Arquivo mensal: Maio 2024

Tavagna – “A Capella” + Donnisulana – “Per Agata” + Baron Samedi Percussions & Chants D’Ukraine – “Diakouyou”

pop rock >> quarta-feira, 29.09.1993
WORLD

Pedra, seta, fogo. Um gesto e um gosto. A Silex é uma editora francesa de música tradicional, linha dura, que em paralelo, edita a série “Musique française d’ aujourd’hui”. A partir de agora disponível em Portugal, com distribuição da Etnia. Música sem concessões que busca os tesouros incrustados nas camadas mais profundas da herança étnica mas igualmente capaz de se aventurar pelos caminhos da modernidade. Fogos maiores, acenderam-nos Riccardo Tesi e Patrick Vaillant (“Véranda”) e La Chavannée (“Cotillon”), aqui venerados há duas semanas atrás. Segue-se parte do muito que fica por escolher.


POLIFONIAS

TAVAGNA / A Capella (6)
DONNISULANA / Per Agata (7)
BARON SAMEDI PERCUSSIONS & CHANTS D’UKRAINE / Diakouyou (8)


Vozes em concordância. “A capella”, a sós e em privado, as da Córsega. Por homens e mulheres, em separado, que a tradição não permite (ainda) o acasalamento das vozes de sexo diferente. Os Tavagna representam o lado escuro, trágico, da alma corsa, presente no estilo tradicional “paghjella” (ver entrevista com Francis Marcantei no suplemento “POP ROCK” da semana passada). Vozes masculinas transportando pelos séculos a tristeza (mesmo quando estão alegres) e a solenidade, irmãs das do “cante” alentejano. Vozes que, como as do “cante”, podem aborrecer um pouco se ouvidas durante um período de tempo mais prolongado.
As vozes das Donnisulana (aglutinação de “mulher” com “ilha”) suportam um tempo de audição continuada maior. Pioneiras da apropriação do canto corso, por tradição um feudo masculino (ver entrevista citada), elas ousaram, por oposição à cópia, colorir a polifonia corsa com a sensibilidade e as inflexões próprias do seu sexo. Pela voz de Agata, arquétipo da mulher que se ergue de uma dominação arcaica e canta um novo mundo, maior, mais completo. E labiríntico. Acima da guerra dos sexos, consumou-se a reunião das percussões dos Baron Samedi com as vozes femininas da Ucrânia. Encontraram-se todos há dois anos, numa digressão entre Kiev e Odessa, e desse encontro nasceu o projecto “Diakouyiu”. Vozes que, como as búlgaras, são de mistério ao lado de percussões repetitivas, minimais, por vezes explosivas. Encontro original que é um cruzamento de estímulos, de vozes afinadas, quando “a capella”, com Deus, ou mais presas ao corpo, quando afinadas pelo batimento das peles e dos metais. Fascinante.

Trio de Riccardo Tesi – “Festival ‘Sete Sóis, Sete Luas’ Terminou Ontem No Alentejo – Música Intercidades”

cultura >> segunda-feira, 27.09.1993


Festival “Sete Sóis, Sete Luas” Terminou Ontem No Alentejo
Música Intercidades


Os grandes concertos acontecem quando e onde menos se espera. Aconteceu um, em Montemor-o-Novo. Pelo trio de Riccardo Tesi, acordeonista da Toscânia cujo “organetto” fez num ápice desaparecer todas as fronteiras. Num dos concertos integrados no festival “Sete Sóis, Sete Luas” que ontem terminou em Évora e Estremoz.



