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Festa Do “Avante!” – “Festa Do ‘Avante!’ Terminou Domingo, Na Atalaia – José Afonso Não Foi Avante”

cultura >> terça-feira >> 06.09.1994


Festa Do “Avante!” Terminou Domingo, Na Atalaia
José Afonso Não Foi Avante



Música até à exaustão, a confusão do costume, este ano suavizada por melhores infra-estruturas, uma enorme desilusão, dos Band of Hope, e Zeca Afonso cortado, marcaram a XVIII edição da Festa do “Avante!”. Ninguém se importou muito com isso, até porque o principal objectivo continua a ser, custe o que custar, a diversão.

É ponto assente que ninguém, ou quase ninguém, vai à Festa do “Avante!” para ouvir música. O objectivo é acima de tudo “curtir”. Na festa do jornal do partido comunista, “curtir” abrange um leque de actividades tão vasto como dormir durante todo o tempo em que decorre um concerto, fazer mel (carícias de índole sexual) com o(a) parceiro(a) e fumar e beber exageradamente, entre outras. Continua “in” andar cambaleante, segurando uma lata de cerveja, com o olhar ausente e a voz arrastada e falar ao amigo(a) nesse estado, como quem diz: “Estou na maior!”
Este ano a novidade, já ensaiada noutras ocasiões, foi, durante as actuações no palco maior, “25 de Abril”, lançar garrafas de água, vazias ou cheias, furiosa e indiscriminadamente em todas as direcções, criando, dentro do seu estilo, uma bela e curiosa coreografia inserida na chamada estética do caos.

Sem Esperança

Depois de, na sexta-feira, Carlos do Carmo ter atraído à quinta da Atalaia um público mais calmo e mais velho para ouvir os fados e canções deste velho resistente da canção nacional, a festa entrou sábado no ritmo normal, com o recinto invadido por muitos milhares de pessoas que, ano após ano, vêm atraídas pela ideologia, pelo espectáculo ou simplesmente para se misturar na multidão e se divertir da melhor maneira possível.
Músicas houve, como de costume, não de todos os géneros nem para todos os gostos mas ainda assim em quantidade suficiente para satisfazer diversas camadas de público. Dos nomes grandes em cartaz, o êxito maior pertenceu a Johnny Clegg com os Savuka, que fecharam a noite de sábado. Um ritmo imparável, canções por vezes próximas do estilo de Paul Simon e movimentações de palco esfuziantes, aliadas a uma tónica interventiva, com alusões a Nelson Mandela ou à situação em Moçambique, trouxeram sonoridades quentes e algum exotismo (presente nomeadamente na concertina “zulu” que Clegg tocou por diversas ocasiões) pelo branco mais negro da África do Sul. Os cubanos Guajira Habanera, ao contrário do que estava anunciado, não actuaram, sendo substituídos pelo grupo da sua compatriota e cantora Omara Portuondo, sem deslumbramento. Cândido Mota, o apresentador, ainda tentou politizar, incentivando a mole humana a gritar o slogan “Cuba sim, bloqueio não!”, mas além da resposta não ser animadora ainda teve a agravante daquela jovem que gritou lá de trás: “E viva Salazar!”
Domingo, no palco 1º de Maio, os Hollmes Brothers dispararam sobre uma assistência entusiástica, amontoada sob uma gigantesca tenda de circo, doses maciças de energia, com os seus “blues” e “gospels” eléctricos que mais não necessitaram para se fazer entender do que uma guitarra, um baixo e uma bateria que acreditam e vivem em absoluto o que têm para dizer. O mesmo não aconteceu com os Band of Hope, uma superbanda de folk inglesa “do melhorio”, nas palavras de Cândido Mota, que chegou atrasada e aproveitou o primeiro tema para fazer o ensaio de som. Som que esteve péssimo do princípio ao fim e nunca permitiu escutar em condições o virtuosismo instrumental de Dave Swarbrick, no violino e bandolim, Martin Carthy, guitarra (mal se ouviu) e voz, e John Kirkpatrick, acordeão e concertina, três monstros sagrados da música tradicional britânica, coadjuvados pelas cordas, percussões e as “uillean pipes” irlandesas de Stefan Hanninggan, que deste modo passaram por Portugal perante a indiferença e algum fastio de parte do público para quem a “folk” continua a ser sinónimo de copos e desbunda.
A música, na maioria constituída por baladas – cantadas de forma superior por Roy Bailey, outro nome importante da folk inglesa, e um dos mais empenhados na crítica social e política do seu país, conhecido em Portugal sobretudo pelo seu trabalho em duo com Leon Rosselson – narrando situações e personagens da história recente da Inglaterra (o desemprego, o problema da habitação, etc.) obteve fraca receptividade da assistência que aos poucos se foi desmobilizando e abandonando o recinto. Desilusão.

