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GNR – “GNR Apresentam Novo Guitarrista E Rui Reininho Mostra Nova Vocação – A Revelação De Um Guarda-Redes”

cultura >> sábado >> 11.06.1994

GNR Apresentam Novo Guitarrista E Rui Reininho Mostra Nova Vocação
A Revelação De Um Guarda-Redes

A juntar ao disco novo, “Sob Escuta”, os GNR têm também um novo guitarrista. Cantanhede foi o lugar escolhido para estrear a nova formação – que esteve para não se realizar – revelou uns GNR em forma, com o recém-chegado a dar cartas e Rui Reininho a somar aos seus dotes vocais os de guarda-redes.



Alexandre Manaia é o novo guitarrista dos GNR, entrando para o lugar de Zezé Garcia. Por este motivo, era aguardada com uma certa expectativa a estreia ao vivo do grupo com o novo recruta. Ela aconteceu na quinta-feira e a honra coube a Cantanhede e ao Clube de Futebol “Os Marialvas”, entidade promotora do concerto.
Quinta-feira (ou talvez seja mais correcto dizer, sexta), por volta da meia-noite, hora a que se iniciou a actuação do grupo, poucos seriam, dos cerca de três mil jovens presentes no campo de terra batida de “Os Marialvas”, aqueles que sabiam como se chamava o novo guitarrista. Num passatempo realizado de tarde por uma rádio local de Cantanhede, ninguém acertou o nome.
Com bilhetes a 1750 escudos, o espectáculo esteve quase para não acontecer. “Problemas técnicos”, segundo explicou um elemento da organização, motivaram o atraso. “Problemas de alimentação eléctrica”: um gerador que não funciona, lá se conseguiu arranjar um em bom estado, mas que também não funcionava porque não tinha gasóleo. E toda a gente sabe que um gerador sem gasóleo não gera. A coisa estava para demorar. Os músicos? Ainda iam jantar. Mais problemas de alimentação.
Cerca da meia-noite, com a chegada do gasóleo, tudo se resolveu e os GNR, pese embora a noite amena, foram recebidos com pouco entusiasmo por uma assistência constituída quase exclusivamente por adolescentes. Arranque em força com “Las Vagas”, logo seguido de “Dominó”, ambos os temas do novo álbum “Sob Escuta” que o grupo apresentou em Cantanhede, aos quais se viriam a juntar “Ciclones”, “+ vale nunca”, “Música de Ligeia”, “O costume” e “Costa Atlântica inevitável”, alternando com êxitos como “Efectivamente”, “Morte ao Sol” e “Pronúncia do Norte”.
Ficou a confirmação de que os GNR estão cada vez mais Pop “mastiga e deita fora” e profissionais. Por vezes, a música aproxima-se dos Supertramp (nas ocasiões em que é dominada pelo piano eléctrico de Telmo Marques), noutras sobressai o lado “kitsch” e melodramático, com Reininho a vestir a pele do “crooner” espremendo-se em romantismo, noutras ainda joga-se com a fonética do gozo e das letras, como aconteceu em “Homem mau”, a adaptação dos GNR de “All right now”, um tema dos anos 70 dos Free. Quanto a Alexandre Manaia, teve tempo e motivos de sobra para se divertir e executar sem constrangimentos solos na guitarra. O som actual dos GNR passa em grande parte por ele.
Rui Reininho assumiu-se em definitivo como um “entertainer”. Entre Bryan Ferry e Tony Silva (“obrigados, obrigados!”, repetiu por várias vezes no final das canções). Em Cantanhede, embora não estivesse propriamente esfuziante, mostrou o humor do costume, do subtil ao espalhafatoso. Durante “Música de Ligeia”, uma canção “triste”, como anunciou, sugeriu que se formassem pares de dança de meninos com meninas, ou outros, a partir de “desvios freudianos”. Apresentou Jorge Romão no “cabisbaixo eléctrico” e o teclista convidado, Telmo Marques, como eu “guru espiritual”. A dada altura, numa antecipação improvisada do próximo “Mundial” de futebol, lançou-se para o chão em espectaculares defesas a balões lançados para o palco pela assistência.
Outro momento interessante ocorreu durante a interpretação de “Vídeo-Maria” (com “Valsa dos detectives” e “Dunas”, um dos três “encores” da noite). Na parte em que Reininho cantava “atirem-me água fria”, o público respondeu à letra, esguichando sobre o vocalista garrafas de água mineral. Finalmente, a despedida com um “hare-krishna” cheio de devoção.
Passavam 20 minutos da uma da manhã quando os GNR puseram uma pedra sobre o assunto. Pouco mais de uma hora de concerto que, se não encheu as expectativas de ninguém – é preciso não esquecer que se tratava do início de rodagem – também não as defraudou. Quem pairava nas estrelas, findo o concerto, eram a Inês, 18 anos: “Adoro os GNR, adoro, adoro, adoro! Era capaz de ficar aqui dias.” E a Iolanda, 19: “Já vou há muitos anos a concertos do grupo, a vários sítios.” Ambas estudantes, esperaram mais de meia hora à porta dos camarins pelos autógrafos dos seus ídolos.
Já de madrugada, as atenções voltaram-se para um segundo palco instalado no recinto onde actuaram a Fan-farra Académica de Coimbra e os Omega, de Mourelos, Vil de Matos, estes ansiosos por estrearem o seu novo sistema de iluminação e tocarem as suas versões de canções de Fausto, Quim Barreiros e Soul Asylum.

