Arquivo mensal: Abril 2023

Vasilisk – “Liberation & Ecstasy”

Pop-Rock Quarta-Feira, 02.10.1991


VASILISK
Liberation & Ecstasy
CD, Musica Maxima Magnetica, import. Ananana



Do Japão surgiram nos últimos tempos algumas das propostas mais interessantes no seio do panorama actual das músicas alternativas. Depois da “descoberta” de grupos como os After Dinner, Wha Há Há ou Guernica pela Recommended Records, chega a vez da ala ritualística emergir, desta feita no selo italiano dirigido por Luciano Dari. Ao contrário de grupos como os Current 93, Lustmord, Hafler Trio, Nocturnal Emissions ou toda a nova geração de seguidores de Lúcifer que recuperam as práticas mágicas ancestrais para as orientar numa polaridade negativa, de acordo com práticas xamânicas e tântricas, visando a obtenção de poder, os Vasilisk mantêm-se fiéis ao telurismo amoral das origens, sem o recurso às técnicas de manipulação sonora e psíquica habituais neste tipo de experiências.
Em “Liberation & Ecstasy” (que inclui novas versões de temas de anteriores trabalhos como “Whirling Dervishes”, “Mkwaju” e “Acqua”) as percussões rituais minimalistas alternam com sons naturais e fragmentos de música tradicional japonesa, na criação de texturas exóticas e de cadências hipnóticas que, nos 15 minutos do longo cerimonial “Whirling Dervishes”, atingem o clímax.
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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #180 – “Obra prima do Brasil +”

#180 – “Obra prima do Brasil +”

Obra-prima do Brasil + …
Fernando Magalhães
Mon Jul 2 14:49:48 2001

Confesso ter ficado siderado com a audição, no carro, à vinda do Porto, do novo (ed. 2000) de ZECA BALEIRO, que adquiri na banca da Jojo’s music a 2000$00: “Líricas”.

Já tinha o “Vô Imbolá” (n/sei se o título está correctamente escrito) mas este “Líricas” é um disco assombroso, mais acústico e tocante. Zeca Baleiro é um fabuloso pintor palavras / emoções (neste caso, os textos das canções são mesmo essenciais). A música, em simbiose perfeita com os poemas, junta elementos híbridos que vão do Alternative country à brasileira, à influências (?) difusa de Tom Waits e, sobretudo, Chico Buarque, de quem Zeca Baleiro será o nobilíssimo herdeiro espiritual.

Um disco a rondar a perfeição com algumas faixas verdadeiramente como ventes (no sentido nobre da palavra “comoção”).

Outra aquisições no Porto:

“The Lounge Lizards”, dos Lounge Lizards (que apenas tinha em vinilo)
“Songs of Leonard Cohen” (1968), dele mesmo. Ainda não tinha, é o disco de uma quantidade d eclássicos.
“Mathilde Santing”, de Mathilde Santing”, mini álbum de estreia. Mas este é para esquecer: 5/10. Datado.

Todos a 1750$00

“Stories from the City, Stories from the Sea”, da Polly-Jean Harvey. Ainda só ouvi os 4 primeiros temas mas parece estar à altura dos álbuns anteriores.

“Starless and Bible Back” – KING CRIMSON. Edição remasterizada do 25º aniversário.
Na FNAC, a 1650$00 (!!)

“Mama Mundi” – CHICO CÉSAR. Oferecido pelo festival. Bom disco, a la Chico César, uma misturada de tudo, feita com bom gosto. 7/10.

“Can I Have My Monkey Back” – GERRY RAFFERTY – já tinha, mas adquiri-o de novo, pela capa (original), a 2200$00. Folk pop, entre os Beatles e Lindisfarne.

R.E.M. – “Verdade E Consequência”

Pop-Rock Quarta-Feira, 02.10.1991


VERDADE E CONSEQUÊNCIA

Foram comparados aos Byrds, com os quais partilham o gosto por melodias imaculadas – presentes numa guitarra despojada de artifícios que sabe recortar o essencial e numa voz de cortar o coração. Para os REM, tudo se resume a um jogo em que são os únicos a impor as regras. Jogaram o trunfo “Our Of Time” e fizeram o pleno. Agora é tempo de historiar tempos passados, através da edição de um “Besto f” que reúne algumas das suas melhores canções.