Zeca Fica Para Depois

Do lado nacional, as várias bandas que escutámos, na generalidade cumpriram. Laurent Filipe e os seus Sons de Mundo iluminaram a noite de sexta com o seu etno-jazz picante, bem musculado de sopros e percussões. Os Meninos da Avó gozaram à farta numa volta musical a Portugal, que meteu vozes foleiras, o “Sobe sobe balão sobe” de Manuela Bravo e a “Mula da cooperativa” de Max. Os Peste & Sida arrasaram com o seu rock & roll à beira de um ataque de nervos, sempre em velocidade máxima com passagem obrigatória pelo “Homem da Gaita” de José Afonso. Uma estalada no conformismo dada, como já é hábito, por uma banda que não se cansa de se enfurecer. Um Nuno Guerreiro afinadíssimo na Ala dos Namorados pôs água na fervura, lançando sobre a noite um manto pop tecido sobre madrigais e arabescos vocais que, por mais de uma vez, recordaram os trejeitos e algumas notas de Wim Mertens.
Coube à Sétima Legião, com os Gaiteiros de Lisboa, encerrarem no palco grande a Festa do “Avante!” Mais alegres e soltos que no passado, a Sétima parece ter entrado na sua fase mais “étnica” de sempre, percorrendo a seu modo o eixo que une os extremos árabe e celta da música tradicional. Os Gaiteiros, é claro, ajudaram, sem terem estado brilhantes, com as gaitas-de-foles, tambores e flautas casando ou intercalando bem com a sensibilidade pop do grupo principal.
Absurdo foi o que aconteceu mesmo ao cair do pano, no Auditório 1º de Maio, onde a “honra” do fecho das festividades foi entregue ao quinteto do saxofonista Carlos Martins e ao seu projecto “Tocar (n)o Zeca”, sobre canções de José Afonso. Só que, devido aos atrasos sucessivos do programa e ao adiantado da hora, a banda – Carlos Martins, Claus Nymark, trombone (ambos excelentes nos solos e diálogos contrapontísticos), Mário Delgado, guitarra, Carlos Barreto, contrabaixo e Alexandre Frazão, bateria – viu-se forçado a tocar apenas quatro temas, sob a ameaça de corte de energia, truncando deste modo um espectáculo e um conceito que vivem de um todo que não se compadece com acidentes deste tipo. Carlos Martins soube, mesmo assim, contornar o obstáculo com ironia, entrando o colectivo em força com “O que faz falta”, que, como toda a gente sabe mas o líder da banda fez questão de frisar, “é avisar a malta”. Seguiram-se uma versão “coltraniana” de “Maio, maduro Maio”, “Tensão” – um original do guitarrista Mário Delgado – e uma “Grândola, vila morena”, “cheia de utopias” e “sem partido político”. Quem quiser ficar a saber como o jazz toca na música de Zeca Afonso terá agora que deslocar-se, na próxima sexta-feira, ao café Luso, no Bairro Alto, em Lisboa, onde o quinteto de Carlos Martins apresentará na íntegra este projecto.
Consumados a festa e o inferno consequente, nos acessos de regresso à ponte, onde longas filas de automóveis esperaram até altas horas da madrugada, ficou a imagem daqueles artistas de que ninguém fala, tocando quase escondidos nos palcos minúsculos espalhados pelo recinto: Sónia Mosca, “organista de baile”, mini-saia e decote tímidos, um rosto espantado, uma caixa-de-ritmos, alguns pares perdidos noutra dança, em cena digna de um filme de David Lynch. Ou a Orquestra Ligeira de Pinhal de Frades, mini-filarmónica de adolescentes com direcção do Sr. Maurício.

