Arquivo mensal: Abril 2010

Trans AM Vigiam A América Em “The Surveillance” – Entrevista a Nathan Means –

27.03.1998
Trans AM Vigiam A América Em “The Surveillance”
Quando O Dique Rebenta
Com “The Surveillance”, os Trans AM tornaram-se na mais formidável máquina de ritmos do pós-rock. Para esse efeito construíram o seu “Kling Klang” privado, transportando para os anos 90 o conceito do estúdio como unidade portátil de composição musical, criado há duas décadas pelos Kraftwerk. E Nathan means explicou ao PÚBLICO por que razão na América, em 1998, se instalou a paranóia.

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Antes de responderem às questões propriamente ditas, os Trans AM fizeram questão que fosse publicado um pequeno manifesto que, por si só, explica o essencial dos seus processos criativos: “Não somos nenhuma espécie de colectivo político-artístico como são, por exemplo, os Negativland. Todos temos as nossas concepções políticas que discutimos ocasionalmente entre nós. Mas a nossa música quase nunca é concebida como um espaço político limitativo, que é aquilo que a maior parte dos críticos pensa de nós. A música de ‘The Surveillance’ foi composta como resultado de uma busca nossa, mais ou menos casual, e da experimentação com novos sons e equipamentos. Os aspectos políticos e teóricos dos nossos álbuns são sempre concebidos ‘a posteriori’, como uma superestrutura que seja capaz de impor a cada trabalho alguma espécie de coerência.”

FM – “The Surveillance” é um álbum de temática violenta que fala da paranóia e dos medos escondidos da América em 1998…

NATHAN MEANS – Sim, os títulos falam todos de uma linguagem ridícula que se está a vulgarizar, de propaganda de sistemas de segurança para as casas, iniciativas anticrime, políticas de tolerância zero e comunidades fechadas. Noto cada vez mais sinais que mostram que a resposta da América ao problema da pobreza e a outros problemas sociais a ela associados está a passar de uma situação com base na assistência social para outra de diminuição de subsídios que se concentra na repressão e em meter cada vez mais pessoas nas prisões. Um certo nível de paranóia – que instiga medo e aversão às classes sociais mais baixas, cada vez mais responsabilizadas pelo aumento da criminalidade – é extremamente útil ao poder, como forma de vender o seu programa ao povo americano.

FM – Qual é o inferno mais próximo. O de “Brave New World”, de Aldous Huxley, ou o de “1984”, de George Orwell?

NATHAN MEANS – “1984” deu-nos a ideia para o conceito do “Big Brother Is Watching Us” [“O Grande Irmão Está a Observar-nos”, uma das máximas do livro de Orwell]. Infelizmente, nos Estados Unidos, esta espécie de paranóia dirige-se mais ao “Grande Governo” 8atingindo, como consequência, algunsesforços comunitários que visam a melhoria das condições de vida…), e menos ao “Grande Negócio”, o qual, pessoalmente, considero mil vezes mais ameaçador. Evidentemente, a distinção entre os dois pode ser suspeita, mas…

FM – A tecnologia é uma arma. De que forma a manipulam?

NATHAN MEANS – Os instrumentos são tão responsáveis pela composição das canções como nós.

FM – Existe actualmente uma dicotomia curiosa entre as bandas de pós-rock. Enquanto grupos como vocês, os Tortoise ou os Labradford tocam uma música mais orgânica (analógica?), outras, como os Microstoria ou os Oval, têm um som mais doentio, como se as máquinas estivessem infectadas por um vírus.

NATHAN MEANS – Nunca tinha pensado nisso antes, mas vejo onde quer chegar. No nosso caso e no das outras duas bandas que refere, derivamos todos de uma estética tipicamente americana, em que tocámos todos ao vivo em grupos rock ou punk antes de nos fecharmos em estúdio com a electrónica e com todos os aspectos que andam associados ao pós-rock. Não conheço bem a história dos Oval, mas sei que são dois tipos alemães que talveaz não tenham tido essa formação ao vivo que costumam ter as bandas americanas.

