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Quadrilha – “Até O Diabo Dança – A QUADRILHA”

pop rock >> quarta-feira >> 08.03.1995


Até O Diabo Dança
A QUADRILHA



“ATÉ O DIABO SE RIA” É O título do segundo álbum do grupo de música de raiz tradicional Quadrilha, primeiro com o selo Polygram, com lançamento previsto para o início da Primavera. O novo álbum assinala mudanças significativas em relação à estreia, “Contos de Fragas e Pragas” já que, segundo Sebastião Antunes, guitarrista e vocalista da banda, “este ficou muito longe” do que a banda queria fazer”: “Recorreu-se muito aos sintetizadores, por não haver quem tocasse outros instrumentos”. O novo disco, embora só tenha temas originais, ainda que com influências da música popular, sobretudo do Norte do país, terá “um som mais folk, mais acústico, muito marcado pela raiz celta, um híbrido entre a música tradicional portuguesa e apop rock celta”. A esta inflexão não é alheia a presença no disco dos músicos convidados, João Ramos, no violino, Fernando Pereira e Pedro d’Orey, vozes (os três fazem parte dos Romanças, grupo de que os Quadrilha são amigos e com o qual costumam tocar na 2Taverna dos Trovadores”, bar de música tradicional situado em Sintra), Carlos Guerreiro, na sanfona, e Rui Vaz, nas tablas, ambos dos Gaiteiros de Lisboa.
Quanto ao celtismo, assumido “de forma relativa e por uma questão de gosto, já que é tudo cantado me português e com uma métrica mais ligada ao tradicional português” pelo grupo – além de Sebastião Antunes, Paulo Marques, teclados, Mário Santos, bateria e caixas populares, e Rui Neves, baixo -, é uma vertente que será desenvolvida com mais força num projectoparalelo, designado Caldo de Pedra, do qual fazem parte dois elementos dos Romanças e outros dois do Quadrilha, incluindo Sebastião Antunes. Do reportório dos Caldo de Pedra constam temas tradicionais da Galiza (ensinados pela cantora Uxia) e da Irlanda, algo derivado das preferências de audição de Sebastião Antunes, que cita por exemplo nomes como Citania, Brath, Brelema, Emilio Cao, Milladoiro e Xorima, da Galiza, os irlandeses Altan, Planxty e Patrick Street, ou os escoceses Tannahill Weavers e Capercaillie.
Os Quadrilha partirão para a estrada após o lançamento do disco, com a companhia de um quinto elemento, João Ramos, o já citado violinista dos Romanças.

Madredeus – “Madredeus Surpreendem Em Início De Nova Digressão – Lisboa À Média Luz”

cultura >> domingo, 05.03.1995


Madredeus Surpreendem Em Início De Nova Digressão
Lisboa À Média Luz


Sombra, calor, silêncio. Três tons que deixaram rasto na música dos Madredeus, no seu concerto de regresso a casa. Lugar de sonho de uma Lisboa uterina “ainda” por revelar. Ficou a certeza de que cada chegada é sempre ponto de partida.



