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Vários (Ron Kavana, Xutos & Pontapés, Madredeus) – “Comunistas Celebram Na Atalaia – Os Dois Rostos De Uma Festa” (reportagem)

cultura >> segunda-feira, 06.09.1993


Comunistas Celebram Na Atalaia
Os Dois Rostos De Uma Festa


De um dia para o outro, pode-se mudar a fisionomia de uma festa. Entre o incómodo e o prazer, nem a música escapou à dialéctica dos contrastes. Ron Kavana abriu as portas do céu. Assim se vê a força do PC.

Inferno e céu, por esta ordem, aconteceram no sábado e no domingo a 17ª Festa do “Avante!”, a acusar cada vez mais sinais evidentes de um gigantismo incontrolado, já que a população continua a acorrer em número impressionante a este certame que o Partido Comunista Português organiza anualmente. O que é uma foice de dois gumes, uma vez que as infra-estruturas existentes, acabam por não resistir ao dilúvio e aos estragos provocados pelas massas. Assim aconteceu mais uma vez, mas só no sábado. Um inferno. O inferno de Dante, comparado com o inferno do “Avante!”, é um jardim no Pólo Norte.

Uma Estação No Inferno

Chegava-se lá a pé, de carro ou de camioneta, após bichas intermináveis que começavam logo à entrada da ponte, para quem vinha de Lisboa. Na altura, o facto causou alguma irritação. A lentidão, o calor, a inalação do fumo dos escapes, tudo parecia contriba infernizar a vida, ainda antes de chegarmos ao teatro das operações. Puro engano. Compreendemos depois tratar-se de um plano previamente traçado, com o objectivo de chamar-nos a atenção para a beleza natural do eixo Almada-Fogueteiro-Atalaia.
Mostrada a tradicional EP, entrámos no santuário. É preciso confessar que a primeira visão que dele tivemos foi do tipo das que durante a Renascença assombraram a pintura de Hyeronimus Bosch. Um mar compacto de gente, de onde emergia todo o tipo de alucinações com formato humano, engoliu-nos de imediato. Adiante a questão dos sanitários sem água – um bem que no passado não soubemos entender. Até porque a água, se virmos, bem não é precisa para nada numa festa com estas características. Pode-se muito bem lavar as mãos com cerveja ou mesmo vinho, excluindo oo tinto carrascão.
Relva, houve sim senhor, embora não resistisse muito tempo à sanha esmagadora dos pés assassinos. Chegou, no entanto, para pôr em respeito a terra, mantendo-se no lugar que lhe compete, junto ao chão.
Tentámos a música. No palco grande 25 de Abril, com bom som, boas luzes, e pouco tempo de intervalo entre cada actuação, o que fez com que o horário se cumprisse sem grandes alterações em relação ao previsto. Rock duro, boa presença e muita energia foram os ingredientes trazidos pelos Xutos & Pontapés, num espectáculo cujas características casam bem com o ambiente da festa do “Avante!”. Seguiram-se os Sitiados, na mesma linha populista que lhes granjeou o triunfo no ano passado. Desta feita não resultou da mesma maneira porque a inovação foi nula, com as mesmas canções, as mesmas palavras de apresentação dos músicos no final (o acordeão mágico de Sandra Baptista, a bateria atyómica, etc.,) e a previsível sequência de “encores”, com a “A cabana do pai Tomás”), um tema de António Mafra (“a melhor banda do Porto”) e o hino “Esta vida de marinheiro”.
Também os Madredeus apresentaram o reportório do costume, sendo a única novidade a presença de José Peixoto na guitarra, que há poucos meses substitui o fundador teórico da banda, Pedro Ayres de Magalhães. Música de introspecção que o público, excitado, respeitou, até à conclusão, em tom festivo, com “O Pastor”. A fechar a noite os escoceses Wolfstone desiludiram. Folk rock sem imaginação, muito sdécibeis a disfarçar os poucos requisitos técnicos dos executantes e um lote de canções e instrumentais revivalistas, no mau sentido (cópia de formas, nula assimilação de uma estética que deu frutos no início dos anos 70) pôs um ponto final sem glória num dia em que Rimbaud não desdenharia de incluir nas suas alucinações. Adiado para o dia seguinte ficou o espectáculo de “rap” com bandas nacionais, devido à falta de condições técnicas alegadas pelos músicos.