Carlos Do Carmo – “Fado Marítimo” (concertos / coliseu dos recreios / artigo de opinião)

(público >> cultura >> portugueses >> concerto)
terça-feira, 14 Outubro 2003


Fado marítimo

Carlos do Carmo
LISBOA Coliseu dos Recreios
13 Outubro
Sala cheia



Era para ter sido apenas um. Foram dois. Podiam ter sido mais. Os espetáculos de celebração de 40 anos de carreira de Carlos do Carmo, que sábado e domingo tiveram lugar no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O público de Carlos do Carmo é Lisboa inteira. Mas não só. Vieram pessoas de todos os pontos do país, mas também de Paris ou de Nova Iorque, de propósito para acompanhar o fadista nesta data especial. E o homenageado correspondeu dando, como de costume, tudo de si, numa entrega sem limites em que o homem, a cidade e o fado se entrelaçam.
Domingo, consumada a efeméride “oficial” do dia anterior, foi, como o próprio fadista acentuou, “diferente”: “É esse o desafio”. Porque as pessoas eram outras e é para elas que Carlos do Carmo canta, iríamos jurar que para cada uma em particular, se tal fosse possível.
Ignorando a idade e o cansaço, a voz continua, hoje como há 40 anos, límpida. Fazendo escorrer a emoção sem a sufocar. Cantou-se o fado, por entre os silêncios de que o fadista tanto gosta, e a euforia. “Cantou-se” e não “cantou” porque o público fez questão de cantar “Os putos” e “Canoas do Tejo”, chamando a si as melodias.
Com Ricardo Dias, o bandoneonista Walter Hidalgo (a misturar as águas do Tejo e do rio de la Plata, Lisboa e Buenos Aires, o fado e o tango, em “Dois portos”), ou com Júlio Pereira (num encontro a meio da sala, sob a luz de um holofote, na evocação da vida anónima de “O vendedor de castanhas”), Carlos do Carmo disse a dois a amizade e o respeito pelas várias músicas do mundo.
Mais difícil, a exigir ginástica e concentração absolutas, foi o dueto com o contrabaixista Carlos Bica, em “Teu nome Lisboa” (“mais tarde ou mais cedo, vou-os pervertendo a todos, e trazendo-os para o fado”). Bica, porém, não se deixou “perverter”, sem se afastar em demasia de um fraseado tipicamente jazzístico. Mais do que acompanhar, espicaçou e propôs vias de diálogo em território neutro.
O momento de interregno em que foram exibidos, em projeção vídeo, depoimentos de músicos e amigos (Vasco Graça Moura, Manuel Alegre, Moniz Pereira, Fernando Tordo, Luís Represas, Ana Moura e a sua mulher Judite do Carmo) aos quais o fadista ia respondendo, como se estivesse a falar com elas em pessoa, acentuou a solenidade, mas também a cumplicidade do acontecimento.
Mas foi quando a orquestra Sinfonieta de Lisboa, sob a direção de Vasco Pearce de Azevedo, tocou os arranjos escritos por Bernardo Sassetti, alguns também pelo maestro, para “Fado Ultramar”, “Fado maestro” ou “Um Homem na cidade”, que o fado se transfigurou em mar universal. Entrou-se num oceano de estrelas, mil marés nas ondas dos violinos e dos metais. Em contraponto, Sassetti, debruçado sobre o piano, entregou ao fado as notas do impressionismo. Carlos do Carmo retribuiu, chamando-lhe um “dos maiores talentos da música portuguesa”.
Por fim, mas não o fim – “Tens que continuar!”, gritou alguém, emocionado, da Geral –, a enganar o cansaço que duas horas ininterruptas de espetáculo inevitavelmente provocam, Carlos do Carmo avançou de novo, desta vez sozinho, para o meio do seu público, para cantar, sem amplificação, as lágrimas a bailarem-lhe no rosto, “Viela”. As palavras e a voz a pairarem, mais nítidas do que nunca, sobre aquele silêncio marítimo onde tudo aflui e se resolve. Como na Lisboa de Álvaro de Campos, dos versos: “E a grande cidade agora cheia de sol/ E a hora real e nua como um cais já sem navios/ E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira/Traça um semicírculo de não sei que emoção/ No silêncio comovido da minh’alma…”. O fado.

