Arquivo da Categoria: Televisão

Xutos E Pontapés – “Sempre Eles” (televisão)

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 27 JULHO 1990 >> Local

RTP


Sempre eles

CONFIRMA-SE. O programa vai passar a chamar-se “Haja Xutos”. Em cada 20 emissões, a banda de Tim e Zé Pedro participa em 21. Desta vez, a emissão é-lhes inteiramente dedicada. Ficaremos finalmente a saber “quem é quem”, isto é, a verdadeira identidade dos outros para além do Tim e do Zé Pedro. E não é só isso. Acredite-se ou não, vão ser dados a conhecer “os seus amigos” – e mais –, “com quem trabalham”, “o que gostam” (sic), tudo assuntos que espicaçam a curiosidade dos portugueses. Para tornar a coisa completa, haverá ainda “muitas entrevistas”, “reportagens” e “clips”. “A vida e o trabalho dos Xutos, inteirinha para si” (nós). Inteirinha? A sério? Longa será a emissão… E, como se não bastasse, “a par e passo quem foram as pessoas que com eles construíram carreira”. Devem estar a referir-se ao Francis. A não perder, pois, mais esta edição especial do “Haja Xutos”. Para a semana, um especial, quem sabe, sobre os UHF?
Canal 2, às 24h00

Roger Waters – “200 Mil Ao Vivo E Milhões Pela TV Assistiram Ao Megaconcerto De Berlim – O Muro Espetáculo” (concerto)

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 23 JULHO 1990 >> Cultura


200 mil ao vivo e milhões pela TV assistiram ao megaconcerto de Berlim

O muro espetáculo


Inacreditável era a expressão mais ouvida na Praça de Potsdamer, em Berlim, para qualificar a monumental encenação de “The Wall”, levada a cabo por Roger Waters, Leonard Cheshire e uma companhia de estrelas empenhada em fazer do dia 21 de julho uma data inolvidável.

Se nem tudo foi perfeito, também não desmereceu da proverbial capacidade organizativa germânica. A Imprensa não se pode queixar. Foi estragada com mimos. No hotel três bonitas alemãs informavam sobre tudo, davam papéis e ainda por cima sorriam. Já no local do espetáculo, uma tenda gigantesca montada atrás do palco, fazia estendal de iguarias e bebidas à disposição dos esfaimados e sedentos jornalistas. Não se pense naquelas barracas “à portuguesa”, do estilo “coratos, febras e tintol”. Os alemães são um pouco diferentes e, quando querem, primam pelo requinte. Que, no caso, chegou ao ponto de arranjos florais dispostos sobre as mesas e o serviço de valquírias solícitas e peito “prateleira-tapa-a-visão”.
Frente ao palco a multidão. Cerca de 200 000 pessoas estendiam-se pelo imenso recinto até perder de vista, algumas afastadas centenas de metros do palco. A festa começou logo de tarde. Primeiro só com o público, feliz apenas por estar ali, perplexo diante de um muro de 170 x 25 m, quilómetros e toneladas de cabos, torres, andaimes, ecrãs e holofotes. Cenário grandioso pronto para um dos maiores espetáculos alguma vez realizados no planeta.

à espera da noite
espanto

O ambiente geral era o de um novo Woodstock. Pacifismo, cor, bolas de sabão, corpos despidos e muita ideologia à mistura. Não se sabe se houve algum parto. Celebrava-se (obviamente) a queda do muro mas também algo mais, difusamente sentido como liberdade ainda mal saboreada. Berlim, após décadas de isolamento exorcizava-se e sublimava velhos medos e ânsias dissimuladas. Como a personagem criada por Roger Waters, condenada, após o julgamento, a enfrentar o outro lado. Crime e castigo. Como em Nuremberga. No futuro, como será?
Os Frumpy, The Hooters, The Band e The Chieftains encheram a tarde e a paciência dos poucos que se dignaram dar-lhes atenção. Os “The Band”, pelo passado ilustre, mereciam mais respeito. Ninguém lhes ligou nenhuma. Quanto aos The Chieftains, a sua música tradicional da Irlanda provou que é diferente tocar num pub para 50 pessoas de copo de whisky na mão e para 200 000 à torreira do sol. A harpa e a gaita-de-foles celebraram como puderam o sol que se escondia. Mas do que toda a gente estava à espera era que a noite do espanto chegasse. Por fim, desceu a escuridão e fez-se luz. Com meia-hora de atraso em relação ao previsto, fogo-de-artifício, explosões e a queda de minúsculos para-quedistas. A partir deste momento o mundo inteiro viu pela televisão.
A mobilidade da câmara televisiva permitiu a milhões de espectadores ver muito mais que os milhares reunidos na Potsdamer Platz. Pormenores como “close-ups” sobre os músicos ou do que se passava por detrás do muro, escaparam ao olho nu dos presentes no local. O concerto começou mal, com falta de som de retorno, levando mesmo a que Ute Lemper se recusasse a cantar o tema que lhe era destinado. Mas tudo bem: afinal o que todos queriam era ver a desmesura do espetáculo, os fumos, as luzes e os helicópteros – a construção da ilusão.

