Arquivo mensal: Maio 2024

Vartinna – “Oi Dai” + “Seleniko” + Moller, Willemark & Gudmunson – “Frifot” + Niekku – “Niekku 3”

pop rock >> quarta-feira, 29.09.1993
WORLD


SOIS DA MEIA-NOITE

VARTINNA / Oi Dai (10) / Seleniko (10) / Spirit
MOLLER, WILLEMARK & Gudmunson / Frifot (9) / Caprice
Niekku / Niekku 3 (7) / Ollarin Musiikii Oy
Todos distri. Etnia



Da Escandinávia continuam a soprar novos ventos e vozes femininas de excepção. Acalmada a febre provocada pelos Hedningarna, abram-se alas, em primeiro lugar, ao (ou às) Vartinna. São elas e eles, mas são elas, Mari e Sari Kaasinen, Kirsi Kahkonen e Sirpa Reiman (e Minna Rautiainen, em “Oi Dai”) e a excelência das suas vozes, plenas de vitalidade, que enriquecem as paisagens instrumentais – desenhadas em traço vigoroso pelo violino (excelente Kari Reiman), “kantele”, “bouzouki”, acordeão, sax, guitarra, “mandola” e percussões e, em “Seleniko”, ainda o “kaval” húngaro, “tin whistle”, “domra”, teclados, banjo e trompete – e fazem do grupo algo de muito especial. “Oi Dai” e “Seleniko” provocam, ao primeiro contacto, uma reacção semelhante a “Kaksi”, dos Hedningarna. Mas os Vartinna, convém que se diga, não apresentam a dose extra de loucura que confere aos Hedningarna aquele “it” de imprevisibilidade e inovação. É música tradicional, com todas as letras, sem mácula, extrovertida, que faz de cada tema uma celebração. Elas, as vozes, levam-nos pelos cabelos sem apelo nem agravo, logo a partir do tema de abertura de “Oi Dai”, “Marilaulu”…). Para lá, onde alguns sabem. Imprescindível é também “Frifot” de um trio sueco onde avulta a voz de Lena Willemark, parente equidistante, por sugestão, de June Tabor e Mari Boine Persen. Álbum de matizes variadas, “Frifot” explora os reportórios das províncias de Darna e Rattvik (com incursões na Estónia), técnicas vocais (como o “kulning”) e dialectos (como o “snettelin”) específicos, e danças como a polska (diferente da polka), marchas e valsas. O arsenal instrumental é variado e inclui o violino, “mandola”, pífaro, gaita-de-foles, saltério e “kantele”.
“Kantele” (trata-se, em suma, de uma variante grande de saltério, com um som entre o da harpa e o do carrilhão) que funciona como esteio do terceiro álbum das finlandesas Niekku, quinteto feminino, com a estrela Maria Kalaniemi em destaque, que navega contra a corrente dominante da música nórdica. Nada de “vibratos” nem de fogosidades. As Niekku flutuam nas águas da serenidade e preferem as harmonias líquidas e insinuantes que, partindo de temas tradicionais ou de composições próprias, desaguam numa espécie de “jazz” ultra-“cool”, a um passo da “new age” e outro do minimalismo ambiental. O som hipnótico do “kantele” brota em cascata, tocado por três das Niekku. Maravilha de cristal, parasitada de súbito pelas dissonâncias de um acordeão que se esvazia, pela pulsação de um baixo ou pelos apontamentos casuais de um violino ou uma “mandola”. Por vezes as vozes perdem-se em improvisações “scat” estéreis, como acontece em “Tuti tuuti”. Quando não perdem o tino, porém, as nuvens, sem que demos conta, vão ficando mais perto. Deixemos os “kanteles” tocarem sozinhos, em “Kantelleila”, o seu próprio sonho de metal cinzelado.

Valentin Clastrier – Hérésie” + Compagnie Chez Bousca – “Ethnograffiti”

pop rock >> quarta-feira, 29.09.1993
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HERESIAS

VALENTIN CLASTRIER
Hérésie (7)
COMPAGNIE CHEZ BOUSCA
Ethnograffiti (7)



