Arquivo mensal: Janeiro 2016

Vítor Rua – Artigo de Opinião

POP ROCK

29 de Março de 1995

VERSIFERO REZENTAL E OS RECHINOS*


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O humor e as estratégias do acaso desempenham papéis importantes no mais recente projecto musical de Vítor Rua, os Ressoadores, dos quais acabou de ser lançado, com selo Ananana, o CD “Scratch”. Os Ressoadores são alunos de um seminário de guitarra, leccionado pelo músico dos Telectu, que no ano passado deu origem a um espectáculo ao vivo. “Desta vez, além das quinze pessoas que participaram no seminário, reuni os convidados Paulo Eno, António Duarte e Fernando Guiomar”, diz Rua, referindo-se à gravação, objectivo principal desta segunda fase do projecto.
Pouco vulgar é o mínimo que se poderá dizer dos métodos utilizados para a feitura de “Scratch”, cuja direcção estética é da inteira responsabilidade de Rua. Os títulos, por exemplo, foram escolhidos por Jorge Lima Barreto, que retirou ao acaso de um dicionário palavras com iniciais iguais às dos nomes dos vários participantes. Assim, o tema tocado por José Guilherme chama-se “Júpiter genitor” e o de Nuno Silva, “Nebelina sociauxia”. Encontram-se ainda “Facial galiambo”, “Pingo apotrópio”, “Goliardo favila” e “Oxítono hoje muvuga”, entre outras designações bizarras. “Não foi por pretensiosismo”, garante Vítor Rua, a rir.
Além dos títulos, também o próprio corpo musical surgiu a partir de procedimentos do mesmo estilo. Um dos casos mais “radicais”, segundo o guitarrista, é o tema “Geada flavo”, interpretado por Gonçalo Freitas. Dada a ausência forçada de um dos participantes – necessariamente dezoito,- um para cada faixa -, foi preciso arranjar um substituto. Vítor Rua conta que telefonou para Gonçalo Falcão, guitarrista e produtor executivo do projecto, que trabalha numa empresa de “design gráfico”, dizendo-lhe que “tinha um problema”. “Meio a sério, meio a brincar, perguntei-lhe se não haveria alguém no escritório interessado em participar. Ele levantou o telefone e gritou para trás: ‘Alguém quer entrar num disco?’ Ouviu-se uma voz ao fundo a dizer ‘sim!’. Perguntei o que é que tocava. ‘Assobios!’, respondeu a voz, ainda a pensar que era brincadeira. Assobios? Óptimo! Disse para aparecer no dia seguinte às dez da manhã para fazer a gravação!” E assim foi, com o anónimo executante a ser creditado em “Scratch” com uma “whistle guitar”… “É um dos temas que mais gosto”, concluiu Vítor Rua.
Todos estes episódios constituem, pela atitude, uma forma original de Vítor Rua manifestar a sua discordância de um certo pretensiosismo que, segundo ele, afecta o meio artístico nacional: “Há uns tempos, podia dizer-se que havia grupos de rock português maus e bons. No caso da música improvisada, ou das novas músicas, eram tão poucas as pessoas a fazerem-na – o Zíngaro, Telectu, Miso Ensemble… – que não fazia sequer sentido fazer comparações valorativas. De repente, hoje, qualquer pessoa, sobretudo se tiver um pai rico, grava um disco e, como não tem jeito, vai para a música improvisada. Como não consegue fazer três acordes, já não dá para ir para o rock. Então põe uns paus entre a guitarra, compra três discos do Derek Bailey e está a gravar, com uma teoria qualquer na capa do disco, do tipo a dizer ‘polirritmia’ ou expressões como ‘work in progress’ ou ‘politonalidade’…” Vítor Rua fez questão que “Scratch” não tivesse qualquer texto explicativo, fazendo acompanhar essa ausência de informação com uma estrutura musical onde coabitam os ressoadores, desde principiantes a professores de guitarra. “Quase como se as pessoas, nem todas, fossem um instrumento em si, que eu estivesse a tocar”, diz Rua, assumindo por inteiro a sua condição de manipulador. “A ideia foi criar para cada pessoa, ou cada situação, um eco-sistema metodológico de maneira que pouco importava o que cada um iria fazer. À partida estava tudo pré-determinado.”

