Arquivo da Categoria: Jazz-Rock

Robert Wyatt – “Eps”

Sons

2 de Abril 1999
REEDIÇÕES


Robert Wyatt
Eps (8)
5 x CD Hannibal, distri. MVM


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Cada novo trabalho de Robert Wyatt é um acontecimento. Mesmo quando não se trata, como é o caso, de material inédito, mas de uma colectânea em forma de caixa com cinco mini-álbuns. Apesar de não haver inéditos, as diversas composições aqui reunidas foram organizadas de forma temática, o que não acontecia numa compilação como “Going back a Bit: A Little History of Robert Wyatt”, um duplo CD editado em 1994 pela Virgin. O primeiro disco, de genérico “Bits”, incide sobre a fase mais dramática da vida do antigo baterista e vocalista dos Soft Machine e Matching Mole, a seguir ao acidente que o tornou paraplégico, com cinco composições todas datadas de 1974 (o mesmo ano da obra-prima “Rock Bottom”): três “singles”, “I’m a believer” (um original dos Monkees), “Memories” e “Yesterday man” completam-se com “Sonia”, numa versão alternativa da que está incluída em “Ruth is Stanger than Richard” e um “take” ao vivo de “Calyx”, exercício de “scat” cuja versão original, de estúdio, se encontra no álbum de estreia dos Hatfield and The North. Nas notas explicativas Wyatt relembra uma participação sua, nessa época, no programa de televisão “Top of the Pops”, interpretando “I’m a believer”, na qual a imagem do músico sentado numa cadeira de rodas foi considerado pelos responsáveis do programa como demasiado chocante para ser vista pela família típica inglesa. Fred Frith, Nick Mason (baterista dos Pink Floyd), Richard Sinclair (dos Caravan), Dave McRae (teclista dos Nucleus e dos Matching Mole), John Greaves (Slapp Happy), Hugh Hopper e Gary Windo são alguns dos músicos participantes nesta série de composições marcadas por uma fusão nostálgica de jazz e pop coalhadas pela dor.
“Pieces”, que constitui o segundo CD, reúne cinco temas dos anos 80, incluindo uma versão remasterizada de “Shipbuilding”, o lado B deste single, “Memories of you”, mais “Round midnight”, de Thelonius Monk (ídolo e influência determinante na abordagem pianística de Wyatt), “Pigs… (in there)”, extraído do álbum de beneficência “Artists for Animals – The Liberator”, e “Chairman Mao”, presente numa colectânea de 1987 da editora Recommended.
“Work in Progress”, EP editado em 1984, preenche a totalidade do terceiro CD, correspondendo à fase mais esquerdista e terceiro-mundista de Wyatt, com quatro temas – “Yolanda”, “Te recuerdo Amanda”, “Biko” e “Amber and the amberines” – que formam o complemento ideal do álbum “Nothing Can Stop us”.
“The Animals Film”, correspondente ao CD número quatro, é a banda-sonora composta por Wyatt em 1982 para o documentário com o mesmo nome, realizado por Victor Schonfield, sobre as atrocidades cometidas sobre os animais em nome da experimentação científica. À semelhança do que acontece na anterior versão em CD, esta longa peça instrumental, e uma das mais experimentais e electrónicas do músico, aparece com uma duração inferior à do álbum em vinilo editado pela Rough Trade.
Finalmente, o quinto e último CD, apresenta remisturas, da autoria de Nigel Butler, de quatro temas de “Shleep” – “Was a friend”, “Maryan”, co-composta com o guitarrista Philip Catherine, “A Sunday in Madrid” e “Free will and testament”, com a participação de Paul Weller -, o último álbum de estúdio de Wyatt, numa operação idêntica à realizada em “Dondestan Revisited”, versão completa e remisturada de “Dondestan”. É a parte verdadeiramente surpreendente de “Eps” na qual a música de Robert Wyatt se transforma em hip-hop e “drum ’n’ bass”, nos três primeiros temas, com uma pincelada de “chill-out”, no último. Robert Wyatt para dançar, porque não?



