Arquivo da Categoria: Colectânea

Beach Boys (The) – “Collection” (reedições | compilação)

Pop-Rock, Quarta-Feira, 03.07.1991
Reedições


THE BEACH BOYS
Collection
LP duplo / CD, Capitol, ed. EMI – Valentim de Carvalho



Na prática a única diferença entre a colectânea agora editada e a do ano passado, “Summer Dreams”, é o rótulo de “anunciado na TV” que aquela ostenta, orgulhosa, na capa e o corte de algumas canções de carácter mais intimista. De resto é a lista de clássicos do costume, as notas (breves) em português e a embalagem saloia a puxar idas à Caparica, de “tijolo” às costas. Onde “Summer Dreams” procurava inserir-se num contexto nostálgico, de Verões perenes, passados ao sol de uma época e de uma Califórnia míticas, destacando a faceta de compositor genial de Brian Wilson, “Collection” vai mais pelo lado “gelado de limão”, procurando impor a imagem duns Beach Boys adeptos de uma filosofia de vida simplista, que compunham melodias facilmente trauteáveis, ideais como acompanhamento para os prazeres do “surf” ou de “flirts” de ocasião.

Não seria possível, por uma vez, trocar a jogada oportunista dos “hits” pela edição dos discos originais? Dito isto, as canções aqui colecionadas, quase todas tornadas “clássicos”, permanecem intocáveis. Daí a classificação atribuída.
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Wim Mertens – “Minimalista Wim Mertens Lança Obra Em Sete CD – A Eternidade Em Cinco Horas”

Secção Cultura Sexta-Feira, 05.04.1991


Minimalista Wim Mertens Lança Obra Em Sete CD
A Eternidade Em Cinco Horas



Minimalista, monárquico, pós-moderno, genial e louco são alguns dos adjectivos aplicáveis ao compositor belga Wim Mertens. Sobretudo os dois últimos, se levarmos em conta o seu mais recente trabalho, “Alle Dinghe”, com mais de cinco horas de duração, só ao alcance dos iniciados.
“Alle Dinghe” cumpre uma promessa antiga. Desde o ano passado, quando o músico, monárquico e tradicionalista convicto (tocou em particular para o rei de Espanha…), actuou a solo no Teatro S. Luiz em Lisboa, que a ideia germinava no seu cérebro fervilhante. Ao ritmo dos passos e das vibrações da serra de Sintra, Wim Mertens discorria, num monólogo interminável, sobre aquela que seria a obra-chave, solução definitiva para os mistérios que a sua música encerra, vitória sobre o tempo, a eternidade, em suma.
Mertens considera-se um enviado dos deuses, portador de uma missão a cumprir – transmitir aos homens a verdade última – dos sons, da melodia e harmonia absolutas, ocultas na estrutura pitagórica do verbo composicional, estrutura já manifestamente evidente, aliás, nos dezassete minutos finais de harpa algébrica, para muitos insuportáveis, de “Educes Me”. Toda a sua obra anterior a “Alle Dinghe” (de que “Vergessen”, “Maximizing The Audience”, “Struggle For Pleasure” ou “After Virtue” constituem fases cruciais) avança por aproximações progressivas a essa essência. Para quem não conhece nem seguiu, passo a passo, nota a nota, esse percurso em direcção ao segredo, torna-se incompreensível, senão mesmo penosa, a audição integral deste trabalho, só comparável, em depuração formal e duração, a “The Well Tempered Piano”, do profeta LaMont Young.