* título inventado segundo a mesma lógica de “Scratch”, com as mesmas iniciais de “Vítor Rua e os Ressoadores”.


Bizarra Locomotiva – Artigo de Opinião

POP ROCK

22 de Março de 1995

CAMINHOS DE FERRO


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BIZARRA LOCOMOTIVA, UM NOME DIFERENTE PARA UMA BANDA CUJA MÚSICA NÃO DÁ tréguas nem ao ouvido nem ao corpo. Depois da estreia discográfica homónima editada no ano passado e incluída no lote dos “melhores do ano” de 1994 pelo Poprock, o grupo acabou de lançar um segundo compacto, “First Crime then Live”, distribuído pela Symbiose. Cinco originais de estúdio acoplados a quatro prestações ao vivo gravadas em França, no “Printemps de Bourges”. A locomotiva é conduzida por três maquinistas, Armando Teixeira, manipulador de “samplers” (“maquinaria”, como ele diz), Sidónio Ferreira, vocalista, e Marco Franco, baterista que veio substituir António Pinto, ainda presente no disco. “First Crime then Live” é, segundo os seus autores, “uma ponte” entre o primeiro e um próximo trabalho, já gravado e com título escolhido, embora eles prefiram por enquanto não dizer qual. A inclusão de temas ao vivo justifica-se porque “a Bizarra vive mesmo é das prestações ao vivo”, afirmam os três elementos desta banda para quem a força do colectivo é o mais importante. Recentemente deram um concerto na Foz do Arelho que nunca mais esquecerão, com “muita gente a fazer ‘mosh’”, contagiada pela energia, por vezes brutal, que a Bizarra Locomotiva costuma libertar em palco. “Queremos envolver as pessoas pelo ritmo e por uma imagem de força. É um divertimento como estar a ver um filme como ‘Cães Danados’” [estreia do cineasta Quentin Tarantino].
Os textos de “First Crime” são violentos, a palavra “dor” surge na maior parte dos temas. “É um disco temático, como um conto de terror”, dizem. Ou “uma autotortura”. Por outro lado, admitem que “à violência das letras corresponde uma atitude violenta em cima do palco”. Uma forma de libertação de energia mas também “de alguma frustração e do medo crescente no dia-a-dia”. Algumas pessoas próximas do grupo acham-no com uma “atitude sadomasoquista” mas eles recusam tal conotação. Não se consideram de forma alguma “uma entidade negativa, igual a muitas que existem no nosso planeta hoje em dia, inclusive grupos musicais”. “Somos gajos limpos”, garantem, num alusão a certas pessoas “que iam ao Rock Rendez-Vous e não mudaram desde então, mantendo os cabelos grandes, frequentando antros e sempre rodeados de fumo e drogas”.
Ao escutar a música da Bizarra locomotiva, é impossível não pensar em grupos como os Young Gods, Ministry ou Laibach. Em relação aos primeiros, apenas aceitam a existência de uma “atitude idêntica”. Agressivos? Talvez, como forma de luta. “O que é negativo é durante o dia um gajo ligar a rádio e só ouvir coisas que contribuem para o atrofiamento geral, sempre as mesmas músicas da Tina Turner ou do Bryan Adams.” “Energia” volta a ser a palavra-chave. “Energia sexual”, dizem. No som e nas palavras. “Tudo tem a ver com sexo”. De resto, a própria designação do grupo tem conotações sexuais. A locomotiva é um símbolo fálico – bizarra porque “faltam as duas bolinhas” – que simboliza “a pujança, o poder”. Uma locomotiva pesada, difícil de parar, construída com músculo e suor. Uma definição para a sua música? Eles não hesitam: “Somos o metal da música electrónica.”