Shakti – “Remember Shakti”

Sons

23 de Abril 1999
DISCOS – POP ROCK


Shakti
Remember Shakti (7)
2xCD Verve, distri. BMG


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Lembram-se dos Shakti? Nós lembramo-nos. Extintas as fusões de jazz-rock pioneiras dos Mahavishnu Orchestra (nas quais era já visível uma orientação em direcção ao misticismo das doutrinas indianas), John McLaughlin, um dos guitarristas mais rápidos e intensos do universo, criou, em meados dos anos 70, os Shakti, com Zakir Hussain (tabla, outras percussões e voz), Kakshminarayana Shankar (violino, viola de arco e voz) e V. H. “Vikku” Vinayakram (ghatam, um tambor bojudo em barro). Em três álbuns, “Shakti with John McLaughlin” (ao vivo, 1976), “A Handful of Beauty” (1976) e “Natural Elements” (1977), o grupo fundiu de forma natural elementos ocidentais e orientais, criando uma espécie de “raga rock” acústico onde o virtuosismo instrumental de todos os elementos era uma constante. Após um breve ressurgimento em 1985 para uma digressão ao vivo, o grupo voltou a extinguir-se para há dois anos regressar para nova digressão, desta feita pelo Reino Unido, por ocasião do 50º aniversário da independência da Índia e do Paquistão, com uma formação idêntica à original, sem o violinista, mas com a presença do convidado, mestre do bansuri (flauta), Hariprasad Chaurasia. Ideal para meditação ou, simplesmente, para acompanhar todas as subtilezas de execução dos quatro instrumentistas (a que se junta ocasionalmente Uma Metha, na tampura), as cinco longas composições de “Remember Shakti” (os 33 minutos de “Chandrakauns” só são batidos pelos 63mn de “Mukli”) dispõem da eternidade para se fazerem ouvir, de preferência em posição de ioga. Música fora do tempo e do espaço (ou criadora de um outro tempo e de um outro espaço), a música dos Shakti é um rio. Neste caso apenas perturbado pela interrupção, demasiado frequente, das palmas do público.



David Grubbs & Mats Gustafsson – “Apertura”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


David Grubbs & Mats Gustafsson
Apertura (3)
Blue Chopsticks, distri. MVM


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A paciência tem limites. Ouvir do princípio ao fim os 39’50” – duração exacta do primeiro dos dois temas que preenchem “Apertura” – pode provocar danos sérios no sistema nervoso de qualquer um. O tema em questão consiste numa “drone” rigorosamente de uma só nota produzida num velho órgão de foles por David Grubbs (Gastr Del Sol), cortada apenas pelo que parece ser o ruído dos foles e aumentando gradualmente de volume. No segundo tema o som enriquece-se ao nível dos harmónicos, o que, comparativamente, faz a dose (25 minutos) soar como o Centro Comercial Colombo em hora de ponta. É verdade que LaMonte Young e, em geral, a maior parte dos minimalistas, já tinham testado antes a capacidade de resistência do ouvido humano. Mas isso foi num tempo, já lá vão 30 anos, em que as cabeças funcionavam a outra velocidade e eram alimentadas por outras substâncias. Um único som, bem trabalhado, chegava para fazer um “happening”. Até porque era frequente, nessas ocasiões, ser de tal forma intensa a meditação do auditor que as forças lhe faltavam para se levantar e desligar o gira-discos. Era a vitória da vanguarda construída sobre a inércia. Mas “Apertura” exagera: vazio antes, vazio durante e vazio depois. E abertura de quê? Da porta que permita fugir o mais rapidamente possível? É bem possível. Ou tratar-se-á apenas de um sinónimo de “aperto”, o que já faz algum sentido? Seja como for, não é com discos destes que se avança para algum lado. Nem se recua, aliás.