Arquivo da Categoria: EBM

Lesser – “Gearhound”

Y 2|FEVEREIRO|2001
escolhas|discos

LESSER
Gearhound
Matador, distri. Zona Música
7|10



J. Lesser, ISR, 157, Backfire, DJ 40 Year Old Woman (!), não importa como se apresenta. É um foragido de bandas rock que encontrou na eletrónica o último refúgio da “estética punk”. Trabalhou com Matmos e Kid606 (com quem prepara o projeto Sex Pixels…) e no horizonte está uma colaboração com os Blectum from Blechdom. Formou uma banda de covers dos Metallica, os Creeping Death, e ao vivo as suas atuações pautam-se pelo caos e destruição. Editou a cassete “I hate me”, acompanhada da oferta de uma lâmina de barbear (verdadeira) e um bocadinho de LSD (falso). Tudo junto explica este “Gearhound”, carga explosiva de eletrónica apocalíptica onde se misturam as influências dos Big Black, Sebadoh, Meat Beat Manifesto, Public Enemy e Negativland. Um dos temas, “Cheeseburger lady”, é uma réplica de “Hamburguer lady”, dos Throbbing Gristle. Dat Politics, Atari Teenage Riot e Speedy J não passam de easy-listening, comparados com a tareia sónica de J. Lesser.



Boris Ex Machina – “Tango Infernal”

POP ROCK

2 de Outubro de 1996

portugueses

Boris Ex Machina
Tango Infernal
ED. E DISTRI. SYMBIOSE


bem

O universo dos Boris Ex Machina tem tanto de literário como de musical. “Tango Infernal” vive de um conceito e de um leque de aproximações que se situam à margem do rock, alimentando-se de nostalgias várias e delas sugando uma essência de láudano mas deixando entender uma via apontada à experimentação e, até, ao confronto. Convergem nesta estreia discográfica do grupo a valsa-musette, obviamente o tango, o cabaré e os circuitos integrados, e um romantismo, por vezes trágico, que deixa a anos-luz de distância os vagidos funeral-nacionalistas dos Sétima Legião. Fumos de ópio e brumas pegajosas sobre o porto de Amsterdão – Brel a pairar como um espectro húmido. O acordeão do “outsider” Rini Luyks, a utilização de “samples” e da electrónica por vezes industrial e o sentimentalismo afectado da voz sugerem tanto a “chanson” francófona como a feira hermética dos Tuxedomoon ou o circo piegas de António Calvário. Os Boris Ex Machina sonham com um tempo mais antigo e aventuras e sentimentos suspeitos. De bares com má fama e vielas mal iluminadas onde, a cada esquina, espreita uma alucinação. Um arco obriga a chorar o contrabaixo, a máquina tanto levita num “sample” de vibrafone como estremece no “delirium tremens” de um saxofone alcoolizado. A valsa retorna, obsessiva, enquanto as palavras – do polivalente Armando Teixeira mas também, no tema final, de Mário de Sá-Carneiro – se perdem nos seus próprios meandros, tornando-se por vezes ininteligíveis e deixando espaços perigosos à imaginação. Pós-rock, ambiental não conformista, corsário na pilhagem das épocas e na manipulação das memórias colectivas, reais ou empilhadas dos livros e dos filmes, “Tango Infernal” traz para a superfície algo de brumoso e informe, materializando terrores vagos, pondo os monstros a cantar canções de variedades. (7)



Von Magnet – “Von Magnet Meets the Data Gypsies: Cosmogonia”

Pop Rock

11 de Outubro de 1995
Álbuns poprock

Von Magnet
Von Magnet Meets the Data Gypsies: Cosmogonia

HYPNO BEAT, DISTRI. SYMBIOSE


vm

Onze arcanos do baralho esotérico “tarot” são aqui transformados em signos sónicos por um naipe variado de intérpretes, denominados Data Gypsies, através de remistura e montagem de música originalmente composta pelos Magnet, praticantes de tecno industrial, adeptos da new rage (por oposição à new age) e membros da MACOS (“Musicians against Copyright of Samples”). Monótono em alguns casos, aqueles onde a vertente tecno e industrial se sobrepõe, ocasionalmente sublimada numa voz de características étnicas ou rituais, “Cosmogonia” surpreende pelo lado mais ambiental e experimentalista. Estão neste caso os temas a cargo de Victor Sol (um espanhol que com os Xjacks, na Fax, de Pete Namlook, subverte algumas regras básicas da editora), “El carro d’Hermes”, onde máquinas monstruosas se emancipam do controlo humano; de Ken Thomas, no ritualismo obscuro de “El anciano”; e de Lassigue Bendthaus, com “El maestro”, exercício extenso de industrialismo cibernético que deriva para a colagem naturalista ao estilo dos PJR, antes de se organizar na mecanicidade pura de um Asmus Tietchens. Relativamente “conhecidos” desta área, os Bourbonese Qualk ficam-se por uma base rítmica sequenciada e bastante dançável, enquanto os estranhos Calva & Nada optam pelo discurso hermético sobre a figura de “El diablo aker” e Ian Briton com Boyd recorrem sem grande originalidade às vozes filtradas por um “vocoder” saídas da auto-estrada dos Kraftwerk. As principais referências estéticas da maioria da legião tecno giram contudo em torno dos Einsturzende Neubauten, Test Dept ou la Fura dels Baus, este últimos mimados num manifesto contra o poder por Gus Ferguson com os ICU, no derradeiro arcano, “El Ciclo”. A embalagem contém reproduções miniatura das respectivas cartas. Satisfação garantida para os apreciadores deste género de barulhos. (6)