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Quadrilha – “Quadrilha Lança ‘Até O Diabo Se Ria’ – ANTES DE SE SENTAR NUMA CADEIRA”

pop rock >> quarta-feira >> 12.07.1995


Quadrilha Lança “Até O Diabo Se Ria”
ANTES DE SE SENTAR NUMA CADEIRA



Com “Até o Diabo se Ria”, os Quadrilha subiram mais um degrau na escada de evolução dos grupos que tomam como ponto de partida a música tradicional portuguesa, depois da primeira etapa “Contos de Fragas e Pragas”. “Começámos a substituir algumas coisas. Havia um excesso de sintetizador e de computador. Substituímos tudo o que era acordeão sintético no anterior disco por um acordeão mesmo. Ficaram também mais evidentes as guitarras acústicas e a bateria. Fundamentalmente, teve a ver com a produção. Não caminhamos num sentido purista. Não sabemos onde queremos chegar. Temos influências populares, influências simples, bebemos muito na música portuguesa e, de alguma forma, aparece uma influência celta, sem haver qualquer objectivo de purismo. Não somos candidatos a ser uma banda de música popular propriamente dita”.
“Até o Diabo se Ria” sofre (como se referia na crítica ao disco publicada neste suplemento na seman passada) de uma certa aus~encia de peso e profundidade musicais. “Nesse sentido, a Quadrilha é uma banda que musicalmente não tem um carácter muito aprofundado. Talvez haja mais essa concepção ao nível da letra, é aí que procuro ir buscar a raiz. A minha formação musical não é muito popular, venho de uma escola do rock, do chamado rock de garagem; o gosto pela música popular aparece depois. A concepção popular da música em termos de harmonia e melodia nunca é muito aprofundada; aliás, o próprio recurso ao sintetizador como tentativa de expressar alguns instrumentos, como flautas ou acordeões, já por si revela alguma superficialidade em relação à música popular. Digamos que, por enquanto, não consigo arranjar uma forma de conciliar o gosto de tocar instrumentos tradicionais com uma fórmula que permita passar de um tema tradicional para um tema que dê para tocar num concerto para duas mil pessoas. Ao vivo, acabamos por ter uma postura um bocado rock.”
A influência dos Romanças é compreensível, na medida em que os músicos destes dois grupos tocam frequentemente em conjunto, num bar em São Pedro de Sintra: “Os Romanças têm uma vertente muito mais popular que a nossa. Convidámos para o disco alguns elementos, se calhar inconscientemente, até porque a gravação já foi feita há algum tempo e, nessa altura, havia ainda uma certa distância entre os dois grupos. Mas acabamos, de facto, por beber uma influência ou outra, embora nunca tenha sentido que a Quadrilha andasse na peugada deles”, diz Sebastião Antunes. Já as marcas da música irlandesa em “Até o Diabo se Ria” pedem alguma clarificação: “As influências são difíceis de explicar para quem compõe. Gosto de música irlandesa, tenho muitos discos; independentemente de essa influência ser positiva ou negativa, é natural sermos influenciados por aquilo de que gostamos. Um dia, estou a compor e aquilo sabe-me um pouco a irlandês, da mesma forma que outro tema pode ser influenciadopela Beira Baixa ou pelo Alentejo. É lógico que não quero chamar a isso música alentejana ou música irlandesa.”
Por enquanto, os Quadrilha não têm pretensões a ser “um projecto mais profundo, com mais substância, destinado a um número mais restrito de pessoas” – atitude de humildade de Sebastião Antunes, cuja actividade fora do grupo inclui uma faceta pedagógica, de divulgação da música e dos instrumentos tradicionais portugueses, em colóquios e seminários nos estabelecimentos de ensino. “Isso talvez aconteça”, diz, “quando perder um bocado aquele gosto de contactar de forma directa e mais imediata com o público. Acho que preciso de passar mais alguns anos até gostar de me sentar numa cadeira numa sala e fazer o mesmo que grupos como os Toque de Caixa ou Vai de Roda. As coisas têm que ter uma fase própria e é preciso escoar primeiro uma data de energias… Se calhar, é daí que vem a tal falta de pruridos…”

Sharon Shannon, Clare, Broadlahn – “Encontros Musicais Terminaram Em Algés – Sharon Dos Sete Foles”