Carlos Do Carmo – “Carlos Do Carmo Celebra 40 Anos De Carreira” (concertos + entrevista)

(público >> cultura >> portugueses >> concerto + entrevista)
sábado, 11 Outubro 2003
destaque


CONCERTOS NO COLISEU

CARLOS DO CARMO CELEBRA 40 ANOS DE CARREIRA


Não são só os Rolling Stones que estão a celebrar 40 anos de carreira. Carlos do Carmo também. Um espetáculo de gala, hoje e amanhã, no Coliseu dos Recreios, um disco de raridades, um DVD e uma exposição juntam-se para comemorar a efeméride. O “charme” do fadista de Lisboa é imperecível. E as suas histórias também



Sente-se a adrenalina a fervilhar, o fado a engalanar-se, a expectativa a crescer, à medida que o grande momento se aproxima. Esta noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, Carlos do Carmo, o mais importante fadista vivo, sopra as velas de 40 anos de uma carreira não isenta de percalços mas, apesar de tudo, feliz. A lotação, esgotada, obrigou à realização de um espetáculo extra, marcado para amanhã. Mais uma prova de que o público o continua a acarinhar. “Sim, tem-me tratado bem.”
O autor de “Um Homem na Cidade”, “Um Homem no País” e o mais recente “Nove Fados e Uma Canção de Amor” é um sobrevivente e um inovador. Do fado e de uma Lisboa que, provavelmente, apenas já só existe no queixume das guitarras. Esta noite não será uma prova dos nove mas a prova real de que, sem ele, como sem Amália, o fado teria sido outro.
É também uma prova de coragem. Depois de uma primeira parte em que será acompanhado por Ricardo Rocha e José Manuel Neto (guitarra portuguesa), José Maria Nóbrega e Carlos Manuel Proença (guitarra) e Fernando Araújo (baixo), Carlos do Carmo terá como convidados, na segunda parte, para fazer uma série de duetos, Carlos Bica (em “Eu, nome Lisboa”), Júlio Pereira (“O homem das castanhas”), Ricardo Dias, Ricardo Rocha e Walter Hidalgo. A orquestra Sinfonieta de Lisboa interpretará arranjos especialmente escritos para a ocasião pelo pianista Bernardo Sassetti, também presente como solista.
Quarta-feira, local do ensaio: a Sinfonieta de Lisboa ensaia com o fadista e o pianista um novo figurino para o fado que se adivinha grandioso. Afinam-se os instrumentos, o ambiente aquece. Após algumas conversas
de descontração, o maestro Vasco Pearce de Azevedo manda a orquestra “tutti” tocar a “Canoa do Tejo”, de Frederico de Brito. A seguir, um naipe instrumental de cada vez. Primeiro as cordas. Agora os sopros. A orquestra, de 40 elementos, é composta na sua maioria por jovens, a maior parte mulheres. Há quem levante dúvidas e dê sugestões. No compasso tal, “é um lá natural ou um bemol?”. “Esta frase não ficaria melhor assim?” O maestro mostra-se satisfeito mas impõe correções. “Dois compassos, no novo arranjo, não são para ser tocados, saltem por cima!” “É para correr para a frente e não para trás.” “Está bem assim!”
Bernardo Sassetti levanta-se e explica a partitura. “Sim, aqui é mesmo um crescendo.” “Não, esse bemol aplica-se somente ao compasso inicial.”
Sentado a seu lado, Carlos do Carmo espera pacientemente a altura para entrar. Quando o faz, a voz, sem amplificação, mal se consegue ouvir entre o nível sonoro da orquestra. Mas Sassetti está atento e sorri, mesmo quando um ou outro pormenor não corre ainda na perfeição. “Faltam as guitarras…”, justifica-se o fadista. E recomeça-se de novo, ainda com mais entusiasmo. No final tudo bate certo e nasce uma nova “Canoa do Tejo”, pronta a navegar quando daqui a poucas horas as luzes do palco se acenderem.


“Cada espetáculo é uma questão de vida ou de morte”

ENTREVISTA COM
CARLOS DO CARMO


Puseram-no, por engano, diante de uma plateia de “heavy metal” mas ama o seu público ao ponto de ter cantado apenas para um casal, na sua antiga casa de fados. Carlos do Carmo, o bairrista e o homem do mundo, entrou no fado pela porta grande e é por ela que há-de sair.