Rui Veloso – Entrevista

Pop Rock

22 de Novembro de 1995

Rui Veloso descobre “Lado Lunar”

A face escura da lua


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Rui Veloso rendeu-se aos prazeres da vida doméstica. Recluso na sua propriedade, algures na zona de Sintra, é aí que passa a maior parte dos seus dias e foi aí que gravou a música do seu novo álbum, “Lado Lunar”, posto à venda ontem. O seu discurso é o de um homem desiludido, cansado de ter desperdiçado tempo em “copos” e “noitadas”. Considera-se um escritor de canções e reafirmou o seu amor pelos clássicos. Promete, quando o deixarem, gravar um disco só de blues.

Foi numa fortaleza rodeada de verde que o PÚBLICO visitou Rui Veloso. Num fim de tarde chuvoso, propício à melancolia. Talvez sejam estas, de resto, as condições climatéricas ideais para se apreciar as canções de “Lado Lunar”. Um álbum que corre devagar, ao mesmo ritmo de um músico a quem um dia, talvez por engano, chamaram o “pai do rock português”.
PÚBLICO – De que lado está o “Lado Lunar”?
RUI VELOSO – O lado lunar é o lado mais escondido das pessoas, aquele que não conhecemos imediatamente. Às vezes as pessoas parecem uma coisa e ao fim de certo tempo revelam-se outras.
P. – Ao contrário de “Auto da Pimenta”, onde arrisca em termos formais, este seu novo disco é talvez demasiado conformista…
R. – É um disco mais normal. O “Auto da Pimenta” é um álbum temático onde se podia seguir por certos campos musicais que aqui não teriam lógica. O “Lado Lunar” tem mais a ver com o tempo em que vivemos, com os anos 90.
P. – Dá a ideia de que encontrou um nicho e se deixou ficar lá a descansar.
R. – Sou um escritor de canções. É isso que quero fazer. Gosto de me colocar ao lado de compositores clássicos como o Cole Porter, o Gershwin ou o António Carlos Jobim. A única coisa que fizeram durante toda a vida foi escrever canções. Não é uma questão de trazer algo de novo. O que é que se pode fazer de novo senão boas canções?
P. – Antes “não havia estrelas no céu”. Agora chamou a uma nova canção “Já não há canções de amor”. Uma piscadela de olhos ao passado?
R. – Obviamente que pensámos que iriam dizer “não sei quê não sei que mais”. Mas não há problema. Há tantas canções de amor a dizer as mesmas coisas…
P. – “Lado Lunar” não será uma tentativa de fixar o seu antigo público, que terá ficado confundido com “Auto da Pimenta”?
R. – Não sou uma pessoa que esteja muito preocupada com o público. Apenas faço aquilo de que gosto.
P. – Hoje dá a imagem de uma pessoa muito mais fechada, mais metida consigo própria.
R. – Tem que ser!
P. – Porquê?
R. – Porque uma pessoa perde muito tempo com coisas que não interessam. Tem que se fechar no seu mundo e virar-se para dentro para poder fazer aquilo de que gosta. Tenho a sensação de que andei a perder muito tempo com coisas que não têm que ver com a música, tais como jantares, sair à noite ou beber copos com os amigos.
P. – A segurança familiar que alcançou reflecte-se na música que faz actualmente?
R. – É óbvio. E não só. Também o facto de me ter mudado da cidade para aqui, para o campo, onde encontro o silencia suficiente. Vivo aqui e espero morrer aqui!
P. – Essa fuga do mundo não tem aspectos negativos?
R. – É capaz de ter. É natural que daqui a alguns anos sinta a falta de outra coisa, e vá dar uma curva, fazer outro tipo de vida. Para já, cheguei à conclusão de que devia ter trabalhado mais, feito mais e melhor.
P. – Acha que fez pouco, no passado?