Kavana No Céu

Domingo abriram-se as portas do céu. Menos, bastante menos gente, transformou o recinto por completo, tornado-o num local quase aprazível.
Mais espaço, mais ar, circulação livre em todos os sentidos, restaurantes disponíveis e até, “hélas”, a água que voltou às torneiras dos sanitários, mudaram o rosto da festa para qualquer coisa de muito melhor onde o prazer se instalou pela primeira vez.
No 25 de Abril a banda do irlandês (e comunista, não se furtou a gritar um “Viva o Partido Comunista Português!”) Ron Kavana assinou uma actuação inesquecível, mostrando que a electricidade e a música tradicional não são incompatíveis quando resultam de um trabalho de profundidade.
O público entusiasmou-se, os músicos deixaram-se empolgar e tocaram cada vez mais rápido e melhor – excelenete Kavana, no bandolim electrificado, e a sua mulher Miriam Vandenbosch na rabeca. Pena não se ter ouvido melhor o tocador de “uillean pipes” – o público por sua vez começou a delirar, e aos poucos o frenesim instalou-se: dança colectiva e incontrolável, alegria esfuziante em cima e em frente do palco, ritual de comunicação dionisíaca que atingiu o auge com a invasão pacífica de centenas de jovens que empunhavam bandeiras vermelhas do partido, recém-chegados para assistir ao comício que se desenrolaria a seguir, com a presença de Álvaro Cunhal.
A música fechou em apoteose, aos gritos de “Assim se vê a força do PC!”. Cavaco e o PSD que se acautelem. O perigo vem da Irlanda… (Ver pág. 4.)

Vários (Old Rope String Band, Delyth Evans com Peter Stacey, Jean-Pierre Rasle, John Kirkpatrick e John Gresham, Blind Boys of Alabama, Maria João com Mário Laginha e Carlos Bica) – “Folk Na Rua Augusta”

cultura >> segunda-feira, 12.07.1993


Folk Na Rua Augusta

COM INÍCIO hoje e até ao próximo sábado decorrerá em Lisboa, na Rua Augusta, a 3ª edição do Folk Tejo, que este ano pela primeira vez não integra o programa das Festas da Cidade de Lisboa. Os concertos, com alinhamento flexível, começam a partir do meio-dia, prolongando-se até cerca das 19h.
Do programa fazem parte a Old Rope String Band, Delyth Evans com Peter Stacey, Jean-Pierre Rasle, John Kirkpatrick e John Gresham. Os Blind Boys of Alabama e Maria João, com Mário Laginha e Carlos Bica encerram o festival no sábado 17, com um concerto no Mosteiro dos Jerónimos.
Os Old Rope String Band são um trio de “entertainers” de Newcastle, cujo material vai da tradição celta a polkas mexicanas ou canções de amor espanholas, acompanhados por números de acrobacia e prestidigitação.
Delyth Evans, do País de Gales, em harpa céltica, e Peter Stacey, saxofone, flautas, teclados e gaitas-de-foles, integraram as bandas Cromlech e Aberjaber.
Jean-Pierre Rasle, francês, e John Kirkpatrick, inglês, passaram ambos pela Albion Band, autêntica escola da folk rock britânica. O primeiro, especialista da “cornemuse”, gaita-de-foles francesa, tocou igualmente na banda Cock and Bull (que alguns conhecerão do álbum “Concrete Routes, Sacred Cows”). O segundo é “apenas” um dos nomes mais importantes da cena folk inglesa das últimas décadas e um dos grandes execuntantes da concertina e do “melodeon” (parente do acordeão). Tocou com Martin Carthy, Richard Thompson e Roy Bailey, entre outros e gravou álbuns fundamentais como “The Compleat Dancing Master”, um tratado sobre a evolução das danças tradicionais em Inglaterra, com Ashley Hutchings, “Stolen Ground”, com a sua mulher Sue Harris e, a solo, “Plain Capers”, antologia sobre uma variante regional das danças “morris” inglesas.
John Gresham, antigo presidente da Musical Box Society da Grã-Bretanha e destacado representante da chamada “música mecânica”, animará a rua Aug com o som do seu realejo “traficado”.
Os espectáculos são gratuitos, á excepção do concerto nos Jerónmos, com bilhetes a mil escudos.

Hedningarna, Oskorri, Ivo Papasov, House Band – “V Encontros Musicais Da Tradição Europeia Partem Para Évora E Coimbra – Os Demónios Que Vieram Do Frio”

cultura >> domingo, 11.07.1993


IV Encontros Musicais Da Tradição Europeia Partem Para Évora E Coimbra
Os Demónios Que Vieram Do Frio


Os IV Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram em beleza no jardim do Palácio Anjos em Algés. Os Hedningarna corresponderam ao que deles se esperava e fizeram deflagrar a sua música como uma bomba. Lições de bom-gosto e tecnicismo, deram-nas respectivamente os Oskorri e Ivo Papasov. Os House Band – foi pena – limitaram-se a assinar o ponto. Hoje, os Encontros prosseguem em Évora e amanhã em Coimbra.