O Tempo Imóvel

Dividida em três núcleos fundamentais, distribuídos por sete (!) discos compactos arrumados em três caixas, Alle Dinghe” (gravado na editora “Les Disques du Crépuscule”, distribuída em Portugal pela Contraverso) dura exactamente cinco horas, cinquenta e cinco minutos, dezassete segundos. “Sources of Sleepness” constitui a matéria dos dois primeiros CDs – “Meinleib ist mude” e “Venerandam” num, “Sub Rosa” e “Le Bref” no outro. “Vita Brevis” estende-se, em sete partes, por mais dois compactos. Finalmente, “Alle Dinghe”, dividido em dez partes, preenche os restantes três.
Para a escuta contínua e integral da obra, torna-se necessário cumprir certos requisitos, a saber: jejum prévio durante os cinco dias (tantos quantas as horas de “Alle Dinghe”) anteriores à audição, depois do qual, no caso de se ter sobrevivido à fominha, se deverá dedicar cinco horas à meditação transcendental, de modo a evitar ao máximo possíveis acessos de impaciência, que, nestas circunstâncias, poderão ser fatais.
“Sources of Sleepness” recupera o formato instrumental dos Soft Veredict. Oito músicos dão corpo a este “perpetuum mobile”, através de uma combinação característica da música de câmara (tuba, clarinete, flauta, violino, violeta, violoncelo e contrabaixo) e de desenvolvimentos melódico-harmónicos que retomam o minimalismo na sua vertente mais radical.
“Vita Brevis” aponta para uma concepção temporal própria do Zen – sucessão cíclica de infinitos instantes, como um filme observado ao fotograma, micro-espirais de fogo desenroladas, ao longo de mais de uma hora, pelo fagote, em solo absoluto de Luc Verdonck, à semelhança do que acontece nas “Instrumental songs” interpretadas, também em solo-absoluto, pelo saxofone soprano de Dirk Descheemaeker, no álbum do mesmo nome.
Os três últimos CDs correspondem ao desfecho em forma de odisseia extática, “Alle Dinghe”, síntese operatória e manifesto teórico das premissas subjacentes à música e concepções existenciais do seu autor – ultrapassagem da linguagem e do pensamento conceptuais, considerados prisões que obstam à pura contemplação da vida e do perpétuo e imprevisível movimento que, por essência, ela é. O “tal-qualismo” de que falavam os mestres Zen, visão das coisas “tal qual são” e não como as pensamos. Cada parte de “Alle Dinghe” recorre a fonemas destituídos de sentido (“zo”, “al”, “ook”, “et”, “tt”, “en”…), para descobrir o vazio que corrói a carne das palavras e ao mesmo tempo apontar o silêncio incomensurável do Todo, do Nada que é o tudo da realidade manifestada.
A música, enfim, liberta de grilhetas do significado. Reduzida a um trio instrumental violino / violoncelo / contrabaixo, a sequência final (e anti-apoteótica) de “Alle Dinghe” derruba todas as concepções, teoria e modos de percepção sonora que a construção fictícia do Ego geralmente implicam. Wim Mertens dá voz e espaço à liberdade anteriormente enunciada por LaMont Young, na vertigem silenciosa do “teatro da música eterna”. Não são diferentes, a Eternidade e o Instante.

Jimi Hendrix – “Cornerstones, 1967-1970”

Pop-Rock 27.02.1991 – REEDIÇÕES


Lenda Viva

JIMI HENDRIX
Cornerstones, 1967-1970
LP, MC e CD, Polydor, Ed. Polygram



Hendrix parece que continua a fazer falta. Não cessam as reedições ou a descoberta de mais uma “take” abandonada na poeira de uma gaveta. “Cornerstones” limita-se a repescar da fase mais criativa do músico os temas que fizeram história: “Hey Joe”, “Purple Haze”, “All Along The Watchtower”, “Voodoo Chile (Slight Return)”, “Star Spangled Banner” ou “Room Full Of Mirrors”. Quem não tiver os álbuns originais não tem razões de queixa – a presente colectânea é de facto um “besto f” dos temas-chave do genial guitarrista.
Para quem não sabe, eis a história de cada um: “Hey Joe” foi gravada em 1966 pela Jimi Hendrix Experience da qual faziam parte o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell. Dias antes de entrarem no estúdio tinham feito a primeira parte de um espectáculo de Johnny Halliday. O tema chegou ao quarto lugar nos tops da época. Outro clássico do mesmo período, “Purple Haze” evidencia experimentações electrónicas a que não é alheio o dedo de Roger Mayer, perito na matéria. “The Wind Cries Mary” foi o que restou de uma “jam session” de vinte minutos durante as sessões de “Purple Haze”. Bem trabalhado, deu para chegar ao nº 6 dos tops. “Foxy Lady” (do álbum “Are You Experienced?” completa o grupo de canções da primeira fase.
“Crosstown Traffic” tem a particularidade de Hendrix tocar piano e Dave Mason, dos Traffic, participar nos apoios vocais. Em “All Along The Watchtower” (um original de Bob Dylan), o mesmo Dave Mason toca guitarra acústica e Jimi ocupa-se do baixo. Outro dos grandes clássicos de Hendrix é “Voodoo Chile” (do duplo “Electric Ladyland”), editado em single após a morte do músico e única das suas canções que alcançou o primeiro lugar nas listas de vendas. Conta a lenda que depois de ter escutado o “playback” de “Have You Ever Been (To Electric Ladyland)”, Jimi Hendrix terá gritado: “Sei cantar! Sei Cantar!”
De “Star Spangled Banner” permanece na memória a imagem desolada de Hendrix à deriva entre os destroços do festival de Wight e o som convulsivo da guitarra, prenunciando o apocalipse próximo. Quando “Steppingstone” foi gravado, já Billy Cox tinha substituído Mitch Mitchell na bateria. O tema aparece no álbum póstumo “War Heroes”. Em “Room Full Of Mirrors” (já com a Bando f Gypsies), o músico toca “slide-guitar” com um anel. Steve Winwood e Chris Wood (mais dois Traffic) dão uma ajuda em “Ezy Rider”. Buddy Miles toca bateria. Completam a colectânea “Freedom”, “Drifting”, “In From The Storm” e “Angel”, representativos da fase derradeira (1970), todos incluídos no póstumo “Cry Of Love”.
Hendrix morreu mas a lenda continua bem viva, no fogo de outras cordas de guitarra. Jimi Hendrix – dos blues, do rock, da soul, do funk, do jazz, do psicadelismo, das baladas – tinha uma alma demasiado grande e demasiado sôfrega que queria beber toda a música do universo. Basta escutá-lo para se perceber que o conseguiu.
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