Arquivo mensal: Abril 2010

Maria João E Mário Laginha Gravam A Cores – Entrevista –

01.05.1998
Maria João E Mário Laginha Gravam A Cores
Atirar A Melodia Ao Ar E Apanhá-la
Maria João escreveu todas as letras, todas as palavras. Mário Laginha compôs os sons. “Cor” é uma viagem entre a “confusão indescritível” de Nova Deli e a “felicidade” do canto africano.

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)
LINK (Parte 3)

“Cor” tem todas as cores da voz de Maria João e do piano de Mário Laginha que unem a Índia a Moçambique. Contou ainda com a bateria e as percussões do indicano Trilok Gurtu e com as guitarras de Wolfgang Muthspiel. Música do mundo, numa encomenda feita pela Comissão dos Descobrimentos para a exposição “As Culturas do Índico”, no âmbito da Expo-98. Na calha está uma remistura de dança de um dos temas.

FM – Escolheram a Índia e Moçambique como as duas margens para o álbum. estiveram mesmo lá? Estudaram as culturas?

MÁRIO LAGINHA – Fomos realmente aos sítios, mas houve a preocupação de não estudar cada estilo, cada raga, por exemplo, o que, provavelmente, resultaria em música indiana pior do que aquela que é feita por músicos indianos. O mesmo em relação a África. Fomos lá, inspirámo-nos, ouvimos música, comprámos discos, cheirámos, passeámos, captámos o pulsar de um país.

FM – Para a Maria João foi mais natural integrar a voz na vertente africana?

MARIA JOÃO – É-me mais familiar. Não tenho estado em África nos últimos anos, nem tenho uma memória presente da música africana, embora tenha ido a Moçambique com a minha mãe, que é natural de lá. Digamos que a África está actualmente mais próxima da minha própria lingaugem. Depois do scat e das músicas de vanguarda, a África desaguou na minha personalidade. É uma forma feliz de utilizar a voz e isto tem a ver com a felicidade, com estar bem. Exprimir coisas sem utilizar palavras. Sons próximos dos sons africanos. É o que apetece logo.

FM – E a música indiana? Custou mais?

MARIA JOÃO – Fiquei em pânico. Eles têm uma maneira de colocar a voz muito matemática que não é maneira africana de improvisar. mas esta forma rápida de cantar, característica da Índia, tem estado sempre presente na minha música… As pessoas podem perguntar: “Como é que ela faz, onde é que lea foi buscar?” Não fui buscar a lado nenhum. Ou fui buscar aos milhares de sons que andam no ar, que saem dos CD, das cassetes, das vozes das pessoas, milhões de sons que passam pela nossa cabeça e pelos nossos ouvidos. Uns que ficam, outros não. Depois tudo se traduz naturalmente cá dentro e acaba por ser a minha própria for ma de ver as coisas.

FM – Depois da “cantora de jazz” e da “cantora de música contemporânea”, temos a Maria João “cantora de world music”?

MARIA JOÃO – Esse termo agrada-me. Música do mundo. E a música do mundo engloba também o jazz, onde continuo a ter um pé. E o coração. Foi o género que gerou o meu amor pelo improviso, o meu amor ao som. Cantora de world music? Fixe!

FM – O tema de abertura, “Horn, please”, está cheio de ruídos de trânsito. Foi assim o início da viagem?

MÁRIO LAGINHA – Foi o que sentimos na nossa chegada à Índia. Mas é um caos mais pacífico que o caos português. O trânsito em Portugal é infinitamente mais agressivo, sendo menos caótico. Gravámos as buzinas em Nova Deli.

MARIA JOÃO – Não se vê choques, o que é uma coisa fantástica! Nunca vi um acidente na Índia, em Nova Deli, no meio daquela confusão indescritível do trânsito. E, sobretudo, nunca vi ninguém a discutir. Sente-se uma paz, algures, um certo “veiva e deixe viver”.

