Arquivo da Categoria: Críticas 1994

Julian Cope – “Autogeddon”

pop rock >> quarta-feira >> 17.08.1994
ÁLBUNS POP ROCK


Automecânica Do Juízo Final

Julian Cope
Autogeddon (7)
Echo, import. Contraverso



“Autogeddon” é o equivalente, em linguagem automobilística, de “armageddon”, o dia do juízo final. Inspirado no poema épico do mesmo nome de Heathcote Williams, o novo álbum do antigo vocalista dos Teardrop Explodes parte ao mesmo tempo de uma certa experiência vivida por Cope, cujo carro explodiu quando se encontrava estacionado à beira da estrada, em Long Island, Nova Iorque, enquanto ele e a mulher grávida se encontravam em casa a assistir na televisão ao filme dos Cheech & Chong, “Up in Smoke”.
Tanto bastou para Cope ver nisso um sinal premonitório e partir para mais uma incursão no mundo das alucinações e da ecologia, pelo prisma de um ex-viajante de ácido. À semelhança de todas as anteriores obras do músico, “Autogeddon” é um álbum estranho. A diferença em relação aos seus antecessores “Peggy Suicide” e “Jeovahkill” reside não propriamente na variedade de registos utilizados, o que é sempre de esperar em Cope, mas na frontalidade quase brutal de todos os temas, gravados na íntegra ao primeiro “take”. O que, se por um lado, expõe com maior crueza alguns deslizes, sobretudo nas vocalizações – como em “I gotta walk”, onde são visíveis as dificuldades de a voz se manter dentro de tom, falta de precisão que é compensada por uma urgência e raiva dignas de um verdadeiro punk -, tem por outro a virtude de transportar uma dose extra de espontaneidade e energia. “Madmax” e “Don’t Call me Mark Chapman” possuem, por seu lado, aquele tipo de melodia a que é impossível resistir. Com uma escrita que sai dos padrões normais – em Julian Cope tudo escapa à normalidade – em que as canções apresentam uma estrutura assimétrica, sem refrão e em constante progressão (característica da música da primeira metade dos anos 70, influência assumida por Cope), “Autogeddon” segue aos ziguezagues por alamedas laterias. Dos “blues” de “Autogeddon blues” ao delírio final de onze minutos, “S.T.A.R.C.A.R.”, em que a guitarra eléctrica de um tal Moon Eye se entrega a convulsões psicadélicas que escapam por um triz ao desafinanço, passando pelo “medley” “Paranormal in the West Country” em cuja terceira parte, “Kar-ma-kaniak” – combinação fonética de “car”, “karma” e “mechanic” – onde a memória dos Faust é de novo retomada. Ecologista louco, alienígena da pop, Julian Cope continua, como sempre, imprevisível. Para ele, o dia do juízo final é todos os dias. Seja em Stonehenge ou, como agora, no interior de um automóvel.

Vários Artistas – “Portugal Rebelde, vol. 1”

pop rock >> quarta-feira >> 03.08.1994


Ou Vai Ou Rasga

Vários Artistas
Portugal Rebelde, vol. 1
Global



Situadas nas margens da produção nacional “mainstream”, as bandas incluídas neste manifesto de rebeldia são a prova de que é possível ter ideias e lutar por elas fora do circuito das multinacionais. Autoproduzidos, com selecção e compilação a cargo de Marco Aurélio e Nelson Silva, os 15 temas de “Portugal Rebelde” aparecem divididos em dois blocos distintos. O primeiro, que abarca os Basement, Booby Trap, Melancholic Youth of Jesus, No Creative Solution, Carrocel Mágico, More República Masónica, Cães Vadios e LSD, escorre em torrentes ácidas de guitarra, explosões de bateria e o sufoco de baixos musculados. A escola é a do velho rock ‘n’ roll, a mensagem é a acusação e a denúncia, gritadas com sarcasmo, sem pausas de descanso, nem tempo para cortesias.
A partir dos Bizarra Locomotiva e até aos Giant Ant Scandal, passando pelos Lesma, Klang, Factor Activo, Zirkus Maximus e Aqob, entra em cena a tecnologia electrónica, desde os sintetizadores analógicos aos “samplers” democratizados. O discurso ganha em riqueza tímbrica e as soluções harmónicas diversificam-se. O destaque vai para o ataque demolidor dos Bizarra Locomotiva, com “Movimento em falso”, e para o “electrorap” dos Factor Activo, “Mas qual a reacção do morto que dorme”, em directo do Instituto de Medicina Legal, numa emissão anarco-hipnótica-televisiva para mentes afogadas em narcótico e robôs amantes da dança. Sem esquecer os Giant Ant Scandal e os Aqob que afogam sem receio a alma no tribalismo eléctrico da techno, o grande normalizador rítmico do momento. As bandas portuguesas que queiram participar em próximas edições discográficas do Portugal Rebelde deverão enviar seu material ao cuidado de Marco Aurélio, para Portugal Rebelde, Apartado B, 6203 Covilhã Codex. (7)

Vários Artistas – “No Prima Donna – The Songs of Van Morrison”

pop rock >> quarta-feira >> 03.08.1994


Vários Artistas
No Prima Donna – The Songs of Van Morrison
Polydor, distri. Polygram



Toda a gente importante já teve a sua homenagem. Possivelmente estará próxima uma segunda vaga, com os mesmos homenageados. Leonard Cohen tem já previsto o volume dois de adulação. “Então e para mim, nada?”, terá pensado Van Morrison, um dos poucos monstros sagrados que ninguém se lembrara até à data de homenagear. E, de facto, ninguém se lembrou. Foi preciso o próprio tomar a iniciativa e organizar a sua merecida festa.
A ideia surgiu a Van Morrison em consequência de uma banda sonora em que estava a trabalhar, para o filme “Moondance”, título de um dos álbuns deste compositor-intérprete irlandês. Falou com Phil Coulter, seu colaborador e amigo desde o tempo dos Them, e tratou de contactar alguns artistas. Não havia muitos à mão. Certo, Marianne Faithfull, Elvis Costello e Lisa Stansfield responderam de pronto. Eles tornaram-se, por assim dizer, profissionais das homenagens, e cumpriram com competência as tarefas de que foram incumbidos, interpretando, respectivamente, versões de “Madame George”, “Full force Gale” e “Friday’s child”. Marianne com a sabedoria sofrida que imprime a tudo o que canta. Elvis com um dos poucos arranjos inovadores presentes nesta homenagem. Lisa passa como uma ave no vento e mal se dá por ela.
Na falta de outros nomes sonantes, Van Morrison chamou a filha Shana, Brian Kennedy e Liam Neeson, actor principal em “A Lista de Schindler” de Spielberg, que aqui assina com mérito uma bela versão de “Coney Island”, enriquecida pelas “uillean pipes” de Declan Masterson, um ex-Patrick Street, Cassandra Wilson, dama dos blues, empresta uma emoção contida a “Crazy Love”, enquanto os Hot House Flowers reduzem “Bright side of the …” a um “gospel” de tonalidades sombrias e Sinéad O’Connor dramatiza em excesso “You make me feel so real”. Phil Coulter tapa os buracos, participando em quase todos os temas, e mancha um álbum já de si pouco estimulante com uma orquestração de puro “muzak” em “Tupelo honey”.
Quem tiver disposição para mergulhar mais fundo à procura de pérolas poderá encontrar, perdido no meio da vulgaridade, Arty McGlynn, mestre da guitarra da folk irlandesa. É pouco, numa homenagem um pouco feita à pressa a um músico (e por um músico, ele próprio…) que teima em passar despercebido no meio das outras estrelas. (5)