Arquivo mensal: Janeiro 2016

Gaiteiros De Lisboa – Artigo de Opinião

Pop Rock

18 de Outubro de 1995

Gaiteiros de Lisboa lançam “Invasões Bárbaras”
“PARA REBENTAR AS COLUNAS”


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“Invasões Bárbaras” dá a volta ao texto da música de raiz tradicional feita em Portugal. Os Gaiteiros de Lisboa não facilitam e o seu disco de estreia promete não dar descanso a ninguém. Longe vão os tempos em que ajoelhavam para ouvir Giacometti. Com a ajuda de José Mário Branco, partiram em direcção desconhecida. Não deixaram pedra sobre pedra.

“Invasões Bárbaras”. Guerra. Contra quê ou quem? “Há uma invasão de um espaço que tem sido ocupado por outros grupos que se dedicam à música popular portuguesa. A nossa proposta diverge bastante. O barbarismo aparece como conceito estético”, diz Carlos Guerreiro, tocador de sanfona dos Gaiteiros. “Por outro lado”, continua, “as pessoas que se sentarem tranquilamente em casa para ouvir o disco são capazes de ter uma surpresa e sentir-se também invadidos.” Os Gaiteiros de Lisboa representam a facção “hardcore” da nossa música de raiz tradicional. “É um disco para rebentar as colunas!…”
A música tradicional, mais do que uma base de trabalho, é um pretexto. “Temos essa referência”, diz José Manuel David, gaiteiro e ex-Almanaque, “simplesmente a ideia é que não estamos aqui para ensinar nada a ninguém, mas sim para defendermos um projecto estético que passa pela música tradicional, que abordamos por um caminho completamente diferente do que tem sido trilhado por outros grupos.” Da “espécie de ‘jam sessions’”, segundo a expressão de Rui Vaz, outro dos sopradores de gaita-de-foles de grupo, ou “sessões de laboratório”, como prefere chamar-lhe José Manuel David, que constituem os ensaios, chegou-se a um som em que a presença de José Mário Branco desempenhou um papel importante, enquanto produtor e director musical.
Carlos Guerreiro assume parcialmente essa influência, até porque alinhou ao lado do autor de “Margem de Certa Maneira” no cadinho revolucionário do GAC. Mas põe os pontos nos “is”, delimitando duas entidades distintas e autónomas: “Quando convidámos o José Mário Branco para este projecto, não foi à espera que ele trouxesse ideias que definissem uma estética para o grupo, mas sim porque achávamos que ele se inseria bem numa estética nossa previamente delineada.” Chegou a pensar-se que José Mário Branco seria o quinto elemento dos Gaiteiros.
“Ele também chegou a pensar isso!” [Risos.] Foi ainda uma questão de percurso”, acrescenta Rui Vaz. “Quando o abordámos, ele estava numa situação de baixa na sua vida, numa ‘down’. Nós aproveitámos um bocado isso. Quando ele começou a trabalhar connosco, começou a subir e, como provavelmente já não criava nem fazia nada há uma série de tempo, estava com uma força criadora enorme. (…) Mas nunca acreditámos que o José Mário Branco se pudesse diluir num grupo como os Gaiteiros.” Ponto final e uma pedra sobre o assunto.
Em concreto, “Invasões Bárbaras” não é um disco de gaita-de-foles. “Os Sétima Legião não são romanos, nem os Heróis do Mar eram marinheiros”, brinca Paulo Marinho, que divide a sua gaita-de-foles entre os Gaiteiros e a Sétima Legião, numa alusão às conotações que o nome da banda pode originar. As polifonias vocais estão na linha da frente. Para Carlos Guerreiro, “a música portuguesa tem muita harmonia e jogos de vozes. Os instrumentos sobre os quais tem assentado a maior parte do trabalho dos outros grupos na nossa área andam à volta das braguesas e dos cavaquinhos”. Os gaiteiros resolveram “aceitar o desafio de não usar esses instrumentos, os cordofones populares”. A opção incidiu nos instrumentos de palheta e nas vozes. “Como quando a sanfona aparece no ‘cante’ alentejano, capaz de escandalizar muitos puristas”. “Nós próprios olhávamos muitas vezes, espantados, uns para os outros!” “Conseguimos ultrapassar algumas coisas que tínhamos na cabeça, aquele respeito ilimitado pelo que considerávamos ser uno e indivisível.” “Um culto incrível” pela tradição, nas palavras de José Manuel David. “Quase que ouvíamos o Giacometti de joelhos”, recorda, divertido, Carlos Guerreiro.
Poderíamos arriscar, pela ideia de confronto aliada a um sentido lúdico exacerbado, a comparação com os suecos Hedningarna. Serão os gaiteiros os Hedningarna nacionais? É Carlos guerreiro quem responde à nossa “provocação”: “Quando vi os Hedningarna pela primeira vez, senti uma certa identificação, disse até na brincadeira que gostava de ter um grupo como aquele. [‘Já tinha!’ lança Paulo Marinho, numa aparte]. Mas é uma identificação pela irreverência, pela forma como os gajos brincam com aquilo que no fundo é sagrado para os puristas. Uma atitude completamente ‘punk’!”
“Para fazer o que fazem os Hedningarna é preciso muito, mas muito conhecimento do que estão a fazer”, diz Rui Vaz, a concluir. “Com certeza que fizeram muita coisa antes [‘Devem ter andado todos em ranchos folclóricos!’ – outro aparte, agora de Carlos Guerreiro.] É outro ponto em comum que têm connosco.”
Os Gaiteiros de Lisboa deverão actuar ao vivo nos dias 8 e 9 de Novembro, no Centro Cultural de Belém.