MÁRIO LAGINHA – Aliás, o título do tema refere-se ao que escrevem na traseira dos carros, “Horn, please” 8”Buzinem, por favor”), o que é um contra-senso para um europeu que, quando muito, escreveria algo como: “Por favor, não buzine!”

FM – O tema seguinte chama-se “Há gente aqui”…

MARIA JOÃO – É uma continuação. Uma pessoa chega à Índia e vê o quê? A primeira coisa, além do calor que nos assalta logo, é, além do tal trânsito, uma enormidade de gente que há na rua. É inacreditável. Há gente em todo o lado!

FM – A África surge em “Rafael ou a cor de Moçambique”, onde a voz percorre os registos agudos, muito africanos. É aí que se sente mais à vontade?

MARIA JOÃO – É. Talvez o agudo e o grave, nos extremos, seja onde me sinto mais à vontade. O registo médio é onde eu tenho mais complicação a cantar. Mas também se faz (risos)! Mas este nem é dos temas mais agudos. Há um momento, mais à frente, agudísimo, que foi mal misturado. A minha voz é de soprano, suponho eu. Um soprano com graves. estas coisas africanas saem porque a voz dispara sem problemas, sem entraves, sem pensar.

FM – Depois há os temas mais “conrolados”, mais próximos da balada, como “Nazuk”, em que a felicidade de que falava há pouco é substituída por uma certa melancolia…

MARIA JOÃO – “Nazuk”, que significa “frágil”, foi o único tema composto em Nova Deli. É acerca de um elefante. Um elefante que anda pelas ruas carregado de pinturas e de coisas no meio daquela confusão de gente. Um pobre elefante com ar perfeitamente submisso. Fez-me impressão. Andei no elefante no meio da rua, desclaça, subi para cima dele. Mas aquilo tocou-me. É um elefante fora do sítio.

FM – “Saris e capulanas” regressa a um lugar pouco determinado.

MÁRIO LAGINHA – É um tema com uma história engraçada. Eu tinha um balanço para o que se devia chamar “O meu sari amarelo” (como se percebe, um título inventado pela João, aliás como todos os outros), mas não estava a sair nada indiano. O Trilok estava a tocar tablas e só me dizia: “I don’t know what to do here…”

MARIA JOÃO – Até que às tantas descia voz, ouvi o ritmo, e pus-me a dançar samba. E logo o Trilok: “Ah, brazilian! Now I know what to do!”.
No fim do tema há uma percussão vocal minha e dele que me deu muito gozo fazer.

FM – O solo de guitarra no meio de “Preto e branco” foi composto ou improvisado?

MÁRIO LAGINHA – É um improviso. Continuamos a ser, para todos os efeitos, músicos ligados ao jazz. E é isto, aliás, que nos afasta um bocado da world music, que é muito mais fechada, não tão livre como a música que nós fazemos.

MARIA JOÃO – E onde eu mudei a melodia, das coisas que maior gozo me dão. Não dar cabo da melodia mas moldá-la, dar-lhe voltas, atirá-la ao ar e apanhá-la outra vez.

FM – Quem é o Charles de “Charles on a Sunday with Sunday clothes”? É o tema que se aproxima mais da típica balada de jazz.

MÁRIO LAGINHA – Aqui a ideia tem a ver com a Inglaterra que está completamente presente no tema. Chegámos a perguntar à Comissão dos Descobrimentos se não havia problema em focarmos um aspecto que fugia um pouco à temática principal.

MARIA JOÃO – O meu filho, no Natal, fez um desenho para dar ao pai que dizia: “Carlos, no Natal, com roupa de Natal.” Achei o título delicioso. Então comecei a imaginar um inglês, em 1920 – quando os ingleses ainda estavam na Índia -, com as suas roupas escuras, que leva com aquele bafo de cor, bafo de gente. Mas é alguém que fica absolutamente apaixonado, viciado na Índia.

FM – É verdade que já houve uma proposta para fazer uma remistura de música de dança para “Nhlonge yamina”, o tema seguinte?

