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Vários (Thierry Robin, Romanças) – “V Encontros Musicais Da Tradição Europeia – Noite Cigana”

cultura >> segunda-feira >> 04.07.1994


V Encontros Musicais Da Tradição Europeia
Noite Cigana



COMEÇARAM os Encontros. Em Algés a música dos ciganos “manouches” de Thierry Robin, e dos portugueses Romanças constituiu um bom aperitivo. Mas o melhor ainda está para vir.
Depois do arranque oficial, quinta-feira, em Guimarães, com os Calicanto e os Romanças, os 5ºs Encontros Musicais da Tradição Europeia prosseguiram antontem nos jardins do palácio Anjos, em Algés, de novo com aquela banda portuguesa e o grupo do guitarrista francês Thierry Robin.
Atingida a maioridade, os Encontros ainda não encontraram solução para o principal problema que, desde o início, tem afectado esta iniciativa da cooperativa cultural Etnia. Um problema de localização, no que ao concelho de Oeiras concerne. É bonito, Encontros destes num jardim, só que o do palácio Anjos fica encostado a um bairro residencial, o que obriga ao controlo do tempo de actuação dos músicos, além de não proporcionar o tipo de ambiente indicado para a audição deste género de música. Depois, com a entrada gratuita, aparecem os curiosos que ali vão apenas dar uma espreitadela, comentando em voz alta “aquela música tão estranha”, já sem falar da criançada que, mesmo em frente ao palco, não prescinde das suas gritarias e folguedos.
Aspectos negativos dos Encontros – em Algés, repete-se – mas a excepcional qualidade da música, criteriosamente escolhida pela organização, permite ultrapassar tais incómodos.
Thierry Robin e o seu grupo abriram a noite com música cigana proveniente de diversas origens. O flamenco andaluz, a música dos “gitans manouche” da França mediterrânica e a rumba catalã desfilaram pelo cenário verde dos Anjos sem o rasgo que só a manifestação do “duende” proporciona, ausência no entanto compensada por eficácia e precisão notáveis. Robin não é um daqueles “virtuoses” de técnica sobrenatural. O francês revelou-se antes de mais, na guitarra, no alaúde árabe ou na bandúrria, um artesão meticuloso, atento e concentrado, ora nas tecituras milimétricas ora nas malhas da improvisação que caracterizam as músicas do Sul. A novidade e o tempero adicional vieram de Francis Varis, acordeonista inspirado e inclinado para os fraseados do jazz que entrançou melodias na rítmica intricada das arábias e brincou com jovialidade com as memórias do baile “musette”. O flamenco viveu com mais força nas vocalizações de Paco “El Lobo” e nas palmas e guitarras dos irmãos Mambo e Bruno Saadi, dois rumberos da comunidade catalã de Perpinha. Completou a formação o percussionista marroquino Abdelkarim Sami – olhos fechados, esgares de prazer enquanto os dedos saltavam na pele do bendi, ou da darbouka, entrega total à sensualidade dos sons. Um bom concerto que no final terá pendido em demasia para a a alegria fácil de uns Gypsy Kings.
Os Romanças acabaram a noite com a sua música tradicional portuguesa ou com ela aparentada, justificando os elogios recebidos por “Azuldesejo”, o seu álbum mais recente, a maioria dos temas a banda de Sintra interpretou, a partir do romance “Gerinaldo atrevido”, do disco de estreia, ou a versão de “As Sete Mulheres do Minho”, de José Afonso. Com competência, num registo mais sóbrio que o de um passado que felizmente vai ficando distante. Pedro D’Orey arrancou segredos à harpa céltica, no tema de abertura, “Romance da Mineta”. Fernando Pereira, após uma entrada hesitante, cantou de forma segura e mostrou que grande parte da alma dos Romanças passa por ele. Seguros, Fernando Molina e João Lobo, nas percussões e, presença importante no som dos Romanças, José Pedro Gil, nos teclados. Quanto a João Ramos, continua em evolução e arrisca-se a tornar-se um dos melhores violinistas portugueses na sua área. Contribuiu da melhor maneira para o som da banda, sobressaindo quando era caso disso, ou funcionando como ornamentador (e inventor, num tema em que fez soltar das cordas estranhas onomatopeias musicais) que soube encontrar o lugar certo. Os Romanças parecem ter encontrado o seu equilíbrio. A assistência, numerosa, rumou para casa feliz.
Os concertos prosseguem hoje, em Oeiras, com Albion Band e Calicanto; no dia 5, em Guimarães, com Albion Band e Thierry Robin; no dia 6, em Évora, com Albion Band e Calicanto; e ainda no mesmo dia 6, em Oeiras, com Rádio Tarifa e Fia na Roca.