FM – Construíram um estúdio privado especialmente para a gravação do novo álbum. É a vossa versão do estúdio Kling klang que os Kraftwerk construíram na década de 70?

NATHAN MEANS – Sim, construímos o nosso próprio Kling Klang. Só que depois da gravação tivemos de o desmontar porque os senhorios da cave em que estava instalado se mudaram. Estamos à procura de um novo local para voltar a construir o estúdio, numa base permanente.

FM – Já definiram o som do novo álbum como possuindo uma “qualidade perigosa”. Podem ser mais específicos?

NATHAN MEANS – O nosso “som Especial” é o que resulta da explosividade do nosso som ao vivo. Queríamos, por exemplo, que a bateria soasse tão gigantesca como em “When The Levee Breaks” (“Quando o dique rebenta”) dos led Zeppelin. Nos dias de hoje, em que somos agredidos por todos os lados pelo “rock domesticado” de grupos como os Stone Temple Pilots, Live ou Three Eye Blind, nada é mais perigoso ou controverso do que os rock “com os tomates no sítio”.

FM – Qual destes dois discos acham que representa melhor o espírito dos anos 90: “The Man Machine” dos Kraftwerk ou “Metal Machine Music” de Lou Reed?

NATHAN MEANS – Nem um nem outro. Infelizmente os anos 90 são provavelmente representados pelo álbum mais recente dos Third Eye Blind ou por Puff Daddy. As rádios comerciais estão a tornar-se cada vez mais dóceis e inimaginativas à medida que as estações vão sendo compradas pelas multinacionais. Em Washington D.C., por exemplo, os programas até cheiram mal! É um fenómeno de homogeneização corporativista que está a tornar-se evidente por toda a parte.

FM – O início de “Armed Response” é puro metal sobre metal, esmagamento de guitarras e ruído. Os Trans AM têm o mesmo espírito punk, por exemplo, dos This Heat, nos anos 80?

NATHAN MEANS – Sem dúvida. O nosso espírito é esse mesmo. Da mesma forma que os AC/DC eram tão punks como os Ramones. Quer uma quer outra destas bandas baseavam a sua música em acordes inacreditavelmente simples e numa energia bruta que ainda hoje impressiona, em contraste com a neuratesnia que vigora na música comercial dos anos 90. E adoro os This Heat!. Sinto-me lisonjeado que tenha pensado neles ao ouvir o nosso álbum.

FM – Falou-se há pouco dos Kraftwerk. As programações de “Access control” misturam “The man machine” com “Autobahn”. “Prowler’ 97”, “Shadow Boogie” e “Home Security” também soam muito a esta banda germânica. Os Kraftwerk são a influência principal em “The Surveillance”?

NATHAN MEANS – “Home Security” é a canção mais kraftwerkiana do álbum. “Prowler’ 97” sugere-me mais a música de “breakdance” ou um filme de suspense. “Access control” acabou por se parecer um bocado com uma banda finlandesa chamada Panasonic. Se puder vê-los ao vivo, não hesite. São espantosos!

FM – “The Surveillance” pode também ser encarado como um jogo de e sobre o poder. Como é que se termina este jogo?

NATHAN MEANS – Gostaria de poder dizer que a música tem o poder de uma única arma política, necessária para combater o terror do tal Estado de Segurança que mencionei há pouco, mas não acredito que seja verdade…

Nota:
Os Trans AM vão tocar a Espanha no próximo dia 10 de Junho e gostariam de poder actuar em Portugal. Nathan Means refeiur o prazer que isso lhe daria. De passagem diz que fala um pouco de espanhol e que o baterista do grupo, Sebastian, é argentino.

Steven Brown (Tuxedomoon) – Entrevista – : Ser Ou Não Ser Tuxedomoon, Eis A Questão

20.03.1998
Ser Ou Não Ser Tuxedomoon, Eis A Questão
Vestir Ou Não Vestir O “Smoking”

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“Joeboy in Mexico”, afinal, não é um disco novo dos Tuxedomoon, embora um rótulo colado na capa proclame “o regresso dos Tuxedomoon”. Mas Steven Brown, com quem o PÚBLICO falou, diz que não. O México, com o seu “magnetismo” e as suas “forças espirituais”, determinou a diferença. E – sim – os Tuxedomoon, a lua de “smoking”, foram a primeira banda pós-rock da História.