Maio Maduro Maio – Artigo de Opinião

Pop Rock

7 de Junho de 1995

Os CINCO mais maduros de Maio


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Em “Maio Maduro Maio”, José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso, na companhia instrumental de António José Martins e Rui Júnior, assinam a mais bela homenagem de sempre à música de José Afonso. Vinte e cinco canções, entre as quais dois inéditos e um tema de José Mário Branco, dão corpo a uma visão simultaneamente próxima e distanciada da obra do autor de “Cantigas do Maio”. Próxima pelos elos, artísticos, pessoais ou mesmo familiares, que unem José Afonso a cada um dos músicos participantes. Distanciada porque lúcida e permeada de um espírito de aventura que acrescenta outros dizeres às palavras e notas do mestre.
Feita a recensão das vinte e duas canções que se encontram espalhadas pela discografia do homenageado, fizemos estatística, obtendo os seguintes resultados: “Fura Fura”, de 1979, é o álbum que contribui com o maior número de canções, quatro. Seguem-se “Venham Mais Cinco” (1973), “Coro dos Tribunais” (1974) e “Como se Fora seu Filho” (1983), todos com três canções, embora ao primeiro falta o título-tema, que faz parte do espectáculo mas foi omitido no disco, por razões técnicas. “Cantares do Andarilho” (1968) e “Contos Velhos, Rumos Novos” (1969) figuram com duas canções cada. Com apenas uma canção escolhida estão “Baladas e Canções” (1967), “Cantigas do Maio” (1971), “Enquanto Há Força” (1978) e “Galinhas do Mato” (1985). Ou seja, não entram nesta lista “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Eu Vou Ser como a Toupeira” (1976) e “Fados de Coimbra” (1981).
Concluídas as operações de contabilidade, pedimos a José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso que fizessem a sua escolha individual, acompanhada dos respectivos comentários. Os resultados deram “Fura Fura” e “Cantigas do Maio “ consensuais. “Coro dos Tribunais” (J.M.B. e A.M.) e “Como se Fora seu Filho” (J.A. e A.M.) receberam, cada um, duas citações. Por fim, as escolhas mais personalizadas revelaram que “Venham Mais Cinco” está na frente das preferências de João Afonso, “Cantares do Andarilho” é um dos preferidos de Amélia Muge, tendo José Mário Branco optado por “Galinhas do Mato”, em segunda escolha, uma vez que a primeira, “Fados de Coimbra”, não contou, por não figurar na lista de “Maio Maduro Maio”.

“Fura Fura”
José Mário Branco: É o disco mais bonito do Zeca, o que mais me encheu as medidas em termos de riqueza melódica, poética e harmónica. Com um trabalho espantoso do Júlio Pereira, com um bom-gosto incrível nos arranjos. Foi o grande salto em frente do Júlio, o contacto com o Zeca. Um disco que não me canso de ouvir. Uma canção: “De sal de linguagem feita”.

