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Janita Salomé – “Raiano”

pop rock >> quarta-feira >> 09.11.1994
portugueses


Janita Salomé
Raiano
Farol, distri. BMG



Alguém me explique, para ver se compreendo: um disco centrado numa voz, ainda por cima tratando-se da voz excelente de Janita Salomé, deve ter uma produção que valoriza o quê? A voz, talvez?… A resposta parece óbvia e no entanto a prática, como acontece com frequência em produções nacionais, desmente essa evidência. O objectivo parece ser, em casos como o deste “Raiano”, fazer uma ostentação exaustiva dos meios postos à disposição do estúdio e encher cada segundo da música com toda a espécie de instrumentos e efeitos. O resultado é que a voz, que deveria ser a protagonista, passa a figura secundária num enredo com excesso de personagens. Poderia ser a voz de Janita como poderia ser a voz de outro cantor qualquer, de tal forma esta quase parece pedir licença para encontrar um bocadinho de espaço no meio do novo-riquismo dos arranjos. O exemplo do recente “Todos os dias…” de Amélia Muge, ou a obra de autores como Vitorino, Sérgio Godinho ou Jorge Palma são exemplos que mostram à saciedade que um disco, para resultar, deve potenciar aquilo que de melhor possuir como matéria-prima.
As canções de “Raiano” são, na sua estrutura, em geral boas canções. Mas eis a prova de que, por vezes, as boas canções não chegam para fazer um bom álbum. É preciso escavar com força por entre as guitarras eléctricas saturadas, os violinos, as cascatas de percussões provenientes de todas as partes do mundo, os coros, o baixo, o acordeão, programações várias, sopros, tudo o que estiver à mão e faça som, para se conseguir descortinar o diamante oculto sob as camadas sobrepostas de canga.
Assim como foi feito, perde a voz de Janita, perdem os poemas de Natália Correia, Carlos Mota de Oliveira, Manuel Alegre e Manuel da Fonseca e perdemos nós a paciência, massacrados pela barragem sonora que não deixa perceber o essencial. O barulho, por mais bem feito e sofisticado que seja, não deixa de ser barulho. Uma interferência que entope os canais de comunicação. Janita Salomé, devemos repeti-lo tem na voz a força e a claridade de um sol. Que razões justificam então tamanho eclipse? (5)

Rão Kyao – “Águas Livres”

pop rock >> quarta-feira >> 09.11.1994
portugueses


Rão Kyao
Águas Livres
Vertigo, distri. Polygram


Depois de uns fatigantes “Delírios Ibéricos”, o homem das flautas de bambu precisava de descansar. E assim fez. “Águas Livres” é uma espreguiçadeira, um rio de águas clamas, tudo na linha, sem desvios nem marés vivas. Um verdadeiro aqueduto. É um álbum destinado ao consumo de gente bem instalada na vida que não tem tempo para se concentrar a valer na música mas gosta de ter um som agradável de fundo enquanto se refastela no escritório. O tema é as viagens dos Descobrimentos, o Oriente, enfim, o Portugal universalista, espalhado por títulos como “Rota da seda”, “Velas ao vento”, “Memórias dos oceanos” e “Dança dos véus”. Rão não se esforça muito para ser profundo. Vai soprando nas suas flautas e no embalo de um sintetizador ou de umas percussões bem educadas. As prateleiras da “new age” mais ligeira já têm um espaço reservado para “Águas Livres”. Os “yuppies” devem delirar com sedativos como “Balada do Sul” e os abaixo de “yuppies” podem até bater o pé ao ritmo do comercialão “Búzios”. Os três últimos temas são menos preguiçosos e por segundos conseguem sugerir uma pontinha do mistério do Oriente. Rão Kyao acomodou-se, é um facto. Não seria uma boa altura para voltar a pegar no saxofone? (4)