Recém-chegados de uma digressão por Espanha, onde esgotaram lotações – “sobrou apenas um bilhete, que guardámos simbolicamente”, diria Pedro Ayres de Magalhães na conferência de imprensa realizada poucas horas antes do concerto – e alcançaram um “disco de ouro” pelas vendas de “O Espírito da Paz”, os Madredeus já estão de novo em viagem. “Uma vida de astronauta em que é impossível conceber um mecanismo mental para tocar todos os dias”, ainda segundo Pedro Ayres. A nova digressão, por território nacional, teve início sexta-feira na Aula Magna e prosseguirá ao longo de todo o mês de Março, culminando num concerto duplo no Porto, a 31 de Março e 1 de Abril.
Na sala da Universidade de Lisboa, a mesma onde o grupo há anos se estreou em espectáculos de maior dimensão na capital, os Madredeus conseguiram algo de que à partida não se estaria à espera: surpreender. Com um novo álbum prestes a sair, “Ainda”, banda-sonora para o filme de Wim Wenders, “Lisbon Story”, sobre Lisboa, o actual sexteto composto por Teresa Salgueiro, Pedro Ayres, Francisco Ribeiro, Gabriel Gomes, José Peixoto e Carlos Maria Trindade se é verdade que não se afastou do ambiente de serenidade – talvez mais aparente do que real – que caracteriza “O Espírito da Paz”, fê-lo com uma descontracção que contraria a solenidade, e até alguma frieza, sensíveis no disco.
A fase actual dos Madredeus é, comparativamente com o passado, de maior interioridade. Estão todos a tocar não só melhor como mais baixo e com maior melancolia. Uma melancolia assumida, acentuada na Aula Magna pela iluminação, quase sempre difusa, por vezes próxima da escuridão, que obrigou à total concentração na música. Ganharam proeminência o violoncelo abissal de Francisco Ribeiro e os teclados de Carlos Maria Trindade, cujo som, mais rigoroso e diversificado na escolha de timbres que o do antigo teclista, Rodrigo Leão, se afirmou como o grande inventor de paisagens ambientais.
“Moinhos”, um dos vários instrumentais tocados ao longo da noite, abriu o concerto, seguido de “Milagre”, primeiro de “Ainda” a ser apresentado, e “Senhores da Guerra”. Arrepiante foi o diálogo vocal de Francisco Ribeiro e Teresa Salgueiro na evocação arabizante de “Pregão”. Teresa Salgueiro cuja voz preferimos quando canta mais próxima do silêncio. Com as palavras a nascerem como gotas de espírito. Pequenas chamas frias. Inversamente, sempre que ergueu mais alto a voz, as notas saíram mais empasteladas, não deixando perceber metade das palavras. Ou seria por termos sido atirados para as profundezas da segunda plateia, a quilómetros de distância do palco? “O mar”, “Céu da Mouraria” – interpretado com a alma e a garra do fado, “As cores do sol”, “Maio maduro Maio” (de José Afonso), valorizado pelo delicado diálogo final das guitarras, e o clássico “O pastor” concluíram a primeira parte.
Aproveitámos o intervalo para nos fazer convidados e dar o salto para as filas da frente. Excelente o “Concertino”, nas suas várias alíneas, desde o folclórico “minuete” até à noite de “Silêncio”, sublime oração de Teresa Salgueiro. “Ajuda”, “Ao longe o mar”, “As ilhas dos Açores”, cruzamento interessante de Albinoni com Richard Clayderman, e “Vem”, outra vocalização de espanto, antecederam a longa despedida, com “Ainda”. Um “mantra” bem português onde a voz de Teresa Salgueiro envolveu em nevoeiro as duas sílabas, despojando-as da semântica para, por fim, nada mais restar senão o som. Corolário perfeito de uma “fantasia musical e poética de raiz portuguesa”, como Pedro Ayres Magalhães define a estética do grupo.
“Amargura”, “Guitarra” e uma “Alfama” em ritmo de fado-tango, os três “encores”, fizeram despertar do sonho. A música dos Madredeus leva-nos como crianças até ao outro lado.

Vários (Fairport Convention, Skolvan, Boys Of The Lough, Luar Na Lubre, Four Men And A Dog, Realejo) – “Festival Intercéltico Anuncia Programa – AS JÓIAS DA COROA”

pop rock >> quarta-feira >> 01.03.1995


Festival Intercéltico Anuncia Programa
AS JÓIAS DA COROA



FAIRPORT CONVENTION, SKOLVAN, Boys Of The Lough, Luar Na Lubre, Four Men and a Dog e Realejo são os nomes que integram o programa do 6º Festival Intercéltico do Porto, que decorrerá nesta cidade de 7 a 9 de Abril, no cinema do Terço. No primeiro dia, sexta-feira, a honra de abertura caberá aos portugueses Realejo, de Fernando Meireles e Manuel Rocha, na altura em que será lançado no mercado o seu álbum de estreia. A noite conclui-se com osmeio irlandeses, meio escoceses Boys of the Lough, com o virtuoso do violino, no estilo de Shetland, Aly Bain; assim regressam ao nosso país depois de – como já vem sendo hábito – uma inglória passagem pela Festa do Avante! O novo álbum dos Boys chama-se “The Day Dawn”. Sábado verá no cinema do Terço uma banda inglesa tornada uma lenda, os Fairport Convention, papas do “folk rock” britânico, já com meio século de existência e uma passagem, esta inesquecível, por uma das primeiras edições da festa comunista; deles acaba de ser editado o novo “Jewel in the Crown”. No mesmo dia actuam, na primeira parte, os Skolvan, para muitos o melhor grupo da Bretanha da actualidade, cujo último álbum, “Swing & Tears”, foi considerado pela crítica, nacional e estrangeira, Poprock incluído, um dos melhores do ano passado. O Intercéltico fecha no domingo. Na primeira parte com os galegos Luar na Lubre, grupo de música sofisticada, cujo álbum mais recente, “Ara-Solis” (belíssimo), já se encontra disponível em Portugal. A festa vai ser festa mesmo, no concerto de encerramento, com o folk rock energético dos Four Men and a Dog (têm um álbum novo acabado de sair, “Doctor A’s Secret Remedies”), uma máquina de fazer dançar. Como se tornou hábito nas últimas edições, o Intercéltico, organizado como sempre pelo MC – Mundo da Canção, apresenta um vasto programa de actividades paralelas. Este ano, inclui uma exposição sobre José Afonso, uma feira do disco “Celtifolk”, um debate sobre “A imprensa folk europeia” – onde vão estar presentes, entre outros jornalistas, Andrew Cronshaw, da “Folk Roots”, Phillipe Krumm, da “Trad. Magazine”, e Pete Heywood, da “Living Tradition” -, uma Escapada Intercéltica, com visita à Citânia de Briteiros e um “repasto celta” na Penha, em Guimarães.