Amélia Muge: Pondo o mesmo entusiasmo que o José Mário em relação ao trabalho do Júlio, é o disco onde se sente mais aquele fervilhar da canção tradicional, de terreiro. “Fura Fura” é um disco de terreiro e de taberna. Onde o Zeca mais faz aquilo que considero muito importante em termos de tradição, que é repegar nas coisas populares e acrescentar-lhes versos ou fazer músicas a partir de versos populares. É também um disco de teatro baseado nas “Guerras do Alecrim e da Manjerona” e no “Zé do Telhado”. Esse lado está muito vivo.
Uma canção: “Senhora que o velho”.

João Afonso: Excelente trabalho do Júlio Pereira. Tem músicas meio surrealistas, como “De não saber o que me espera”, uma grande visão sobre a vida.
Uma canção: “De não saber o que me espera”.

“Cantigas do Maio”
José Mário Branco: Disco histórico. Mas há razões muito pessoais para esta escolha, além de razões que têm a ver com a História do meu país. Foi a primeira vez que pude trabalhar com o Zeca a sério, que descobri a riqueza incrível que está debaixo dos temas dele. Não me é possível separar este disco do que eu vivi a fazê-lo. Algo de empolgante e importante para a minha vida toda.
Uma canção: “Cantar alentejano”.

Amélia Muge: Tem uma coisa espantosa que é logo o seu começo, em que começa e não começa. Mesmo se não fosse preciso mais nada, há ali uma enorme lição que tem a ver com as marcas de um trabalho e que mostra que um disco é algo mais do que uma súmula de canções. Por outro lado, já para não falar nos arranjos do Zé Mário, – um dos seus trabalhos mais extraordinários a esse nível -, é um disco onde o lado feminino do Zeca (espero que as pessoas não me interpretem mal) está mais patente. Há um lado masculino e um lado feminino que estão em nós. Ele soube tão bem mostrar isso, em “Mulher da erva”, “Cantar alentejano”, até mesmo em “As filhas do marajá, com patilhas de beber o chá”, onde há um lado muito feminino, ligado ao próprio mês de Maio. Há um lado comovente, sem ser lamechas, que tem muito a ver com a intuição feminina.
Uma canção: “Mulher da erva”.

João Afonso: Destaco a direcção do Zé Mário, o surrealismo de “Ronda das mafarricas”, do António Quadros, a maravilha que é “Mulher da erva”. Um disco de arrepiar, com uma imaginário riquíssimo. É uma fantasia.
Uma canção: “Mulher da erva”.

“Galinhas do Mato”
José Mário Branco: Aqui é de destacar mais a genialidade do Zeca como autor-compositor. Como se sabe, é um disco em que o Zeca praticamente já não canta, o pouco que aparece cantado por ele são restos do disco anterior. O Zeca intervém como autor-compositor e como produtor musical. Atenção – ele está presente em todos os momentos deste trabalho, no estúdio, a fazer a direcção dos cantores e dos músicos. Tem temas geniais.
Uma canção: “Benditos”.

“Cantares do Andarilho”
Amélia Muge: Um disco onde o Zeca está sozinho com a sua viola e o seu “pathos”. Um disco das origens. Tem uma ideia de começo mas ao mesmo tempo também de um Zeca despojado de tudo o resto, de tal maneira caseiro que quase tenho a sensação de que se tocassem à porta ele deixava de cantar.
Uma canção: “Cantares do andarilho”.

“Venham Mais Cinco”
João Afonso: Não podia deixar de escolher este, por causa do “Redondo vocábulo”, de facto uma autêntica pintura, uma música surreal. Gosto muito das letras meio estranhas e difíceis de entender. Tanto em “Venham mais Cinco” como em “Coro dos Tribunais”, o Zeca conseguiu colher influências africanas, embora meio “ajazzeadas”. Mas não as assumia em bruto, por exemplo não cantava como um negro. Transformava essas influências, personalizava-as. Quando não era moda a música africana na Europa, o Zeca apareceu com “Lá no Xepangara” e “Ailé, ailé”…

“Coro dos Tribunais”
Amélia Muge: … É importante falar do “Coro dos Tribunais”. É o primeiro disco que sai depois do 25 de Abril. A sensação que tenho é que daqui a dez anos vou ter razões se calhar ainda mais fortes para gostar dele. É o disco em que assume particular importância a ideia de expressão, do direito à palavra, e de toda a responsabilidade que isso implica em termos de julgamento. São as duas grandes correntes do disco: a questão do julgamento, ligada à liberdade e ao direito à palavra, e a própria ideia de animação, com “O que faz falta” ou “O brado da terra”. Um disco ainda por descobrir. Por essa carga toda e por ser também um disco ligado ao Fausto, que aqui cria ritmos a ambiências fabulosas.