MARIA JOÃO – Sim, uma dance remix, proposta pela Polygram.

MÁRIO LAGINHA – Temos que ouvir primeiro antes de dar uma opinião. É que a versão do álbum já é dançável, não tem é aquela vertente de discoteca. Mas atrai-me a ideia do tema ser dançado numa discoteca.

FM – Nunca se interessaram pela electrónica?

MÁRIO LAGINHA – Não tenho nenhum preconceito contra. Só que neste momento há muita gente a tocar teclados, toda a gente toca. Acabo por achar que sou mais especial, que tenho uma “voz” mais identificável, enquanto pianista acústico.

MARIA JOÃO – As cantoras de vanguarda que tenho ouvido, já desde a Flora Purim, utilizam a electrónica como extensão da voz para conseguir efeitos. Isso irrita-me! O que gosto de fazer é usar as minhas reais capacidades e levá-las ao limite. Mas se calhar, daqui a cinco anos, vai-me apetecer imenso fazer algo nesse campo… As vozes das pessoas têm n cores. A maior parte dos e das cantoras tendem a cantar numa só direcção, numa cor e voz, e a instalar-se aí. Eu posso cantar em todas as cores. Todas as que me passam pela cabeça. Do mais claro ao mais escuro.

FM – A viagem fecha com “Forbidden love affair”, de novo com acompanhamento de buzinas…

MÁRIO LAGINHA – É um dos temas mais indianos e um dos que concretizam uma ideia central deste trabalho: não entrar por jogos de palvras pseudo-intelectuais, mas sim contar histórias bem e de uma forma musical.

MARIA JOÃO – Foi um tema que aprendi no estúdio e o último a ser feito. Havia um sítio para improvisar, só que não me apetecia nada improvisar aqui, improvisar o quê? Então decidi improvisar com uma letra. Veio-me à cabeça uma série que passou na televisão há muito tempo, “A Jóia da Coroa”. Lembro-me que havia a história de um indiano e de uma inglesa, passada em 1908, que se chamava, precisamente, “A forbidden love affair” (“Um amor proibido”). Havia a dificuldade de eles atravessarem uma ponte para se encontrarem.

Nota:
Lobos Sinfónicos
Além de “Cor”, Maria João e Mário Laginha têm outro disco já pronto. Chama-se “Lobos, Raposas e Coiotes” e foi gravado com a Orquestra Sinfónica de Hannover, dirigida por Arild Remmereitt. A paresentação ao vivo está marcada para 2 de Junho, no Dia de Honra da Siemens, na Praça Sony no recinto da Expo. A 4 de Junho os “Lobos, Raposas e Coiotes” irão até ao Europarque, em Vila da Feira, Porto. O quarteto de “Cor”, com o percussionista indiano Trilok Gurtu e o guitarrista alemão Wolfgang Muthspiel, actua, por sua vez, a 10 de Junho, no palco das docas, também na Expo.

Gonçalo Pereira Acelera Na Colectânea “Guitarristas”: Tricotar A Mil À Hora – entrevista –

24.04.1998
Gonçalo Pereira Acelera Na Colectânea “Guitarristas”
Tricotar A Mil À Hora
Da “Marcha Turca”, de Mozart, e dos “Jardins Proibidos”, de Paulo Gonzo, para uma formidável interpretação a solo, em disco e ao vivo, de um tema de inspiração escatológica, Gonçalo Pereira revela-se como um guitarrista que vai dar que falar.

LINK

Gonçalo Pereira, 24 anos, autodidacta, é o guitarrista de Paulo gonzo. Na estrada e do álbum que fez furor no Verão passado, “Jardins Proibidos”, Gonçalo tocou já vezes sem conta. “126SC”, incluído na recém-lançada colectânea “Guitarristas”, e uma aparição ao vivo no Rock City revelaram-no como um guitarrista de extraordinários recursos. Em breve lançará o seu primeiro álbum a solo. Em Junho, na mesma altura em que vai sair o novo disco de Paulo Gonzo…

FM – Que significa “126SC”, o título do tema com que participa em “Guitarristas”?