cultura >> sábado, 08.07.1995


Encontros Musicais Terminaram Em Algés
Sharon Dos Sete Foles


DEPOIS de uma falsa partida, os VI Encontros Musicais da Tradição Europeia terminaram em beleza no auditório do IPIMAR em Algés. Os irlandeses, para variar, fizeram miséria. Sharon Shannon, a acordeonista de Clare, e a sua banda rubricaram o final dos festejos com uma actuação onde mais uma vez ficou demonstrada a infinita vitalidade da “irish tradition”. Sharon, palmo e meio de altura, timidez nervosa, uma simpatia e sorriso irresistíveis, uma autêntica gatinha de sete foles, não deu espectáculo, no sentido teatral do termo. Apresentou rapidamente os temas, agradeceu os aplausos e tocou, de que maneira, o acordeão e o violino.
Navegando maioritariamente nos “medleys” de “reels”, mais adaptados ao fraseado intrínseco das “squeeze boxes” (como na Irlanda chamam aos acordeões, concertinas e tudo o que tem caixa e foles) o grupo fez paragens na música “cajun”, na tradição do Quebeque, no tal corridinho algarvio, numa valsa de “bal musette” e no clássico “Music for a found harmónium” dos Penguin Cafe Orchestra. Com Trevor Hutchinson, ex-Waterboys, no contrabaixo eléctrico, Donogh Hennessy, um guitarrista eficaz mas pouco imaginativo e Mary Custy, uma loura torrada pelo sol, no violino principal, a banda libertou alegria e adrenalina, mantendo um “drive” sem falhas, de verdadeiros “folk-rockers”, desenrolando o mapa de tesouros dos álbuns “Sharon Shannon” e do novo “Out the Gap”. A sala, cheia como um ovo, vibrou e exigiu dois mais do que merecidos “encores”.
Na primeira parte actuaram os austríacos Broadlahn que surpreenderam mais pelo inusitado da proposta do que propriamente pelas suas virtudes musicais. Desde o início, ao som de sirene de navio de uma trompa alpina, a estranheza instalou-se O vocalista principal, mais ou menos vestido de tirolês, foi o cicerone de uma música hibrida onde a tradição vocal do “yodelling” se combinou com um jazz farsola, a música indiana e africana e um certo humor instrumental (palmas, interjeições, uma marimba minimalista, pormenores deslocados). “Música no Coração” tocada por loucos que às vezes pareciam não saber muito bem o que fazer com os instrumentos. Entreteram, justiça lhes seja feita.
Ficou a frustração de não podermos ouvir em Algés os húngaros Mákvirag e os bascos Tomas San Miguel com Txalaparta. Se calhar até eram os melhores… Évora ainda vai poder ver hoje os Broadlahn e Mákvirag e amanhã os Frei Fado d’el Rei e Elementales. Guimarães, que este ano e com todo o merecimento voltou a ser a cidade eleita, assistirá ainda, no dia 10, aos Frei Fado d’el Rei e Mákvirag.

Laurie Anderson – “Laurie Anderson Apresentou ‘The Nerve Bible’ No Coliseu Mãe, Conta-me Uma História”

cultura >> sexta-feira, 07.07.1995


Laurie Anderson Apresentou “The Nerve Bible” No Coliseu
Mãe, Conta-me Uma História



Há quanto tempo não nos contavam histórias? Há quanto tempo não nos manifestavam o amor pelas palavras, não tanto pelo que elas dizem mas pelo calor que delas se desprende? Laurie Anderson pegou no futuro, nas palavras e nas imagens para nos fazer parar no tempo e pensar. Uma questão de evolução.

O Coliseu dos Recreios em Lisboa encheu para ver e ouvir Laurie Anderson e a sua tralha electrónica audiovisual. Esperava-se um espectáculo de pasmar, tecnologia em passagem de modelos, o futuro ali à mão. Bom, foi mais ou menos o que aconteceu sem ser impressionante por aí além. O espectáculo da noite de quarta-feira da “performer” norte-americana, integrado na digressão The Nerve Bible Tour, ponto final no ciclo Mistérios de Lisboa, dividiu-se em duas partes distintas.
Na primeira, Laurie evidenciou os seus dotes de contadora de histórias. Os monólogos substituíram a música. Na segunda, pelo contrário, a norte-americana de cabelo espetado tocou violino, cantou e chegou-se mais ao conceito da artista rock ‘n’ rol da nova idade.
Em termos de tralha esperava-se mais. Houve um painel triplo que abria e fechava, servindo de ecrã a excelentes imagens elaboradas por computador, alguns fumos banais, duas aparições franciscanas de raios “laser” e, na segunda parte, uma esfera e um cubo suspensos onde eram igualmente projectadas imagens. O violino fluorescente e a voz moldada no sexo masculino são “gimmicks” já conhecidos que não causaram qualquer surpresa. Pouco, a este nível, para as expectativas criadas. Mas funcional ao máximo.
O público foi deste modo obrigado a concentrar-se no essencial que, no caso de Laurie Anderson, são mesmo as palavras. O fogo, metáfora cara à autora, como elemento agregador e transmutador no ritual de transmissão da palavra, apareceu logo de início, na imagem de um livro em chamas. “Fahreneit 451, grau de destruição”, o fim e o início de uma nova forma de comunicação que regressou às formas primitivas da oralidade. Logo num dos primeiros temas a artista referiu esse movimento bidimensional do tempo que simultaneamente caminha na direcção do passado e do futuro. Laurie Anderson sentou-se à lareira electrónica e contou-nos histórias onde a credibilidade se confunde com o absurdo. Numa delas, um episódio, fictício ou não, pouco importa, passado no Tibete, a narração foi inteiramente feita em português. Uma história de palavras, do som das palavras e do seu efeito mágico eu terão salvo uma vida. A vibração pura e simples da voz, cordão umbilical de uma humanidade anterior a Babel.

O Fantasma De John Cage

A questão, posta por Laurie Anderson no início e no fim do espectáculo, é só uma: “As coisas estão melhores ou piores do que antes?”.
Convocados o físico Stephen Hawking e o fantasma de John Cage, nem assim surgiu uma resposta conclusiva. O tempo, omnipresente nas imagens de relógios, no som dos batimentos cardíacos, relativizado e transcendido no tempo subjectivo das histórias.
A segunda parte teve uma estrutura mais convencional. Feita de canções, se assim lhes quisermos chamar. Laurie Anderson solou no violino monstruosamente amplificado e distorcido, desafinou como qualquer ser humano vulgar e ironizou sobre o discurso e os jargões da modernidade que se ligam a Internet e ao ciberespaço, fabulosas fontes de lixo informativo que entre outros prodígios nos permitem estar a par, por exemplo, dos boletins meteorológicos de todas as regiões do globo. À saturação das palavras e da pluralidade dos seus sentidos contrapunham-se, no ecrã, imagens de povos e danças primitivas.
E foi assim, alternando histórias de “The Ugly One with the Jewels” com canções de “Bright Red” que Laurie Anderson respondeu, de forma subtil, à tal questão, “Estamos melhor ou pior do que antes?”. A resposta é que estamos na mesma. Ou como dizia John Cage, “estamos mais rápidos mas somos demasiado lentos para o perceber”.