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Roger Waters – “O Muro Em Espectáculo” (RTP | concerto)

PÚBLICO SÁBADO, 21 JULHO 1990 >> Local


RTP

O Muro em espetáculo


JONI MITCHELL, Sinead O’Connor, Cindy Lauper, Marianne Faithfull, Bryan Adams, The Band, Scorpions, Jerry Hall, Ute Lemper, Tim Curry, Thomas Dolby, Albert Finney, a Orquestra Sinfónica de Radiodifusão de Berlim Leste, a Banda das Forças Soviéticas na Alemanha, gigantescos bonecos insufláveis, helicópteros e holofotes sobre a multidão, são alguns dos elementos participantes na edificação de “The Wall”, hoje, em Berlim, frente às portas de Brandenburgo. Roger Waters acedeu a encenar ao vivo a sua fantasia, gravada para a posteridade dez anos antes da queda do muro da vergonha. A causa justifica os meios e o empenhamento. A ideia é do veterano de guerra Leonard Chishire – contribuir com a receita para a criação de uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de acidentes e catástrofes. Pretende-se angariar uma quantia de 500 milhões de libras esterlinas, 130 milhões de contos em moeda portuguesa, equivalentes a 5 libras por cada vítima dos conflitos bélicos deste século, num total de óbitos estimado em cerca de 100 milhões. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Pink Floyd faleceu na Segunda Grande Guerra e que a história da personagem principal de “The Wall”, interpretada no filme de Alan Parker por Bob Geldof, descreve, em tons de pesadelo, o percurso biográfico do autor dos recentes “The Pros and Cons of Hitch Hiking” e “Radio K.A.O.S.”. O grandioso concerto desta noite, que poderá ser visto via satélite por milhões de telespectadores em todo o mundo, constituirá um dos maiores jamais realizados, contando, para além das prestações musicais, com projeções animadas e a encenação teatral da sequência do julgamento, um dos “clímaxes” mais fortes e angustiantes de “The Wall”. Há 600 pessoas envolvidas na produção do espetáculo cuja assistência se espera que ronde os 200 mil. João Filipe Barbosa comenta, dos estúdios da RTP. Antes, está prevista a exibição de um documentário sobre o muro de Berlim.
Canal 1, às 21h00

Roger Waters – “Entre Dois Muros” (concerto | berlim | televisão | antevisão | artigo de opinião)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 JULHO 1990 >> Videodiscos >> Na Capa

ENTRE DOIS MUROS

Passada uma década sobre a edificação de “The Wall”, Roger Water, dissidente dos Pink Floyd, regressa nos papéis de arquiteto e carpinteiro. O muro volta a ser erguido. Em Berlim, claro, sobre os escombros do outro e com honras de transmissão televisiva em todo o mundo.



Os muros separam e protegem. Escondem e dividem. Existem duas espécies distintas: ou de cimento ou qualquer outro material sólido e aqueles mais subtis, invisíveis, construídos metodicamente só do lado de dentro. Os primeiros podem ser destruídos, deitados abaixo com maior ou menor dificuldade. Os segundos utilizam materiais indestrutíveis e flexíveis que resistem às pressões exteriores e às pancadas. Moldam-se a elas. Adaptam-se. Os seus construtores são fabulosos arquitetos, peritos na minúcia com que delineiam mirabolantes fantasias. Fantasmas criados com todo o cuidado, mantidos vivos e atuantes graças a um constante apelo ao medo, memória e imagens de monstros infantis.

Ascensão e Queda

Em finais de 1979, Roger Waters, músico e letrista dos Pink Floyd, banda emblemática do psicadelismo, constrói um muro descomunal gravado para a posteridade num disco chamado simplesmente “The Wall”. “O Muro” pertence ao grupo das construções mentais inabaláveis e impenetráveis. Decorridos dez anos a História confirma a regra atrás enunciada. Uma das mais sólidas paredes jamais erguidas por mãos humanas revelar-se-ia, finalmente, apenas um amontoado de tijolos. A 9 de novembro de 1989, cai o muro de Berlim, sinónimo de terror e divisão, vergado às rajadas do vento dos novos tempos.
No próximo dia 21 de julho, o muro volta a ser erguido. Desta vez como simulação e símbolo. No próprio local onde se abriu passagem entre as duas metades de um todo nacional, Roger Waters constrói de novo a sua monstruosa fantasia, sublimada em espetáculo gigantesco. O fingimento substitui o horror, o “rock”, orgia mediática, multiplicando as referências e paradoxalmente funcionando como veículo normalizador de uma realidade complexa, unificada numa estratégia de massificação simplificadora. Exorcismo simbólico e coletivo sintetizado num único conceito – o muro.