GONÇALO PEREIRA – É melhor não dizer!… É “126 cagalhões”. Houve um engano na capa, o título original era “126 SC”, ou seja “sopa de cagalhão”. Nos ensaios o baterista queria tocar a música de maneira mais lenta. “126” é o número da batida. Ele queria tocar para aí a 113. Eu e o baixista não concordávamos nada e saiu mesmo assim, “126 cagalhão!”.

FM – Mas no disco toca os instrumentos todos, a guitarra, o baixo, os teclados e as programações…

GONÇALO PEREIRA – Teve que ser, porque, sem querer falar contra os meus colegas, havia um prazo estabelecido e eu fui o único que o cumpri.

FM – Esta sua primeira aparição a solo é um alternativa ao seu trabalho como músico acompanhante de Paulo Gonzo, na medida em que não teve que se submeter a qualquer tipo de controlo?

GONÇALO PEREIRA – O Paulo Gonzo não obriga ninguém a estar na sombra, antes pelo contrário, às vezes até nos vai buscar ao fundo do palco. Agora é verdade que, como músicos, temos que usar uma certa inteligência, saber-nos situar no contexto em que estamos. É um bocado saber equilibrar os pratos da balança. Com o Paulo Gonzo sou, como diz, bastante “controlado” pelo produtor, para fazer assim ou assado.

FM – Como é que apareceu a versão da “Marcha turca”, de Mozart, que tocou a quatro mãos, ao vivo, com o baixista, no Rock City?

GONÇALO PEREIRA – Quando comecei na guitarra, tive que provar primeiro ao meu pai que sabia tocar bandolim! A “Marcha turca” foi a primeira coisa que aprendi a tocar no bandolim. Tive que mostrar que tinha assimilado bem as coisas, para merecer a guitarra.

FM – Na ficha técnica de “Guitarristas” o seu nome aparece como Gonçalo “Tricot” Pereira. De onde lhe vem essa alcunha?

GONÇALO PEREIRA – Foi o Paulo Gonzo que me a pôs. Tem a ver com uma técnica, o “picado”, que usava muito nos ensaios. ele começava logo a gozar, fazia o gesto de tricotar: “Lá está ele no seu ‘tricot’. Olha, faz-me aí umas meias para o Natal!…”

FM – Quais são os seus heróis da guitarra?

GONÇALO PEREIRA – Há dois super-homens. O Steve Vai, um gajo indescrítivel, tanto na técnica como na expressão ou nas ideias loucas que lhe passam pela cabeça, e o Nuno Bettencourt, que é um pequeno monstro. Mas podia também falar dos Satrianis do costume.

FM – O que é mais importante para si, enquanto guitarrista, a técnica ou a expressão?

GONÇALO PEREIRA – Não só na guitarra, gosto de pensar como músico. Quando pego num baixo ou numa bateria, também tento fazer a minha música. O mais importante, e o mais difícil, é conseguir um bom balanço.

FM – A velocidade de execução é importante?

GONÇALO PEREIRA – Acho que sim. Há “n” pessoas, leigos, entre aspas, como a dona de casa que está a ouvir a rádio que, provavelmente, sentir-se-à cativada por uma coisa mais simples, tipo “canção de embalar”. Depois, há pessoas que precisam de outro tipo de estímulos, de ouvir uma malha muito mais virtuosa. No fundo, o mais importante é sentires-te realizado com o que stás a tocar, mas sem nunca esquecer quem nos está a ouvir. A questão é que a velocidade é superimportante, a necessidade de fazer coisas difíceis que, normalmente, estão associadas à rapidez. Quem disser que não gostava de saber tocar o “Voo do moscardo”, de Rimsy-Korsakov, ou a “Marcha Turca” do Mozart, ou é aldrabão ou preguiçoso. Ou invejoso. Mas um músico não tem que ser super-rápido para ser um supermúsico. O que é preciso é ter-se balanço, “groove”, conhecer-se a si mesmo.