(caixa)
“Parece O Sporting, O Benfica E O João Pinto”

ALEXANDRE MANAIA, é ponto assente, trocou de funções com Zezé Garcia, como guitarrista dos GNR. Até aqui nada de novo. Só que Manaia deixou a banda de Rui Veloso em vésperas de uma digressão deste músico. António Pinho, empresário de Veloso, já ameaçou com um processo, que não nos foi confirmado, dado que, por enquanto, prefere “não tecer mais comentários”. Por seu lado, Manaia, contactado pelo PÚBLICO no final da actuação dos GNR em Cantanhede, declarou que “obviamente tinha um compromisso com o Rui “, mas que, também “obviamente”, se pretendeu “desvincular dele”, embora “sempre cumprindo até à data todas as coisas”. “Sinto-me comprometido é com Rui Veloso e não com António Pinho”, disse o guitarrista, que garantiu ter tentado “fazer as coisas de maneira a que o Rui tivesse um mês ou mais para tentar arranjar outro músico”.
Certo é que Manaia se integrou perfeitamente nos GNR, tendo para tal ensaiado com os outros músicos “todos os dias durante duas semanas”. O músico até já faz comparações entre as suas novas funções e as que desempenhava com Rui Veloso: “Gosto de tocar guitarra como gostava de tocar piano com o Rui. Tenho imenso prazer em tocar o que quer que seja. Lembro-me de, com o Rui, numa digressão há três ou quatro anos, ter tocado chocalho nalgumas músicas. O prazer era o mesmo. O espectáculo actual dos GNR tem um ritmo mais acelerado, enquanto o Rui tem neste momento um concerto mais íntimo, menos volumoso em termos de som, com timbres mais acústicos, tudo mais “jazzy”. São prazeres diferentes.”
Também para Rui Reininho, igualmente contactado pelo PÚBLICO, a mudança de guitarristas foi “uma coisa espontânea, sem razões de fundo”: “Achámos que precisávamos de mudar.” Não por motivos ligados ao visual, ou à falta dele, do antigo guitarrista, hipótese que fora avançada anteriormente, mas por “uma questão de som”. “Hoje divertimo-nos como já não nos divertíamos há muito tempo.”
Sobre os eventuais procedimentos legais contra Manaia, Reininho é claro: “São problemas que nos ultrapassam. Acho muito chato ameaçar um puto que quer tocar e não o deixar fazer o que quer. Se foi ou não a altura ideal, não sei. Já parece o Sporting, o Benfica e o João Pinto.”
E, numa alusão à sua actuação como guarda-redes: “Foram duas boas defesas. Para canto.”