Gravado em casa no México, retocado num estúdio comercial, “Joeboy in Mexico”, apresenta o lado mais obscuro e interessante da música da lendária banda de São Francisco, aqui explorado por Steven Brown com Peter Principle, com o convidado muito especial Blaine L. Reininger, o terceiro vértice dos Tuxedomoon.

FM – “Joeboy in Mexico” afinal não é um álbum dos Tuxedomoon…

STEVEN BROWN – Não é, de facto, e sublinho este “não”. Se fosse um álbum do grupo, teria essa indicação [Steven Brown deve ignorar a existência do tal rótulo]. Na realidade, a editora Opción Sónica pediu-me para fazer um novo álbum na sequência de “Ninerain”. Queriam uma coisa diferente, mais personalizada. Decidi trabalhar com Peter Principle, a companhia aceitou e ele veio ter ao México, para trabalhar durante um mês comigo, com Nikolas Klau, Alejandro Herrera e Juan Carlos Lopez. “keredwin’s reel” foi escrito por Blaine Reininger, a quem eu pedi que participasse no projecto. Depois disso, Peter partiu para Roma e Nova Iorque. Eu e os outros acabámos as gravações. Em 1981, peter e eu já tínhamos gravado “Joeboy in Rotterdam”, daí o nome do álbum. Qualquer destes dois álbuns aparece com pseudónimo na ficha técnica. É um segredo.

FM – Há alguma possibilidade de você, Peter Principle e Blaine Reininger voltarem a tocar juntos ao vivo?

STEVEN BROWN – Tocámos os três juntos, pela primeira vez em oito anos, no ano passado, em Telavive, Atenas, Salonica e Polverigi, na Itália. Além de que estamos a planear um novo disco e uma digressão pela Europa no próximo ano.

FM – Como é que se processaram as gravações? Foi ou não um trabalho colectivo?

STEVEN BROWN – No início a ideia era gravarmos no meu estúdio em casa. Com todo o tempo disponível para compor e gravar sem quaisquer preocupações monetárias. Mas uma avaria no equipamento obrigou-nos a mudar para um estúdio comercial vulgar. a maior parte dos temas foram compostos por mim com Nikolas. Alguns são peças inteiramente feitas e tocadas por mim, como “Bitter bark” e “Shipwreck”. “Brad’s loop” e “El Popo” incluem Alejandro Herrera como autor. Nesta medida, pode considerar-se um projecto colectivo.

FM – Há algum elo de ligação entre este disco e o anterior, “Ninerain”?

STEVEN BROWN – A presença, em ambos, de Alejandro e de Juan Carlos. A editora também é a mesma.

FM – “Joeboy in Mexico” recupera o lado instrumental e mais experimental dos Tuxedomoon, de álbuns como “Suite en Sous-Sol” e “The Ghost Sonata”, já para não falar dos dois primeiros álbuns, “Half-Mute” e “Desire”. Os Tuxedomoon serão um grupo “maldito” para sempre?

STEVEN BROWN – Tenho orgulho em fazer parte do “underground”, embora reconheça que é um estilo de vida que exige a existência de “senhorios” compreensivos…

FM – O espírito e a atitude musical dos Tuxedomoon está bastante próxima do actual pós-rock, de bandas como os Tortoise e Trans AM. Consideram-se pioneiros do rock mais radical?

STEVEN BROWN – Não conheço nenhuma dessas duas bandas (mande-me uma cassete, por favor!9. De qualquer forma, suponho que os Tuxedomoon foram, desde o início, uma espécie de banda pós-rock, ou pós-moderna. Quando começámos, nos anos 70, não havia muitos grupos como nós, a usarem violino, saxofone, caixas de ritmos, guitarra, órgão e fitas magnéticas.