Um CD de compilação de fados gravados nos anos 70 e 80 dispersos por singles e EPs, intitulado “No Tempo do Vinil” (ver crítica no “Y” de ontem). Um DVD, realizado por Rui Pinto de Almeida, ainda sem data de saída, reunindo excertos do espetáculo desta noite, no Coliseu, e de outro em Frankfurt, mais a biografia e discografia escritas e uma entrevista com o artista. Uma exposição, “Um Homem no Mundo”, na Casa do Fado e da Guitarra Portuguesa, em Lisboa, de 15 deste mês a 15 de Fevereiro. Um outro disco, de homenagem ao fadista, com edição prevista para 2004. Tudo com o objetivo de celebrar uma carreira longa de 40 anos.
Carlos do Carmo garante que a retirada está para breve, como confessa nesta entrevista. Talvez. O seu fado, porém, ficará para sempre.
PÚBLICO – Escolheu como local desta celebração o Coliseu dos Recreios por algum motivo especial?
CARLOS DO CARMO – Já lá cantei muitas vezes. Voltei a escolhê-lo por uma razão afetiva. 40 anos é muito ano e, embora não esteja seguro de coisa nenhuma, posso dizer, com 99,9 por cento de probabilidade, que não vou celebrar os 50 anos. Este concerto vai ser mesmo um marco. Já não tenho mãe nem pai e esta é a sala onde os meus pais me levavam quando era criança, para ver o circo. Depois, quem o remodelou, para o Lisboa 94, foi um amigo meu, o arquiteto Maurício de Vasconcelos. E o grande operário desta casa foi das pessoas mais curiosas que conheci no mundo do espetáculo, daquelas que só os artistas conhecem, o mestre Constantino, o homem que manteve o Coliseu durante anos e anos.
No concerto vai fazer um apanhado de carreira? Seria tarefa difícil…
Nem eu tenho essa pretensão. Centra-se tudo na gratidão aos músicos e aos autores. Os convidados são todos músicos.
Será curioso verificar se mantém o mesmo estado de espírito, mais solto, que tem marcado as suas conversas com o público, em ocasiões recentes… Foi-se, em definitivo, o “politicamente correto”?
Entendo… Com a idade ganhei outro respeito por mim próprio a par de um grande respeito pelas pessoas. Prefiro que me conheçam tal qual sou. Talvez essa fase do “menino certinho” tenha desaparecido. Mas é algo que passa sempre por um afeto acumulado, embora desta vez não tenha muito a intenção de falar, vou deixar antes falar os meus autores. Mas é verdade que as pessoas me tratam muito bem.
Todas?
Não pretendo consensos nem unanimidade, contra os quais sou completamente contra. Quando ouço dizer, “fulano é uma pessoa impecável”, tenho certas suspeitas. Faz-se amigos como se faz inimigos, faz parte do processo. Mas as pessoas têm-me dado muito. Agora, porém, cada espetáculo é uma questão de vida ou de morte.
Como assim?
Por instruções do meu médico, não posso fazer mais do que 20 espetáculos por ano, no máximo. Está a falar com um homem que fazia 100, 150, calmamente, e que continua a ter pedidos para o fazer. Mas já não tenho saúde para isso. Então este ato isolado de cantar, cada vez mais isolado, torna-se um grande desafio. Faço-o com grande intensidade. E há outra coisa: esta acumulação de ligação com as pessoas, num processo de 40 anos, permite fazer como que gráficos da euforia e da depressão das pessoas.
Neste momento estamos numa fase de depressão coletiva. E eu estou a tentar fazer uma festa num período de depressão. Não é fazer a festa dentro da festa, como já aconteceu nos períodos de euforia, neste caso é um bocado contra a corrente, no sentido do bem-estar das pessoas e em relação ao que as cerca, a sua intranquilidade, as injustiças, mesmo a questão económica.
Sei que a sala está quase esgotada mas estou convencido que podia esgotar duas ou três se as pessoas que gostam de me ouvir tivessem meios para isso [na altura em que esta entrevista foi feita, não se encarava ainda a hipótese de um segundo espetáculo, o que acabou por acontecer]. Sei de muita gente que me pergunta se vai passar na televisão, por não poder ir. Isso dói-me. Neste momento estou em paz comigo. Sou um tipo com defeitos e virtudes…
Continua a sentir a necessidade, ou vontade, de experimentar novas fórmulas para o fado?
Claro. É um desafio tocar com os jovens músicos, como o Ricardo Rocha ou o Carlos Manuel. É a minha necessidade de ouvirmos, de trocarmos ideias. É bom para ambas as partes. Eles gostam de aprender alguma coisa comigo mas também sabem que gosto de aprender com eles. É saudável e provoca em mim uma necessidade de proceder a ruturas.
Hoje, como calcula, já não tenho a mínima preocupação com os puristas. Há uns anos ainda me incomodava, quando eles me chamavam a atenção de que aquilo não era fado, não era nada. Desde “Um Homem na Cidade” perdi o respeito pelos puristas. Na altura agrediram-me tanto… Hoje já dizem que é um dos grandes discos da história do fado, o melhor dos últimos 30 anos… Mas conheci puristas de outro timbre, que ouviam a minha mãe [Lucília do Carmo] e e foi com eles que também aprendi a ouvir fado. Mas eram pessoas com um radicalismo culto. Quando me começam a dizer “assim já não é fado”, só por retórica, apetece-me logo cantar outra.
