Arquivo mensal: Agosto 2015

Kronos Quartet – “All the Rage”

Pop Rock

24 NOVEMBRO 1993
NOVOS LANÇAMENTOS POPROCK

Kronos Quartet
All the Rage

Elektra Nonesuch, distri. Warner Music


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A capa mete medo, na linha de algumas monstruosidades gráficas recentes de John Zorn com os Naked City. A música, a seu modo, também. “All the rage” é uma peça de dezasseis minutos e quinze, escrita por Bob Ostertag (guitarrista, desestruturalista, tocou com Fred Frith e companhia, gravou a solo, entre outros os álbuns “Expeditions”, “Getting a Head”, “Attention Span” e “Sooner or Later”), que ocupa a totalidade do CD, com distorções e dissonâncias várias dos instrumentos de corda, sobre um fundo de gritos da turba, vidros de janela partidos, apitos e uma voz narrativa a contar uma história de raiva, discriminação e violência. É uma história triste, que começou pela recusa de um político californiano em proclamar uma medida destinada a proteger os homossexuais de ambos os sexos da discriminação e acabou em pandemónio. Ostertag gravou a manifestação de protesto que então se realizou e dela seccionou palavras de ordem gritadas pela multidão ou incitamentos de fúria, como “Burn it”, soltos no próprio momento em que o edifício estatal já ardia. Os apitos que se ouvem com insistência, soprados em uníssono na ocasião por milhares de manifestantes, são usados na rua pelos “gays” e lésbicas para pedirem socorro quando são atacados. Os Kronos Quartet ouviram todo este caos e procederam à transcrição das várias alturas de som dos ruídos de rua para a partitura das cordas. A ideia é boa. A intenção e o alcance político e polémico da coisa é indiscutível, os ouvidos é que sofrem um pouco. Não é fazer discriminação, mas, ao fim destes quinze minutos de tortura, mesmo pelo Kronos Quartet, o que apetece mesmo fazer é desatar também a apitar, pedindo socorro. (4)

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Gavin Bryars – “Jesus’ Blood Never Failed Me Yet”

Pop Rock

10 NOVEMBRO 1993
NOVOS LANÇAMENTOS POPROCK

Gavin Bryars
Jesus’ Blood Never Failed Me Yet

Point Music, distri. Polygram


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Gavin Bryars gravou em 1975, num dos primeiros volumes da editora Obscure, de Brian Eno, as versões originais de “The sinking of Titanic” (faixa que deu nome ao álbum) e este “Jesus’ Blood never Failed Me yet”. Com o advento da era digital, o compositor recuperou cada um destes temas, lançando em primeiro lugar a versão alongada alusiva à catástrofe do Titanic, para agora fazer o mesmo com “Jesus’ Blood…”, que passou a estender-se por 74 minutos de duração. É o regresso do velho vagabundo que Bryars gravou numa rua de Londres, em 1971, a cantar pelo tempo fora, com voz trôpega e emocionada, a hipnótica oração. A novidade em relação à versão original, que se limitava a acrescentar progressivas camadas orquestrais à lenga-lenga do vagabundo, é a inclusão, nas duas últimas partes, da voz de Tom Waits, também ele de certa forma um vagabundo e admirador de longa data da obra de Bryars, primeiro numa espécie de canto-resposta e, nos últimos minutos, já sem o vagabundo por companhia. O resto são múltiplas variantes orquestrais de acompanhamento que servem para acentuar, sob diferentes prismas, o carácter de “human-ness” que Bryars encontrou nesta espécie de manta esfarrapada e que tem o condão de provocar no ouvinte um estado de relaxação. Ou de sono, nos casos de maior sensibilidade. O vagabundo já morreu entretanto. Paz à sua alma. (5)

a partir daqui, toda a obra de Gavin Bryars 1986-2013, em FLAC



Paul Simon – “Anthology”

Pop Rock

27 OUTUBRO 1993

PAUL SIMON
Anthology

2xCD Warner Bros., distri. Warner Music


ps

Paul Simon tem envelhecido bem. Um bom sinal e uma garantia para o futuro. O homem já merecia uma antologia e esta faz-lhe justiça. Ninguém vai sair desapontado. O pacote inclui, no primeiro compacto, os temas mais conhecidos, genericamente agrupados como “the early years” – aqueles que andaram no coração e nas bocas das gentes pacifistas dos anos 60, da época em que fazia dupla com Art Garfunkel; no segundo, uma selecção da fase mais recente, a solo, com predomínio das experiências de fusão de “Graceland” (sete temas), mais cinco canções de “The Rhythm of the Saints”, dois registos aos vivo do concerto no Central Park de Nova Iorque, em Agosto de 1991 e um inédito já deste ano, “Thelma”.
Do primeiro lote consta a lista de êxitos completa: “The sound of silence”, “Cecilia”, “El condor pasa”, “The boxer”, “Mrs. Robinson”, “Bridge over troubled water”, “Me and Júlio down by the schoolyard”, “Mother and child reunion” e, já a solo, “Kodachrome”, “Still crazy after all these years” e “50 ways to leave your lover”.
Da fase posterior, quando os temas se tornaram menos individualizados e mais sofisticados, vale a pena saborear de novo a capacidade de renovaçao de Paul Simon e as contribuições, entre outros, de Adrian Belew, Michael e Randy Brecker, J. J. Cale, Everly Brothers, Ladysmith Black Mambazo, Hugh Masekela, Milton Nascimento, Youssou N’Dour, Olodum, Linda Ronstadt, Uakti, além de uma constelação de músicos africanos.
O livrete, graficamente sóbrio e, como a capa, a atirar para o boletim de necrologia, inclui notas detalhadas sobre cada canção. (8)

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