Parecem ter nascido já com o estatuto de clássicos. Desde o som de garagem do primeiro single, “Radio Free Europe”, gravado em Julho de 1981, até à produção luxuriante do álbum mais recente, “Out of Time”, sempre a mesma coerência e firmeza de princípios, que lhes permitiu subir a pulso a escada do sucesso e a criação de um som próprio que, sem desprezar influências, soube religar passado e presente, isto é, pegar na tradição do folkrock psicadélico dos Byrds e acrescentar-lhe a energia e a carga emocional de uma voz em permanente estado de graça.
Desprende-se da música dos REM uma magia especial, resultado da combinação perfeita entre o canto, sempre emocionado, sempre frágil, sempre contagiante, de Michael Stipe e a guitarra, clara e incisiva, de Pater Buck. Canções como o já citado “Radio free Europe”, “The One I Love”, “Talk About The Passion”, “Finest Worksong” ou os recentes e irresistíveis (embora já comecem a saturar, tal a insistência com que continuam a ser passados na rádio e na televisão) “Losing my religion” e “Shiny happy people” colam-se facilmente ao ouvido e recordam as grandes melodias e a simplicidade da era gloriosa dos singles, nos anos 60.
Para Michael Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry tem sido a ascensão permanente em direcção à glória, com a constante de cada álbum que editam vender mais do que o anterior. “Document” foi o primeiro, nos Estados Unidos, a alcançar a barreira do milhão de exemplares vendidos. “Green” ultrapassou esse número, com vendas na ordem do milhão e meio. “Out of Time” continua a vender, sem que seja possível prever o número final, decerto exorbitante. Números que não deixam de surpreender, se levarmos em conta que toda a carreira do grupo se tem processado por sua conta e risco, sem uma relação intensa com os “media” nem disposição para seguir qualquer tipo de directivas impostas pela editora. “Se déssemos ouvidos a essas sugestões, para utilizarmos nos vídeos raparigas em bikini ou, nos discos, uns ritmos ‘disco’, ironiza o guitarrista, “decerto que os REM já teriam acabado.”

Introspecção, Não

Em vez disso, preferem a aliança inusitada entre a imediatez das melodias e o discurso crítico das letras de Stipe, para quem o “nonsense” “constitui um elemento crucial nas canções pop”. Não deixa, neste aspecto, de ser curioso que cada ouvinte julgue encontrar nos textos referências autobiográficas ou mensagens de profundo significado místico, que o próprio Stipe se encarrega de desmistificar quando, ao vivo, substitui uma palavra por outra, de valor fonético equivalente. A introspecção não parece, pois, ser a principal fonte de inspiração – “é aborrecida, essa necessidade de falar sobre si próprio, muito anos 70”. De resto, acaba por impressionar mais não as palavras em si, mas a maneira como Stipe as canta, com a emoção sempre à flor da pele, como se se tratasse, em cada canção, de desafiar o destino e toda a sua vida dependesse dessa confrontação. “Losing my religion”, por exemplo, induz facilmente a tentação de referir o poema à experiência pessoal do cantor. Ele encolhe os ombros e afirma que muitas das suas letras são para rir.
Alguns textos partem, com efeito, de situações concretas: “Welcome to the occupation” diz respeito à intervenção militar americana na América Central. “Fall on me” não está longe de constituir uma denúncia ecológica sobre as chuvas ácidas. “Sitting still” tem que ver com o convívio da irmã de Stipe com crianças surdas. “Camera” poderia ser um “zoom” sobre um acidente de carro de um amigo. O resultado final, contudo, assume contornos de uma ilegibilidade enigmática, como se Stipe procurasse a todo o custo ocultar o lado mais aparente das coisas, preferindo sugerir em vez de mostrar, confundir em vez de explicar. “Não sou nenhum Billy Bragg”, diz, “não tenho nenhuma mensagem a transmitir.”

As Aparências Iludem

Deste modo, resta ao ouvinte reconstruir em particular esse universo imaginário, juntar as peças do “puzzle” segundo a intuição ou a disposição do momento. Os REM não escondem essa atracção pelo enigma e pelos trocadilhos conceptuais. “Fables of the Reconstruction / Reconstruction of the Fables” (1985) passa por ser, por um lado, um manifesto surrealizante sobre a reconstrução do Sul pós-guerra civil e, por outro, uma tentativa de recuperação da tradição oral desse mesmo Sul. Michael Stipe diz que talvez, mas que a inspiração partiu essencialmente de uma conversa com o pai, sobre carpintaria. Em “Reckoning” (1984) indicam que o disco deve ser arquivado “under water”. Uma das canções do álbum “So. Central Rain (I’m Sorry)” conta uma situação de solidão passada numa tarde de chuva, em Athens, Georgia, pequena cidade de onde Stipe é natural. “Document” (1987), pelo contrário, deve ser arrumado “under fire”. A inclusão, neste disco, de “It’s the end of the world as we know it” sugere um apocalipse de chamas castigadoras. Um jogo contínuo de “verdade e consequência”, em que cada significado sugere sempre outro, até ao infinito.
Ao todo, os REM jogam num tabuleiro formado, até agora, por sete álbuns de originais: “Murmur”, “Reckoning”, “Fables of the Reconstruction / Reconstruction of the Fables”, “Life’s Rich Pageant”, “Document”, “Green” e “Out Of Time”. Neles há matéria mais do que suficiente para decifrar uma infinidade de mistérios. Com os REM nada é o que parece ser o que na verdade é. Cada canção é uma espécie de “trompe l’oeil” em que sons, palavras e imagens (os clips fornecem pistas ou baralham ainda mais?) confluem na criação de ambientes insondáveis, abertos à fruição pura. Talvez resida aí o segredo.
A colectânea “The Best of REM”, agora editada pela Emi-Valentim de Carvalho, faz o historial do grupo, por ordem cronológica, desde “Murmur” de 1983 (primeiro álbum oficial, se descontarmos o mini “Chronic Town”) até “Document”, de 1987, ou seja, todo o período de gravações para a IRS, anterior a “Green” e “Out of Time”, já com o selo Warner Bros. Na capa interior vêm incluídas notas explicativas sobre cada tema. Excelenete oportunidade para se começar a jogar.