Catástrofes

A multidão que se concentrará nessa ocasião na Praça Potsdam, em frente à Porta de Brandenburgo, em plena “terra de ninguém” situada entre as duas antigas fronteiras, participará inconscientemente num acontecimento único, mas não ao nível do que será universalmente alardeado e difundido. Oficialmente, o concerto organizado por Waters e Leonard Cheshire, veterano aviador na Segunda Grande Guerra, tem como objetivo angariar fundos para uma bolsa permanente de auxílio às vítimas de catástrofes e acidentes, o Memorial Fund for Disaster Relief, funcionando por acréscimo como evocação e homenagem às vítimas dos dois conflitos mundiais e das não menos mortíferas sequelas da Coreia ou do Vietname. Recorde-se que o pai do antigo baixista e vocalista dos Floyd, também aviador, morreu num acidente da Guerra de 1914-18 e que a sua ausência é precisamente um dos fantasmas que assombram “The Wall”, o disco, abrindo caminho para a emergência do oposto matriarcal, personificado na mãe zeladora e castradora.

O Eterno Retorno

Depois de amanhã, num superespetáculo que, para além de Waters, contará com Joni Mitchell, The Band, Marianne Faithfull, Cindy Lauper, Sinead O’Connor, a Orquestra e Coro do Exército Vermelho e bandas militares, milhares de pessoas serão de novo emparedadas e embaladas nos braços quentes e protetores dos seus próprios fantasmas, na tal “no man’s land”, estrato indefinido e uterino, terra de novo fértil e semeada onde voltarão a crescer os frutos envenenados de renovados e pujantes nacionalismos. A mãe-pátria recupera a sua vocação telúrica, capaz de gerar filhos solares ou monstros disformes (como aqueles que flutuarão ameaçadores sobre a multidão durante o concerto), consoante for fecundada pelo macho do poder, em amor ou em paixão. A História nunca se repete? Ou vivemos todos adormecidos no seio de novos espectros totalitários? Não é a própria desmesura do espetáculo anunciado, em que cada espectador se quedará subjugado por um excesso de imagens e sons à escala não humana (como as figuras e o estádio monstruoso no interior da capa de “The Wall”), reduzido à condição de simples número manipulado como um fantoche, manifestação evidente de subtil totalitarismo? O indivíduo perdido na multidão e no gigantismo massificador obedece cegamente aos estímulos sonoros e visuais. Moderno ritual de obediência a ídolos que em vez do facho imperial empunham guitarras elétricas. E canções do “top” substituem hinos guerreiros. Há sempre um “Führer” disposto a gritar “slogans”. O “rock” está à inteira disposição de candidatos.
O que se pretende da celebração e festa encobre afinal mais sinistras formas. As boas intenções cumprem-se no prolongamento contemporâneo de mal enterrados horrores. Evocam-se antigos fantasmas para os exorcizar ou para os venerar? Convocam-se os mortos para celebrar a vida, esquecendo que morte e vida formam a dupla face de um mesmo rosto. O super-homem nietzschiano, como a criança, é inocente e despreza ambas com soberana alegria. Quem preside afinal à reunião, Apolo ou Dyonisius? O sol ou o solo? Berlim volta a ser centro do mundo. Destruído o muro que dividia alguns e protegia outros, o espetáculo “The Wall” volta a suscitar eternas dúvidas e recônditos receios. O novo fantasma chama-se Europa.

Fleetwood Mac – “Tango Na Noite” (televisão | concerto)

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 JULHO 1990 >> Local


Tango na noite

ENTRE A PUREZA dos blues e o circo de multidões, foi longo o caminho percorrido pelos Fleetwood Mac, hoje sinónimo de sucesso conquistado à custa de golpes de rins e algumas concessões. Da formação inicial, constituída por Peter Green, Mick Fleetwood e John McVie, mantiveram-se os dois que lhe deram o nome – o Fleetwood e o Mac. Tornaram-se notadas as vocalistas: Christine McVie, classe e “savoir faire”; Lindsey Buckingham, um rosto bonito que passou; Stevie Nicks, loura atraente, contraponto juvenil da maior veterania da colega. As harmonias vocais tecidas pela voz de ambas são a principal atração do atual som da banda. Mas nem sempre foi assim. Há quem se lembre do antigo “hit” instrumental, “Albatross”. Ou dos bons álbuns “Kiln House”, “Future Games” e “Bare Trees”. Mas foi a partir de 1975 e do relançamento com “Fleetwood Mac” que a música se alterou profundamente, tornando-se comercialmente rentável. Vamos vê-los esta noite, num espetáculo ao vivo de 1978, Tango in the Night Live, no Cow Palace de São Francisco, e escutar alguns dos seus êxitos, como “Gipsy”, “Songbird” e “Oh Well”. O regresso das senhoras.
Canal 1, às 14h50