FM – No Rock City estava cheio de adrenalina, superando as falhas técnicas do material, quase como uma vingança.

GONÇALO PEREIRA – Normalmente tenho muita adrenalina. E o tema que toquei pedia essa adrenalina. Se não a tiver, soa uma porcaria, como um exercício de estilo. Por outro lado, nessa ocasião, estava a ficar um bocado furioso com os problemas que estava a ter com o cabo da guitarra e com o amplificador. Consegui canalizá-los de uma forma positiva. Houve uma altura em que tirei o “jack” da guitarra e estive quase para me ir embora. Só que o público não tinha culpa e não merecia isso. Achei que devia, fui mesmo obrigado, a tocar o tema como deve ser.

Nota:
Guitarras em voo picado
No passado dia 15 o Rock City abriu as portas às guitarras eléctricas, na festa de lançamento da colectânea “Guitarristas”, editada pela Tornado/Música Alternativa. Foi a noite dos guitarristas de “segunda linha”, apostados em mostrar que, pelo menos em termos técnicos, são tão bons ou melhores que os consagrados. Entre eles, dois consagrados. Um deles Rui Veloso, que esteve em grande naquilo em que é melhor, os blues. Veloso participa na colectânea, em “Out Blues”, com António Mardel e João Allain. O outro foi Zé Pedro, dos Xutos e Pontapés, que também se divertiu numa dessas “jamas” de ocasião.
Mas um nome se destacou dessa longa noite, em qu eprevaleceram duas facções musicais, o heavy metal e o jazz de fusão: Gonçalo Pereira, “axeman” da banda de Paulo Gonzo. Um cabo de guitarra defeituoso não o impediu de deixar toda a gente abananada com uma versão da “Marcha turca” de Mozart tocada a quatro mãos com Dick. Já com um cabo em bom estado Gonçalo Pereira disparou um solo lancinate, em “126SC”, o tema com que participa na colectânea. Foi esse o momento mais alto de uma noite onde também estiveram presentes Miguel Mascarenhas (da banda de Rui Veloso), Luis Fernando (Adelaide Ferreira), Luis Arantes (Rap, D. Season), Luis Moreno (Doutores e Engenheiros), António Mardel (Belusíadas), Renato Gomes (UHF), Zé Pino (Blue Jeans), Alexandre Manaia (GNR, Pedro Abrunhosa), Paulo Barros (Tarântula), Domingos Caetano (Íris), Tiago Reis (Gang), Carlos Pires (Mercuriocromos), João Allain (Go Graal Blues Band), Tarot (Jack Sun Five), Hugo Sá (Álibi) e João Lopes (STS Paranoid). Já quase no final a coisa baixou um pouco de nível, com versões de Supertramp e Queen e um sósia de Robert Plant a cantar “Knockin’ on heaven’s door”, de Bob Dylan. Não chegou para quebrar uma noite de peso em que as guitarras voaram em voo picado.

Entrevista Com Os Ui: Debaixo Da Vida

17.04.1998
Entrevista Com Os Ui
Debaixo Da Vida
O novo dos Tortoise é bom, o novo dos Trans AM é muito bom, mas o novo dos Ui, “Lifelike”, é fora de série. Aqui se mistura o grande funk com o “dub” e o experimentalismo kraut servido por dois baixos poderosíssimos e o gosto pelo “riff”. O PÚBLICO falou com o “grandmaster” Sasha Frere-Jones e confirmou o que já adivinhara: Os This Heat são os avós do pós-rock.

LINK(The 2-Sided EP/The Sharpie (1993-1995))

Demorou um ano e meio a preparar mas valeu a pena esperar por “Lifelike”, o mais recente álbum dos Ui. Mas o pensamento do seu principal mentor, Sasha Frere-Jones, entre recordações vafas de Sun Ra, umas brinacdeiras com os Stereolab, a devoção aos This Heat e o espanto por conversar com alguém que ouviu os seus discos, está agora mais voltado para o seu filho de nove meses. É que “há coisas mais importantes do que o rock’n’roll”, como ele próprio admite.