Havia sempre muita gente no jardim, ao longo dos quatro dias de concertos dos Encontros Musicais da Tradição Europeia, que decorreram em Algés, nos arredores de Lisboa. Gente conhecedora do que ouvia, ao contrário do que se passou nas edições anteriores, onde foi grande a percentagem dos curiosos e dos “perturbadores”.
Quarta-feira foi dia-rei do festival. Abriram os Oskorri, banda lendária do País Basco. Sete músicos em palco, coesão absoluta e reportório criteriosamente escolhido proporcionaram uma actuação sem mácula. Avessos à mensagem panfletária os Oskorri afirmaram a seu modo, pela música, uma cultura e uma identidade próprias.
A banda “euskadi” alternou os ritmos de dança com baladas às quais a voz de Natxo de Felipe – uma das melhores que passaram pelos Encontros, ao lado das de Erik Marchand e Maryika Karafezieva – emprestou inflexões e tonalidades inusitadas. Natxo, além de excelente vocalista, revelou-se igualmente um óptimo percussionista, nos tambores e na pandeireta, alcançando ainda um desempenho positivo no acordeão, num pequeno saltério e na guitarra acústica. Flautas, uma trompa de corno, BOMBARDA, GUITARRAS E UM BAIXO, QUE NUNCA ENCHERAM DE ELECTRICIDADE O SOM, ILUSTRARAM AQUELA QUE É UMA DAS MÚSICAS TRADICIONAIS DA Europa menos conhecidas entre nós.
A seguir: Bum! Os Hedningarna subiram ao palco e foi o fim. Instrumentos amplificados até ao limite (a sanfona e o alaúde pareciam poder rebentar a cada momento), fumos e encenação corporal criaram de imediato uma atmosfera e uma sonoridade que terão chocado os que até à data desconhecem “Kaksi”, o álbum da banda sueca de que se fala.
Anders Stake, Totte Mattsson, Bjorn Tollin e as duas cantoras finlandesas, Sanna Kurki-Suonio e Tellu Paulasto, os cinco vestidos de negro, fizeram jus ao nome que ostentam – os pagãos – na invocação dos demónios do gelo das regiões polares. A música, essa, foi abrasiva. Anders, “o louco”, fabricou os sons saídos da sua imaginação em estranhos instrumentos inventados por si: um híbrido de flauta de Pan com “didjeridu”, uma cítara mutante, um “sarangi” transformado.
As duas meninas fizeram de bruxas e de fadas, no canto “a capella” ou rodeadas pelo apocalipse tecido pelas percussões infernais de Bjorn Tollin, os gritos do alaúde de Toote Mattsson e as monstruosidades tímbricas de Anders Satke.
Num dos temas mais fortes de “Kaksi”, com dedicatória a Jimi Hendrix, Anders colocou na cabeça uma peruca estilo esfregona, fazendo à gaita-de-foles o mesmo que Hendrix fazia à guitarra, massacrando-a, arrancando-lhe guinchos de dor até o fole ficar vazio como um trapo, enquanto Totte Mattsson seguia idêntico processo no alaúde. Uma carnificina. O público, estarrecido, não queria acreditar. A partir de agora o “heavy metal” deixou de ter o exclusivo das descargas de artilharia. Fez-se história nos Encontros.

Mudanças De Velocidade

Quinta-Feira começou com os House Band, não se pode dizer que da melhor maneira. O trio formado por Ged Foley, antigo elemento dos Battlefield Band, Chris Parkinson e John Skelton, pareceu cansado e sem chama, não atingindo o alto nível de álbuns como “Word of Mouth” e “Stonetown”. Disseram “obrigado”, “Benfica”, “Jorge de Brito” e “crise”, insistindo várias vezes num “merry Christmas” sem que se percebesse muito bem qual a intenção.
Vocalizações apagadas, falta de entusiasmo e de noção de espectáculo não mostraram o que, em melhores dias, os House Band são capazes de fazer. Uma actuação monótona que nem o talento de John Skelton nas flautas e na bombarda, ou uma passagem interessante pelos ritmos dos Balcãs, conseguiram salvar. Despediram-se sem glória, com duas danças da África do Sul, onde deram a entender que o que lhes apatecia era ir o mais depressa possível dormir para o hotel. Fica para a próxima.
Enstusiasmo é o que não faltou à “banda de casamentos” do búlgaro Ivo Papasov. O quinteto, formado por tecnicistas ao mais alto grau, com Papasov a cometer verdadeiros prodígios no clarinete, não deu descanso à audiência, enredando-a numa sucessão vertiginosa de compassos que terão soado “contra-natura” a ouvidos (mal) habituados ao conforto do quatro por quatro.
Maryika Karafezieva, trajada a preceito, levou o vibrato da voz aos estremeções de um terramoto, passeando com um à vontade desconcertante entre as constantes trocas de mudança, quase sempre de velocidade, metidas pelos outros músicos.
Do jazz ao “reggae”, com retorno às danças tradicionais, foi um torvelinho que no final deixou a assistência de rastos. Uma palavra final para o som, a cargo da Audição, que esteve impecável em todos os concertos.
Os concertos prosseguem hoje, em Évora, na praça do Giraldo, com os Zaiti e House Band, as mesmas bandas que encerram o ciclo dos Encontros amanhã, na praça velha de Coimbra.