Amália Rodrigues – “Amália Rodrigues Celebra Aniversário Televisivo – Prendas Em Directo”

cultura >> sábado >> 02.07.1994


Amália Rodrigues Celebra Aniversário Televisivo
Prendas Em Directo



Parabéns , Amália! Com o patrocínio da Quatro. Amália fez ontem 74 anos de idade. A televisão da Igreja resolveu celebrar, organizando uma festa, mais uma, de homenagem, no Largo do Município. A diva apareceu na varanda do edifício camarário, aguentou estoicamente o estendal de banalidades, ensaiou uns passos de dança e tentou mesmo puxar pela voz, dando corda a uma tuna estudantil.

Tudo começou por volta das 22h, com o desfile dos fadistas, juniores e seniores, vencedores do Grande Prémio do Fado de 1993 e 1994. Ficaram na memória a voz maravilhosa de Alda Isabel, com 13 anos e uma voz como não há muitas, e na retina o alucinante microvestido negro, acompanhado igualmente por uma bela voz, de outra concorrente sénior, que nos lembramos de ter visto na televisão, mas de quem o vento levou o nome.
A partir das 23 h, a TVI passou a transmitir o acontecimento em directo, com a apresentação de Maria de Lima e Tó Zé Martinho. Aliás, estava tudo montado para o espectáculo de televisão, com as cerca de mil pessoas que se aguentaram estoicamente de pé e ao frio no local a serem desviadas para os lados e para trás do palco.
Foi tudo um bocado triste de se ver. Aos fadistas seguiu-se a Tuna Estudantina Universitária de Lisboa, com os seus temas popularuchos aos quais Amália, nessa altura já de pé na varanda da Câmara, procurou responder, lançando umas notas soltas ao vento e bailaricando com aquela desafectação que se lhe conhece.
A “gaffe” da noite veio com um indivíduo já um tanto ou quanto bebido que, ouvindo à sua maneira os primeiros acordes de acordeão, num dos temas da tuna, logo exclamou em júbilo: “Olha, é aquela do bacalhau!”
Noutro ponto da praça, um casal de baixa estatura chamava as atenções pela maneira como resolveu o problema da falta de estatura, graças a um engenhoso dispositivo de espelhos, construído segundo os princípios ópticos do periscópio, que permitia ver tudo o que se passava por cima das cabeças.
Os inevitáveis parabéns, entoados de forma espontânea pela pequena multidão, apanharam desprevenida a Quatro, logo por azar, durante um dos vários intervalos publicitários da noite. Mais tarde, “televisão oblige”, lá se forjaram uns novos parabéns, tecnicamente mais perfeitos, registados para a posteridade, com bolo de velas e tudo onde era bem visível o símbolo da Quatro.
Houve ainda uma serenata de fados por antigos estudantes de Coimbra e muitos agradecimentos recíprocos. O desfile da marcha popular da Madragoa, vencedora deste ano, aconteceu a horas impróprias, perante uma assistência diminuta que nessa altura, cumpridas as obrigações da efeméride, rumara já na maior parte para vale dos lençóis, que o dia seguinte era de trabalho.
Num golpe tecnicamente prodigioso, a TVI superava o paradoxo do espaço-tempo e transmitia, com a indicação “em directo” ao canto do ecrã, uma retrospectiva das marchas, com Beatriz Costa e Vasco Santana a entrarem ao vivo e em directo na casa dos telespectadores.
E Amália? Amália merece tudo, por todas as razões. Há, aliás, duas Amálias. A Amália, pessoa simples que não veste o verniz do estrelato, que baila e chora por tudo e por nada. Uma Amália que não é símbolo nem imagem de nada senão dela própria, e a Amália que vive em nós, ideal e mitificada. E, no meio, a sua voz, oferenda dos deuses. Não interessa saber qual das duas é a mais verdadeira. Há uma pureza intrínseca em cada uma delas. A pureza onde se revê todo um povo e o faz venerá-la para além do fado, do negro fado de se ter nascido português.
Está certo, e ela não se importa, que lhe chamem símbolo vivo de Portugal. Há nela uma certa pieguice, um sentido trágico da vida e uma falta de noção de grandeza, que é em si já uma forma de grandeza, que definem bem a nossa original maneira de ser. Mas, mais importante que os nossos sonhos e a nossa paralisia disfarçada com as bandeiras de um qualquer império que há-de vir, se vier, é que Amália teve e tem a coragem de ser apenas ela própria. E de se ter abandonado até ao fim e enquanto pode a um destino e a uma vocação maiores que ela e que nós. Amália foi, é e será somente Amália. Sem fingimentos, sem maneiras falsas nem intermediários.
Por isso é bom que Amália chore sem razão, só porque sim, como uma criança que não perdeu a capacidade de se emocionar consigo própria. A água cura. A água das lágrimas sem propósito de Amália cura-nos. Parabéns, Amália!