FM – A capa do álbum faz lembrar o grafismo usado por um músico mexicano, Jorge Reyes…

STEVEN BROWN – Acho a capa fantástica! É um trabalho de Jaime Keller, um velho amigo meu e um grande artista. Quanto a Jorge Reyes, conheço-o. Gravamos para a mesma editora.

FM – O facto de o isco ter sido feito no México teve alguma importância no proceso criativo? Estamos a lembrar-nos dos fragmentos de manifesto revolucionário que foram usados no tema de abertura…

STEVEN BROWN – Salvador Dali afirmou um dia que teria pintado exactamente da mesma maneira mesmo se tivesse vivido no Pólo Norte, querendo com isto dizer que a localização geográfica não desempenha qualquer papel na produção artística. Já Peter Principle me disse exactamente o contrário, que o local tem muito que ver com os resultados. Para ele, o México determinou e conduziu todo o proceso de gravação, devido a um magnetismo ou a quaisquer forças místicas presentes neste país. A minha opinião está algures entre estas duas.

FM – Tem planos para gravar em breve um novo álbum?

STEVEN BROWN – Há um plano, que tenho em mente há mais de cinco anos, de gravar com Harold Budd.

FM – Ainda ouve música rock? Que discos é que tem andado a ouvir ultimamente?

STEVEN BROWN – O mais próximo do rock que tenho ouvido é Olivier Messiaen e Conlon Nancarrow, um compositor americano que viveu no México há 40 anos e compunha para executantes de pianola!…
Agora a sério, ouvi o novo de Todd Rundgren, com canções novas feitas ao estilo bossa-nova. Recentemente, eu e Peter Principle temos andado a trabalhar uma versão de Isaac Hayes de “Walk on by”, de Burt Bacharach.

FM – Atendendo à importância histórica dos Tuxedomoon, não está prevista nenhuma reedição remasterizada da sua discografia, como aconteceu, por exemplo, ainda há pouco tempo, com os Residents?

STEVEN BROWN – É uma boa ideia. Apesar de estar tudo disponível, em edições normais, através da Crammed, de Bruxelas, e ter sido lançada, em 92, a colectânea “Solve et Coagula”.

FM – Devemos considerar “Joeboy in Mexico” uma escultura sonora, um manifesto artístico ou uma boa anedota?

STEVEN BROWN – Folgo em saber que tem sentido de humor!

Nota:
Outros Discos Brilhantes E Obscuros Por Elementos Dos Tuxedomoon:
Steven Brown: “Searching For Contact”, “Zoo Story”;
Steven Brown & Benjamin Lew: “Douzième Journée: Le Verbe, La Parure, L’Amour”, “A Prpopos D’Un Paysage”;
Peter Principle: “Sedimental Journey”, “Tone Poems”;
Blaine L. Reininger: “Instrumentals, 1982-1986”;
Blaine L. Reininger & Mikel Rouse: “Colorado Suite”.

Biosphere – Substrata 2

14.12.2001
Biosphere
Substrata 2
2xCD Touch, distri. Matéria Prima

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“Substrata 2” junta a versão remasterizada de “Substrata”, editado originalmente em 1997, com a banda sonora completa de “Man With the Movie Camera”, filme mudo realizado em 1929 pelo russo Dziga Vertov. Mais dois temas incluídos na versão japonesa de “Substrata”. Depois da desilusão que constituiu a recente aparição ao vivo de Geir Jenssen no Porto, vale a pena regressar ao convívio com uma música que penetra e se dissemina no inconsciente como um vírus alienígena. Com a melhoria de som, o filme interior de “Substrata” adquiriu uma riqueza de detalhe de superior qualidade. Dos baixos vulcânicos aos agudos estelares, icebergs desfilam lentamente. Macroformas de gelo, nuvens e noite que em “Cirque”, álbum do ano passado, assentariam numa cultura de microrganismos vivos. “Man with the Movie Camera” move-se noutro lugar. Electrónica de louvor a divindades pagãs, como a dos SPK, When e Lustmord, samplagens de lagos, florestas e monstros, vozes sem rosto, liturgias de escuridão, numa fabulosa construção multidimensional que é também uma das obras maiores do compositor norueguês.