Estariam reunidas cerca de quatrocentas, quinhentas pessoas, não mais, no pequeno ajuntamento que se formou no largo dos Paços do Concelho, em Montemo-o-Novo, para escutar a música duns italianos de que quase ninguém teria ouvido falar. É uma realidade: Riccardo Tesi, um “virtuose” do “organetto”, como chamam em Itália ao acordeão, está pouco divulgado no nosso país. Dois dos seus discos passaram entretanto a ter distribuição em Portugal – “Il Ballo della Lepre” e “Véranda”, este na companhia do badolinista francês Patrick Vaillant (ambos já com crítica publicada no suplemento “Poprock” deste jornal), o que fez aumentar a expectativa em relação aos espectáculos ao vivo.
Tesi não deixou os créditos por mãos alheias. Ele, com Ettore Bonafé, no vibrafone e percussões, e Mauroizio Geri, guitarra e voz, assinaram um desempenho notável que mostrou por que razão a música de raiz tradicional é hoje uma corrente viva entre os sons do mundo. Partindo de uma base tradicional onde avultam os “saltarelos” e as “tarantelas” (em Montemor juntaram-se-lhes um “perigordino”, uma polca e uma mazurka) da Itália do centro, Tesi e seus dois companheiros paratiram à descoberta de outros registos, por alamedas que amiúde desaguaram no “jazz”, na fluência e nas desmultiplicações rítmicas. Tesi é fabuloso, mãos rápidas como o vento sem que essa agilidade implique o sacrifício da precisão. Bonafé mostrou, no vibrafone, ser um portento de “swing” e exímio marcador de tempos. Inesquecível a curta improvisação que rubricou a meio de “Saltarello per Eugenio”, em pura levitação sobre o compasso, evidenciando uma assimilação perfeita do legado deixado por uma linhagem nobre que vai de Lionel Hampton a Gary Burton. A Maurizio Nero, vocalista competente, coube tecer as malhas do contraponto, tarefa que desempenhou com correcção e uma fluidez de fraseado que recordaram o estilo de Django Reinjardt.
Mas mais do que as prestações individuais, a música valeu como um todo. Uma música vibrante e actual que ilustrou e concretizou de modo exemplar um dos objectivos traçados pelo festival “Sete Sóis, Sete Luas”, organização conjunta do grupo teatral Immagini, de Pontedera, e a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo: fortalecer o intercâmbio cultural entre duas regiões que acreditam ter algo em comum e para dizer uma à outra, ao ponto de estar já em marcha o processo de geminação entre ambas.
“Sete Sóis, Sete Luas” é um projecto em fase de consolidação que teve o ponto de partida o ano passado, através de uma “semana alentejana” que decorreu em vários municípios italianos, com actuações do Rancho Etnográfico de Montemor-o-Novo, bem como mostras de gastronomia e a realização de exposições e, já este ano, prosseguiu com espectáculos de Carlos Paredes em várias localidades da Toscânia.
Projecto com pernas para andar que, segundo Marco Abbondanza, um dos organizadores italianos da iniciativa “nasceu na âmbito cultural mas pretende também actuar nas áreas social e económica”. Confluência dos astros no céu do Alentejo, terra com “uma identidade cultural forte” – como Marco Abbondanza reconhece – “algo que em Itália já se vai perdendo”.

Mike Oldfield – “Mike Oldfield, Em Portugal – Nascido Para Entubar” (concerto)

cultura >> sexta-feira, 24.09.1993


Mike Oldfield, Em Portugal
Nascido Para Entubar



OS SINOS dobram mas não quebram. Mike Oldfield por mais voltas que dê, acaba sempre por dizer que sim aos sinos. Disse-o de novo em frente às escassas centenas de pessoas que na noite de quarta-feira, no Dramático de Cascais, decidiram puxar lustro à memória e recordar os bons velhos tempos de “Tubular Bells” (Oldfield actuou, também, no Coliseu do Porto, ontem à noite). Foi um fartote de sinos tubulares, mais precisamente uma hora e picos de repiques, numa longa peça, versão dois e tal de “Tubular Bells”, que assassinou por completo as virtudes do original de 1973.
Antes da banda do guitarrista subir ao palco, decorado com uns arcos em estilo sobrancelha rapada e uma espécie de leque a servir de fundo, dois portugueses, alunos do Conservatório, Renato Raimundo, na guitarra, e Nuno Flores, no violino, prepararam o ambiente, em delicadas peças acústicas.
Seguiu-se a grande seca. A ideia, anunciada por Oldfield em entrevista ao PÚBLICO, era apresentar a sua música num contexto o mais fiel possível ao das gravações. O que na prática significou uma dúzia de executantes em palco, todos vestidos de negro – incluindo as duas vocalistas loiras que esbracejaram mais do que cantaram -, soberbos na arte de causar aborrecimento com pompa e circunstãncia, à medida que “Tubular Bells” se ia espreguiçando sem ponta de criatividade.
A sequência emblemática dos sinos, em que é feita a apresentação dos diversos instrumentos, ficou reduzida a uma caricatura e a uma pasta harmónica que só a imaginação permitia conferir com a referência original. O próprio Oldfield se encarregou de martelar os sinos, naquele que constituiu o clímax de uma prestação merecedora, desde já, do prémio “chatice do ano”. Soaram engraçados alguns segundos pseudo-célticos, com um violinista e Oldfield no banjo a puxarem o pé para a dança.
Momento de algum “frisson” aconteceu quando irrompeu em palco um vocalista recrutado para gritar umas coisas entre as sequências 37 e 38 da obra monumental, e cuja coreografia se pautou por rojar-se pelo chão e espernear em cima do piano de cauda.
Já no primeiro “encore” – que incluiu a tal sequência-chave de “Tubular Bells” – a solenidade do espectáculo foi quebrada por uma nota de humor, trazida pela utilização de dois pares de pés postiços, calçados com botas, em “step dancing” de tacão alto.
E pé ante pé, chegou o fim. Mike oldfield apareceu sozinho e acelerou no bandolim, acompanhadopelas palmas de um público que não foi difícil conquistar, despedindo-se com “Sailor’s hornpipe”, um tradicional que apenas aparece gravado em “Collaborations”, álbum-bónus incluído na caixa-colectânea “Boxed”. À saída alguém comentava para a namorada: “Gostei, só foi pena ele não ter tocado aquelas mais comercialecas, com aquela vocalista, como é que se chamava?”