Camané – Artigo de Opinião

POP ROCK

19 de Abril de 1995

Camané grava em condições inovadoras

NUMA CASA DE FADO VIRTUAL


camané

Camané não poder ser considerado uma esperança do fado pela simples razão de que, aos 28 anos de idade, já leva 15 a cantar aquele género musical nas casas da especialidade. Vencedor, aos 12 anos, do Grande Noite do Fado, em 1979, filmado por uma cadeia japonesa para a série Crianças do Mundo, interrompeu a sua carreira entre os 14 e os 18 anos, para regressar mais tarde ao fado e às suas capelas, do Fado menor, Senhor Vinho e Faia. Projectos para discos, esse foram ficando na gaveta, entre as noites fadistas e participações na “Grande Noite”, “Maldita Cocaína” e “Cabaret”, de Filipe La Féria. Até que a oportunidade surgiu através do convite que lhe foi feito por José Mário Branco, para produzir o álbum de estreia. Uma ideia germinada a partir do quartel-general no Teatro da Comuna e que levou à edição de “Uma Noite de Fados”, com o selo EMI-Valentim de Carvalho.
“Uma Noite de Fados” pode ser considerado um disco revolucionário no modo como foi produzido. Para o efeito, foi criado o ambiente de uma casa de fados, com convidados, comida e bebida à discrição. Posteriormente foram apagados da fita todos os ruídos (palmas, incitamento, etc.) do público, preservando-se apenas a música, recortada do ambiente ao vivo. “O que se procurou foi obter um suplemento de riqueza de interpretação”, diz José Mário Branco, o produtor, para quem o “fado é uma arte extremamente presencial, dependente da vivência directa do ambiente e da qualidade do público”.
Por outro lado, justificando a posterior eliminação dos ruídos exteriores, José Mário Branco defende que “a envolvência – a luz, os cheiros, as reacções do público – não é mediatizável”. “Agi como um encenador”, diz, “como uma pessoa que vê e sente o espectáculo antes dos outros. Peguei no som, levei-o para casa numa caixinha de plástico, como se fosse uma bolacha, meti-o na minha aparelhagem doméstica e comecei a ouvir, nas mais diversas circunstâncias. Achei que pôr os aplausos seria um factor dispersivo, desviando do essencial que é a interpretação.” José Mário Branco conta, inclusive, que pediu previamente ao público para “ao contrário do que acontece nas casas de fado”, não aplaudir no fim”. “Fazia um sinal. No fim dos fados tinha um braço levantado, deixava a ressonância dos últimos acordes. Só quando baixava o braço é que podiam aplaudir. Foi uma ‘violência’ para o público, houve até pessoas que reagiram desagradadas, achando uma chatice não poder ser como é costume. Curiosamente, isto provocou um aumento dos aplausos, motivado pela tensão criada pelo intervalo de espera.”
Camané, por seu lado, não sentiu qualquer dificuldade em se integrar nesta situação, paredes-meias entre o natural e o artifício. “Foram quatro noites em que se foi criando um ambiente. Às tantas, já quase me esquecera que estava a gravar.” Quatro noites, ao longo das quais foram sendo efectuados vários “takes” do mesmo fado, seleccionando-se aqueles considerados melhores. Uma selecção que inclui, entre as diversas autorias, dos textos e da música, os nomes de Frederico de Brito, Luís de Camões, Carlos Mendes, João Fezas Vital, Joaquim Campos, Ruy Belo, Miguel Ramos, Vasco de Lima Couto, Aldina Duarte (mulher de Camané), Gabriel de Oliveira, Fernando Farinha, Paulo de Carvalho, Manuela de Freitas e o próprio José Mário Branco.
Para Camané, esta “noite de fados” poderá significar fazer chegar mais longe o seu fado. Como ele canta, nas palavras de Manuela de Freitas: “O fado que vou vivendo/no canto e no gesto mudo/é tudo o que não entendo/que me faz entender tudo.”
“Uma Noite de Fados” tem prevista uma forma original de promoção. Durante duas noites, ainda sem data marcada, Camané circulará por alguns dos lugares típicos – outros nem tanto – do fado, como a Tertúlia, Senhor Vinho, Frágil, Os Ferreiras, Taverna do Embuçado e o clube de fado S. João da Praça, havendo ainda a hipótese de uma escapada até ao Teatro da Comuna, para cantar durante o intervalo da sessão.