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Faust – “You Know Us”

Pop Rock

26 Fevereiro 1997

Faust
You Know Us
RER, IMPORT. ANANANA


f

“You Know Us”, “You Know Faust”, “You Know”. O “lettering” permite qualquer destas leituras. Joga-se no reconhecimento. Tudo na embalagem do novo álbum do mítico grupo alemão, da caixa e folheto transparentes à radiografia do punho fechado, como logotipo, remete para a iconografia do primeiro álbum da banda Faust, marco não só da música dos anos 70, como da música popular em geral.
Se o álbum do ano passado, “Rien”, primeiro da “ressurreição” oficial do grupo, agora reduzido ao trio Werner Diermaier, Joachim Irmler e Jean-Hervé Peron, expunha o lado mais cacofónico e “industrial”, resultante da produção de Jim O’ Rourke, o novo “You Know Us” abarca as múltiplas facetas que caracterizam a discografia da década de 70, “Faust”, “So Far”, “The Faust Tapes” e “Faust IV”. Facto a que não será alheia a mudança de editora, da Table of Elements para a Recommended, de Chris Cutler, que durante os anos de interregno sustentou nos seus catálogos a mística do grupo, através da distribuição daqueles quatro álbuns, bem como a edição das colectâneas de material inédito disperso, “Munic & Elsewhere” e “The Last LP”, posteriormente reunidos em “Seventy One Minutes of Faust”.
“You Know Us” não traz nada de novo. O que, tratando-se de um grupo que voltou do avesso a música popular deste século, é quase escandaloso. O reverso da medalha está em que os safados continuam a ser pais na arte da manipulação e da improbabilidade musical. As bandas do pós-rock devem-lhes tudo. E a verdade é que, 26 anos volvidos sobre a bomba que representou a sua estreia, em 1971, na Polydor, os Faust voltam a dar as cartas para o baralho dos mais novos.
Vocês conhecem-nos. Somos os Faust e fazemos as bandas sonoras dos vossos pesadelos mais bizarros. Temos canções pop com sulcos escavadas pelas garras de Freddy Krueger, temos sinfonias de metal, temos “trips” no escuro, temos a contagem das pausas entre os temas como se fossem temas, temos um tango. Temos orgulho de causar hoje tanto ou mais espalhafato do que aquele que provocámos quando chegámos para sobressaltar o progressivo.
São os Faust, de novo com o punho erguido, a saudar a década do caos. (8)



Faust – “Rien”

POP ROCK
10 de Janeiro de 1996

Álbuns Pop Rock

Corrosão Caótica

FAUST
“Rien” (8)
Table of Elements, import. Contraverso


Faust-Rein

É um acontecimento, o regresso, após um interregno de mais de vinte anos, do lendário agrupamento germânico, agora reduzido ao duo Werner Diermaier e Jean-Hervé Peron, que à entrada dos anos 70 colocou em xeque todas as convenções da galáxia pop. “Rien” é o primeiro disco de originais de estúdio desde “Faust IV”, de 1973, descontando duas edições, dos anos 80, de material disperso, compiladas em “Munic & Elsewhere” e “The Last LP” (também conhecido por “Party Tapes”), posteriormente reunidas num compacto simples com selo Recommended: “Seventy Minutes of Faust”. Recentemente, o mercado viu aparecer umas “Peels Sessions” extraídas do programa radiofónico do lendário “dj” britânico.
Para trás ficara o brilho de “Faust” (1971), “So Far” (1972) e “The Faust Tapes” (1973), bem como as colaborações em “Outside the Dream Syndicate”, de Tony Conrad (sério rival de “Metal Machine Music”, de Lou Reed, como disco mais inaudível de todos os tempos), e “Acnalbasac Noom”, dos Slapp Happy (“Casablanca Moon” de trás para a frente, versão simplificada de “Slapp Happy”, segundo álbum, na Virgin, do grupo de Anthony Moore, Peter Blegvad e Dagmar Krause).
“Rien” está à altura da mística dos Faust, desde o ilusionismo da apresentação e do invólucro. Depois da transparência absoluta de “Faust”, do negro retinto do “So Far” (mais as gravuras na edição original e no CD japonês) e de “The Faust Tapes” comercializado ao preço de um “single”, é a piada, a fazer jus ao título, de um livrete de oito páginas em cor de prata sem nada impresso. Nada aí, nada na lombada, “rien de rien”, nada de nada! Apenas um cartão minúsculo com uma foto desfocada do actual duo e, no verso, a mesma radiografia da mão do primeiro álbum.
Na faixa inicial, silêncio total. A segunda começa por contar o tempo de forma decrescente, com alguém a anunciar “C’ est rien, de Faust”, passando depois a avançar em sentido contrário. Na sétima e última, duas vozes desfasadas, uma feminina, outra masculina, fazem a apresentação da ficha técnica, em inglês e alemão. A produção, só então ficamos a saber, pertence a Jim O’ Rourke, activista norte-americano da música electrónica, com obra gravada na Extreme.
É um álbum violento, radical como todos os álbuns dos Faust. Talvez o mais radical e violento de todos. Ferro ferrugento mais broca de dentista. Desapareceram o humor (“Krautrock”, lembram-se?), o romantismo enferrujado e as típicas baladas esvoaçando em melodias do outro mundo, como “Meadow meal”, “On the way to Abamäe” ou “The sad skinhead”. Em 1995 o céu cobriu-se de um tecto de nuvens e o ar é constantemente riscado por estática e jactos de ácido sulfúrico.
“Rien” prolonga a agonia sonora do lado mais experimental e ruidoso da banda até ao ruído rosa. É o “noise” industrial a reivindicar direitos de autoria sobre súbditos como Einsturzende Neubauten, Test Dept. ou Asmus Tietchens. Despertos da longa letargia, os Faust voltaram para inundar de novo o planeta com pesadelos e ácido com muita estricnina. “Rien” é o niilismo elevado à categoria de arte, numa aula de química adulterada. E a demonstração de que os Faust têm mais do que uma alma para vender ao diabo.