Hoje fala-se muito na distinção entre fadistas e cantores de fado. Faz sentido para si?
Não obrigatoriamente. São ciclos. Olhe… perdoai-lhes Senhor! (risos)
O disco agora editado, “No Tempo do Vinil”, é um sinal de nostalgia?
Peguei em fados que apenas existiam em pequenos discos em vinil, nunca tinham saído sequer em LP. Chegou a altura de fazer uma arrumação da minha discografia. Pertencia ao meu grupo de sonhos, gravar no selo Philips. Em 1968 entrei na casa que é hoje a minha gravadora, embora o nome tenha mudado para Phonogram, Polygram, hoje Universal… É a casa onde considero que tenho a base da minha discografia. É aqui que estou a arrumá-la, enquanto estou vivo.
Essa arrumação é assim tão importante para si?
Penso não cantar muito mais tempo… Tem que haver um equilíbrio… Agora que me sinto feliz por estarem a chegar pessoas mais novas, também gostaria de sair pela mesma porta por onde entrei; não gostava que me empurrassem. Não sejamos hipócritas. Nunca ninguém neste país foi tão homenageado como a Amália. É consensual. Mas as pessoas também se lembram de que nos últimos anos iam assistir aos espetáculos dela e vinham de lá profundamente tristes, dececionadas e assustadas. E comentavam. Confesso que não gostava de que isso me acontecesse. Prefiro que guardem de mim uma imagem de força. Como não sei quando estas coisas acontecem… Mas há avisos. Ainda não senti nenhum, mas prefiro antecipar. Até porque também tenho uma vida familiar. E posso ser útil, ajudar a nova geração a produzir discos, espetáculos, fazer colóquios nas universidades, em escolas, para falarmos de fado.
Não vai sentir falta das palmas?
Não… De há uns anos a esta parte, do que gosto mais é dos silêncios. Quando o público está em silêncio é fantástico. Um exemplo: num concerto em Sobral de Monte Agraço, de repente tive a sensação de estar fechado numa casa de fados, a cantar para umas 50 pessoas…
Recentemente, quando me deram o Prémio José Afonso, na Amadora, foi outra beleza de público. O silêncio. O silêncio do respeito que devemos uns aos outros.
Tem saudades de cantar nas casas de fado?
Já tenho a minha dose! Foram 20 anos, todas as noites! Mas já cantei tanto para 50 mil pessoas, na Festa do Avante! como só para duas. Aconteceu há muitos anos, na minha casa de fados. Eram para aí duas da manhã, estávamos sem ninguém, íamos fechar e entra um casal, agitadíssimo, tinham-se atrasado, vindos de Trás-os-Montes (imagine o que era uma viagem de carro nessa altura…). Se não fosse naquela noite não tinham qualquer outra hipótese. Foram extremamente convincentes, não havia rábula nenhuma, e cantei só para eles com todo o prazer.
Já foi vaiado?
Já. Tenho duas vaias. Uma no 2º concerto de Vilar de Mouros, porque se enganaram na programação e puseram-me a cantar na noite do “heavy metal” (risos). Noutra, não estava sequer a cantar, foi uma coisa nitidamente política. Estava a assistir a um espetáculo do Bécaud (a Amália também), de quem fui amigo, aqui no Coliseu. Ele faz-me uma chamada e parte do público desata a vaiar. O Bécaud ficou muito ofendido com os portugueses. Fui dar-lhe um abraço ao camarim e ouço-lhe este comentário: “Não me digas que os portugueses ainda não beberam chá!?”
Por falar em músicos francófonos, “No Tempo do Vinil” faz pensar em Jacques Brel…
Você está-me a lisonjear. Isso honra-me. Mas será porque essa foi uma época em que ouvia muito Brel. Haverá uma assimilação de intenção. O Brel não brincava com as palavras. Aliás, o Brel não brincava com a vida.
Ao ouvir este disco fica-se a pensar que bem poderia cantar um disco de standards de jazz. Já pensou nisso?
Mas eu canto! Canto imensas coisas do Sinatra. Aconteceu-me uma vez uma história engraçada. No Porto cantei a meias com o meu filho Gil [Gil do Carmo] o “I’ve got you under my skin”. Quando acabei, o Rui Veloso, que também participava no espetáculo, entra-me pelo camarim aos gritos: “É pá, tu tens que gravar um disco de ‘standards’ e eu quero produzir esse disco!” Mas o que é que se passara, que o tinha tocado assim tanto? “Tu cantas isto de uma forma especialíssima…” Mas é natural, respondi-lhe, sou um fadista!
Ainda tem sonhos?
Tenho tanta coisa maluca na minha cabeça! Quando gravei o “Margens” (1996), com música do José Luís Tinoco – o disco foi muito mal-amado, a rádio não tocou, coisas que acontecem, embora tenha atingido, nas vendas, os mínimos olímpicos –, veio ter comigo uma amiga minha, judia, que sobreviveu ao Holocausto e nessa altura se encontrava em Lisboa, que resolveu fazer uma versão italiana dos fados desse álbum. Não uma tradução literal mas uma adaptação ao italiano. Aquilo está uma coisa tão linda, tão linda, que um dia destes passa-me uma coisa pela cabeça e sou capaz de cantar um fado em italiano!