FM – Ui é um nome bastante estranho. Tem algum significado especial?

SASHA FRERE-JONES – Tem vários. Há uma peça de Bertolt Brecht chamada “Ascenção e Queda de Arturo Ui”, uma peça antifascista sobre Adolf Hitler. E David Lee Roth, dos Van Halen, gravou um álbum em espanhol em que no meio de todas as canções solta um grito lancinate: “Uuuiii”. Depois as letras “U” e ”I” pronunciam-se “you” and “I” [“tu” e “eu”], exprimem uma relação…

FM – “The 2-Sided EP / The Sharpie”, composto por material antigo, foi recentemente editado em Portugal. À semelhança do que acontece com outros grupos de pós-rock, nota-se que ouviram muito os This Heat. É verdade?

SASHA FRERE-JONES – Ah, sim! [solta uma exclamação de prazer]. Aí está uma banda que adoro. É engraçado estar a mencioná-los, ontem mesmo ofereci um disco dos This Heat ao autor do “design” da capa de “Lifelike”, Richard McGuire. E há uma hipótese de tocarmos com Charles Hayward lá para o final do ano. Os This Heat são sem dúvida uma enorme (“huge”) influência.

FM – Cada um destes discos representa uma fase diferente do grupo ?

SASHA FRERE-JONES – “The Sharpie” foi um “single” gravado há três anos por obrigações contratuais com a Soul Static Sound. “The 2-Sided EP” é mais ou menos dessa altura, já não me lembro bem, foi gravado logo a seguir ao álbum “Sidelong”, que, aliás, já continha parte do que viria a ser “The Sharpie”. Era uma altura em que procurávamos fazer temas mais longos para discos de doze polegadas e durante o qual os meus interesses giravam um pouco em torno do “drum’nbass”. Clem Waldmann, o nosso baterista, toca como um baterista de “breakbeats”, apenas tínhamos que o mandar tocar e depois acelerávamos a fita…

FM – Um pouco mais tarde, em 1995, fizeram uma digressão com os Tortoise e os Labradford, cuja música é bastante ambiental, em oposição à vossa, que é de uma energia por vezes quase brutal…

SASHA FRERE-JONES – Eis uma comparação inteligente. É das primeiras pessoas a notar esse lado energético da nossa música, vejo que ouviu os nossos discos, o que não acontece com a maior parte dos jornalistas musicais com quem tenho falado [N.R. – Nesta altura, a nossa perplexidade só era comparável ao estado de dúvida que se instalou relativamente ao jornalismo praticado em terras do Tio Sam…].

FM – Bom, mas como é que conseguiram esse desempenho energético em estúdio, em “Lifelike”? É verdade que demoraram cerca de um ano e meio a gravá-lo?

SASHA FRERE-JONES – Mais ou menos. Não estivemos esse tempo todo em estúdio mas foi quanto demorou a arranjar e a juntar o material necessário. Houve partes que já estavam feitas desde Junho de 1996, como os metais. Não houve propriamente ao longo desse ano e meio a intenção de fazer um disco. este acabou por surgir quase por acidente. Masmo as tais gravações com instrumentos de sopro foram feitas para serem integradas num disco de “drum’n’bass” que tínhamos gravado com os Stereolab em Londres. Outro tema, “Blood in the Air”, destinava-se a uma colectânea da Techno Animal, onde acabou por aparecer com o título “The Next Feeding”. Em “Lifelike”, nesse tema, uma vez mais, acelerámos a bateria. Só a partir de Maio do ano passado é que comecei a fazer em estúdio, em colaboração com Greg Frey, o engenheiro de som, todo o trabalho de mistura e edição. Senti-me como se tivesse o álbum já todo feito em casa e com o tempo e a liberdade de poder transformá-lo no que quisesse, com “overdubs”, montagens, etc.

