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Máirtin O’Connor – “Chatterbox”

pop rock >> quarta-feira >> 29.03.1995
world


Máirtin O’Connor
Chatterbox
DARA, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO



Máitin O’Connor representa para o acordeão – “squeeze box”, ou simplesmente “box”, como os irlandeses dizem – o mesmo que Arty McGlynn para a guitarra. O que significa que estamos de novo na presença de um professor que, por acaso, também pertenceu aos De Danann, como McGlynn. Há porém enormes diferenças entre a postura de ambos. Ao contrário do guitarrista, apóstolo da seriedade, Máirtin tem uma mentalidade mais permissiva, bonacheirona mesmo. Diverte-se com a música que toca, sem grandes preocupações em se manter fiel à música irlandesa, como de resto já acontecia no anterior “Perpetual Motion”. Dos “horpipes” ao baile musette e à valsa italiana, do chorinho ao folclore de uma ilha desconhecida do mar do Norte, não há problema, o que interessa é a leitura descontraída e sem preconceitos. Ao seu lado estão nomes famosos, como Nollaig Casey, Jimmy Faulkner, Tommy Hayes, Sean Keane (o violinista dos Chieftains, não o irmão de Dolores…), Matt Molloy, Garry O’Brian e Micheál ‘O Suilleabháin. Todos se integram no esquema, como se “Chatterbox” fosse um pátio de recreio. Por vezes pode soar demasiado ligeiro (“Chatterbox” poderá ser traduzido como “acordeão tagarela”…), mas vael como uma viagem, descomprometida, por alguns dos palcos de dança da Europa. (7)

Ficções – “FICÇÕES TELEPÁTICAS”

pop rock >> quarta-feira >> 15.03.1995


FICÇÕES TELEPÁTICAS



“DANÇA DA LUA” É O TÍTULO DO SEGUNDO álbum do grupo Ficções, com lançamento previsto para finais da Primavera e selo Polygram. Ao contrário do disco de estreia, em que participou cerca de uma dezena de convidados, o novo registo tira maior partido das possibilidades interpretativas e de diálogo entre os três principais músicos da banda, Rui Luís Pereira (Dudas), na guitarra e kalimba, Yuri Daniel, baixo eléctrico, e Alexandre Frazão, bateria e percussões, aos quais se juntaram, nas gravações, o teclista Alexandre Manaia e o saxofonista-soprano Jorge Reis. “Há temas muito mais improvisados”, diz Dudas, destacando neste novo álbum “uma maior liberdade” e “uma sonoridade mais crua”. “Porque é que a gente há-de tocar todos ao molho e fé em Deus?”, pergunta Dudas, aludindo aos temas baseados no trio guitarra, baixo e bateria. Alexandre Frazão refere mesmo uma “empatia telepática” existente entre os músicos, fruto de um conhecimento mútuo que foi crescendo ao longo dos sete anos que os Ficções já levam de exist~encia. “Não é preciso dizer o que o outro vai fazer. As coisas simplesmente acontecem.”
De um disco para outro transitou a apetência dos Ficções pelos sons de tradições musicais não ocidentais, nomeadamente do Brasil, África e Oriente. “Dança da Lua” inclui um “Choro espreguiçado”, de influência brasileira, uma “Dança crioula” e outros temas, como “Tao”, “Kwela p’ró Mandela” e “Zambra”, que remetem para ficções sonoras em que se cruzam linhas de força musicais de proveniências diversas. Há mesmo a interpretação de um tema do alaudista árabe Rabih Abou Khalil, “Nadim”, e a presença de um tocador de kora guineense, Sadjo Djolo Koiaté, em “Kalimba II”, continuação de um tema do mesmo nome presente no primeiro disco da banda. “É uma filosofia que a gente tem, o que nos define, estarmos virados para o Atlântico. Há a procura musical e até filosófica, de fundir vários elementos que têm a ver connosco. Na nossa música está patente a diáspora da cultura portuguesa”, explica Dudas, enquanto o baterista diz que se trata apenas de “sintetizar” tudo aquilo de que o grupo gosta.
Em “Danças da Lua”, obra inteiramente instrumental, as sonoridades étnicas do kora ou da kalimba entram em diálogo com as novas tecnologias, como a nova guitarra Midi que Dudas adquiriu recentemente em França. “Procuramos sempre referências étnicas. O facto de se usar um sintetizador permite trabalhar esses timbres. Uma das componentes da nossa composição é a pesquisa tímbrica. A mistura dos timbres electróncios com os acústicos.”
Pouco divulgada em Portugal, em parte “por culpa dos ‘media’, que nunca deram muito apoio”, mas também devido à dificuldade extra de ser instrumental, é no estrangeiro que a música dos Ficções tem sido mais bem recebida, sendo colocada ao lado de experiências de fusão do mesmo tipo e comparada a nomes como Vicente Mendonza, Carlos Benavente ou Jorge Pardo. Em França, por exemplo, houve quem definisse o som do grupo como “nova música mediterrânica”. Mesmo assim, o primeiro disco teve, segundo dizem, “um sucesso razoável”, traduzido em vendas na ordem dos 1300 exemplares. “É o primeiro grupo instrumental que chega ao segundo disco”, afirma, com orgulho, Alexandre Frazão. “Somos teimosos, queremos que as pessoas prestem mais atenção ao que fazemos.”