Nick Cave + The Cruel Sea – “O Poeta Carrasco” (concerto – perspectiva)

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


O POETA CARRASCO

O “cabaret” tem agora sessões regulares, mas a experiência continua a ser única. Deixe-se entrar o amor ou o que quer que seja que queima. E dói. Nick Cave e os Bad Seeds vêm de novo atormentar Portugal.

Com certeza que não vão aparecer o Pedro, nem a Madalena, alguns dos amigos brasileiros de São Paulo, mas vão estar o compincha de Berlim, Blixa Bargeld, das demolições Neubauten, e Mick Harvey, representante dos Crime & City Solution. Senhoras e senhores amantes dos divertimentos decrépitos, aí está de regresso Nick Cave, o “entertainer” decadente, o diabo atrás da porta, o exemplo do que não queremos que sejam os nossos filhos.
Sim, Nick Cave vem de novo espalhar as suas sementes do mal a Portugal. Dois anos depois dos coliseus de Lisboa e do Porto, o “cabaret” da infâmia volta a abrir portas a este anjo do bizarro que ainda há pouco lançou no mercado nacional um novo álbum de canções, “Let Love In”. Que são “de amor”, diz ele.
Assegura quem já o viu actuar nos últimos tempos que cada espectáculo actual de Nick Cave é uma fotocópia do anterior. Segundo parece, o circo de aberrações tornou-se uma mistura inteligente de simulação e profissionalismo. Os alinhamentos, as poses, as provocações, reproduzem com minúcia um plano previamente delineado. Mas que importa, se o resultado continua a compensar o investimento emocional e a encenação da festa do horror funciona ainda como moeda de troca para mil fúrias e revoltas contidas.
Concedamos, Nick Cave também já não é o mesmo que era nos anos de fogo dos Birthday Party. O australiano intelectualizou-se, como se costuma dizer. Andou a ver bons filmes, de preferência de Wim Wenders, que até lhe arranjou trabalho, a ler bons livros, e chegou mesmo a escrever um, “And the Ass Saw the Angel”, que é como quem diz, na tradução portuguesa, “E o Burro viu o Anjo”. O carrasco virou poeta.
Depois, Cave viajou muito. Descobriu outros cenários desolados. Outros desertos além dos da Austrália e dos seus próprios interiores. Dos lugares por onde passou, Nick Cave reteve sobretudo Berlim. A sua tradição do “cabaret”, as suas ruínas e memórias de destruição, o seu passado cortado ao meio e finalmente reunificado num mutante monstruoso e sedento de Ocidente. Em São Paulo, encontrou Cave uma espécie de paz podre, a sintonia tropical com as forças da Natureza, a sensualidade hedonista sem culpa nem pecado, à flor da pele.
Nick Cave forjou então novas máscaras e envergou trajes elegantes. Tornou-se evangelista e pregador, um moralista em que não custa muito não acreditar. O sussurro abraçou o grito. Para trás, não tanto como possa parecer à primeira vista, ficaram as labaredas do inferno dos Birthday Party, substituídas por uma nova consciência e maneira de cantar as coisas. Nascia o “crooner”, o contador de histórias cheias de ambiguidade, o existencialista pós-moderno que cultiva com requinte a autodestruição, mas apenas no papel. Antes a vida doía a Nick Cave. Agora compete-lhe descrever com toda a arte que for possível os princípios metafísicos da dor.
Não que isso seja o mais importante. Nick Cave pode até transformar-se, o que decerto não é o caso, no rei dos hipócritas que tal não anula que “Let Love In” seja um álbum magnífico, talvez um dos seus melhores de sempre. Digamos antes que, pese embora a queimadura imediata provocada pelo metal em brasa de algumas faixas do novo álbum, a idade ensinou a este fabricante de sonhos empestados ema forma mais melíflua e insinuante de fazer passar o niilismo da mensagem.
O diabo, já tivemos oportunidade de o dizer várias vezes, é inteligente e sabe adaptar-se com rapidez à alteração das situações. Essa é de resto uma das suas maiores aptidões. Nada melhor então do que acenar com uma carta de amor na mão ou soltar um lancinante “perdoa-me!” para nos convencer de que o demónio se transfigurou num anjo. Mas que ninguém se iluda. Ontem como hoje, ouve-se Nick Cave por própria conta e risco.