Faust – As Estratégias do Diabo

Blitz

17.10.89
VALORES SELADOS

FAUST
AS ESTRATÉGIAS DO DIABO

faust

Se há grupo que nos últimos 30 anos de música popular, soube guardar ciosamente os seus segredos, esse grupo foi certamente o dos Faust. Os seus membros sempre se esconderam num secretismo cerrado, ficando para a História os discos e as raras aparições ao vivo. Nestas últimas, conta quem viu, costumavam tocar na penumbra e rodeados de televisores ligados. Para se entreterem enquanto tocavam, diziam. Se a sua própria actuação não lhes agradava especialmente, limitavam-se pura e simplesmente a abandonar os instrumentos e a ver calmamente os seus programas preferidos.
Mas a lenda foi construída graças aos discos que gravaram. Em todos eles os Faust deixaram bem impressa a marca do génio. Entre 71 e 73 editaram quatro álbuns, correspondendo a outras tantas obras-primas. 16 anos depois da saída de «Faust IV», com que encerraram a sua existência oficial, poucos grupos de poderão orgulhar de terem alcançado os níveis de qualidade absoluta e originalidade radical que estes germânicos lograram atingir.

A Torre de Babel

Não é fácil definir a sua música. A audição de cada um dos discos revela-nos uma síntese de influências tão diversas como a canção pop, a música concreta, o free jazz, as sonoridades clássicas ou um humor corrosivo filiado na tradição Zappa. Todos estes registos são unificados e filtrados por uma abordagem específica e única para a época, traduzida numa utilização revolucionária das técnicas de mistura e gravação. Os Faust foram o primeiro grupo a utilizar o estúdio como instrumento musical. A sua música é uma gigantesca colagem de sons desmontados e voltados a montar as vezes necessárias até se atingir o resultado pretendido: uma música extremamente diversificada e complexa e, no entanto, perfeitamente coerente. O segredo dos Faust está na arte de juntar e harmonizar sons e palavras aparentemente irreconciliáveis. O 1.º álbum chamava-se simplesmente «Faust». Foi editado em 71 e provocou a perplexidade total. A começar pela capa e terminando na música, tudo era diferente do que até então era suposto um grupo pop fazer. A capa e o vinil eram totalmente transparentes, sobre os quais aparecia a radiografia de um punho fechado. Esta 1.ª edição esgotou rapidamente sendo a capa das edições seguintes já em cartão. Anos mais tarde a Recommended Records reeditava o disco com a capa original. Mas se a capa era original, que dizer da música? Era a grande pedrada no charco. O que os nossos ouvidos escutaram não se parecia com nada a que estivéssemos habituados. Era o 1.º grande golpe desferido nas convenções e tabus do Rock. O álbum abre com «Why don’t you eat carrots»: sobre uma massa electrónica zunindo de canal em canal, soavam os estertores finais de «All you need is love» e «Satisfaction», dos dois grandes mitos da época, os Beatles e os Stones. Sucediam-se rapidamente um solo de piano desafinado, gritos, sons de motorizada ou algo parecido, até o tema entrar em força de forma não menos esquisita. O 2.º tema, «Meadow Meal», cheio de reverberações e jogos de palavras, passava por um rock ultra pesado, terminando com um órgão de pedais soando melancolicamente sobre sons de trovoada. O 2.º lado é ocupado na íntegra por «Miss Fortune», tocado ao vivo em estúdio e absolutamente indescritível. A ideia geral é a de que todos os músicos se encontravam em adiantado estado de embriaguez. Pelo meio aparecem algumas melodias dos Beach Boys, tocadas em serra eléctrica. Um espanto e um directo bem dirigido aos preconceitos reinantes na época dos sinfonismos e progressismos vários. Em 72 é editado o álbum seguinte «So Far». Desta vez é tudo em negro: capa, disco e rótulo central, sem qualquer informação. A versão original continha uma série de gravuras alusivas a cada um dos temas. «So Far» é ainda mais estranho e diversificado que o seu antecessor. Sucedem-se temas magníficos como «It’s a Rainy Day, Sunshine Girl» de uma violência obsessiva, «So Far», mais industrial e ameaçador que todos os actuais industrialismos juntos, a beleza acústica de «On the Way to Albamae», as delirantes paródias de «Mamie is Blue» e «I’ve got my car and my TV» ou o blues degenerado de «In the Spirit». Em 89, «So Far» continua à frente de quase tudo. Descubram-no, ouçam-no e pasmem.