“Fui um menino burguês”

Carlos do Carmo fala da sua infância e da nova geração de fadistas
Sente-se um homem solitário, como um dos últimos representantes de uma geração de charneira?
Desapareceram figuras, não muito mediáticas, é verdade, como o Fernando Maurício, o Francisco Martinho, o António Rocha, o Zel, mas ainda cantam o João Braga, o Rodrigo… Somos uma geração que fez a ponte entre a chamada geração de ouro, os nossos mestres, ainda aproveitámos a tradição oral, hoje tentamos passar o testemunho aos mais novos, num tempo dominado pela tecnologia e a mediatização. Como o fenómeno Mariza que, no curto espaço de dois anos, fez uma carreira internacional. No meu tempo era impensável.
Quer dizer que se fazem hoje fadistas à pressão?
Não, embora o marketing, claro… mas não quer dizer que as pessoas não cantem bem.
Cantar bem, chega, para se ser fadista?
O resto vai-se acumulando… A Mariza vem de uma família que vive na Mouraria e por isso desfruta daquela vida de bairro, o que é de uma enorme importância. Torna as coisas genuínas.
E no seu caso?
Embora tenha sido, por proteção dos meus pais, um menino burguês, completamente protegido: escola, liceu, colégio na Suíça… Mas vivi, até me casar, no bairro da Bica. E trabalhei até aos 40 anos no Bairro Alto. Essa vida de bairro, taco a taco com as pessoas, é fundamental. Hoje, quando passeio a pé pelo meu bairro, as pessoas ainda me tratam por “menino”. Um encanto. A vida de bairro ajuda a perceber a pulsação de Lisboa.
Encontra uma explicação para o facto de aparecerem hoje mais mulheres do que homens a cantar o fado?
São ciclos. Há momentos em que aparecem sobretudo homens e outros em que praticamente surgem só mulheres.
Não será também porque a imagem da fadista fotogénica ajuda a vender?
Claro que pode ter importância. Mas será que uma Piaf existiria hoje com aquela imagem? Era uma mulher tão feia…! Mas quando cantava… Percebia-se a beleza que emanava dela.
Que relação mantém com a nova geração?
Há apenas cinco anos, nas entrevistas, perguntavam-me se o fado não ia acabar. Tenho os recortes. Costumava responder que não desaparecerá enquanto aparecerem cultores, quem toque, quem cante, quem escreva.
Foi preciso esperar algum tempo, de vez em quando há estas travessias do deserto. Mas eles aí estão! Também aqui encontro uma justificação para o que andei cá a fazer. E continuo a fazer, uma vez que não fui demitido.