Sentir a História

Por outro lado, era importante participar, “sentir” a História, através da encenação da história de Pink (alter-ego de Waters em “The Wall”), inserida num novo contexto. O muro tornou-se plural, símbolo fácil da coerção da liberdade. A réplica reduzida a escombros certifica a queda do original. O ritual da encenação confirma o facto histórico. Paradoxo: a ilusão certifica o real.
Na primeira parte, foram momentos altos o aparecimento do boneco insuflável representando “o professor”, durante a prestação de Cindy Lauper em “Another Brick in the Wall” e a sentida interpretação de Joni Mitchell em “Goodbye Blue Sky”. Bryan Adams cumpriu a sua parte e Jerry Hall fez de “groupie” enquanto Waters/Pink deitava o televisor pela janela em “One of my Turns”, uma das melhores canções do disco.

“Fomos nós que o derrubámos”

No intervalo publicitaram-se a justa causa do “Memorial Fund for Disaster Relief” e a British Airways. Imagens projetadas sobre o paredão, de dor e sofrimento de pessoas concretas, e de figurantes anónimos formando a imagem de uma marca. O muro normalizou, nivelando o horror e a banalidade. Impensável e dispensável.
A ambulância e a seringa descomunal de “Comfortably Numb” foram os adereços que conduziram ao clímax de “Bring the Boys Back Home”, com orquestra, coro e uma banda militar soviética tocando em crescendo enquanto no muro se projetavam imagens e nomes alusivos às vítimas da guerra. Em “Run like Hell” e “Waiting for the Worms” reinou o porco insuflável de olhos vermelhos e a ameaça do totalitarismo tresloucado.
No julgamento destacaram-se Marianne Faithfull, no papel de mãe e a figura de Thomas Dolby em contorções de pesadelo. No apoteótico derrubar final de “The Wall”, a multidão rejubila. “Fomos nós que o derrubámos” – parecem gritar milhares de gargantas alemãs, exultantes na recuperação da identidade perdida.
O espetáculo encerrou com um “Do They Know it’s Christmas” de ocasião, as personagens “más” arrependidas, cantando em coro as virtudes da paz reencontrada e jurando que a maré mudou. Resta saber para que lado.
Tudo acabou como começou – com fogo-de-artifício e focos de holofotes varrendo o céu de Berlim.

Roger Waters – “O Muro Em Espectáculo” (RTP | concerto)

PÚBLICO SÁBADO, 21 JULHO 1990 >> Local


RTP

O Muro em espetáculo


JONI MITCHELL, Sinead O’Connor, Cindy Lauper, Marianne Faithfull, Bryan Adams, The Band, Scorpions, Jerry Hall, Ute Lemper, Tim Curry, Thomas Dolby, Albert Finney, a Orquestra Sinfónica de Radiodifusão de Berlim Leste, a Banda das Forças Soviéticas na Alemanha, gigantescos bonecos insufláveis, helicópteros e holofotes sobre a multidão, são alguns dos elementos participantes na edificação de “The Wall”, hoje, em Berlim, frente às portas de Brandenburgo. Roger Waters acedeu a encenar ao vivo a sua fantasia, gravada para a posteridade dez anos antes da queda do muro da vergonha. A causa justifica os meios e o empenhamento. A ideia é do veterano de guerra Leonard Chishire – contribuir com a receita para a criação de uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de acidentes e catástrofes. Pretende-se angariar uma quantia de 500 milhões de libras esterlinas, 130 milhões de contos em moeda portuguesa, equivalentes a 5 libras por cada vítima dos conflitos bélicos deste século, num total de óbitos estimado em cerca de 100 milhões. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Pink Floyd faleceu na Segunda Grande Guerra e que a história da personagem principal de “The Wall”, interpretada no filme de Alan Parker por Bob Geldof, descreve, em tons de pesadelo, o percurso biográfico do autor dos recentes “The Pros and Cons of Hitch Hiking” e “Radio K.A.O.S.”. O grandioso concerto desta noite, que poderá ser visto via satélite por milhões de telespectadores em todo o mundo, constituirá um dos maiores jamais realizados, contando, para além das prestações musicais, com projeções animadas e a encenação teatral da sequência do julgamento, um dos “clímaxes” mais fortes e angustiantes de “The Wall”. Há 600 pessoas envolvidas na produção do espetáculo cuja assistência se espera que ronde os 200 mil. João Filipe Barbosa comenta, dos estúdios da RTP. Antes, está prevista a exibição de um documentário sobre o muro de Berlim.
Canal 1, às 21h00