R. – Então, em quinze anos tenho sete discos!
P. – A quantidade é o mais importante?
R. – Podia ter feito mais se me tivesse dedicado mais. A minha confissão é essa.
P. – Sente necessidade de se confessar?
R. – Tenho 38 anos. Um gajo começa a ver o horizonte cada vez mais perto e a ter a sensação de que já não tem muito tempo pela frente.
P. – Aos 38 anos!?…
R. – Sei lá, tenho visto amigos morrer. Ainda há pouco tempo morreu um amigo nosso com 26 anos com um ataque cardíaco [NR: o jornalista Luís Mateus, recentemente falecido]. Uma coisa boa de ter mudado para aqui é que acho que corro menos riscos. Levo uma vida mais serena, menos stressada.
P. – Não é outro tipo de morte, agir em função do medo?
R. – Não sei. Deve ter havido outros compositores, como eu, para quem isso serviu de estímulo. Fiquei um bocado obcecado a partir do momento em que tomei consciência de que morria. Até uma certa idade um gajo não tem consciência disso. É imortal.
P. – Depreendo do que disse há pouco que tenciona, a partir de agora, gravar mais discos?
R. – Acho que sim. Passarei a gravar mais discos e a trabalhar bastante mais. Os espectáculos ao vivo passarão a funcionar como um contraponto. Neste país, infelizmente, a maior parte dos músicos, eu, inclusive, durante muitos anos, depende dos concertos. O que desorganiza a vida toda, quando é preciso, por exemplo, andar um ano inteiro a tocar. Gostava de poder ter mais tempo para tocar guitarra em casa, sentar-me duas ou três horas ao piano, fazer exercícios de voz… Gostava de fazer isso para poder melhorar.
P. – Disse também que apenas faz aquilo de que gosta. Isso aplica-se à versão do Hino Nacional que cantou antes do recente Portugal-Irlanda?
R. – Deu-me imenso prazer. Apesar de o microfone ter falhado. Mas isso é típico de Portugal, onde acontecem sempre estas coisas. Ouvia-se o “delay” do estádio. Na rádio é capaz de ter resultado. Na televisão soou-me péssimo. Já ouvi dizer que cantei desafinado…
P. – Foi positivo para a sua carreira, e para a sua imagem?
R. – A minha imagem é aquilo que eu sou. Aliás, não sou o único artista a não se preocupar com a imagem. Estou a lembrar-me do Van Morrison, por exemplo, que se está marimbando que digam que tem mau feitio e anda por aí sempre a fazer o mesmo disco, e sempre bom.
P. – E o Rui Veloso, está sempre a fazer o mesmo disco?
R. – Eventualmente. Mas sabe que é difícil fazer músicas diferentes só com três ou quatro acordes…
P. – … Como nos “blues”. Quando é que se decide a gravar um disco só de blues?
R. – Hei-de fazer. Só ainda não o fiz porque a editora tem recusado sempre qualquer veleidade nesse sentido. Agora tenho mais hipóteses, porque tenho o meu próprio estúdio. O estado de “recluso” em que vivo vai eventualmente dar-me tempo para seleccionar os músicos. Hei-de gravar esse álbum, nem que seja só para mim!
P. – Entretanto, tocou um “tin whistle” irlandês, no tema “Cipreste”, por sinal um dos mais bonitos do novo disco…
R. – Tenho para aí guardados uns seis ou sete. Nem aprendi a tocar. Pega-se naquilo e toca-se. No tema “Cipreste” ouvi o som do “tin whistle” na cabeça. Gosto imenso de música irlandesa e escocesa: Boys of the Lough, Davy Spillane, House Band, Battlefield Band, Chieftains, Silly Wizard…
P. – A guitarra faz parte da sua vida?
R. – Se não tocasse, ia fazer o quê? Jogar futebol não ia de certeza. Se partisse uma mão, era um problema. Seria um sofrimento muito grande. Tocar é uma necessidade. Como ir à casa-de-banho.