Arquivo mensal: Agosto 2015

Kate Bush – “The Red Shoes”

Pop Rock

27 OUTUBRO 1993

SAPATOS NA CHAMINÉ

KATE BUSH
The Red Shoes

EMI, distri. EMI – VC


kb

“The Whole Story”, a colectânea que vendeu milhões, fez aumentar as responsabilidades e a pressão. Kate Bush respondeu com a cartada do profissionalismo bem fornecida de ases. Ao Trio Bulgarka e ao menino prodígio do violino clássico Nigel Kennedy, que já vêm de “The Sensual World”, juntaram-se outros trunfos de peso: Jeff Beck, Eric Clapton e Prince! Com estrelas desta envergadura, Gary Brooker, o velhinho teclista do Procol Harum, e Lenny Henry não passam de valetes. E no meio deles todos, Justin Vali, o “virtuose” de “valiha” do Madagáscar, é um ilustra desconhecido que consegue dar a grande nota de diferença.
Rompido o véu do mistério, o que não é dado a ver do outro lado não é de molde a provocar grande excitação. As canções são quase todas previsíveis, a própria voz, que antes funcionava como poderoso afrodisíaco, já não é a mesma.
A generalidade de “The Red Shoes” é assim “mainstream”, um investimento na segurança musical. Música para a qual a língua inglesa encontrou uma definição bastante apropriada: “middle of the road”. Tem os ritmos que Kate Bush aprendeu com Peter Gabriel e canções como “Constellation of love”, um tema com fortes possibilidades de fazer sucesso nas discotecas. Eric Clapton assina o ponto em “And so is love” e Jeff Beck desempenha melhor o mesmo papel em “You’re the one”. Mas, surpresa das surpresas, uma das maiores do disco, vem da própria Kate Bush, que, na guitarra eléctrica e no baixo, se aventura um bocadinho mais longe, em “Big stripey”, canção musculada e das mais bem sucedidas do disco. Justin Vali dá um sabor tropical a “Eat the music” – que fala de mangas e papaias e onde “bananas” rima com “sultanas” – e empurra, com o auxílio do “tin whistle” de Paddy Bush, “The red shoes”, outro do temas mais aproveitáveis. “Rubberband girl” tem destino marcado nos “tops” e “Why should I love you”, a tal canção onde Prince canta e rabisca parte do arranjo, retoma a temática, nada original, da ligação sexo/religião. Ligeiros sobressaltos proporcionam “Moments of Pleasure”, introspecção cinematográfica ao piano, e os conselhos esotéricos, na introdução de “Lily”, declamados por uma enigmática personagem com o mesmo nome.

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Mike Oldfield – “Elements,The Best of…”

Pop Rock

22 SETEMBRO 1993

Mike Oldfield
Elements,The Best of…

Virgin, distri. EMI – VC


Oldfield_elements

“O melhor” seja de quem for é sempre contingente. No caso do menino-prodígio dos sinos tubulares, considerou-se desta vez que o supra-sumo são as canções curtas que foram editadas em single, da fase posterior à dos grandes épicos do início de carreira. Outra compilação, em caixa dupla, do músico, lançada já há alguns anos, dizia exactamente o contrário e privilegiava as sequências longas… Enfim, aqui reuniram-se canções agradáveis como “Moonight shadow”, “Five miles out” e “Shadow on the wall”, com outras menos interessantes, como “Family man”, e alguns paraísos de anjinhos assexuados, como “In Dulce jubilo” e “Islands”. Para compor o ramalhete incluíram-se excertos à pressão e bastante abreviados das “opus magnum” “Tubular bells”, “Ommadawnn” e a mais recente “Amarok”. Inofensivo. (5)

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Dead Can Dance – “Into the Labyrinth”

Pop Rock

22 SETEMBRO 1993

CATEDRAL DA ILUSÃO

DEAD CAN DANCE
Into the Labyrinth

4AD, distri. MVM


dcd

Brendan Perry e Lisa Gerrard são sérios e sisudos, místicos modernos, arquitectos de catedrais de som que vão à procura dos segredos dos construtores antigos. Assim acontecera já no álbum anterior da banda, “Aion”, com a recriação de algumas vertentes características da música antiga, da Idade Média e Renascimento. “Into the Labirynth” procura investigar noutras paragens. A oriente, no encontro com a música indiana, no tema de abertura, “Yulunga”, na herança folclórica britânica, em “The wind that shakes the barley” – que permite a Lisa assumir sem complexos e de forma convincente o canto “a capella” tradicional –, na reprodução de memória das vozes búlgaras, em “Saldek”, terminando na visão da decadência, por Brecht, recontextualizada em “How fortunate the man with none”. Três temas conseguem a síntese equilibrada e original desta mescla de influências: “Toward the within”, “The spider’s stratagem” e sobretudo “Emmeleia”, em que as vozes de Perry e Gerrard se harmonizam em amoroso anelo. O ambiente, no interior do labirinto, é escuro, carregado de uma religiosidade soturna e profana. Vai-se de escorrega até ao fundo pelas cordas de violoncelos que descem ao limite das lamentações e dos graves. O som, carregando ameaças de terror, tem a textura do veludo de tapeçarias violáceas de palácios em ruínas. Digamos, por comparação, que “Aion” era mais luminoso enquanto “Into the Labirynth” é pesaroso. O sonho-casulo dos amantes de Bosch, em “Aion”, deu lugar ao pesadelo e a torturas de alma mais dolorosas. Tudo é nocturno nas música dos Dead Can Dance. Um jardim de estátuas funerárias iluminadas pelo luar. Há, sem dúvida, beleza na “antiquíssima noite” que Pessoa poetizou. Só que os Dead Can Dance não exploram a escuridão até ao fim. Estão com um pé lá e outro cá. E, pelo sim pelo não, põem a cabeça de fora e acenam com lanternas a fazer sinal de “podem avançar”. Principalmente quando Brendan Perry põe a dele (cabeça) de fora, as coisas doa para o torto. Em “The ubiquitous Mr. Lovegrove”, voz perde-se nalguma ligeireza, vassala dos Japan de David Sylvian, e as reviravoltas rítmicas clamam em surdina pelos Simple Minds, de Jim Kerr, da época fria de “Empires and Dance”. Perry, por mais carradas de produção “atmosférica” que lhe atirem para cima, mostra que é um fraco vocalista, afectado por sintomas de anemia e preocupantes sinais de rouquidão, em “Tell me about the forest”. Não chega para interromper o gozo que dá aventurarmo-nos pelas sombras sabendo de antemão que é tudo a fingir e recortado em plástico e papelão. A catedral dos Dead Can Dance, sabemo-lo, é falsa. Espreita-se para trás do cenário e das maquetas e vê-se que as velas são de luz artificial, os fantasmas de papel e a profundidade não passa de um “trompe l’ oiel” eficaz. Mas, caramba, temos que reconhecer que, do lado de dentro, se nos quisermos e deixarmos enganar, como fazem as crianças que conversam com os bonecos e se assustam no quarto dos brinquedos, a ilusão é perfeita. Não é a ilusão, afinal, a essência do próprio labirinto? (7)

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