Arquivo da Categoria: Electrónica

Low Res – “Blue Ramen”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
07 Fevereiro 2003


LOW RES
Blue Ramen
Plug Research, distri. Ananana
6|10



Mais um disco que parece ter saído da fábrica ainda a pingar o “som do momento”. Eletrónica ambiental, ambientes digitais, notas alinhadas de maneira a parecer jazz, “easy listening” à hora do “cocktail”, batidas automáticas de rumba tiradas de “presets” de velhos órgãos eletrónicos. É a fórmula escolhida pelos Low Res para tentar bater a concorrência e arranjar um cantinho sossegado para fazer correr os seus programas. A fusão, se assim se pode chamar, de “Blue Ramen” encontra antecedentes no Paul Schütze “light” de “Site Anubis”; o som, deliberadamente artificial, tresanda a Atom Heart (do projeto mimético Lassigue Bendthaus) e, esforçando um pouco a imaginação, até é possível encontrar numa faixa como “Dirty serenade” uma microssequência transportando a informação dos ficheiros de Robert Wyatt. Soa, em suma, como um produto típico da idade cibernética, clone de um clone de um clone de uma entidade entretanto desaparecida. Música ambiente que faz as cidades modernas mergulharem ainda mais fundo na sua solidão.

Vários – “Spike – Works From BEAST, Vol. 1”

(público >> y >> pop/rock >> crítica de discos)
10 Janeiro 2003


VÁRIOS
Spike – Works from BEAST, Vol. 1
Sargasso, distri. Sonoridades
7|10



BEAST é a sigla dos Birmingham Electroacoustic Music Studios, pertencentes à universidade daquela cidade inglesa, projeto criado em 1982 por Jonty Harrison, com o objetivo de divulgar música electro-acústica e acusmática escrita especificamente “for fixed media to be diffused in space through the use of multi-channel sound systems”. Variante britânica do INA.GRM francês, neste seu segundo volume incluem-se composições recentes de Iain Armstrong, Simon Scardanelli, Dugal McKinnon, Antti Saario, Derek Thompson, Steven Naylor, Peter Batchelor, James Bentley e Jamie Bullock. A música afasta-se dos usuais parâmetros da “eletrónica de entretenimento”, ainda que composições como “B-side”, de Antti Saario ostentem marcas passíveis de descodificação pelo público rock ou por aquele já familiarizado com a área de charneira habitada por Fennesz, Jelinek ou de alguns dos manifestos limítrofes de editoras como a Sonig, Mego, Touch e Mille Plateaux. A partir deste ponto, o termo “pop” deixa de fazer sentido e o desconhecido oferece-se à descoberta.

Bernardo Devlin – “Circa 1999 – 9 Implosões”

(público >> y >> portugueses >> crítica de discos)
5 Dezembro 2003


BERNARDO DEVLIN
Circa 1999 – 9 Implosões
Ed. e distri. Extremocidente
8|10



Devlin é um músico estranho, habitante de constelações geladas e com os olhos demasiadamente abertos para a noite. “Circa 1999” faz em absoluto jus ao complemento “Nove implosões”. A voz deste antigo elemento dos Osso Exótico situa-se algures entre o romantismo sombrio de Scott Walker e o tom operático de Peter Hammill, neste caso num registo próximo do de “The Fall of the House of Usher”. Entre a declamação, o lamento e a litania, Devlin fala da “Hora morta e outros segundos”, “À altura dos olhos” e de um “Novo alvor”, segundo uma gramática de secretas cifras interiores na qual “olhos” e “luz” são termos recorrentes. É dessa visão, alucinada (mas não é a alucinação a visão do invisível?) que nos fala e que nos esconde, sobre impenetráveis paisagens electrónicas que devem tanto à música industrial como à toca sem entrada nem saída de “Tilt”. Não é psicadelismo, porque a evasão onírica não é permitida, antes o desvario de poder de uma estranha cerimónia de sado-maso astral, em que a música – pianos tumulares, saxofones febris e eletrónica fabril, percussões dos abismos, naipes de cordas fúnebres – determina o mais pequeno gesto na encenação desta paixão infernal em forma de estátua.