Arquivo da Categoria: Avant-Rock

Mr. Bungle – “California”

Sons

15 de Outubro 1999
DISCOS – POP ROCK


California Dreamin’

Mr. Bungle
California (10)
Warner Bros., import. Carbono


mb

A diversão e o humor são componentes essenciais e omnipresentes no rock. Sem ser preciso instalarmo-nos no chapitô de trupes como os Monty Python ou os Bonzo Dog Doo Dah Band, são múltiplas as linhas que cosem o absurdo e o pueril, a sátira e o “nonsense”, a pantomina e a ironia: dos Beatles a Kim Fowley; dos Residents aos Negativland; dos Sparks aos Queen; de Albert Marcoeur aos Gong; e, obviamente, de Frank Zappa a Frank Zappa.
Os Mr. Bungle de “California” só serão uma surpresa para quem não ouviu “Disco Volante”, o álbum anterior desta banda encabeçada por Mike Patton (dos Faith No More e colaborador assíduo de John Zorn), onde eram já visíveis as forças “poltergeist” que alimentam um som em permanente combustão.
“California” é uma turbina em aceleração máxima, de onde brota uma corrente absolutamente inacreditável de “gags” que derrubam como um furacão a mínima noção de politicamente correcto. É um desenho animado contínuo, de sequências vocais e instrumentais, que se acotovelam e pisam e interagem mutuamente, às gargalhadas e em golpes de génio.
“Sweet charity” é surf music, easy listening, cha cha cha e Zappa (presença patronímica ao longo de todo o álbum) em technicolor dos anos 60. “None of them knew they were robots” sobrepõe Snakefinger, Clint Ruin e o Zorn de “Spillane”. Em “Retrovertigo”, que poderá ser ou não ser uma referência a Hitchcock, são os Beach Boys supervisionados por Phil Spector em sonhos de mescalina, com Bowie a intrometer-se pelo meio “Pet Sounds” em doo-wop cruza-se com Lalo Schiffrin, os Zombies e – suspeita-se – com tudo o que a memória lhe quiser atribuir, em “Ars moriendi”.
Mas há também flamenco, música árabe, acordeões musette, Morricone, grupos de baile, Nurse With Wound, Yello, Elvis Presley, Raymond Scott numa caixa de música, Godard, electrónica-jazz-porky pig, deslumbrantes baladas decadentes de lágrimas e estrelas borbulhantes, em estranhas formas de vida a agitar-se em títulos tão zappianos como “Pink cigarette”, “Golem II: The bionic vapour boy” e “Vanity Fair”.
“California” é o fantasma-“clown” do “Smile” que Brian Wilson jamais se atreveu a sonhar e o “cocktail” musical mais delirante (“Goodbye sober day” é um título bastante apropriado para fecho do álbum…) desde que os Mothers serviram “We’re only in it for the Money”. Pelo menos, até se conseguir recuperar o fôlego: nota máxima.



Salaryman – “Karoshi”

Sons

12 de Novembro 1999
POP ROCK


Salaryman
Karoshi (7)
City Slang, distri. Música Alternativa


sal

“Um carro de músculos construído pelos Kraftwerk e conduzido pelos King Crimson” é como a folha de promoção define o som dos Salaryman em “Karoshi” (“morte por excesso de trabalho”). Bastante mais complexo, e por vezes maçudo, que o seu antecessor, “Karoshi” é um híbrido onde apenas a referência aos King Crimson faz algum sentido, se compreendida à luz de uma energia e de “riffs” de guitarra (“Strong holder”) cuja sobrecarga eléctrica se pode aferir por obras como “Lark’s Tongues in Aspic” e “Red”. Crescendos de electrónica amontoam-se contra uma parede de baixo e bateria. Easy listening de cristal mal lapidado (“The companion”) cede o passo a uma versão dub dos Genesis (“Thomas Jefferson Airplane”). Os sintetizadores analógicos fazem valer os seus direitos, enquanto “My hands are always in water” avança implacavelmente em frequências de peso entontecidas pela sirene de aviso de um theremin. “Monterey days” traz as vozes dos Tuxedomoon (de “Half Mute”) para a arena de um álbum essencialmente instrumental. Aliás, “Karoshi” situa-se, mais do que uma vez, perto da fase electropunk desta banda americana, enquanto noutras lembra um álbum como “The Bridge”, de Thomas Leer e Robert Rental, paradigma do rock industrial mais intelectualizado. “Dull normal” é uma banda sonora para psicóticos compulsivos e “Taco Muerte” junta os Tuxedomoon aos Cabaret Voltaire. Depois de catar as pulgas a “My dog has fleas” com um desparasitador jazz, “Karoshi” fecha-se na obscuridade de “Craters of the national moon” e do título-tema, representativos do lado mais sinistro dos Salaryman. O álbum inclui um jogo de CD-ROM que o grupo define, e com razão, como “irritante”.



Eight Frozen Modules – “The Confused Electrician”

Sons

16 de Janeiro 1998
DISCOS – POP ROCK


Eight Frozen Modules
The Confused Electrician (8)
City Slang, distri. Música Alternativa


efm

Por detrás da designação Eight Frozen Modules esconde-se o talento solitário de Ken Gibson, um texano actualmente residente em Hollywood cuja música recebeu já a designação de “glacial” e de uma variante de Jah Wobble “fechado no interior de uma caixa de metal e a ser atacado de todos os lados por sirenes de guitarra”. Na realidade, “The Confused Electrician”, apesar do título, não é tão esquizofrénico como parece em teoria. Pode ser rotulado de pós-rock, na medida em que recorre a “clichés” rítmicos conotados com este movimento (esquemas circulares repetitivos, sequenciações minimalistas) e sem dispensar as também já habituais citações a algum ou alguns dos patriarcas do “krautrock”: neste caso, raro, os Tangerine Dream, na quase samplagem de ambiências extraíadas de “Rubycon”, que constitui a introdução do tema inicial, “Warm & the cold electrified”, e Manuel Gottsching, nas modulações electrónico-planantes dos sintetizadores e da guitarra, em “The new sensivity”. O álbum abre no entanto algumas vias curiosas. Entre um industrialismo “soft”, uma costela cósmica acorrentada à cadeira eléctrica e ligações rítmicas ao “dub” e, ocasionalmente, ao “hip hop” (“Premature wig”), “The Confused Electrician” é, acima de tudo, um notável trabalho de composição que recorrer a parcos meios (uma caixa de ritmo, uma guitarra e sintetizadores analógicos) para criar várias atmosferas de claustrofobia, típicas, aliás, de outros grupos de pós-rock, como os Rome, os Bowery Electric ou os Tone Rec.