Arquivo da Categoria: Críticas 1994

U Omãi Qe Dava Pulus – “U Omãi Qe Dava Pulus”

pop rock >> quarta-feira >> 03.08.1994


U Omãi Qe Dava Pulus
U Omãi Qe Dava Pulus
Edição de Autor



Ninguém liga às correntes alternativas do rock nacional. U Omãi Qe Dava Pulus andou em vão a bater de porta em porta pelas editoras. Um “omãi” não é de ferro e a banda viu-se forçada à edição de autor da ordem. O disco inscreve-se numa linha com poucos cultores no nosso país, uma derivação fonético-nacionalista dos King Crimson com as guitarras de Tozé Chaparreiro e Rui Galveias a transbordarem ácido e disciplina, de acordo com as directivas de Robert Fripp, do período “small is Beautiful” encetado com “discipline”. O elemento de novidade dos Omãi reside no delírio das palavras, exercícios alucinatórios de escrita automática que dão estranhos sentidos a temas como “Arame farpado” (“Usa trajos ultra tempo/realeja o dia inteiro/baboseiras para bimbos/casse-têtas e ovos cocos”), “Heavy Chapa” (“latão de arestas cortantes / ponta de carne sem tesão / entre as pernas da virgem / relevante autópsia do invisível / com merda sinos e violinos”) ou “Os telim-telões” (“o telim-telão redondo / telim-tila cintilante / no bondoso mapa-mundo / o erro mallarmeano / telim-tila cintilante”). Só é pena que as vocalizações não saibam muito bem o que fazer da significância outra destas palavras, ficando-se por um registo monocórdico e por vezes deslocado, que acaba por dar a incómoda sensação de a obscuridade das letras não passar afinal de um jogo gratuito. Destaque ainda, num disco que uma companhia como a Rec Rec talvez não desdenhasse, para a excelente prestação no saxofone de Rui Cardoso, um veterano a quem urge fazer justiça. (6)

Eat Static – “Implant”

pop rock >> quarta-feira >> 03.08.1994


Eat Static
Implant
Ultimate, distri. Polygram



A questão que se coloca em relação à chamada música “techno” já não é se os artistas estão mais ou menos inspirados mas sim se as máquinas estão melhor ou pior programadas. O factor humano tem tendência para desaparecer, dissolvido na trama da tecnologia. Os Eat Static são mais uma agremiação de techno-andróides que se fecharam no estúdio para elaborar as paisagens computorizadas de mundos virtuais. A capa tem gravuras de extraterrestres, um disco voador e, no interior, (de abrir, como se diria nos anos 70, com os rebuscados grafismos que ocupavam áreas imensas de cartão), uma paisagem de ficção científica na melhor tradição dos Hawkwind ou Roger Dean, nos dias em que o traço lhe descambava para o “kitsch”. “Implant” é uma orgia sequencial de pseudo-emoções artificiais destinadas a sincronizar os cérebros dos disco-zombies com a grande central cósmica dos grandes telepatas. Pelo meio, há uma pausa de “ambient”, para ressacara, antes da batida infernal retomar a sua tarefa de entrega das almas ao deus Pã, aqui disfarçado de astronauta. Mais uma vez os Kraftwerk tiveram razão quando cantavam em “Electric Café”: “Music non-stop – techno pop”. Na discoteca gigante do final do século, a música dura 24 horas por dia. Está previsto parar somente no dia em que o rosto dos humanos se abrir num sorriso de metal. (6)

Conjunto António Mafra – “‘O Melhor Dos Melhores, vol. 48’ + ”Não Pára””

pop rock >> quarta-feira >> 03.08.1994


CONJUNTO ANTÓNIO MAFRA

O Melhor Dos Melhores, vol. 48 (5)
Movieplay
“Não Pára” (4)
Pôr do Som, distri. BMG



“Eram para aí sete e picos, oito e coisa, nove e tal…” Quem nunca trauteou tais horas incertas, sabendo ou não quem são os sues autores? O Conjunto António Mafra é uma espécie de lenda. Reis do “kitsch” popular e de um humor, ao contrário do de Quim Barreiros, com pouco ou nenhum picante, o seu reinado dura há 35 anos, sobrevivendo à morte do seu fundador e mentor, António Mafra. O Conjunto António Mafra nasceu no Porto, junto aos Clérigos num pequeno local chamado “Cantinho da Rambóia”, na noite de S. João.
Seis Mafras, uma família que se entregou às noitadas e aos sons populares polvilhados de graça, das chulas, marchas e viras que contavam o “Baile da Dona Ester” e iam beber o “Vinho da Clarinha”. Os dois discos agora editados marcam o regresso dos Mafras, para “abanar o capacete” em plena “era digital dos compact-disc e do software”, como eles dizem.
A estratégia é semelhante ao do também recém-regressado Vítor Gomes: capitalizar no passado e procurar acertar o passo com a onda de revivalismo do “popularucho” que grassa actualmente em Portugal. Os Sitiados, por exemplo, incluem no seu reportório “O carteiro”. “O Melhor dos Melhores” é uma compilação de interpretações originais de êxitos como “Sete e pico”, “Ó Zé olha o balão” ou “Arrebita, arrebita, arrebita”. Ingénuas e com aquele toque de humor atravessado de nostalgia que caracterizava Max, com quem a música dos Mafras tinha e tem parecenças.
“Não Pára” é também uma colectânea (seis temas repetem-se nos dois discos) mas com a particularidade de ser gravada já este ano pela actual formação do grupo. As diferenças não são muitas, mas nota-se uma atitude de maior profissionalismo, presente nomeadamente no cuidado com que são tratadas as harmonias vocais que eram um dos pontos fortes do grupo, a par das vozes de “falsetto” e imitação que entravam de surpresa, a servir de contraponto humorístico, um pouco à maneira dos jograis, técnica que, por exemplo, Sérgio Godinho, noutro contexto, utiliza em algumas das suas canções.
As percussões aparecem por seu lado mais marcadas, o que acentua o carácter folclórico dos temas mas tem o inconveniente de os tornar mais pesados e lhes retira alguma da frescura original. Mas é impossível não sentir alguma simpatia por esta música que procura sacudir a poeira das recordações e surge como um quadro vivo de um tempo que a memória enterrou.