Nick Drake – “Way To Blue – An Introduction To Nick Drake”

pop rock >> quarta-feira >> 29.06.1994
REEDIÇÕES


De Costas Para A Luz

Nick Drake
Way To Blue – An Introduction To Nick Drake (8)
Island, distri. BMG



Nick Drake pertence à categoria dos mártires que se foram discretamente. Não se pode alinhá-lo ao lado dos monstros que morreram, ou se deixaram morrer, com pompa e clamor, como Jim Morrison, Hendrix ou Janis Joplin. O seu caso tem a mais a ver com Nico e Ian Curtis, com os criadores supliciados pela sua própria inspiração, inacapazes de suportar o fardo da vida, da música, da vida “on the road”, da sua própria condição enquanto criadores, enfim. Nick Drake levou ainda mais longe a recusa aos padrões do “show business”. Uma timidez quase esquizofrénica fazia dele uma personagem fugidia, uma sombra de contornos indefinidos. Por ocasião do seu terceiro e último álbum, “Pink Moon”, nem sequer apareceu no estúdio, enviando as fitas pré-gravadas pelo correio.
Sabe-se pouco da vida de Nick Drake. Surgiu a cantar quase por acaso no meio da vaga de folk rock que rebentou em finais dos anos 60 nas ilhas britânicas, ao lado de figuras como Ashley Hutchings e Fairport Convention. Foi Joe Boyd, produtor e empresário dos Fairport e “descobridor” oficial de talentos para a editora Island quem o descobriu e lhe proporcionou o primeiro contrato de gravação. “Five Leaves Left”, de 1969, integra-se perfeitamente no som acústico da época, revelando um cantor/compositor de veia nostálgica com tendência para a depressão.
Na altura houve quem comparasse este disco a “Astral Weeks”, de Van Morrison, mas, se há que fazer comparações, sobretudo ao nível das vocalizações, invariavelmente no limite do equilíbrio emocional e da lucidez, estas deverão ser encontradas em John Martyn, por sinal também agenciado por Boyd na Island e por coincidência autor de um tema, “Solid air”, incluído no álbum do mesmo nome, dedicado a Nick Drake. A presente colectânea reúne cinco temas deste álbum maioritariamente composto por solilóquios de Drake sobre a guitarra acústica, com ocasionais contribuições de uma orquestra de cordas, do violoncelo de Clare Lowther (no maravilhoso tema de abertura “Cello song”) ou do contrabaixo de Danny Thompson.
“Bryter Layter”, o álbum seguinte, de 1970, apresenta um leque maior ao nível dos arranjos, para tal contando com as presenças de John Cale e de três membros dos Fairport Convention, Dave Pegg, Dave Mattacks e Richard Thompson. A depressão intensificava-se e com ela a solidão. Amontoavam-se os despojos de uma alma em conflito perpétuo e à deriva dentro de si própria, cujas canções cada vez mais se assemelhavam ao murmúrio de uma criança precocemente envelhecida a quem tivessem arrancado à força a inocência. Nick Drake abandonou em definitivo os espectáculos ao vivo dando início a um tratamento psiquiátrico, que pelos vistos não surtiu efeito.
Paris acolheu-o, como sempre acolhe os foragidos da “normalidade”. Na cidade-luz, Drake – há nome mais romântico do que este? – compôs canções para Françoise Hardy que, conta a lenda, chegaram a ser gravadas mas nunca editadas em disco. As cinco canções de “Bryter Layter” incluídas nesta introdução à “loucura suave” inflectem no jazz, oferecendo à voz o amparo de um piano cheio de nostalgia ou o embalo de um vibrafone que tiveram o condão de manter intacta durante mais algum tempo a ilusão.
Volvidos dois anos, em 1972, data da edição de “Pink Moon”, o desabamento psíquico era já irreversível. Depois do abandono dos palcos seguiu-se o abandono do canto. A Island recebeu as fitas do disco pelo correio. Drake fechara-se já no quarto escuro e deitara fora a chave. Era a retirada definitiva. Primeiro da arte e, pouco tempo depois, da vida. Quatro temas de “Pink Moon” marcam o retorno à conversa a dois (ou de um só, cindido em dois) com a guitarra. Drake cantava cada vez mais baixo, para si, contra o vento. Canções desarmantes de simplicidade, de alguém já sem nada a esconder. O resto de “Way To Blue” é preenchido com dois temas de “Time of no Reply”, uma edição póstuma de “takes” alternativos e alguns originais, semelhante a outra, “In a Wild Flower”, realizada no ano anterior. Finalmente, em 1986, foi editada a caixa de quatro discos com a obra completa de Nick Drake, de genérico “Fruit Tree”.
Nick Drake morreu a 25 de Novembro de 1974, em casa dos pais, vítima de uma “overdose” de antidepressivos. A capa de “Way To Blue – Na Introduction to Nick Drake” capta de maneira sublime a essência da personalidade musical de Nick Drake, uma figura franzina, de olheiras enormes, envolto numa manta, perdido numa floresta. Ao fundo, uma luz branca. A luz era ofuscante, mas ele não a podia ver porque estava de costas.