Os anos da virgindade

O grupo assina entretanto pela Virgin, com Richard Branson, nessa época, apenas preocupado em contratar todos os nomes importantes da música vanguardista europeia. O 1.º trabalho editado já com o novo selo é «The Faust Tapes», como o nome indica, uma recolha de material original não incluído nos dois primeiros álbuns. É uma colagem sonora nonstop, 42 minutos de inspiradíssima loucura, exemplo paradigmático do estilo e do génio do grupo. Os géneros mais heterogéneos sucedem-se numa cadência delirante, fazendo deste disco um precursor das técnicas posteriormente utilizadas, em novo contexto, por John Zorn. Experimentalismo radical, truques de gravação e mistura espantosos e melodias do outro mundo tornam «The Faust Tapes» numa peça fundamental da música do nosso século. O disco termina com a recitação, em francês e alemão de um texto surrealista, acompanhado unicamente por uma guitarra acústica. Parece simples? Escutem o resultado e abram a boca de espanto. Os Faust faziam maravilhas com os meios mais exíguos.
«Faust IV» é editado em 73, de novo pela Virgin. A formação original do grupo, até então constituída por Jean-Hervé Peron, Werner Diermaier, Joachim Irmler, Arnulf Meifert, Rudolf Sosna e Gunther Wusthoff, dissolve-se, saindo Diermaier, Meifert e Sosna, substituídos por Uli Trepte, vindo dos Amon Duul II e Peter Blegvad que viria posteriormente a formar os Slapp Happy.
«Faust IV» é o álbum da sedimentação de um estilo já então reconhecido nos meios mais vanguardistas. O som apresenta-se mais limado, a sequência das faixas é mais clássica, o choque é menor, em todos os aspectos. «Krautrock», uma divertida crítica ao então designado «Rock Alemão» ou «The Sad Skinhead», mais uma melodia perfeita das muitas que o grupo compôs, são dois momentos significativos de um álbum à altura dos anteriores.

A lenda de Fausto

Com «Faust IV» fechava-se um capítulo de ouro, escrito em apenas três anos por um grupo inesquecível. Nesses três anos os Faust tinham revolucionado toda a música popular. Os motivos da dissolução nunca foram tornados públicos. O mistério mantinha-se até ao fim. Ficaram a lenda e algumas colaborações dispersas de alguns dos seus membros. «Outside the Dream Syndicate» do radical Tony Conrad ou a gravação original do 1.º álbum dos Slapp Happy são as que merecem maior destaque. A partir de aí foi o silêncio.
Foi necessário esperar até 1986, ano em que a Recommended edita «Return of a Legend-Music & Elsewhere», com material inédito gravado já após a dissolução do grupo. Finalmente, em 88, a mesma Recommended edita ainda «The Last LP» também conhecido como «The Party Album», com honras de versão em CD. Este derradeiro testemunho dos lendários germânicos contém ainda alguns originais além de novas misturas de temas antigos. Ambos os discos são indispensáveis para a compreensão o alcance e da influência decisiva que os Faust exerceram na música do nosso tempo.
Hoje têm dignos continuadores nos Residents e nos Negativland. O canadiano Jocelyn Robert também se pode considerar como um dos seus mais brilhantes discípulos, levando ás últimas consequências a arte da colagem sonora. Ainda uma referência para os Biota e a sua estética do ruído harmonioso. Foi pois a América quem melhor soube compreender a lição dos mestres. Os compêndios estão disponíveis para todos os interessados.
Para a semana Daevid Allen e o seu planeta Gong.

The Faust Tapes: aqui