde)/ clarinete/ violino “kemam” e direcção do percussionista Burhan Öçal. Se é sensível uma leitura contemporânea, acentuada por uma produção sofisticada, sobretudo nas improvisações (“taqsim”) sobre os diversos modos (“maqam”) tradicionais, não significa de modo algum um afastamento em relação à essência da música cigana desta região circundada pela Bulgária, a Grécia e o Mar Negro. Possuída pelo virtuosismo, nunca em nome do mero exibicionismo, mas, pelo contrário, obrigada a tal pela riqueza de estímulos envolvida, incluindo a de elementos retirados da música clássica turca, esta é uma música onde a exaltação dos sentidos coincide com a contemplação do Espírito. Visualize-se um jardim e a figura, envolvida em véus, da moira encantada. Ou o céu, do alto de um minarete. (9)