NICK CAVE + THE CRUEL SEA
10 de Junho, Coliseu dos Recreios, Lisboa
11 de Junho, Coliseu do Porto

Os Sons Da Fala + Pedro Abrunhosa – “9 de Junho, Praça Velha de Coimbra, 21h00”

pop rock >> quarta-feira >> 08.06.1994


FUSÕES LUSÓFONAS

OS SONS DA FALA + PEDRO ABRUNHOSA
9 de Junho, Praça Velha de Coimbra, 21h00



Coimbra vai ser palco, dia 9 de Junho, das Comemorações do dia de Portugal, que por acaso até é o dia 10. Vai ser na praça velha da cidade, Às 21h, e Vitorino será o director musical de um espectáculo de genérico “Os sons da fala”, baseado na música dos vários países de língua portuguesa (incluindo a Galiza e o português antigo) e com uma série de convidados especiais. De África virá um quarteto constituído por Manuel Paris, no baixo eléctrico, João Ferreira, na percussão, Zezé Barbosa, na guitarra eléctrica, e Toy Paris, na bateria, que fará o suporte musical da representação portuguesa, formada por Vasco Gil, no sintetizador, Jacinto Ramos, tuba, Jorge Reis, saxofones alto e soprano, Carlos Salomé, adufes e cavaquinho, Edgar Caramelo, saxofone tenor, e Tomás Pimentel, arranjos de metais, trompete e filiscórnio. A lista de convidados é apelativa. Bana e Tito Paris representam Cabo Verde. O primeiro interpretará a morna “Ondas sagradas do Tejo” e uma canção do seu reportório. Uxia, a cantora galega mais portuguesa de todas, virá cantar uma canção de José Afono, “Se voaras mais perto”, acompanhada por Filipa Pais, a tocadora de gaita galega Maria José, dos Muxicas, e os três irmãos Salomé, em adufes.
Waldemar Bastos vem de Angola para interpretar o fado “Foi Deus” e André Cabaço, de Moçambique, fará o mesmo em “Diana”, um tema com letra de António Lobo Antunes. Ambos vão cantar mais duas canções dos respectivos reportórios. O Brasil faz-se representar por Carlos Lyra e os portugueses convidados são Janita Salomé, com mais duas mornas, “Saudade de Cabo Verde” e “Maria Bárbara”, e Filipa Pais de novo a fazer os apoios vocais. Sérgio Godinho completa o lote dos portugueses presentes em “Os sons da fala”.
Vitorino explica as razões de escolha do local – “Coimbra era a capital cultural do Império” – e o sentido geral do espectáculo: “Vão estar presentes em grande força cantores da lusofonia portuguesa dos PALOP a cantar nas suas línguas e nos seus dialectos, nos seus crioulos. Vai ser um som luso-africano, até porque a banda principal é mista. Uma verdadeira fusão. Fala-se hoje muito em fusão, mas a gente não só fala como a vai tornar real.”
Das funções entregues a Vitorino fazem parte “a coordenação de todo o projecto”, incluindo a organização, a sequência do espectáculo, o endereço de convites, enfim, o pôr em prática todas as ideias e sugestões. Em colaboração com Paulo Pulido Valente. Vitorino apenas lamenta a não participação de um convidado que estava nas suas intenções trazer a Portugal: “Convidei um indiano de Calecute que não pode vir porque tem um trabalho em Toulouse. É pena, porque Calecute foi o primeiro ponto tocado por Vasco da Gama na sua viagem à Índia. Vamos ter dificuldades em arranjar indianos. Ainda só não temos músicos da Ásia.”
Uma curiosidade relativa a “Os sons da fala” é que, segundo Vitorino, “será tudo ao contrário. O Janita vai cantar em crioulo, todos os cantores vão cantar depois uma canção do Zeca Afonso, em português, mas a norma vai ser os portugueses cantarem em crioulo”.
Antes de “Os sons da fala” outros sons soarão em Coimbra, dos actualmente muito falados Pedro Abrunhosa e Bandemónio.