FM – Vive em Brooklyn, em Nova Iorque. Não há registos de qualquer ligação dos Ui à cena “downtown” da cidade? Um tema como “News to go farther” tem um balanço muito jazzy…

SASHA FRERE-JONES – Essa ligação ao jazz surge sobretudo pelo lado de Wilbo Wright, que já tocou com Marc Ribot. Agora relações do grupo com a “downtown” nunca houve. Também não conhecemos muitos músicos da cidade, mas se conhecêssemos não seriam decerto dessa área, não gosto da música que fazem.

FM – sob a designação de Uilab, gravaram em colaboração com os Stereolab o mini CD “Fires” onde se incluem quatro versões diferentes de um tema de Brian Eno, “St. Elm’s Fire”. Houve alguma razão especial para essa escolha?

SASHA FRERE-JONES – Foi uma ideia que surgiu quando andávamos em digressão pela Europa, arranjámos uma semana para gravar. É uma canção que já tinha na cabeça, discuti isso com eles e acabámos por gravar as versões em Londres. Há outra canção feita de parceria com os Stereolab, com uma secção rítmica composta por Wilbo e Clem que não aparece em “Fires” e que será editada num próximo single.

FM – Em “Fires” aparece também o tema “Impulse Rah”, creditado como uma composição de Sun Ra de parceria com os Ui e os Stereolab…

SASHA FRERE-JONES – Só a linha de baixo é que pertence a Sun Ra, ou, pelo menos, soa como se pertencesse a Sun Ra… Acho que faz parte de um dos seus álbuns, não me consigo lembrar de qual. Em todo o caso, achei que devia incluir o nome dele na ficha técnica. [Nesta altura, Sasha cantarolou a tal linha de baixo…]. É sem dúvida de Sun Ra!

FM – “Less Time” é o único tema creditado como Ui…

SASHA FRERE-JONES – É um dos meus temas favoritos. Ensaiámo-lo pela primeira vez há muitos anos, na América. Queríamos incluir em “Fires” outra cosia qualquer que fosse diferente e decidimos ouvir as fitas de ensaio. Começámos todos a entoar a melodia! [Sasha volta a imitar a linha de baixo…].

FM – É verdade que os Ui não têm qualquer espectáculo ao vivo programado para os próximos meses?

SASHA FRERE-JONES – Acontece que tenho um filho com nove meses e decidi consagrar os tempos mais próximos apenas à família.

FM – Decidiu? É você quem toma as decisões pelo grupo?

SASHA FRERE-JONES – Eis uma questão algo controversa… Mas neste caso acontece que os outros membros da banda também têm em casa filhos pequenos para cuidar. Por mais que gostemos todos de tocar ao vivo, achamos que a família é mais importante. Há coisas mais importantes que o rock’n’roll [risos]! O meu filho é uma delas [N.R. – Seguiu-se um interessante diálogo particular sobre os filhos de uns e de outros e os respectivos nomes que acabou por ir dar a João Gilberto, daí que…]. Sou um fã da bossa-nova: João Gilberto, Os Mutantes, Caetano Veloso…

FM – Para terminar, fale-nos na sua actividade como DJ, sob o pseudónimo The Calvinist, e da sua própria editora, Bingo.

SASHA FRERE-JONES – Toda a gente me pergunta sobre The Calvinist. Não sou propriamente um DJ profissional, acontece apenas que, por vezes, quando saio à noite, ponho uns discos de que gosto a tocar. Em relação à Bingo, é diferente. Os Uilab, por exemplo, foram editados por nós, na América. Também existe uma compilação chamada “The Day my Favourite Insect Died” com grupos de rock alemães da cidade de Waldheim, como os Notwist, a tocarem música electrónica. Vamos lançar a seguir um disco dos The Tide and Tickle Trio e outro de Derek Bailey com uma série de gente a fazer as secções rítmicas e ele a tocar guitarra por cima.