Marisa Monte – “Marisa Monte Seduz Público Do Porto – Nos Braços De Uma Sereia” (concerto | reportagem)

cultura >> segunda-feira >> 07.11.1994


Marisa Monte Seduz Público Do Porto
Nos Braços De Uma Sereia



SE ELBA Ramalho é uma tentação com pernas, Marisa Monte é uma tentação com braços. O Coliseu do Porto viu as duas e pôde comprová-lo. Marisa, para além dos braços e de um corpo enleante, tem uma voz e uma presença em palco espantosas. Nada que se compare ao fracasso que constituiu a sua primeira apresentação em Portugal, em 1991, em que desafinou por todos os lados. Hoje ela é o que se chama uma profissionalona. Sabe o que faz e o que canta, domina como quer o ritmo e as tensões de um espectáculo, em suma, tão nova e é já uma das maiores vozes femininas da MPB.
Dá para perceber que o seu espectáculo de sábado à noite no Coliseu do Porto foi um êxito. A assistência, numerosa, viu-se a braços para conter os arrepios causados pela actuação de Marisa Monte, um monte de talento e sensualidade. O mesmo deve ter acontecido ontem em Lisboa, no Centro Cultural de Belém. Hoje, no Coliseu dos Recreios lisboeta, a cantora irá de novo decerto fazer faísca.
Marisa Monte, acompanhada por uma banda de sete elementos (um acordeonista, dois percussionistas, dois guitarristas, um baixista e um baterista), surgiu em palco envergando um longo vestido negro que deixava nus apenas os braços. Não foi preciso mostrar mais, como costumam fazer por exemplo as suas colegas Joanna, Fáfá ou a Elba das pernas de boa memória. Braços expressivos que cantaram tanto como a voz. Braços que acariciaram o cabelo, o rosto, o ventre e se acariciaram mutuamente. E as canções? Umas boas, outras óptimas, algumas fracotas, a atirar para o estilo telenovela. Mas em todas elas a voz da cantora brasileira conseguiu arrancar lampejos de emoção, como se fossem em qualquer dos casos declarações de amor tórridas ou pueris, não importa, mas sempre sinceras. Ao todo, incluindo os “encores”, Marisa Monte cantou vinte e uma. De início numa cadência lenta, com a sensualidade da voz e dos gestos a insinuar-se sem que a razão desse conta. Depois, sem avisar, a cantora de “Mais” ferveu no baião, no frevo e no samba. O corpo libertou-se das últimas amarras e o público rendeu-se, sem hipóteses nem vontade de resistir. No final, a plateia em peso do Coliseu dançava ao ritmo de “Balança a perna”, uma das canções do novo álbum “Verde Anil Amarelo Côr de Rosa e Carvão”. Uma bandeira brasileira agitava-se no meio da multidão.
Porque mais subtis, preferimos os temas de “Mais”, o álbum anterior da cantora: “Eu não sou da sua rua”, “De noite na cama”, “Diariamente”. “Ensaboa” foi diferente, com os braços, os tais braços, a fingir que ensaboavam o ventre e as pernas. Temperatura a subir no Coliseu. “Maria de verdade”, o tema que abriu o concerto. “Pale blue eyes”, “Dança da solidão”, “Segue o seco” e “Na estrada” saíram por sua vez do álbum das cores. “Preciso me encontrar2 rondou a obsessão, com uma batida tribal e o corpo ondulante da cantora a sugerir crimes do coração. A partir de certa altura a combinação das luzes, da voz e do corpo com o ritmo incansável e letras como “ai ai” e “eu só quero chocolate”, passou ainda a fazer mais sentido.
Já no “encore”, com a sala em delírio, os músicos da banda, responsáveis ao longo de todo o concerto pela criação de uma selva de seduções, mostraram em pequenos solos o muito que valem. Brilharam com intensidade Waldonys, no acordeão, e Marco Lobo, que conseguiu pôr uma cuíca (instrumento tradicional brasileiro) a cantar como uma “prima donna”. Em final apoteótico, para não dizer orgiástico, Cezinho explodiu num solo de bateria, acompanhado pelas “vari-lites” que disparavam relâmpagos e mudavam de cor de forma desenfreada. “Lenda das sereias” colocou um ponto final na loucura. A sereia tinha um nome: Marisa Monte. Para ela aquele braço, perdão, aquele abraço!