Arquivo da Categoria: Críticas 1994

The Residents – “Gingerbread Man”

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994
ÁLBUNS POPROCK

The Residents
Gingerbread Man

Euro Ralph, import. Simbiosis


residents

Globos oculares de fraque observam uma miúda incauta e inocente. A miúda tem nas mãos o, adivinha-se, temível homem de bolo de gengibre. A luz é vermelha. Eis-nos de novo instalados universo de pesadelos tecnopsicadélicos dos Residents, a banda mais insólita de sempre da música popular. Nos últimos anos e nos últimos discos, os Residents criaram um estilo definido, uma espécie de classicismo electrónico construído sobre melopeias fonéticas (Imagem de marca do grupo) e melódicas, e ritmos sintéticos quase sempre primários onde são os timbres e as subtis alterações de tempo a estabelecerem a diferença e o ambiente característico.
“Gingerbread Man” segue um modelo idêntico ao anterior “Freak Show”, em canções que exploram uma galeria de personagens exóticas, para não dizer monstruosas, em suspensão numa “bad trip” provocada por ácido de má qualidade. Cada tema inicia-se com um motivo melódico que se repete ao longo de todo o disco, com arranjos diferentes, para em seguida o comboio-fantasma mostrar as taras de aberrações, como o azeiteiro moribundo, o transexual confuso, o artista de sucesso, o asceta, o velho soldado, o músico envelhecido ou o talhante. Dir-se-ia que todos eles eram saídos de um filme de terror de Tobe Hooper, derivando musicalmente para regiões que apenas têm paralelo na própria obras dos Residents.
Música doentia, de uma beleza que envenena a alma e polui os sentidos, “Gingerbread Man” mostra igualmente o lado oculto de uma América em estado de paranóia e, em chicotadas de um humor mais que negro, as regras viciadas de uma sociedade em decomposição. Na contracapa, num texto ambíguo, como tudo da lavra dos Residents, é a memória da música rock que é ligada em inversão de marcha e as estratégias da indústria discográfica que são expostas e desmontadas pelo absurdo. “Sweets for my sweet, sugar for my honey” – e é todo um mundo que desaba. (7)



Dead Can Dance – “Toward The Within”

Pop Rock

7 de Dezembro de 1994
ÁLBUNS POPROCK

Dead Can Dance
Toward The Within

4AD, distri. MVM


dcd

Um disco ao vivo dos Dead Can Dance não parece muito apropriado. Mas é o que acontece em “Toward the Within”, gravado este ano no Mayfir Theatre, em Santa Mónica, na Califórnia. A primeira conclusão a tirar é que ou os Dead Can Dance estão a tocar como gente grande ou o engenheiro Guy Charbonneau teve uma trabalheira para fazer a coisa soar como um disco de estúdio. Seja como for, os Dead Can Dance estão cada vez mais étnicos e góticos. E chiques. Lisa Gerrard canta a preceito nos temas “étnicos”. “A capella” em “Persian love song”, como estivesse no túmulo, no tradicional irlandês “The wind that shakes the barley”, demoníaca, qual uma Diamanda Galas indiana, em “Cantara”, mostrando que andou a ouvir as grandes vozes da “antiga”, no tradicional catalão do séc. XVI, “Song of the sibyl” (de que recordamos a exponencial interpretação de Monserrat Figueras com os Hesperion XX), soleníssima em “Tristan”, magnífica e trágica em “Sanvean”. Brendan Perry vocaliza em esforço as canções mais convencionais, como o ultragótico “I am stretched on your grave”, “I can see now” (um “American dreaming” certamente composto em homenagem ao local da digressão) e o tema final “Don’t fade away”. Nos temas exóticos, surpreende a ousadia com que imita certas técnicas vocais árabes, em “Rakim”. “Yulunga” é um cântico tétrico, na linha do que fizeram os SPK em “Zamia Lehmani”, e um sinal de que a luz que ilumina os Dead Can Dance, por muito religiosa que a sua música aparente ser, está longe de ser a do sol. (6)



Lisa Germano – “Geek The Girl”

Pop Rock

16 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

JÓIAS NO FUNDO DO POÇO

LISA GERMANO
Geek the Girl
(9)
4AD, distri. MVM


lg

“Happiness”, o anterior álbum da cantora, editado já este ano, tem quanto a nós lugar assegurado na lista dos melhores de 1994. O novo “Geek the Girl” recupera a mesma fórmula, eliminando os (poucos) pontos menos conseguidos do seu antecessor, concretamente certas inflexões acústicas na balada “country” que, funcionando com intervalos de pausa, provocavam contudo uma quebra de intensidade emocional (e eléctrica) prevalecente. “Geek the Girl” depura esse e outros aspectos de “Happines”. Musicalmente, o álbum pauta-se por uma toada de transe, por uma vibração perturbante de dolência magoada de alguém que se refugiou num mundo ao mesmo tempo perverso e infantil, um mundo a fingir introduzido logo de início pela melodia ao estilo carrocel-mágico de “My secret reason”, em que os medos se transformam em bonecos de brinquedo e os tabus são trucidados pelas rodas de um comboio eléctrico. Numa canção como “Câncer for everything” ou no instrumental “Phantom love”, o mesmo tipo de vibração, hipnótica e arrastada, mas agora mais complexa e ornamentada, que os Velvet Undergound inauguraram no álbum da banana no tema “Venus in furs”.
O sexo, o sentimento de culpa, a fragilidade emocional aliada a uma lucidez extrema servem de novo a Lisa Germano para desnudar o seu universo interior de mulher ferida. Suspeita-se de que com algum artificialismo, ao lado de uma dose bem medida de teatro, de tal forma os diversos quadros mentais e emocionais são burilados ao pormenor. Neste aspecto, “Geek the Girl” vai ainda mais longe do que “Happiness”, retocando melodias que ainda ecoam do disco anterior, acentuando cada imagem com uma variedade maior de cores e tonalidade (um dos temas tem por título, precisamente, “…Of love and colors…”). Também como em “Happiness” não faltam as “punch lines” poéticas e as quase lengalengas em constante transmutação interior, que colocam o auditor num estado de total dependência, aqui representadas por “Sexy little girl princess” ou o tema final, “Stars”, que se diria arrancado da mesma galáxia onde orbita Lou Reed. A história de “Geek the Girl” é a “história de uma rapariga que se sente confusa sobre como ser, ao mesmo tempo, sexual e controlada neste mundo, mas que afinal chega à conclusão de que não é controlada e constantemente abusam dela sexualmente, fica como que doente e tem tendência para desistir e, apesar de tudo, tenta acreditar em qualquer coisa maravilhosa e sonha em amar um homem, na esperança de que este a salve da sua vida de merda”. Uma história triste, que Lisa Germano termina com uma gargalhada cruel e sem esperança: “Ah, ah, ah, que traste!” (“geek”). Um álbum escuro, húmido e fundo como um poço. (9)