Quadrilha – “Até O Diabo Dança – A QUADRILHA”

pop rock >> quarta-feira >> 08.03.1995


Até O Diabo Dança
A QUADRILHA



“ATÉ O DIABO SE RIA” É O título do segundo álbum do grupo de música de raiz tradicional Quadrilha, primeiro com o selo Polygram, com lançamento previsto para o início da Primavera. O novo álbum assinala mudanças significativas em relação à estreia, “Contos de Fragas e Pragas” já que, segundo Sebastião Antunes, guitarrista e vocalista da banda, “este ficou muito longe” do que a banda queria fazer”: “Recorreu-se muito aos sintetizadores, por não haver quem tocasse outros instrumentos”. O novo disco, embora só tenha temas originais, ainda que com influências da música popular, sobretudo do Norte do país, terá “um som mais folk, mais acústico, muito marcado pela raiz celta, um híbrido entre a música tradicional portuguesa e apop rock celta”. A esta inflexão não é alheia a presença no disco dos músicos convidados, João Ramos, no violino, Fernando Pereira e Pedro d’Orey, vozes (os três fazem parte dos Romanças, grupo de que os Quadrilha são amigos e com o qual costumam tocar na 2Taverna dos Trovadores”, bar de música tradicional situado em Sintra), Carlos Guerreiro, na sanfona, e Rui Vaz, nas tablas, ambos dos Gaiteiros de Lisboa.
Quanto ao celtismo, assumido “de forma relativa e por uma questão de gosto, já que é tudo cantado me português e com uma métrica mais ligada ao tradicional português” pelo grupo – além de Sebastião Antunes, Paulo Marques, teclados, Mário Santos, bateria e caixas populares, e Rui Neves, baixo -, é uma vertente que será desenvolvida com mais força num projectoparalelo, designado Caldo de Pedra, do qual fazem parte dois elementos dos Romanças e outros dois do Quadrilha, incluindo Sebastião Antunes. Do reportório dos Caldo de Pedra constam temas tradicionais da Galiza (ensinados pela cantora Uxia) e da Irlanda, algo derivado das preferências de audição de Sebastião Antunes, que cita por exemplo nomes como Citania, Brath, Brelema, Emilio Cao, Milladoiro e Xorima, da Galiza, os irlandeses Altan, Planxty e Patrick Street, ou os escoceses Tannahill Weavers e Capercaillie.
Os Quadrilha partirão para a estrada após o lançamento do disco, com a companhia de um quinto elemento, João Ramos, o já citado violinista dos Romanças.