Arquivo da Categoria: Críticas 1994

Yello – “Zebra”

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Yello
Zebra

Mercury, distri. Polygram


yello

Dieter Meier e Boris Blank, os dois suíços cosmopolitas que, se não fossem os Kraftwerk, ostentariam o título de reis dos “dance floors” da Europa e dos Estados Unidos (quer dizer, de Nova Iorque), dedicaram-se, a partir sobretudo do álbum anterior, “Baby”, a servir em exclusivo de matéria para consumo nas pistas de dança. A aura de excentricidade que caracterizava álbuns desconcertantes como “Claro que Si” e o magnífico “You Gotta say Yes to another Excess”, ficou pelo caminho. Sem dúvida, os Yello são mestres no domínio da tecnologia e ainda não se esqueceram como polvilhar uma canção com as fragrâncias de um exotismo perdido, como acontece aqui com o tema final “Poom shanka”, mas é uma gota de água no oceano dos ritmos sintéticos. Em “Suite 909” os Yello fazem questão de mostrar que estão na dianteira da vaga “tecno”. Ou seja, vão na carruagem da frente mas deixaram de ser a locomotiva, de inovadores passaram a andar a reboque das tendências da moda. A “ambient house” faz de igual modo parte das actuais preocupações do grupo que, num gesto desesperado para não perder o contacto com os indefectíveis do passado, recorre às vocalizações de “crooner” do costume de Meier e à proliferação de sons samplados de Blank, sem esquecer as referências a Glenn Miller ou ao “rhythm divine” que Shirley Bassey tornou deslumbrante no álbum “One Second”. Entre a cedência incansável dos ritmos, salientam-se os saxofones samplados de “How how”, que trazem uma nota de diferença para um álbum demasiado obcecado com a funcionalidade. (6)



Tom Petty – “Wild Flowers”

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Tom Petty
Wild Flowers

Warner, distri. Warner port.


tp

Não há, definitivamente, valores adquiridos no sector musical. Vejam agora o caso de Tom Petty. A eterna vedeta secundária vocacionada para os “pastiches” das glórias passadas da história do rock acaba de lançar uma obra de fundo. O passo não é, todavia, sem precedentes e prossegue o rumo traçado em 1989 com o seu primeiro álbum a solo, ou a estratégia de romper com o som “southern” monolítico da sua banda, os Heartbreakers. A pedra de toque desta abertura a novas experiências reside na escolha dos produtores e, se aquele disco era produzido por Jeff Lyne (seu parceiro nos Travelling Wilburys), este traz a chancela de Rick Rubin. Ora Rubin, o maestro da Def Jam, especializado em bandas radicais, surpreendeu tudo e todos quando, já este ano, produziu o veterano Johnny Cash, despojando-o de todo o acompanhamento, num álbum com a crueza e a mística de uma lenda viva a sós com a sua guitarra.
Tom Petty não tem esse carisma, nem nunca terá, mas Rubin aplicou-lhe um tratamento de choque muito no género. Assim, a maior parte dos temas em “Wild Flower” são acústicos ou de base acústica, trocando Petty as suas usuais vocalizações soalhentas, por um registo bem mais austero e dramático. As suas canções tratam agora de vagabundagem, da sina de andar pela estrada sem poiso nem destino fixo, lamentando a solidão que isso implica, mas também o gozo que confere a total liberdade. Petty ressurge assim no papel de um cantor/compositor amadurecido, de um trovador errante calejado pelos tombos da vida, reformulando a sua proverbial jovialidade numa melancolia do tipo fatalista. Claro que, depois, há as inevitáveis referências a Dylan, Beatles e, sobretudo, George Harrison, umas investidas no rockabilly e até no glam rock, mas filtradas segundo uma nova profundidade. Quando, em “Don’t fade on me”, Petty lastima a desistência daqueles que antes quiseram ir demasiado longe, somos levados a concordar e a admitir que, no rock, os frutos de juventude não são obrigatoriamente os mais suculentos. (8)



Jon Anderson – “Change We Must”

Pop Rock

2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

Jon Anderson
Change We Must

EMI, distri. EMI-VC


ja

“Na beleza natural que nos envolve parece existir um sentido perdido da maravilha como todos nós nos ajustamos. As árvores, as flores, os pássaros, os animais, os insectos: precisamos todos uns dos outros nesta vida”, diz, a propósito do seu novo disco, Jon Anderson. Precisamos, de facto. O que já é mais duvidoso é que precisemos dum álbum como este. São as preocupações de sempre do ex-vocalista dos Yes que, nesta sua mais recente aventura a solo, resolveu acompanhar temas antigos e modernos com o sinfonismo da London Chamber Orchestra, dirigida por Christopher Warren-Green. Inspirado no livro homónimo de Nana Weary, uma “professora espiritual havaiana”, sobre a indissociabilidade do homem e da natureza, “Change We Must”, para além de não considerar os pássaros e os insectos animais, considera igualmente que a importância do tema justifica por si só a pomposidade dos arranjos. Erro crasso. Apesar de a quantidade de meios utilizados ser incomparavelmente maior, “Change We Must”, gravado num “retiro de silêncio” na ilha de Kawaii, perde na comparação com o anterior e menos ambicioso “Deseo”. Nestes assuntos de flores, árvores e insectos a simplicidade de processos é aconselhável. Jon Anderson confunde a beleza com a sumptuosidade. Quanto ao silêncio, há demasiado ruído de interferência para que seja possível percebê-lo… Acontece então que temas conhecidos como “State of Independence” e outros da dupla Anderson/Vangelis perdem em relação aos originais, não se percebendo além disso muito bem o que é que faz uma composição do minimalista John Adams, “Shaker Loops”, no meio de tanta verdura. Quem não o conhecesse até julgaria que Adams é algum guru macrobiótico da “new age”. “Change We Must”, não há dúvida. E Jon Anderson devia ser o primeiro a dar o exemplo. (5)