“Contrariamente à opinião comum, a heresia não é um erro ou um desvio ao dogma dominante, mas simplesmente, no sentido etimológico do termo, a livre escolha de um itinerário espiritual.” Estas palavras, escritas a prpósito no álbum “Hérésie”, de Valentin Clastrier, definem uma essência e um método de trabalho. Mago e grande emancipador da sanfona, acústica e electrificada, instrumento que levou aos auditórios de música contemporânea, Clastrier tomou como base a heresia cátara, surgida na Occitânia, dos cavaleiros do amor que se opounham a Roma (leiam por “Roma” de trás para a frente), de forma a estabelecer novas práticas e linguagens para a “vielle à roue”, até então confinada às músicas tradicionais. “Hérésie”, atenção, não é um disco de música tradicional. Clastrier, um prodígio de técnica, arranca da sanfona sonoridades alucinantes, coadjuvado pelos “jazzmen” Louis Sclavis (saxofones e clarinete) e Gérard Siracusa (bateria). Da improvisação semiestruturada à narração, passando pela interpretação, mais ortodoxa, de “Quant vei la lauzeta mover”, do trovador Bernard de Vantadorn, séc. XII, “Hérésie” discorre sobre a funcionalidade do som e a assume-se como manifesto em favor do diálogo “da História com o presente”. À laia de anedota, registe-se a maneira como a “Folkroots” se referiu a Clastrier, a propósito de “Hérésie”, chamando-lhe um músico interessante e “com potencial”…
Heréticos, embora menos, também os Compagnie Chez Bousca se apoiam no jazz e na improvisação, um pouco à semelhança dos Gwendal, para dizerem a música tradicional. Com a região de Auvergne e a referência a António Bouscatel (tocador de “musette”, outra variedade de gaita-de-foles francesa, responsável, em conjunto com o acordeonista italiano Charles Peguri, pela criação do “baile ‘musette’”) a servirem de pretexto.
Os processos são em tudo idênticos aos do jazz – introdução do tema, exposição, com solos, regresso ao mote inicial -, sendo os instrumentos solistas a sanfona, o violino, o acordeão e o clarinete, ficando a gaita-de-foles remetida para as funções de contraponto. Pouco convincentes, as vocalizações. Procurando nos sítios certos, consegue-se encontrar outro álbum da banda, “Chants de Quête de la Période de Pâques”, onde, aqui sim, a Companhia se manté fiel aos cânones.

Trio Erik Marchand – “Na Tri Breur” + Trio Cornemuse – “Trio Cornemuse” + Trio Violin – “La Concordance Des Temps”

pop rock >> quarta-feira, 29.09.1993
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TRIOS

TRIO ERIK MARCHAND
Na Tri Breur (7)
TRIO CORNEMUSE
Trio Cornemuse (7)
TRIO VIOLIN
La Concordance Des Temps (7)



Triângulos. Dois é diálogo e movimento, tese e antítese. Três é também o vértice da síntese. Erik Marchand, que recentemente colocou de novo em circulação os Gwerz, assina uma fusão interessantíssima da música da Bretanha com a raga indiana. No tema de abertura as características vocalizações bretãs alternam com o estilo vocal improvisatório indiano. A base rítmica, construída pelo “oud” árabe e pelas tablas, segue os cânones da raga. Deliciosa a facilidade com que a bombarda navega nas águas doo Oriente. Yann-Fanch Kemener (Barzaz), outro especialista do canto bretão, participa como convidado.
Menos universalistas que o trio de Erik Marchand, os trios Cornemuse e Violon apresentam, ao invés, propostas que exploram os reportórios e territórios respectivos da “cornemuse” (variante mais vulgarizada da gaita-de-foles francesa) e do violino.
Os primeiros recuperam as marchas e canções, em versão instrumental, das regiões de Berry e Bourbonnais, através de múltiplas combinações, afinações e timbres da “cornemuse”, destacando-se a utilização exaustiva dos “bordões” (numa gaita-de-foles: um ou mais tubos de palheta dupla produtores de som grave e contínuo, que suportam as melodias digitadas no ponteiro, em francês “anche”, palheta) na criação de texturas de grande densidade e riqueza harmónica. Um par de vocalizações por Solanhe Paris, um piano e um clarinete ocasionais trazem o som à superfície, para de novo as “cornemuses” mergulharem nessas notas antiquíssimas que só os verdadeiros “sonneurs” conseguem fazer vibrar. Quanto ao Trio Violon, faz um pouco a mesma coisa com o violino e a música de Auvergne e do Limousin. Ponto de partida: a recusa e fuga das pragas do “jaze” e do “yé-yé”, como eles dizem a brincar, e da tirania das melodias tonais que poluem o genuíno folclore local. Contra a facilidade e a colonização, o Trio Violon pretende revelar a existência de um jardim secreto, Eden das origens, feito de ritmos endiabrados e melodias que convocam a concordância dos tempos, regidos pelo horário do sagrado. A alguns soará violento o embate com a beleza rude e convulsiva dos “bourrées”, polcas e marchas dos campos e rituais antigos. Mas outros não desdenharão sentar-se à mesa no banquete dos violinos. Anfitriões de uma festa que toca na mais íntima das cordas.